Garota de Vidro

1 Capítulo Único


Notas iniciais
➪ Bem, lhe desejo uma ótima leitura. E seja cuidadoso(a). O filme perdido talvez seja achado em algum lugar...

Eu danço. Balé, para ser mais exata. É minha única paixão verdadeira, e é algo que carrego desde muito pequena. E após me mudar para Chicago para entrar na Royal Academy of Dance, é o que mais ocupa mais o meu tempo, mas não tenho nada a reclamar.

Eu conheci Michael quando eu estava ensaiando, em um dia comum. Era tarde, quase nove horas da noite, e havia somente um pequeno grupo treinando junto à mim. Michael era um estudante de cinema. Ele era alto, barbado e bem apessoado. Ele ia frequentemente nos ver ensaiar, e nunca havia o visto de calça jeans, tênis ou de camiseta. Ele sempre se vestia com calças sociais passadas impecavelmente e camisas de botões. De vez em quando usava gravatas. Sempre entrava, assistia alguns minutos do ensaio e saia, como um fantasma tímido.

Não era incomum para nós termos público. Todos os anos, perto do inverno, a Royal Academy nos colocava em uma grande produção de Lago dos Cisnes, e apresentávamos para escolas locais e em pequenos teatros das cercanias. Então, ver Michael sentando ali não era estranho ou assustador. Curioso, talvez.

Em uma noite, ele chegou à mim, que terminava de me alongar e disse “Eu tenho assistido você há algum tempo.” Acho que ele sabia que eu havia percebido, mas não queria parecer arrogante. Sorri, mas não deve ter parecido muito convincente. “Estou fazendo um filme e gostaria que você participasse dele.”

Quando ouvi a palavra ‘filme’, pensei em pornografia. Neguei no mesmo momento. Além do mais, quem convida uma pessoa para fazer um filme logo na primeira conversa?

“Eu entendo sua recusa” disse, sem deixar de ser gentil ou amigável. “Mas eu te garanto que não é um filme pornográfico. Eu sou um estudante de Cinema e estou trabalhando em um curta-metragem para o fim de semestre.”

Michael também explicou superficialmente do que o filme se tratava. “É sobre um homem que tem visões sobre uma mulher de vidro. E ela o persegue por todos os lugares, o fazendo enlouquecer.”

Fiquei aliviada. Mas aquilo não era para o meu bico. Sou dançarina, não atriz.

“Eu realmente não sei atuar. Apenas danço.”

“Perfeito. Originalmente eu queria que a garota de vidro ficasse imóvel, o observando de um corredor escuro ou em sua visão periférica. Agora, eu quero que ela dance.” Sorriu, revelando dentes demais, e talvez sanidade de menos.

“Faríamos a coisa em um dia, talvez dois. Eu te filmo dançando e depois coloco no filme. O que acha?” Ele pausou. Acho que percebeu minha expressão de consternação. E voltou atrás. “Eu te dou dois mil dólares pelo trabalho.”

Michael era esperto. Sabia que se tinha algo que uma estudante como eu precisava, era dinheiro. Vivia em um apartamento de dois cômodo barato, e o dinheiro que eu ganhava dos meus pais mal dava para pagar as despesas. Para ser sincera, mal cobriam os gastos da Royal Academy. Eu precisava daquilo.

Agora, ele tinha meu número e endereço. Arranjamos um horário no qual ficasse bom para ambos.

O lugar que Michael escolhera era no próprio campus do seu curso. Em uma sala pequena, sem janelas ou móveis, pintada de um verde berrante brilhante horroroso. Quando Michael chegou, estava acompanhando de uma garota, que não parecia ser mais velha que eu. “Essa é a Michelle. Ela estuda maquiagem artística, e seu trabalho é realmente muito bom. E ela vai te fazer virar vidro.” Michael sorriu, daquela forma bizarra.

A garota, que parecia ser tímida, o encarou.“Certo, acho que devo dar privacidade pra vocês.”

Michelle olhou meu corpo inteiro, abriu sua maleta e se virou para mim. “Tire suas roupas.”

Recusei. Michael não mencionou que eu deveria ficar completamente pelada para o filme. Peguei minhas coisas e saí pela mesma porta que entrei. Michael não permitiu. “Espere. Você não pode ir embora.”

“Não vou ficar pelada em seu filme, Michael. Você não tinha mencionado nada disso quando me chamou”, disse a ele.

“E não vai. Michelle vai te cobrir de strass e lantejoulas, te fazendo uma mulher de vidro.” Não disse absolutamente nada, e Michael entendeu aquilo como um desafio. Arqueou as belas sobrancelhas e retirou a carteira de seu bolso e a abriu, revelando várias notas com o busto de Benjamin Franklin gravado. Cem dólares.

“Te dou cinco mil.” Ele sabia perfeitamente como me ganhar. Voltei para a sala e deixei que Michelle fizesse seu trabalho.

Não sei por quanto fiquei ali, com ela pintando todo meu corpo nu de branco-gelo e depois colando pedrinhas e strass. Colocou uma touca da mesma cor em minha cabeça, escondendo meus cabelos loiros.

Michael voltou, maravilhado. Seus olhos não saiam de meu corpo, e me senti violada naquele momento. Pensei no dinheiro que ele me daria, e logo me acalmei. Ele posicionou sua câmera, apontando para mim. “Esse quarto é feito especialmente para isso. Gravarei você aqui, editarei e colocarei em meu filme. Você vai ver. Vai ficar lindo!”

Vi Michael dar a Michelle uma fita. Ela colocou em um aparelho de som antigo, e me observou. “Apenas deixe que a música te envolva, como o abraço de um velho amigo.”

A música não parecia com nada do que eu já havia ouvido antes. Na verdade, eu acho que nunca ouvi nada como aquilo. Não dava para descrever ou entender. Apenas lembro que começava com notas suaves de um piano, crescendo gradualmente para uma orquestra completa. Batidas ocas, acompanhada por algum instrumento de sopro, cordas e seções de tambor. O ritmo subia e descia, inchando e crescendo em notas magníficas e depois diminuindo a algo quase inaudível.

Não me lembro de dançar. De fato, não me lembro de absolutamente nada, muito menos por quanto tempo eu fiquei. Parece que havia estado em um transe. Poderia ter sido minutos, talvez horas. Só sei que parou quando a música cessou. Olhei para o chão, e vi manchas de sangue por todo o chão. Eram pegadas. Devo ter sangrado por algum tempo, pois meus pés ardiam. Como Michael não notou aquilo? Como eu não notei aquilo?

Michael estava lá, ao lado de sua câmera. Lágrimas escorriam de seus olhos, e ele sorria para mim. Dentes demais, Michael. Não falou absolutamente nada, apenas pegou sua câmera e saiu do cômodo. Michelle me ajudou a retirar as lantejoulas e o strass, e depois enfaixou meus pés. “Deve ter pisado em uma pedrinha e cortado os dedos. Pode deixar que eu limpo isso.”

Sai do quarto. Me assustei quando vi o sol despontando no horizonte. Meu celular apitou, dentro da minha bolsa. Era seis horas da manhã de domingo. Havia chegado ali às nove horas da noite de sábado. Isso não era possível, era? Pelo menos não havia perdido o ensaio.

Michael apareceu, com um envelope grande e gordo e me entregou. “Falo com você mais tarde.” E saiu, sem se despedir ou agradecer.

Peguei um trem de volta à Chicago e voltei para o meu apartamento. Adormeci rapidamente. Não sonhei. Acordei à tarde, com a notificação de um email de Michael em meu laptop.

“Você foi perfeita. Não, você foi a perfeição. Trabalharei no filme durante essas semanas, e quando o terminar, te enviarei uma cópia. Grato.”

Me lembrei do envelope. Cavei-o em minha bolsa, e contei todas as notas. Cinco mil dólares. Nem mais, nem menos. Michael foi fiel com sua palavra, e eu estava realizada com o dinheiro. Teria ignorado a caminhada até a Royal Academy se meus pés não ardessem tanto.

Passaram meses até ouvir falar sobre o filme de Michael novamente. O seu email chegou em meu celular, inesperado

“Entrada gratuita para “A Garota de Vidro”, hoje à noite no Blossom Hall.”

Amaldiçoei Michael e considerei ir e matar a aula de balé hoje. Mas a nossa instrutora, chamada apenas de Mrs. Parker, foi uma dançarina incrível quando mais moça, e ela só ignorava a falta de alguém nos ensaios caso o mesmo tivesse ido dessa para melhor. Recuei e enviei um email para Michael, dizendo que não poderia comparecer na amostra. Nunca mais ouvi falar dele novamente.

Não fui ver ao filme no qual eu aparecia. Não sei ao certo o que aconteceu no Blossom Hall, apenas vi, mais tarde, a notícia e o que Michelle me contou quando fui vê-la no hospital.

Blossom Hall era uma grande sala que ficava no campus da universidade de Michael. Ele lotou a sala de estudantes de cinema e de seus amigos, de modo que ele mesmo teve que ficar de pé. Michael apagou as luzes e ligou o projetor.

Ninguém sabe o que aconteceu ou o porquê, mas depois de três minutos de filme, a plateia começou a reagir de forma estranha. Começou com uma inquietação e movimentos bruscos, então rapidamente tudo se transformou.

As pessoas choravam. Uivavam e gritavam, como animais selvagens. Eles riam incontrolavelmente, e alguns começaram a atacar os outros, gritando e arranhando. Algumas pessoas se levantaram e começaram a dançar. Uma jovem se jogou ao chão e simplesmente deixou ser pisoteado por saltos altos e sapatos de bico fino. Quando o calvário acabou, a garota se reduziu a pedaços de carne e vísceras, espalhadas em um festival de sangue. Se não fosse o colar com o seu nome, os oficiais não teriam sido capaz de identificá-la.

Um casal no meio da sala, rasgaram suas vestes e começaram a transar como animais. Várias outras pessoas — alguns deles casais, outros não — se juntaram a orgia animalesca.

Uma garota se virou para seu namorado, e começou a arranhar seu peito com suas unhas grandes, arrancando tiras de carne e pele. O menino apenas ficou imóvel, como se todos ali estivessem um transe.

Um jovem, mais ao fundo da sala, pegou uma caneta em sua mochila e a enfiou em sua própria garganta. As pessoas dançavam e pulavam no sangue que esguichava, esfregando em suas peles e cabelos como se fosse creme de pentear. Uma mulher, mais velha e roliça, se lançou sobre o jovem que morria, e afundou os dentes em seu rosto, arrancando um grande pedaço. Ela mastigou pensativamente, e depois engoliu.

Michael ficou no meio do massacre, sem desgrudar os olhos do telão. Ele chorava como uma criança, admirando as cenas da sua obra. Era como se Michael estivesse alheio a tudo que acontecia ao seu redor.

Michelle me contou tudo isso quando eu a visitara no hospital, e que era tudo que se lembrava antes de agarrar seus olhos e os arrancarem. Ela se lembrava pouco do filme, e maioria eram flashes de uma garota dançando com strass e lantejoulas cintilando por todo o corpo, como vidro, ou algo como isso.

“Você estava linda”, sussurrou enquanto coçava levemente suas ataduras em torno de seus olhos. “Foi grotesco e hostil, mas também foi lindo.”

Vários estudantes sobreviveram ao evento. Tentei falar com alguns, procurando descobrir o que havia acontecido. A maioria se recusava, dizendo que nunca mais queriam falar sobre aquilo. Somente o garoto que havia sido arranhando por sua namorada concordou em me dizer algo.

Seu nome era Ethan, e era da mesma turma de Michael. “Ele sempre pareceu ser um cara normal, boa pinta” ele disse. “Ele curtia um filmes mais gore e trash, mas isso não era estranho. Um monte de gente gostava de coisas estranhas, e todos queriam fazer um filme artístico que ficaria na história”, Ethan observou o peito enfaixado e suspirou “Minha namorada não lembra de ter feito isso, e eu também não me lembro. Só me lembro de dançar”, após dizer isso, Ethan me observou, como se analisasse cada traço em meu rosto “Você era a mulher da dança?”

Afirmei com a cabeça.

Ele sacudiu a cabeça, pensativo. “Eu não vi você no telão. Quero dizer, não desse jeito que você está agora”, ele dizia, gaguejando, apontando para meu rabo de cavalo e meu casaco azul. “Você não era… Você era outra coisa no filme. Não sei exatamente o quê. Você simplesmente estava…”, Ethan tentava dizer, sua voz sumindo a cada letra dita.

“Eu realmente não posso descrever. Era assustador, mas também era lindo”, disse. “Terrível e magnífico. Como se você não fosse humana, apenas a forma de algo que eu…”, Ethan começou a engasgar com a própria saliva. Seu corpo se retorcia, e sua pulsação cardíaca se elevou, fazendo o monitor cardíaco bipar freneticamente. Uma enfermeira entrou correndo, me empurrando contra a parede. A ultima coisa que lembro foi o sangue escorrendo das narinas de Ethan.

Eu apenas sai e voltei para casa. Nada do que Ethan falou fez muito sentido, mas larguei de mão, de qualquer forma. Sua namorada me ligou três dias depois, dizendo que Ethan havia morrido dez horas após a minha visita. “Eu não sei o que você falou para o meu namorado, sua cretina, mas você o matou. Você o matou!” Desliguei o celular. Também não ouvi falar mais de Michelle.

Michael nunca foi encontrado. Ninguém o viu sair do Blossom Hall, e havia muitos corpos mutilados e danificados para identificar. Ele poderia ter morrido ali mesmo ou ter escapado. Eu não cheguei a ver o filme, e a cópia que me prometeu nunca chegou. O que se sabe é que não existem quaisquer cópias de ‘A Garota de Vidro’.

Quando os oficiais chegaram para verificar, não havia absolutamente nada no projetor.

Notas finais
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