Garota Valente
17 Até que vale a pena!
Notas iniciais
Lion sugeriu um cinema.
Estava passando um filme muito legal. Ele falou que, pelo trailer, a sinopse e a crítica (ele leu todas!), a protagonista se parecia muito comigo. Também combinamos que iriamos nos encontrar já no cinema, para não correr o risco dele encontrar meu pai. O filme se chamava “Red Arrow” e a protagonista, Sacha Brown. Soube eu que a diretora do filme é brasileira. O filme falava sobre uma justiceira (a Sacha) que queria se vingar da própria mãe por ela tê-la abandonado quando tinha 10 anos. O trailer também me chamou muita atenção, já que ela era arqueira, filha de espiões…
Pepper cismou em me arrumar. Eu estava conversando com minha mãe. Não, eu não contei a ela da minha recente alto-confissão. Pepper saiu de dentro do meu closet com um manequim com um lençol (meu lençol!) por cima.
– Não estamos em qualquer ocasião. – ela falou – É o seu primeiro encontro.
– Pepper, não vejo necessidade… — ela interrompe minha mãe.
– Natasha, estou fazendo isso pro bem dela. – revidou.
– Eu também não sei porque disso tudo. – falei.
– Como eu ia dizendo: Merida, você deve mostrar seus dois lados. O da garota meiga e o da corajosa.
– Mas isso eu já faço! – falei.
– Eu sei, mas…
Meu pai apareceu, do nada, na porta. – Amor, pode vir aqui um instante? – ele pediu.
– Estou indo. – disse minha mãe se levantando.
Os dois saíram e Pepper se sentou ao meu lado na minha cama. O quarto tinha as paredes laranjas tangerina e adesivos de folhas de arvore. Meu arco estava na parede como de enfeite e tinha me sobrado polcas flechas. No manequim que ela usava, antes estava o vestido que eu usava quando vim pra cá.
– Meu anjo, eu sei que você sempre tenta ser você mesma, mas eu não estou pedindo pra você ser isso ou deixar de ser. Só estou lhe dando algumas dicas! E entre elas, quero que mostre o que você é.
– Isso eu já faço.
– Você acha que faz. – ela se levantou. – Quero que mostre seus dois lados. O da princesa, – ela retira o lençol do manequim, revelando a saia e a blusa azul que o vestiam – e o vingadora. – agora, ela coloca um par de botas pretas altas que eu nunca havia visto na minha vida.
– Comprou essas botas? Eu não me lembro de tê-las!
– Sim, eu comprei.
Me aproximei e toquei a blusa. Aquele azul me lembrava o vestido que usei na competição dos filhos dos lordes pela minha mão. As botas eram o que eu havia me descoberto. Iria ficar perfeito com luvas de couro, gargantilha, aquela trança que eu só usava porque os outros achavam bonita…
– Mas não sou uma vingadora. – comentei.
– Ainda não, Meri. Não conte aos seus pais que lhe falei isso.
Meu coração deu um pulo. O que ela quis dizer com isso? Não preciso ficar pensando no que o Loki me disse para pensar que todos estão conspirando contra mim. Pequei aquelas roupas e fui tomar um banho. Enquanto lavava meus cabelos, tenho um fleche de memória da luta contra Nor’Du. Em um momento, eu estava em uma luta contra um urso, no outro, voltando do cinema com meus pais. Eu nunca havia ido ao cinema antes! Sacudi a cabeça para espantar esse pensamento. Não conseguia intender. Não parecia imaginação. Parecia real. Mas eu nunca havia vivido aquele momento. O que poderia ser aquilo?
E pensar que demorou uma hora para que eu estivesse pronta! Mas devo admitir que eu estava linda. Não é pra me gabar, mas eu estava surpreendente com aquela roupa. Desci as escadas ao lado de Pepper e mamãe. Quando cheguei na sala, Steve e meu pai estavam discutindo algo que, aparentemente, deixava Steve muito feliz. Pelo pouco que ouvi, acho que tinha a ver com alguém que ele procurava. Desci as escadas e logo eles me encaram:
– Merida, uau! Está linda! – falou Steve, caminhando em minha direção.
– Obrigada! – sorri.
– Onde vai vestida desse jeito?! – perguntou meu pai.
– Cinema com um amigo. – falou minha mãe.
– Volta pro seu quarto e troca de roupas. – ele pediu.
– Pai! – reclamei.
– Não precisa fazer isso, Meri. – disse minha mãe a mim.
– Clint, ela tem 17 anos. – falou Steve.
– Você ouviu o Capitão América! – falei.
– Ah, Barton! Deixe a garota! – falou Pepper.
– Já estava na hora da garota arranjar um encontro! – Tony saiu de um canto da sala se intrometendo – Não é de má aparência. Iria estranhar permanecer mais tempo solteira.
– Stark, ele é meu amigo! – rosnei com raiva.
– E vai ao cinema arrumada desse jeito? – questionou Tony irônico. – Tem razão, Sra. Barton. Não há onde suspeitar.
– Por quanto tempo vai manter esse ciúme, pai? – perguntei.
Por fim, ele deixou! Achei ridículo, mas… Minha mãe e eu conversávamos no elevador. Ela me dava as dicas finais. Coisas como: “Deixe que ele escolha o filme”, “Não seja apressada, embora acho que você é quem vai pedir calma” e “Não fique tagarelando. Homens não gostam quando mulheres fazem isso”. A porta do elevador se abre.
– … e lembre-se. Esse pode ser o conselho mais importante da noite. Se não estiver interessada no garoto, não dê um fora nele. Seja educada…
– Mas mãe… — tento a interromper com calma.
– Meri, é sério. Você nem imagina como esse garoto pode ficar arrasado! E eu te conheço, filha! Sei que, assim como eu, é difícil pra você se apegar a alguém…
– Mãe, eu não…
– Sei que não está interessada nele desse jeito, mas…
– Eu estou sim! – parou bruscamente e eu parei também, observando sua reação.
– Está? – ela perguntou confusa.
– Se eu voltar essa noite e te contar que tive meu primeiro beijo, fique sabendo que vou dormir essa noite me sentindo bem comigo mesma. – falei, um tanto vermelha.
– Ah, filha! – ela relaxa e ri – Não vou dormir até você chegar. Provavelmente, seu pai também. Vou tentar dopa-lo. – rimos muito com esse comentário. – É brincadeira. Mas ficarei te esperando essa noite.
– Pode esperar. Só não sei se volto depois do filme.
– Se voltar um minuto depois das dez horas, está encrencada.
– Faz sentido. Não se preocupe. Volto antes disso.
Nos abraçamos. Happy e eu fomos conversando sobre meu amigo a viajem inteiro. Ele me levou até a porta do cinema, onde Lion me esperava. Estava um gato com aquele tênis preto e branco, a calça jeans azul clara e a camisa polo preta. Sai do carro e Happy disse:
– Sabe que eu tenho ordens para ficar te observando.
– Sim, para garantir que eu não vá ser assassinada.
– Ou que faça alguma tolice!
– Happy! – reclamei.
– Me desculpe! Só fique sabendo que estou de olho em você, mocinha.
– Você é sem noção. – revirei os olhos – Estou indo, ok? Antes que o filme comece e o gatinho de camisa preta mofe.
– Divirta-se, Princesa. – ele sorriu. – Boa sorte.
Sorri de volta e me virei. Caminhei em sua direção. Ele estava a uns vinte metros do carro. Pouco depois, ele me viu e ficou boquiaberto com o meu visual… ou comigo mesma. Eu também estava impressionada com a aparência dele. Não que isso fosse importante. Eu costumava me importar com a coragem ou a força, mas hoje, me importo com o caráter da pessoa. Lion tem princípios e é firme neles. Essa deve ser a razão para que eu o am… que eu goste dele.
– Merida… está… — ele perde a fala.
– Uma Princesa Vingadora? Foi a intenção da Pepper.
– Deslumbrante. Pode dar uma voltinha?
– O que? – perguntei confusa.
Ele segurou minha mão e me girou, olhando para mim da cabeça aos pés. E depois, me olhou nos olhos. Seus lindos olhos azuis brilhavam. Lion segurava minha mão. Me deu vontade de tirar minha luva e sentir o toque de sua pele, mas achei que seria suspeito.
– Vamos? O filme deve começar agora. – ele falou.
– Sim, vamos. – respondi.
Houve uma breve discussão sobre quem pagaria a pipoca e, por fim, decidimos que eu pagaria a pipoca e ele o refrigerante. Os doces ficavam por conta própria. O filme era incrível. Ação, quando Sacha enfrentava seus inimigos ou até duelando com sua mãe, o seu romance com Tyler Willians, na qual ela sempre falou “só amigos” e mais tarde se tornam um casal, o drama e a emoção de ver mãe e filha se reconciliando no fim. Achei Celine, a mãe da protagonista, muito parecida com minha mãe. Só que ela tinha os cabelos loiros, longos, lisos e uma franja. A atriz que a interpretava se chamava Scarlett Johanson. Saímos do cinema conversando sobre o filme:
– Achei o filme espetacular.
– E como! E aquela cena que a Red Arrow apareceu pela primeira vez e a câmera a rodeou, mostrando cada detalhe do traje!
– Ótima direção de filmagem. A cena que ela e a mãe discutem a uns quatro metros uma da outra e a imagem ficou distante, mostrando as duas! Mas minha parte favorita foi a do baile.
– Foi muito engraçada! Achei aquela de “Oi” do Josh e da Celine meio “A Culpa é das Estrelas”, filme que eu não curto. — comentei. – Estou com fome.
– Vamos a uma lanchonete.
Assim fizemos. Sentamos na mesa, pedimos pizza, a pizza chegou, comemos, tudo isso enquanto falávamos do filme… e Happy nos perseguia “sutilmente”. Como eu já disse, ser jurada de morte é uma droga. Ele parou em uma loja que vendia flores e comprou uma rosa vermelha. Eram quase nove horas, mas não me preocupei com o tempo. Ele me estendeu a rosa e se ajoelhou.
– Princesa Merida, de DunBroch, ou Merida Romanoff Barton. Alguma de vocês duas aceitaria ser minha namorada?
– Como assim? – perguntei.
Lion se levantou e disse: — bom, normalmente, cristão são aconselhados a não ter esse tipo de relacionamento com pessoas não cristãs, já que elas podem te tirar do caminho correto. Porém, como você é nova aqui, foi criada em uma fé que está indo pelo ralo por uma razão que deveria mais é fortalece-la e tem uma mente um tanto influenciável, então antes eu a influenciar positivamente do que outro negativamente.
– Minha mente? Influenciável? – me senti um tanto ofendida.
– Foi o que meus pais falaram quando pedi a permissão deles. E se disser que não é, vou ter que retirar meu pedido.
Ele me olhava sorrindo. Sonhador e esperançoso. Como se soubesse minha resposta. Segurei a rosa e ele acariciou meu rosto e disse:
– Posso falar a verdade? Odeio a sua trança.
– Por que? – perguntei.
– Gosto do seu cabelo cheio e livre. – ele soltou a ponta da trança e começou a desfazê-la.
Quando meus cachos estavam livres e eu me sentia também livre, ele manteve seus dedos entre meus cachos.
– A Princesa disse que tem medo de perder a liberdade ao se apegar a alguém na qual um dia possa estar presa para sempre. Já a Barton disse que você pode ser a cura para esse medo e que não se importaria de passar o resto da vida dela ao seu lado.
– Vou aceitar isso como um sim? – ele perguntou, bem próximo do meu rosto.
– É. Você vai. – falei, com meu coração a mil por hora.
E quando eu menos esperei, não havia mais espaço algum entre nossos lábios. Eles estavam unidos como um. Ele apenas tocou, mas eu o deixei… um pouco mais intenso. Olha, eu só usei meus lábios para segurar o lábio de baixo do dele. A língua não interferiu. Ficamos assim por algum tempo, até nos cansarmos (o que demorou). Continuamos a olhar nos olhos um do outro e ele comentou:
– Amei o seu beijo.
– Amei o seu também.
– Suas botas também. Não tanto quanto o beijo, mas…
– Ganhei de presente.
E a conversa continuou. Pedi que Happy o levasse para casa, e depois a mim. E assim ele fez. Eu estava nervosa. Minhas mães iriam gostar de saber, meu pai (Fergus) iria me zoar e meu outro pai (Clint) iria acabar comigo e com ele. A porta do elevador se abriu e eu logo encontrei na sala minha mãe, que bem disse que ficaria acordada até que eu voltasse.
– Onde está o papai? – perguntei.
– Dormindo! – ela falou, caminhando na minha direção, como eu caminhava na dela.
– Então não estou encrencada.
– Por enquanto, não. – ela parou, cruzou os braços e perguntou – Como foi o filme?
– Foi incrível! Tinha até uma personagem que parecia com você! E eu até me identifiquei pela…
– Falei do encontro.
Mostrei a rosa a ela. – Isso se chama “Pedido de Namoro” e “Beijo”.
– Seu pai vai te matar. – ela falou sorrindo.
Nos abraçamos e rimos. Depois olhamos uma para a outra e eu falei: — Pepper vai gostar de saber que o plano deu certo.
– Falamos mais amanhã. Estou com sono.
– Vou dormir também.
Fui para o meu quarto, onde tirei a bota, as luvas e os outros assessórios que eu usava. Dormi de maquiagem e as roupas que eu usava. Não queria acordar daquilo. Queria que chegasse logo o dia seguinte. Seria quarta-feira e eu veria Lion de novo, na escola. Então dormi com medo de acordar em DunBroch e descobrir que não era real, mas também com o seguinte pensamento:
Esse foi o melhor dia de todos!
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