Garota em transição

1 Thank you for breaking my heart


Esse definitivamente não é meu ano.

Estou me esmagando entre pessoas para tentar alcançar a porta do ônibus, o que por sinal eu não consigo. Desço duas paradas depois, tiro alguns fios de cabelo da boca e saio andando em direção a escola.

Depois de meia hora caminhando chego ao meu destino. Pego o bilhete de atraso na direção da escola e subo as três inacabáveis escadas até a minha sala. Para minha sorte o professor tinha se atrasado (de novo), sento no meu lugar onde duas das minhas pessoas favoritas já estão a minha espera.

— Nossa, perdeu o ônibus de novo? — Cristina sorria e balançava os lindos cabelos pretos para mim — assim você vai rodar por falta de presença.

— O motorista não esperou eu descer — bufo —odeio esse motorista.

Olho para Gabriela, ela está concentrada em algum papel.

— O que esta fazendo Gabi? — ela da um pulo e guarda o papel no bolso. — O que você esta tramando?

— Nada... — ela me abraça e sussurra em meu ouvido — nada de mais.

Dou um pulo e ela volta para seu lugar sorrindo.

Isso não é bom Amanda... Se ela ainda não desconfia logo vai descobrir.

Dois períodos depois estávamos correndo em volta da quadra.

— Molenga — Gabriela me da um empurrão leve e sorri — isso é tudo que consegue?

Sorrio e aumento a velocidade, ela me acompanha e assim começamos uma corrida particular. Depois de uma vitória de lavada, Gabi comemora com uma dança estranha. Estou gargalhando quando Lucas abraça minha amiga pelas costas. Instantaneamente paro de sorrir.

— Oi linda — ele a beija e sorri pra mim — e oi Amanda.

Aceno de volta, me despeço da Gabi com um sorriso e sigo para o banheiro.

Estou prestes a sair da cabine do banheiro quando escuto a voz de Cristina.

— Vocês são tão lindos juntos — ela da um risinho tipico dela — Estou tão feliz que ele pediu você em namoro.

Mordo o lábio...

Com quem ela esta falando?

— Ele pediu semana passada, mas ninguém sabe — ela faz uma pausa — então Cris, por favor... Não conte a ninguém.

Sinto uma lágrima cruzar o caminho do meu olho até meu pescoço. Respiro fundo e mordo o lábio inferior.

Como ela pode contar pra Cris antes de contar pra mim?

— Eu tenho cara de fofoqueira Gabi?

A ultima coisa que eu escuto são as risadas das duas se misturando enquanto elas saem do banheiro.

Sento no chão frio e deixo as lagrimas seguirem livres seu caminho. Tudo dói... Amo a Cris, mas a Gabi... Ela é minha melhor amiga... Antes de todos esses sentimentos confusos que sinto por ela, a amizade é a unica coisa que não quero perder. EU NÃO POSSO PERDER... Mas desde que me apaixonei por ela, venho tratando nossos amigos de uma maneira meio fria. É que eu não suporto ver ela com o Lucas... Mesmo querendo que ela seja feliz, eu sou egoísta o suficiente para querer que seja comigo... Mas o pior é ela não ter contado pra mim.

Depois de conseguir me controlar, saio da cabine, lavo o rosto e sigo para a sala de aula.

Chego na sala de aula, Minha professora favorita abana pra mim e continua a escrever no quadro. Mas ela é a unica que percebe. Cris esta conversando com os garotos e Gabi está digitando no telefone, posso ver pelos sorrisinhos bobos que ela esta falando com o Lucas.

Eles já estão ficando à um mês... E agora eles estão namorando. Afasto esses pensamentos incômodos.

— Alguém já leu um livro de romance? — Liz, minha professora pergunta sorridente para nós.

Alguns alunos levantam suas mãos.

— Certo, desses que levantaram a mão, quantos leram um romance de verdade. Sem desmerecer as belas histórias de amor que temos hoje, mas estou falando de romances verdadeiros, intensos, cruéis. Aqueles que roubam à noite e o dia do pobre apaixonado, Histórias tão forte quanto "Romeu e Julieta."

Todos abaixam as mãos.

Liz esta sorrindo. — Certo galera. Para a próxima semana quero que leiam pelo menos um capitulo do livro "O gavião que sangra" — ela faz uma pausa— Estão liberados.

Espero que todos saiam e sigo até a mesa de Liz.

— Onde posso achar esse livro?

Ela sorri, abre a bolsa e tira um exemplar de um livro, entrega para mim — Pode ficar.

Leio o titulo... Era o livro — não posso aceitar Liz.

— Os livros são como pássaros... Nasceram para serem livres. Dê um livro e doe conhecimento.

Dou um abraço em Liz... Nunca tinha gostado de literatura, mas ela deixa tudo mais fácil e agradável.

Depois de chegar em casa, almoçar e organizar as coisas. Pego meu exemplar de "O gavião que sangra" e começo a ler.

"Estava caída no chão frio e úmido da floresta. Continuava em prantos... Sentia meu corpo inteiro doer, mas não era fora, era algo dentro... Dentro do meu ser.

Meu grande amor fora tirado de mim e, sem ele eu já não era ninguém.

Oh! destino cruel, me permitas entender o motivo de minha existência. Sem ele ao meu lado não quero viver. "

Uma batida na porta me tira a concentração — só um minuto — seco as lagrimas e vou em direção a porta.

Abro e me deparo com o rosto pálido de minha tia — olá meu amor — sua voz é quase um sussurro.

— Tia o que você esta fazendo? — envolvo seu corpo magro em um abraço — Sabe que não pode sair da cama.

Ela ri. — Qual é Amandinha? eu moro ali do lado. — Ela senta em minha cama, visivelmente exausta pelo esforço.

— Eleonorzinha não sei se a senhora sabe, mas quando o médico manda ficar em repouso absoluto... VOCÊ FICA EM REPOUSO ABSOLUTO.

Ela solta uma gargalhada fraca — Primeiramente senhora é a sua avó, e depois, eu estou morrendo, não vou passar os últimos dias da minha vida deitada em uma cama.

Depois de alguns minutos tentando convencer ela a deitar, me rendo a felicidade de ter minha tia sentada ao meu lado, conversando como nos velhos tempos.

— Já se confessou para a Gabi?

Engasgo com a saliva e começo a tossir — Me lembre de nunca contar nada pra você.

Ela ri — faça uma moribunda feliz e confesse seu sentimento logo.

Balanço a cabeça em negativa — nunca vou me confessar e além do mais — respiro fundo — ela está namorando.

Minha tia sorri — nunca diga nunca.

Minha tia sempre foi uma das minhas melhores amigas, no final do ano passado quando ela foi diagnosticada com leucemia meu mundo que já estava bambo caiu. Passei as férias inteiras tomando antidepressivo. Ela optou por não fazer quimioterapia o que a deixava com pouco tempo de vida. Estamos em maio e cada vez mais ela chega perto da morte. Por medo de outro "surto" da minha parte, meus parentes não me dizem quanto tempo ela ainda tem, mas acho que se ela viver mais um mês será um milagre... E eu não acredito em milagres.

Depois de uma noite de sono turbulenta e meia hora em um ônibus lotado o resto do meu bom humor acaba de sumir. Mais meia hora e chego na minha parada, dessa vez consigo descer.

Estou tentando recuperar o folego e andar ao mesmo tempo quando bato em alguém, estou prestes a cair quando a pessoa me segura.

— De-desculpe — olho para a pessoa que esta me segurando e encontro um garoto dos olhos azuis olhando fixamente pra mim. Ele esta sorrindo e parece estar se divertindo com a situação.

— Não foi nada — ele percebe que ainda esta me segurando e me solta — eu deveria agradecer... Não é todo dia que esbarro em garotas tão bonitas.

Notas finais
O livro "O gavião que sangra" não existe, é apenas um elemento da história.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.