Garota de Vidro

1 Garota de Vidro


Notas iniciais
Espero que gostem e sintam-se à vontade para comentar :)

O chão estava uma bagunça. Na superfície peluda do tapete laranja, várias roupas estavam dispostas de um jeito abarrotado, denunciando que haviam sido jogadas de qualquer jeito por ali. Alguns cabides também jaziam no meio daquele caos, com os ganchos enroscados nos outros ou na aspereza do tapete. Por todo lado havia camisetas, calças e vestidos, todos murchos e amassados, pequenas formas de tecido colorido que agora mais pareciam panos de chão do que peças de roupa.

No fim daquela confusão toda, em frente a um espelho de corpo inteiro, Cléo encarava suas próprias formas através da luz fraca que provinha de um abajur ao lado de sua cama. Segurava uma camiseta azul nas mãos, e a posicionava em frente ao seu tronco, esticando-a sobre si, alisando-a com a mão sobre a própria barriga, segurando a gola com o queixo enquanto imaginava-se vestida com ela. Após alguns minutos de especulação, atirou-a para trás, para junto das outras roupas amontadas, como se a camiseta não passasse de uma embalagem descartável.

Estava usando sutiã e calcinha brancos, e até agora nada parecera combinar. Ela girou, ficando de lado para o espelho, encarando sua barriga e suas coxas, que lhe pareciam grandes demais para serem consideradas atraentes. Um vestígio de celulite era perceptível nas bordas de suas nádegas. Cléo atravessou as mãos por si mesma, uma superfície irregular e arredondada que parecia inchada e farta.

Passou as mãos no pescoço, encarando a imagem do espelho com dúvida e um certo desprezo. A janela estava aberta, ilustrando o céu noturno sem estrelas e deixando um ventinho gelado adentrar o quarto e remexer as cortinas. Estava calor, e algumas gotas de suor escorriam pela nuca de Cléo. Ela agachou-se para pegar as roupas jogadas, amontoando-as nas mãos, abrindo as portas do guarda-roupa e atirando-as desorganizadamente para um espaço vazio, juntamente com os cabides. Em seguida, pegou sua toalha amarela de uma das prateleiras e calçou seus chinelos brancos. Abriu a porta do quarto, atravessou um pequeno corredor e trancou-se no banheiro.

Cléo despiu-se e entrou embaixo de uma chuveirada fria e agradável. Permitiu sentir-se aliviada com o toque refrescante da água, mas não prolongou o banho por mais de dez minutos. Ao fim da ducha, sua mente ainda voltava à imagem do espelho e às roupas que a aguardavam no quarto.

De volta ao quarto, escolheu uma roupa de baixo aleatória e passou desodorante, enquanto enrolava a toalha nos cabelos. Abriu novamente o guarda-roupa, mas nada iluminou sua mente. Tudo parecia sem cor, sem brilho, desprovido de qualquer beleza. Cléo agarrou um vestido azul que tinha comprado há algumas semanas, que agora não parecia mais vistoso do que uma cortina desbotada. Andou até o espelho e posicionou-o à frente dos seios, esticando suas bordas enquanto girava lateralmente e se encarava por diferentes ângulos.

Não.

Agora, segurava uma blusinha roxa sobre o peito. Seus olhos percorriam a imagem dos espelho, desejando talvez que a sua cintura fosse menor, sua barriga menos estufada. Olhou-se por vários segundos, momentaneamente tomada por um transe. Imaginava como seria ter um corpo mais magro, como seria maravilhoso se ela tivesse a capacidade de poder desenhar suas próprias formas. Cléo era ótima em desenho. Poderia facilmente delinear coxas mais finas, abdome reto, pernas altas e macias, devidamente proporcionais...

Seu celular tocou, despertando-a subitamente.

— Oi, amiga. — disse, meio relutante, ao enxergar a foto de uma garota sorridente no visor. Andressa.

— Já tá pronta? — disse uma voz aguda e excitada do outro lado da linha.

— Não — Cléo pôs a blusinha roxa no guarda-roupa de novo, retirando dessa vez um vestido cinza. — Tô sem saber o que vestir. Você espera mais um pouco?

— Não enrola muito. E, pelo amor de Deus, vista alguma coisa curta. Você sabe, os meninos não vão olhar a sua bunda se você estiver com uma saia hippie. — disse Andressa, com um tom debochado e repreensivo.

Cléo limitou-se a fazer silêncio e ignorar aquele comentário. Se havia uma coisa da qual ela gostava era de saias longas, daquelas que se sacudiam veementemente a cada passo. Mas Andressa parecia ver naquilo um gesto de extrema excentricidade, enquanto para Cléo era a coisa mais normal do mundo.

— Então agiliza, Cléo. Quanto mais longa for a noite, mais possibilidades você terá.

Cléo suspirou desanimadamente, mas tomou cuidado para que seu estado de espírito não transparecesse através da ligação.

— A que horas eu passo aí pra te pegar? — perguntou Andressa.

— Nove tá ótimo.

— Ok então... e aliás, a Marina topou ir com a gente também, vou ligar de volta pra ela agora. Que bom ter aceitado, não entendo por que ela não foi nas outras festas... Digo, pra quê ficar enclausurada em casa? Melhor agora, com certeza depois dessa noite ela vai ter que ir com a gente pra tudo quanto é lugar né?! — Andressa riu, mas não esperou reação nenhuma. — Anda logo, hein, Cléo! Bye bye.

E desligou.

Cléo se sentiu subitamente aliviada. Quando Andressa calava a boca, era sinal de que a paz voltaria a reinar. Não gostava dela; e suspeitava que Andressa também não fosse sua maior fã. Mas a relação das duas era algo conveniente. As duas eram colegas de classe, e as duas se uniram por uma questão puramente logística.

A verdade era que Andressa era uma menina irritante e vazia. É uma garota de vidro, Cléo gostava de falar em sua mente. Totalmente artificial e superficial, como um produto fabricado em série que era exatamente igual a todos os outros. Branca, cabelos lisos e escuros, usava redes sociais para dar indiretas toscas, tirava selfies com duck face, ostentava seu Iphone como se aquilo resumisse a essência de sua vida. Bem, essas bobagens não definem ninguém, pensava Cléo. Porém, Andressa se deixava definir por isso. Na rua, sempre passava longe de qualquer garoto negro, porque ela os achava “propícios a serem criminosos”, mas ela mesma confessava ter atração por bad boys (desde que fossem brancos e ricos. Só que essa parte ela não falava). Gostava de rebaixar outras garotas chamando-as de “baleias” ou qualquer nome que remetesse a algo grande e obeso, já que ela era magra e linda e magra e branca e magra e rica e magra. O que era tudo o que uma garota poderia querer... na cabeça dela.

Cléo estava parada em frente à porta de entrada. Na dúvida, vestira uma saia preta curta e uma blusinha branca. Jogara seu cabelo loiro para o lado esquerdo, exibindo um colar elegante que pegara da gaveta de sua mãe. Sentia-se incomodada com aquela roupa, mas parecia o tipo de coisa que as outras garotas vestiriam, então estava tudo bem.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.