Garotas Também São Pervertidas
15 Bônus - Devaneios
Notas iniciais

Odeio quartas-feiras ― são sempre tão tediosas. Esta que vou lhes contar, no entanto, foi particularmente conturbada.
Estava eu em meu quarto, aproveitando da noite livre de exercícios e relatórios para escrever o mais recente capítulo de minha fanfiction ― vocês devem conhecê-la; possui um nome um tanto estranho e chamativo (propositalmente, é claro). Sentada confortavelmente em minha cadeira (a única mobília de meu quarto da qual não abri mão do conforto), digitava alucinadamente um trecho que, certamente, teria de revisar depois.
Deitado sobre a minha cama, Consciência lia minha edição esfarrapada de ‘Memórias Póstumas’. Ocasionalmente, lançava-me olhares furtivos de reprovação. Ele não gostava do fato de que usava de minhas habilidades para descrever sexo entre personagens ficcionais. Apesar do nome feminino, gostava de imaginá-lo como homem, pois era rabugento como um velho. Além disso, esta não era sua única denominação ― atendia também por Bom-Senso ou Coerência; entretanto nunca usei tais nomes tão arrogantes. Bem, ele poderia ir embora quando quisesse, aquela maldita e pretensiosa partícula de minha mente. Mas não suportaria mais se ele continuasse a bufar em irritação.
Girei sobre o eixo de minha poltrona para encará-lo e mandei-lhe um sorriso cínico como aviso. Se o idiota queria permanecer ali comigo, que ao menos aquietasse aquela boca e encerrasse aqueles estúpidos ruídos. Ao menos ele compreendeu ― e enfim consegui o silêncio necessário para continuar a escrever aquela história que tanto o incomodava. (Este era um bônus. Zangá-lo era tão divertido.)
Não pude, contudo, prosseguir naquela que era uma das atividades mais prazerosas para mim, porque a porta de meu armário embutido escancarou-se violentamente, e de lá saiu um bizarro ser humano desenhado. Ayuzawa Misaki estava em meu quarto.
Nem ao menos consegui saudá-la, pois a bruta, tão logo me viu, puxou-me pela gola da camisa e me atirou no chão. É assim que se trata alguém que você acabou de conhecer? Não era a primeira vez que um personagem adentrava por aquela porta, mas nunca nenhum deles foi tão descortês. E ela nem ao menos me deixou protestar minha dor ― agarrou minha blusa novamente e me sacudiu com rudeza.
― Foi vo-você que escreveu aquilo, não é? ― berrou a garota a plenos pulmões; o rosto vermelho de vergonha e nervosismo. ― É a mulher pervertida que criou aquela... aquela... ― Por um momento, senti-me comovida pela falta de palavras dela devido à sua raiva extremada. Quando a raiva converteu-se num empurrão violento, porém, xinguei a maldita mentalmente. Para quê tanto escândalo?!
Fitei Consciência em pânico, implorando por ajuda com os olhos ― mas ele já havia invertido sua posição e deitou-se para ler contra a parede, alheio à toda aquela confusão. É, eu merecia esse tratamento. Teria de me resolver sozinha com a presidente demoníaca, que bradava ofensas e frases desconexas.
― Ei, ei! ― gritei para chamar sua atenção, enquanto sustentava-me sobre os cotovelos, ainda estirada sobre a cerâmica do pavimento. ― Acha que pode tratar os outros assim por um motivo tão mesquinho? Tenha modos!
Algo em meu sermão aquietou-a um pouco, e os dedos opressores próximos à minha garganta foram desatados, para meu alívio. Havia comprovado a força da guria por experiência própria ― e não queria nunca mais ter de experimentar aquela sensação. Um pouco mais calma, ainda que corada num nível que eu não imaginava ser possível, a colegial (que vestia o exótico e colorido uniforme do Seika) bradou:
― Mas foi você, não foi? ― Deus, de onde saía toda aquela raiva? ― Que escreveu que eu e o imbecil estávamos... Argh! ― Sinceramente, o vocabulário dela era muito precário durante esses ataques.
― Falei para se controlar! ― repreendi novamente. Suspirei antes de prosseguir. Que garota problemática. ― Ele é seu namorado, não é?
Ayuzawa não me deixou completar meu raciocínio; respondeu à pergunta retórica: ― E-ele é sim! ― O tom rosado em seu rosto escureceu. Não sabia porque a medicina não estava procurando por este espécime que possuía quantidades absurdas (e anormais) de sangue circulando pela face. Ah, é claro; porque era um espécime 2D. ― M-Mas nós nunca fizemos essas... essas coisas indecentes!
What the fuck?!
― Sinto avisar ― murmurei, incrédula. Não haviam palavras para descrever toda a minha descrença na possibilidade de que aquela morena era tão tapada. ― Mas vocês são um casal, e eventualmente vão fazer “essas coisas indecentes”. ― Meu próprio tom ocupou-se em simular as aspas.
Bem, má ideia. Fui novamente puxada contra aquela descontrolada que mais parecia um habitante do inferno. (Ironias da vida: ela realmente honrava o apelidinho.) Consciência, que devido ao fato de fazer parte de mim, tinha livre acesso aos meus pensamentos, voltou-se em minha direção para me fitar indignado, enquanto apoiava a cabeça em uma das mãos e deixava de dar atenção ao livro por alguns instantes.
― Vai realmente formular piadinhas tão próxima da morte, mulher?
Ah, como queria dar uns bons tapas naquele idiota pessimista naquele momento... Apenas o monstro carrancudo acima de mim me impedia. Não pude deixar de afirmar, contudo: ― Não vou morrer de jeito nenhum! Ainda tenho que terminar aquela faculdade desgraçada! ― Minhas palavras, de alguma maneira, enfureceram a tsundere ainda mais. Merda.
― Então quer dizer que depois de formada, você vai finalmente fazer um favor à este mundo e dar um fim à si mesma? ― Seus olhos brilhavam em expectativa. Ingrato!
― Cale a boca! ― vociferamos, eu e Ayuzawa, em uníssono. Ele ao menos poderia guardar para si mesmo seus comentários nesta situação tão inconveniente?
Aproveitando-me deste pequeno intervalo no qual a besta adolescente guiada por instintos assassinos não olhava para mim, arrastei-me para longe dela, em direção à minha estante. Arriscaria-me por esta derradeira estratégia ― a única que consegui elaborar em um tempo tão curto, na verdade. Infelizmente, a maid nervosinha percebeu meus movimentos e tentou frustrar aquilo que ela julgava ser minha fuga.
Num gesto de desespero ― aquele maldito não viria me ajudar?! ― estiquei meus braços e consegui apanhar o que pretendia. A colegial encarou-me atônita, quando estendi dois volumes do mangá de Maid-sama! à minha frente, como escudos. Eram as edições oito e nove ver―de e amarela, respectivamente. (E, sim, não pude deixar de pensar na bandeira do Brasil e receber mais uma vez um olhar cético daquele inútil que nada fazia para me salvar.)
― Olhe aqui! ― Apontei para uma das páginas, que consegui encontrar graças ao sobressalto da morena. Ao visualizá-la, Ayuzawa ruborizou, e senti certa comiseração pela colegial. Mas pretendia vencê-la com argumentos e continuei: ― Está vendo essa capa do capítulo 35? Essa expressão de “pós-foda” dos pombinhos? ― Ela perdeu a fala devido ao constrangimento. Bom para mim, ao menos. ― Ou essa aqui... ― Folheei rapidamente o outro encadernado, em busca da imagem correta. ― “O jogo do Pocky”, capítulo 37. Quem puxou aquela gravata, hein?
Senhor, as bochechas da guria poderiam acender uma lâmpada.
― Não me venha falar de “indecências” quando sei que você já fez isso aqui. ― Era cruel mostrar-lhe a cena novamente, mas era a minha vida que estava em jogo, caramba! Complementei, ao finalmente sentar-me: ― Minha primeira inspiração e material de referência foi o próprio mangá.
Obviamente, na história de Fujiwara não havia nada próximo do que eu havia descrito ― a mangaká desenhava beijos e nada mais. Porém, essas ocasiões deixavam muito para a imaginação — ainda mais para uma imaginação já corrompida como a minha. Além disso, aquele mal hábito dela negar suas vontades e sentimentos deixavam-me completamente irritada. Agora era eu quem queria agarrá-la pelo colarinho.
Contudo, a coitada despertou em mim compaixão ao prostrar-se, resignada. O que posso fazer ― tenho um fraco por tsunderes, em especial. Principalmente quando elas emudeciam, ou ruborizavam devido à timidez, como Ayuzawa encontrava-se naquele momento. Concebi mais um plano ― e desta vez conseguiria conciliar minha pele e a suposta “pureza” da protagonista enfezada.
― Não fique assim, Ayuzawa. ― Minha voz era condescendente. Ao descobrir meu intento, Consciência balançou a cabeça em desaprovação. Discretamente, exibi meu dedo do meio para o idiota ― ele não quaiquer direitos para me julgar. ― Sabe quem é que estava envolvido em todas essas situações? Vou deixar você adivinhar: é alto, mestiço e não reage como um ser humano normal.
― Usui! ― My God, a cólera dela se materializara em energia! Tinha de tirá-la dali antes que meu quarto fosse devastado por aquele crossover de Dragon Ball.
― Isso aí. Foi esse bastardo que te seduziu e te fez agir desse jeito. Vai mesmo deixar ele escapar dessa? ― Sublinhei minhas palavras com incredulidade, para reforçá-las e enfim convencê-la.
Possessa, a super saiyajin levantou-se e marchou rudemente até a porta por onde havia adentrado. Fechou-a com força sem nem ao menos se despedir ― e eu nem ao menos me importava, estava viva! Suspirei, apreciando a tranquilidade após aquele confronto bizarro.
― Essa foi quase — declarei para mim mesma. ― Ah, adoro personagens fáceis de lidar como ela. ― Referia-me ao fato de que era facilmente persuadida, era óbvio.
― Jogando a culpa nos outros ― acusou aquele imprestável. Durante breves minutos não ouvi sua voz irritante, mas lá estava ele importunando-me, uma vez mais. ― Você é repugnante, mulher.
― Você, continue caladinho. ― Sentei-me, enfim, sobre aquilo que gostava de considerar meu trono. O quarto era meu reino, por consequência, e Consciência, um maltrapilho e desagradável estrangeiro. ― Eu só disse verdades. ― Relevemos o ludíbrio final; foi uma pequena e estratégica exceção. ― Mas, como gesto de compaixão, vou orar em nome de Usui Takumi e o fim trágico de sua vida tão curta. ― Gesticulei em dramaticidade.
― Você é a responsável pela morte dele. Você limpa a sujeira do cadáver ― alegou ele, encarando-me de ponta-cabeça. O imbecil passava o dia sobre o colchão, sem levantar um mísero dedo, e queria falar sobre responsabilidades?!
― Tudo além daquela porta... ― indiquei, levemente enfurecida, o armário no canto do cômodo ― ...está fora da minha jurisdição. ― Complementei, para provocar aquela anomalia preguiçosa: ― Se está tão preocupado com isso, faça você mesmo. Eu tenho uma fic para escrever.
Voltei-me para a tela do computador, a tempo de vê-lo revirar os olhos. Ele podia ir embora quando quisesse, repeti mentalmente, ciente de que ele estava atento.
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