Garota Valente 2: Era de Ultron
8 O bom e velho vestido verde
Notas iniciais
– Você o que?!
A pergunta veio carregada de fúria. Agora tudo fazia sentido! Ela não bebeu álcool no meu aniversário, na mesma noite eu a vi vomitando... até o suco de maracujá! Era um calmante, já que ela estava ansiosa com a noticia! Eu podia ter adivinhado. Ana aplaude feliz e sorri, até perceber o clima tenso e desanimar.
– É. Sua mãe vai te dar um irmãozinho e, ao invés que ficar em um lugar seguro, resolveu vir com a gente. — meu pai parecia uma pilha de nervos.
– Meri, vamos conversar com mais...
– Você ia contar na minha festa, não é? — interrompi Natasha – Por isso o suco de maracujá e era o que você ia falar quando o Ultron apareceu.
– Bem observado. — ela concordou.
– Me desculpe, Nat, eu fiquei muito feliz quando me ligou e disse que estava esperando outro bebê, mas agora te vendo nesse uniforme e sob essas condições... — Elinor parecia com medo de decepcionar – Eles têm razão. — concluiu — Você é louca.
– Mãe, é uma notícia ótima, mas por que não falou antes? Podia ter ficado!
– Porque eu não queria ficar! — ela respondeu.
– Mãe! — repreendi.
– Natasha! — foi a vez de seu marido.
– Filha, sabe em quantas missões eu embarquei grávida de você e não sabia? E pior: suspeitava, mas me negava a acreditar? — Natasha tenta se defender.
– Mas não deveria! — falou Fergus.
Minhas duas famílias, as vezes, pareciam uma só de tão unidas. Os espiões e os reis. Fazia sentido essa amizade? Tudo por minha causa. Minha mãe biológica se retirou com raiva. Por um segundo, a vi enxugar uma lágrima. Olhei para os outros pelos canto e perguntei:
– É sério?!
– Foi um grande choque para a gente. — falou Steve.
– Mas estão discutindo há mais tempo do que você imagina. — Tony completou.
– Meus parabéns, irmã mais velha. — falou Thor.
Ser irmã mais velha não era nem de longe novidade para mim. Mesmo quando me mudei, não consegui me ver como filha única, embora eu fosse. Ainda era uma missão impossível. Os outros permaneciam quietos, e isso incluía Bianca e Zacariel. Não vi onde isso deu, apenas segui atrás de minha mãe. A encontrei no estábulo, com Angus. Eu havia me esquecido dele. Minha cabeça estava a mil e quase explodia.
– Quer dizer que você foi um amigo bem próximo da minha filha, não é? — ela falou – Nunca te dei tanta importância. Queria agradecer.
– Não gaste suas palavras com um animal. — falei, mesmo as palavras me esfaqueando.
– Achei que ele fosse mais do que isso.
– E é. — respondi, me colocando ao seu lado — Grávida? Isso é sério?
– Achei que já tinha tirado suas conclusões sobre o assunto.
– É, mas a ficha não caiu. — admiti.
– E quando acha que vai cair? — perguntou.
– Quando tudo se acertar. Quando resolvermos esse problema, se é que vamos resolver. — respondi.
– Nós vamos. — ela afirmou.
– Como tem tanta certeza?
– Não fomos rotulados por anos como "Heróis Mais Poderosos da Terra" sem um bom motivo, concorda?
– Eu estava lá quando chamaram vocês disso?
– Merida, eu não estou...
– Me desculpe, mudei de assunto. — interrompi.
Ela bufou e respondeu: — Seria até bom mudar de assunto.
– Mãe, você poderia ter perdido o bebê e pode acabar perdendo! Estamos falando da sua filha, da minha irmã...
– Quem te disse que vai ser menina? — ela ri triste.
– Tenho três irmãos homens, quero uma irmã. — afirmei, e ela riu.
– Eu tenho uma menina, agora quero um menino. — ela me encarou.
– Isso podemos discutir mais tarde. — afirmei.
E mais tarde, arrumaríamos uma encrenca daquelas. Todas queremos algo que não temos. Ela quer um filho homem, mas eu já tenho irmãos homens, e quero uma irmã! E gêmeos não conta, porque meus irmãos são gêmeos, então seria a segunda vez que um irmão não teria a barriga da mamãe só pra ele. Já viu o tamanho da treta. Depois de um minuto (minuto metafórico) de silêncio, minha mãe perguntou:
– Ficou feliz com a noticia?
– Se estivéssemos em outro lugar e em outra situação, eu teria gritado, de abraçado e dito um monte de vezes o quanto isso é incrível.
– Que tal uma simulação? — sugeriu.
– Mãe, isso é brincadeira, não é?
– Não!
– Você não é normal. — eu ri – Pode começar.
Ela segurou minhas mãos, olhou nos meus olhos, sorriu e disse: — Merida, minha filha, você vai ser irmã mais velha de sangue. Estou esperando um bebê.
– Mã... mãe! Isso... é sério? — fingi surpresa.
– Sim, é sério! — riamos e chorávamos juntas.
Nos abraçamos e, como eu disse que faria, comecei a dizer o quanto quilo era incrível. Depois que o abraço sessou, olhei para seu rosto e depois para sua barriga. Sorri e comecei a levar minha mão até ela, mas recuei com um tanto de vergonha.
– Vai, eu sei que você quer.
Fui encorajada pela voz de minha mãe. Minha mão estendida cobriu seu ventre, o que me causou um arrepio na espinha. Haviam duas pessoas dentro daquele traje preto de couro. E ele não vai caber nela por muito tempo.
– Ainda está muito cedo, a barriga vai demorar um pouquinho a crescer.
– É, eu reparei. — respondi sua observação — Mas ela está aqui, eu sei.
– Ou ele. — ela corrigiu.
– Quando você descobriu.
– No dia do seu aniversário, quando voltamos de Sokovia. A primeira coisa que fiz foi pedir um teste de gravidez em sigilo para a Dr. Cho. Ela guardou o segredo para eu contar a todos, inclusive seu pai, até que eu contasse na sua festa de aniversário.
– Conseguiu guardar para você por três dias? — perguntei surpresa.
– Bom, ontem eu avisei a Elinor, já que não aguentei. Foi a primeira coisa que ela falou assim que você saiu. Steve e Tony contaram nossa situação, e ela me questionou por ter lutado sobre tais circunstâncias.
– Como reagiram? — perguntei.
– Bruce ainda não sabe, acabou dormindo. — rimos juntas – Mas o compreendo, Meri. Aquela aprimorada nos afetou e muito.
– Concordo. — falei.
– Você também...?
– E os outros? — interrompi a pergunta. Não queria falar sobre isso.
– Tony me deu os parabéns e Steve ainda está tentando processar as informações. A fixa ainda não caiu pra ele. Já o Thor, me apoiou até certo ponto da discussão, então seu pai pediu que ele não se intrometesse nos assuntos de sua família. Então ninguém mais falou.
– O único que falaria alguma coisa era Steve, e ainda estava em choque. — comentei e ela concordou com a cabeça.
– Você sabe? — ela perguntou.
– O que? — eu respondi com outra pergunta.
– Por que me chamam de "Viúva Negra"?
Eu não sabia onde ela queria chegar com isso. É muito difícil falarmos sobre seu passado. Não que eu não soubesse muita coisa, mas ela sempre deixou detalhes vagos. Disse que foi treinada como assassina na Rússia, que foi geneticamente modificada (por isso demorava a envelhecer), que já teve sangue inocente em suas mãos, mas mesmo assim, escondia muita coisa. Eu sei a resposta daquela pergunta.
– Sim, mãe. Eu se porque te chamam disso, não precisa contar. Sei como se sente a respeito disso. Melhor a gente entrar. — ela ficou em silêncio. Eu sabia o que ela queria. Eu não queria tocar no assunto, só que eu senti que naquele momento eu precisava. Suspirei, fechei os olhos, levantei a cabeça e narrei — Eu estava perdida na floresta e encontrei o corpo de Lion. Ele foi morto por um urso. Todos os Vingadores se tornaram ursos, meus melhores amigos foram mortos por eles e quando encontrei o castelo, ele estava em chamas. Não achei meus outros pais e meus irmãos. No final, fui devorada viva por uma onda de fogo ou coisa parecida.
– Não precisava ter contado.
– Sim, eu precisava.
– Olha... eu acredito que esses medos simbólicos são... bom... simbólicos! O que acha que ele quer dizer?
– Eu sempre suspeitei de que esse fosse meu medo mais profundo. Mas agora tenho certeza. Tenho medo de que as pessoas sejam afetadas pelas minhas decisões. Transformei minha mãe em um urso uma vez. Pode até não ter acontecido de verdade, mas eu sinto que sou capaz disso. E essa coisa toda de Vingadores só me deixaram mais fria. Eu convivo com a morte, mamãe. Eu sou uma assassina.
– Não diga isso de si mesma. — ela acariciou meu rosto e enxugou uma lágrima com seu polegar — Você não é eu.
– Posso dizer o mesmo de você. — respondi, segurando sua mão em meu rosto.
Então nos abraçamos. Aquele abraço de mãe e filha que é quase um juramento de nunca abandonas. Uma vez eu vi em algum lugar que família quer dizer "nunca abandonar ou esquecer". Era uma promessa silenciosa dentro de um abraço: nunca vou te abandonar ou te esquecer. Devo admitir: o abraço demorou um pouco. Acho que foi aí que a ficha caiu. Minha mãe está grávida de novo! Depois de dezoito anos, ela terá, espero eu, mais uma. Acho que uma hora depois, eu estava vestida no meu bom e velho vestido verde. Eu mal me lembrava de como ele era e como ficava bem em mim. Eu mal me lembrava de que era uma princesa! Há muitos fatos difíceis de se aceitar que fizeram parte de sua vida quando ela muda radicalmente. Eu estava lá, naquele vestido verde e segurando um arco com destino até o meu cavalo, mas ao mesmo tempo, eu tinha uma melhor amiga espiã, um namorado que se preocupava comigo, uma faculdade... uma vida inteira fora daquele sonho. Daquele lugar mágico...
Falei a frase do T.A.I.T.I. de novo. Jurei nunca mais falar. Que droga!
Bem, voltando ao assunto. Abri a porta e caminhei até o corredor, onde havia marcado de encontrar com Ana, para um passeio que eu prometi aos treze anos que faríamos quando ela voltasse. Montamos em cavalos e saímos pela floresta. Era impossível eu ir até aquele lugar e não acabar pegando meu arco e saindo pela floresta atirando flechas ao pôr-do-sol. Ela tinha um cinto com dardos e eu a boa e velha aljava. Ela atirava bem, mas eu era melhor. Muito melhor, aliás. O cavalo de Ana para bruscamente e nós duas descemos.
– O que é isso? — perguntou ela.
– Eu cresci ouvindo que essas coisas são luzes mágicas que nos levariam para os nossos destinos. Mas...
– Me deixe adivinhar: não são mágicas.
– Sondas da S.H.I.E.L.D. que me vigiaram a minha vida toda. As vezes, parece que elas desaparecem, mas na verdade, elas apagam. É um objeto muito pequeno emitindo uma luz muito forte.
– Acho que ela quer que nós a seguimos.
– Não escutou o que eu acabei de dizer?! — questionei.
Mas a sonda foi em uma direção e Ana a seguiu. Sem escolha, segui Ana. A luz nos levou até um homem negro e velho de tapa-olho. Se ele me assustava? Ah, me assustava muito! Mas tenho cara de garota assustada? Há uma razão para me chamarem de "Valente".
– Quem é você? — perguntei.
– Com certeza você é a filha dos Barton. É bela e corajosa como a sua mãe, mas esse arco na sua mão não nega o nome de seu pai. Merida, correto? Esperei muito para conhece-la pessoalmente.
– Po... por favor... diga logo quem você é... — Ana gaguejou.
– Eu sou Nick Fury.
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