Garota Positivo

1 Capítulo 1 - Noite de Estrelas


Já havia anoitecido quando notei que estava sozinha em casa.

Olhei pela janela do meu quarto. Na água azulada da piscina, tremulavam as sombras dos archotes acesos nas paredes ao redor, deixando o lugar com um ar místico e curioso.

No relógio, oito e meia. Meus pais deveriam estar em casa. Sophia deveria estar em casa. Todos deveriam estar em casa.

Suspirei. Afastei as cortinas do quarto para o lado e apoiei meus braços no umbral da janela, fechando os olhos e inspirando o ar. A liberdade estava ali, tão próxima, e tudo o que eu podia fazer era sentir seu cheiro adocicado.

A passos trôpegos, dei meia-volta e fui até o banheiro. Ainda com as luzes apagadas, liguei a torneira e joguei um pouco de água no rosto, esfregando os olhos com força. Com um movimento rápido, tirei o excesso de água de meu rosto e enxuguei o que restara com a camisa branca que vestia. Quando abri os olhos e notei as manchas pretas no tecido, lembrei de que havia ido dormir sem tirar o rímel.

Merda. pensei.

Com um puxão, arranquei a camisa pelo buraco da cabeça e a joguei de qualquer jeito em cima da cama. Já estava de toalhas quando ouvi a campainha soar.

Desconfiada, desci os degraus de madeira. Chegando à porta, murmurei um “quem é?” no tom mais corajoso que pude, apesar de não ter sido o mais convincente. Depois de um risinho baixo, alguém respondeu:

– Eu sei que você está sozinha, não precisa bancar a boa garota comigo. Abre a porta, Erica, antes que os vizinhos me vejam!

Girei a maçaneta com força e um vulto alto e encapuzado me agarrou.

– Vinícius! – gritei, caindo ao chão com aquele vulto pesado me abraçando – Me larga! Me larga! Vinícius, ME SOLTA!

Ele jogou o capuz pra trás, rindo.

– Quer dar uma volta? Quando a família feliz voltará?

– Em dois dias. – respondi estupefata. Já estava cansada de falar sobre aquele assunto – Se for pra dizer o quão burra eu sou por não ter aceitado ir para o interior com eles, é melhor ficar calado.

– Eu mudei de ideia, você é a moça mais inteligente que conheço. – em seus olhos relampejaram o brilho de uma má ideia – Calado? – ele sorriu, mordendo o lábio inferior – Vem me calar?

Sorri antes de puxá-lo pelo colarinho.

Logo sua respiração descompassada estava no meu pescoço, e senti o chão se afastar quando ele me ergueu em seus braços.

Nada disse, apenas me beijou. Nenhuma palavra precisava ser dita, nenhuma explicação era necessária, tudo o que eu queria era ser beijada ali naqueles braços fortes, eternamente. Encaixei minhas pernas ao redor da cintura dele enquanto as mãos dele passeavam pelas minhas costas, descendo e descendo...

Antes que eu pudesse me dar conta, já estávamos no meu quarto. Minha toalha havia se perdido pelo caminho, mas já não importava. Nem o colégio, nem a viagem da minha família para o interior... Nada importava. Absolutamente nada importava.

O céu estava estrelado, mas eu só notei isso quando Vinícius já estava em meus braços, quente, suado, arfando, sorrindo. Eu olhava pela janela e lhe fazia carinho, enrolando os cachos de seus cabelos castanhos em meus dedos. Hora ou outra, ele fechava os olhos e suspirava. Tudo estava em silêncio.

Baixei o olhar, e encontrei seus lindos olhos pretos me encarando.

– O que você tem, querida? – estendeu a mão para tocar meu rosto – Parece preocupada.

Dei um sorriso de canto.

– Impressão sua. – dei-lhe um beijo na testa – Descanse. Eu vou tomar um banho e já volto.

Ele acenou com a cabeça e rolou para o lado, abrindo caminho para que eu pudesse sair da cama. Tateei pelas paredes até encontrar a porta, e saí à procura da minha toalha abandonada pelo caminho.

Já na ducha, ouvi o celular de Vinícius tocar uma, duas, três vezes, até que ele atendesse. Falou rápido e baixo, e logo havia desligado. Imaginei que fosse alguém sem importância.

– Quem era ao telefone? – perguntei tranquila, ao sair do banho.

Ele ainda estava deitado na cama, de costas para a porta do banheiro, e nada respondeu.

– Vinícius? – tentei novamente – Ainda está acordado?

Sua respiração estava ritmada e calma. Aproximei-me apenas para confirmar que ele havia caído no sono.

Coloquei um pijama e me enfiei embaixo dos lençóis à procura do corpo quente de Vinícius. Quando o encontrei, o abracei e enrosquei minhas pernas nas dele. No segundo seguinte, ele estava se virando e ficando de frente para mim.

– Boa noite, princesa. – ele sussurrou, selando seus lábios nos meus – Vem cá, deixa eu te abraçar.

Aproximei-me devagar, me deixando ser protegida por aqueles braços fortes que me pertenciam, por aqueles ombros largos que me pertenciam, por aquele corpo definido que me pertencia, por aquele rapaz, aquele homem que me pertencia.

– Vi você olhando pras estrelas. – ele continuou sussurrando – Elas podem ser lindas, mas nenhuma delas consegue ofuscar o teu brilho na minha vida.

Ri baixinho.

– Isso foi algo muito fofo de se falar. – respondi no mesmo tom que ele – Onde viu?

– Algum livro de poesia, provavelmente. – ele sorriu.

– E desde quando você lê algo além do caderno de esportes do jornal?

Ele fez um movimento brusco, me incomodando propositalmente.

– OK, você venceu, devo ter ouvido isso de algum filme. – ele riu – Mas admita, combinou com o momento.

– É. – suspirei – Combinou.

Passaram-se alguns minutos, e pouco antes que eu pegasse no sono, pude ouvir a voz rouca de Vinícius no meu ouvido:

“Não esquece que eu te amo.”

Não esquecerei. – respondi em pensamento – Prometo que não esquecerei.

**

Acordei assustada, como se saísse de um pesadelo. Olhei para os lados e tudo o que encontrei foi o vazio.

Corri para o quarto de minha irmã, Sophia, e escancarei as cortinas. Nenhum carro estacionado na frente da nossa cerca.

Voltei para meu quarto arrastando os pés, sentindo-me exausta. Desabei na cama, mas logo notei que meu celular estava aceso.

Uma [01] Nova Mensagem de Texto:

“Oi amor, bom dia! Desculpa ter que sair com tanta pressa, mas achei melhor te deixar dormir. Saí pela porta dos fundos e pulei o muro pra não correr o risco de te deixar sozinha e desacordada com a porta da frente aberta, risos. Não se preocupe, não é nada demais – só uns problemas que surgiram na madrugada, preciso resolvê-los o mais rápido possível. Te ligo mais tarde. Sai dessa cama e aproveita o domingo, garota!” – Vinícius K.

Catorze [14] Chamadas Não Atendidas – Mãe.

Estremeci.

Duas [02] Novas Mensagens de Voz:

“Filha? Bom dia! Ainda não acordou? (Risos) Não esquece que tem dever de química por terminar, heim mocinha! Estou morrendo de saudades da minha menininha! Você deveria ter vindo conosco, ia adorar conhecer suas primas! Sophia está simplesmente adorando! Te ligo mais tarde heim! Beijo filha!” – Mãe.

“Mas ainda não acordou? Pelo amor de Deus, vai viver, Erica! Você anda muito preguiçosa heim! Espero que tenha usado o sábado livre para adiantar suas tarefas. E o Vinícius, deu sinal de vida? Sophia não para de perguntar sobre aquele menininho que sempre andava com ele. Depois me diz quem é o dito cujo? (Risos) Beijo filha, e acorda de uma vez!” – Mãe.

Bocejei. Joguei o celular na cama e fui até a cozinha, terrivelmente arrependida de não ter comido nada nas últimas muitas horas.

Liguei a televisão. Noticiário. Noticiário. Série tosca. Noticiário. Show de Talentos. Desenho animado. É, desenho animado seria a melhor escolha.

Esfreguei os olhos e mordi saborosamente o sanduíche de atum que encontrei em algum lugar tenebroso da geladeira. Certamente me arrependeria daquilo mais tarde, mas a fome era maior do que qualquer ameaça de ficar o resto da tarde sentada no vaso sanitário.

Zapeei por alguns minutos antes de voltar ao desenho animado. Já estava anoitecendo novamente quando lembrei de que não havia nem tirado o dever de química da mochila.

Suspirei. Estava cansada e com preguiça até de respirar. Subi as escadas de volta para o meu quarto, e o encontrei com um cheiro de mofo tão forte que fui obrigada a escancarar as janelas.

Meu celular piscava.

Uma [01] Nova Mensagem de Texto:

“Festa do pijama hoje, que tal?” — Jessy

Doze [12] Chamadas Não Atendidas – Mãe.

Disquei o número de minha mãe e esperei que ela atendesse.

– Finalmente heim? – ela atendeu, rindo – Não faz ideia do que está perdendo. A casa de sua tia é o máximo! Suas primas são umas fofurinhas e...

– Mãe, só liguei pra avisar que estou viva e que você não precisa ligar vinte centenas de vezes. Só uma já basta.

– Eu me preocupo com você, Erica. – ela bufou – Devia ser mais agradecida. Então, fez os deveres?

– Fiz. – menti – Sobre o Vinícius, ele passou a noite aqui.

– QUÊ? – ouvi meu pai berrar ao fundo.

– Usaram proteção? – minha mãe perguntou, calmamente.

Pressionei o ossinho entre os olhos com as pontas dos dedos.

– Sim. – menti novamente. No calor do momento, não lembrei de pedir-lhe algo semelhante, e não tinha certeza se ele havia se lembrado – Mãe, você podia confiar mais em mim. – nunca fiquei tão feliz por tomar pílula. A quantidade de vezes em que já havíamos esquecido a camisinha era alarmante – Liguei também pra pedir permissão pra dormir na casa da Jéssica.

Minha mãe vacilou.

– Hoje é domingo, Erica. Você tem aula amanhã.

– Mas é só à tarde! Por favoooooor, prometo não faltar à aula.

– Antes do meio-dia, Cinderela. – meu pai respondeu, provavelmente havia tomado o celular da minha mãe – E faça o favor de parar de levar esse rapaz pra nossa casa toda vez que eu e sua mãe estamos fora.

– Prefere que eu vá pra casa dele? – ironizei – Pelo menos não há pais pra nos incomodar.

Ele ficou calado.

– Conversamos sobre isso amanhã. Voltaremos à tarde, se houver trânsito. Quando voltar do colégio, já dará de cara conosco em casa. E conversaremos sobre seu último boletim.

– Claro pai, também te amo. – estalei os lábios em um beijo – Mande um beijo pra mamãe, e diga a Sophia que o namoradinho dela se mudou pra Brasília. Boa noite pra vocês.

– Que namoradi... – desliguei. Era hilário irritar meu pai.

Disquei o número de Jéssica.

– Então, simbora?

– Simbora. – respondi – Que horas?

– Passo aí ás nove, ok?

– Perfeito. – matutei por um instante – Preciso estar de volta ao meio dia de amanhã.

Jéssica estalou a língua.

– Que seja. Laura já tá aqui, e o namorado da Moe vai trazê-la mais tarde. Iremos todas juntas para o colégio amanhã, belê?

– Eu? Com vocês? – ri – As amiguinhas populares de vocês não vão estranhar minha presença?

– Cala a boca. Elas são um bando de falsas, não são nossas amigas. Tenho três amigas; você, Laura e Moe. O resto é resto.

– Oun, – brinquei – nunca pensei que você pudesse ser tão romântica!

– O de sempre. Básico e arrasa-corações.

– Rapazes do colégio que o digam.

– Vai tomar no rabo, ‘cê sabe que ‘tô em crise de abstinência. Aliás, ainda tenho que terminar os deveres, assim como você! Vai, vai! Tchau.

– Mas eu ainda nem comecei... – ela desligou na minha cara – Vadia! – murmurei comigo mesma, discando o número dela novamente – E se você bater essa merda na minha cara mais uma vez, eu vou bater na tua cara com uma merda muito mais pesada, sua vaca!

– Ai que agressiva! – ela riu – ‘Tá, me deixa em paz. Tchau.

– Tchau, até as nove.

Deitei na cama e me debrucei sobre os cadernos e livros de química. Levei a caneta à boca – um péssimo hábito adquirido durante a infância – e comecei a rabiscar a folha de rascunho.

Notas finais
Agradeço a todos pela leitura. Atenciosamente, Bia Brasileiro.