Garota Positivo

3 Capítulo 3 - Más Companhias


Quando o carro finalmente freou na frente da casa de Jessy, eu estava tão enjoada que mal conseguia segurar a bile em seu devido lugar. Tentei me apoiar em Laura, que sorria nervosamente, enquanto Jessy ainda se esgueirava para fora do veículo. Moe estava sendo engolida por Ramón (ou era ela quem o engolia?), e ambos mal notaram quando nós três, cambaleantes, desabamos na calçada.

– Que tal se eu te ligar mais tarde? – Ramón acariciava os cabelos de Moe.

– Não, hoje a noite é das meninas. – ela virou pra trás e lançou uma piscadela em nossa direção – Amanhã falo com você. Obrigada pela carona.

– Não foi nada. – se engoliram por mais alguns segundos que mais pareceram anos – Boa noite, gata.

– Boa noite, cachorro. – ela riu – Sonhe comigo.

– Impossível não fazê-lo.

Quando Moe nos cutucou com o bico do salto, soubemos o quão deplorável estava a nossa situação.

– O que foi? Nunca andaram a cem por hora? Sinceramente, essas garotinhas de hoje em dia, tsc tsc...

– Cem por hora? – Laura se levantou – Cem por hora estávamos antes de chegar na autoestrada. É capaz de termos alcançado a velocidade da luz quando seu namoradinho se animou, depois de passar a barreira policial. Sinceramente, Moe, esse cara...

– Não vai durar, relaxe. – Moe estalou os dedos – Erica, vocês se conhecem? Senti um clima meio estranho no ar...

– Ah... – murmurei – Sim, sim... Ele é colega do Vinícius, da faculdade acho. Já o vi umas duas ou três vezes, no máximo. – gaguejei – Mas então, vamos entrar? Apesar de ter muita autoconfiança, não me agrada a perspectiva de quatro jovens e belas mocinhas sozinhas em uma rua escura às dez da noite.

Murmurando um acordo, Jessy se levantou. Abriu o portão enquanto Laura me ajudava a quebrar a lei da inércia.

– Meu Deus, Erica! Como você pode ser tão magra e tão pesada?

– Por favor, me deixe em paz com meus quilinhos a mais. – Moe a ajudou a andar – Gente, estou enjoada, não bêbada.

– Tudo acaba em vômito. – Moe disse – Vamos encontrar a privada mais próxima antes que você tenha a oportunidade de cuspir as tripas.

Laura fez cara de nojo.

Quando chegamos ao banheiro de Jessy, eu ainda estava tentando convencê-las de que não ia vomitar.

– Relaxem, eu já estou bem melhor.

– Foi algo passageiro, juro!

– É tudo culpa da velocidade, eu não estava acostumada, só isso...

– NÃO, EU NÃO ESTOU GRÁVIDA!!

No fim, elas acabaram acreditando em mim.

Já estávamos todas de pijamas, no quarto de Jessy, rindo de alguma piada idiota que Laura contara, quando Moe sussurrou:

– E sobre o Joaquim...

– Touché! Era esse o nome! – Jessy interrompeu.

– Joaquim? Nome de velho! – Laura brincou.

– Querem saber ou não? – Moe baixou ainda mais o tom de voz – O que aconteceu com ele...

Corri pra desligar as luzes enquanto Jessy acendia as lanternas.

– Agora sim, clima de suspense! – riu.

– Ele me traiu. – Moe começou – E vocês sabem, eu não poderia permitir que minha imagem fosse manchada por um idiota como ele. – deu uma pausa – Um idiota com nome de velho. – piscou para Laura.

– Você o matou? – Jessy pôs as mãos na boca.

– Podemos dizer que sim. – Moe posicionou sua lanterna logo abaixo de seu queixo, dando-lhe um ar tenebroso – Matei-o sem tirar-lhe a vida.

– MAISOQUÊ? – rimos todas juntas.

– Contei tudo pros pais dele. – Moe desligou a lanterna – Vai ficar de castigo até a próxima geração. Ele estava metido até o pescoço com drogas, não – diante do nosso rosto de espanto, ela explicou – não era ele quem usava, ele vendia. Só que isso dá cadeia, ô se dá. Pois bem, ele me chifrou? Acabei com a vida dele. Ainda fui boazinha, poderia ter entregado pra polícia. Mas não, seria fácil demais.

– Então agora ele está em cárcere privado?

– Tipo isso. – riu – Como ele já é maior de idade, pode sair de casa a hora que quiser, mas o pai dele é esperto. Quando o “Joca” colocar os pés pra fora daquele apartamento, vai ser direto para o camburão. O cara ‘tá ferrado.

Jessy e Laura se entreolharam, e eu ergui uma sobrancelha.

– Difícil de acreditar.

Moe ponderou por um tempo.

– Pode ser. E aí, Erica, o que rolou entre você e o Ramón?

Prendi a respiração.

– Como assim? – ri descontraidamente – Já expliquei que o conheço por causa do Vinícius e...

– Erica, você não engana nem a si mesma. – Jessy me deu um peteleco – ‘Tá na cara que aconteceu alguma coisa entre você e o doido do acelerador lá. Conta pra gente, vai!

– Por favoooooor! – Laura fez biquinho.

– Biquinho é sacanagem. – ri.

– Anda logo!

– Bem... Só se vocês prometerem que não vai sair deste quarto!

– E quando foi que algo dito aqui dentro foi comentado lá fora? Faça-nos um favor né Erica, cadê a confiança?

– Saiu de férias junto com a minha família. – sorri – Bem, em uma das vezes em que fui à casa do Vinícius para aquelas “festas” que comentei pra vocês, ele foi jogar videogame e me deixou a sós com o tal do Ramón...

– E ele tentou te estuprar. – Moe disse.

– Mas...

– Ele me disse que você tinha se jogado pra cima dele em uma das festas do Vini.

– QUÊ? QUE MENTIROSO! – espalmei as mãos no chão, derrubando minha lanterna – E QUE INTIMIDADE É ESSA DE CHAMAR O VINÍCIUS DE “VINI”? NEM EU O CHAMO ASSIM!

– Chama sim... – Laura sussurrou.

– NÃO COM FREQUÊNCIA, E NÃO TE METE! – olhei feio pra ela, que se encolheu junto a Jessy.

– Calma, Erica... – Jessy começou.

– CALMA UMA OVA! EU VOU MATAR AQUELE PUTO, AH SE VOU!

– Erica, vai mesmo me tirar esse prazer? – Moe brincou – Eu disse que ia me livrar dele, não disse? – ela pegou o celular dentro da mochila – Que tal fazermos isso juntas?

– Mas... O quê?

– Só me prometam que ficarão caladas. Nenhum pio.

– OK. – prometemos em uníssono.

– Então tá. – ela desbloqueou o teclado e apertou a tecla de chamadas recentes. Selecionou o número de Ramón. Mal começara a chamar e a voz do rapaz preencheu o quarto.

– Sabia que você não ia aguentar de saudade. – ele riu.

– Cala a boca. – a voz de Moe estava tão dura que parecia machucar – Diz aí, você realmente pretendia transar com a Erica naquela tarde?

– Quê? – ele se exaltou – Eu te disse que ela é uma vadia, Moe! Acredita em mim, poxa! Eu ‘tava na minha, ela que veio se arrastando com aquele arzinho de prostituta e...

Moe encarava-nos com um olhar cético. Jessy e Laura se entreolhavam enquanto eu não tirava os olhos do celular de Moe, como se fosse o próprio Ramón em pessoa e eu estivesse prestes a estrangulá-lo.

– Ramón, seja inteligente. – Moe mantinha a voz calma, o que era quase assustador – Em quem você acha que eu acreditaria? Em minha melhor amiga ou em você?

Silêncio do outro lado da linha.

– Faça o que você quiser. – ele rosnou – Só não peça pra voltar atrás mais tarde. Odeio que desconfiem de mim, ainda mais quando sei que estou certo.

– Que seja.

– É o fim, então?

– Amém. Passe bem, e não ouse comentar qualquer coisa com o Vinícius.

– Comentaria o quê? Que a namorada dele é uma vadia? – ele riu – Ele já sabe disso.

Mordi o lábio pra evitar gritar com aquele maldito.

– Desliga. – sussurrei o mais baixo que pude – Manda ele pra puta que pariu e desliga.

– Se ela é uma vadia, eu sou a cafetina! – Moe riu vigorosamente – Beijos, Ramónzito.

E desligou. Jessy e Laura ainda estavam no mais fúnebre silêncio.

– O que raios aconteceu aqui?

– Ramónzito?

Continuamos conversando sobre o assunto por alguns minutos enquanto eu tentava me acalmar. Mônica afagava minha mão como se fosse um gato, o que só deixava a situação ainda mais tensa. Moe nunca foi de demonstrar muito carinho.

– Xiu. – Laura sussurrou – Ouvi um barulho.

– Veio dos fundos. – Jessy comentou, despreocupada – Deve ser o cachorro, só isso.

Moe se levantou, apagou sua lanterna e caminhou lentamente até a janela. Afastou delicadamente uma das cortinas e espiou.

– E que cachorro. – brincou – Meninas, tem um cara tentando invadir a casa.

**

– Fodeu. –ouvi Jessy murmurar.

– Esse é o espírito! – Moe ironizou – Vamos, ninguém tem uma semiautomática escondida entre os peitos? Não? Ah, droga. – ela olhou de esguelha para Jessy – É, fodeu.

– Como assim alguém invadindo a casa? – Laura tremia dos pés à cabeça.

Pressionei as têmporas, tentando raciocinar.

Nas pontas dos pés, como se o indivíduo lá fora pudesse ouvir, Jessy se juntou a Moe.

– É impressão minha ou...

– Não, não é impressão sua.

– Do que vocês estão falaaaaaaando? – Laura miou baixinho.

– Erica, “dá um chega” aqui. – Moe me chamou flexionando dois dedos.

Vi-me obrigada a rastejar por baixo da cama, visto que em frente a ela estava a enorme janela do quarto de Jessy, e as lanternas ainda acesas lá dentro poderiam projetar minha sombra e revelar nossa posição ao intruso.

Ergui a beirada da cortina e espiei.

– Mentira. – ri nervosamente – Só pode ser mentira.

Laura lacrimejava.

– Digam de uma veeeeeeez! – miou ainda mais baixo que da outra vez.

Moe prendia o riso. Jessy olhava feio pra ela.

Enrolei minhas mãos uma na outra, estavam geladas.

Espiei mais uma vez pela fresta. O vulto se movia lentamente, tentando não fazer muito barulho, o que não era nada efetivo, visto que o jardim da família de Jessy estava há meses sem um jardineiro, juntando galhos e folhas secas que estalavam a qualquer sopro de vento, e quase gritavam ao serem pisoteadas, mesmo que com cautela.

Ele estava escondido em sombras, mas era impossível não reconhecê-lo.

– Chegou rápido, não? – Moe brincou – Se eu tivesse dito que estava tendo dores de parto ele não teria sido tão veloz.

– Bem que Laura falou. – Jessy prendeu um riso nervoso – Aquele cara consegue dirigir na velocidade da luz.

– Quê? – Laura arfou – Ramón está no quintal?

– Aposto meus peitos que sei quem ele está procurando. – Moe sorriu sarcasticamente – E não sou eu.

Todas me encararam.

– Merda.

– Sério, cadê a semiautomática? – Moe tentou novamente – Ninguém?

– Até uma pistola calibre 38 serve nessas horas. – Jessy se entregou à brincadeira – E aí, que vamos fazer?

– Esperar, ué. – Moe escorregou as costas pela parede, sentando no chão – Estamos encurraladas. – fechou os olhos solenemente – Ele vai arrombar a porta dos fundos... – ouvimos o barulho de alguém mexendo na fechadura da porta logo abaixo de nós – Atravessar a cozinha... – os passos eram quase inaudíveis, mas todas nós estávamos em silêncio, mal respirávamos, e tudo o que se ouvia era a voz baixa de Moe narrando os passos do arrombador de lares – Procurar as escadas, ele não é burro, vai supor que os quartos estão no andar de cima... – alguns minutos de silêncio, ouvimos o som de passos subindo as escadas – E aqui está ele, no corredor à nossa frente.

– O que faremos? – Laura choramingou – Ele vai nos matar?

– Claro que não, sua boba. – Moe respondeu – Só vai matar Erica.

Estreitei os olhos ao encará-la.

– Também te amo, Mônica.

Ela me lançava um beijo quando ouvimos a maçaneta girando.

– Fodeu.

– Fodeu.

– Fodeu.

– Fooodeu.

A porta se abriu, e tudo o que eu pude fazer foi fechar os olhos...

E quando voltei a abri-los, Ramón estava ajoelhado aos pés de Moe, chorando.

– Por favor, por favor... – ele miava – Eu não fiz por querer, entenda, eu nem te conhecia ainda! Por favor, Moe, me perdoa, por favor, Moe!

Olhávamos umas pras outras incrédulas. Suspirei em alívio por ainda estar respirando. Jessy prendia uma gargalhada com as mãos enquanto os olhos de Laura passeavam entre as pessoas no quarto.

– Por favor, Moe, me entende, eu sou homem, tenho necessidades, por favor, ela estava ali sozinha, por favor, por favor, Mônica, eu te amo, por favor, por favor...

A expressão de Moe era impagável. Algo entre nojo, repulsa, surpresa, desejo, compreensão e algo mais que eu não conseguia decifrar. Vendo isso, não consegui segurar a risada, e Jessy me acompanhou.

– Nós pensávamos que você viria pra matar a Erica! – Jessy começou, entre gargalhadas – Ai meu Deus, não acredito, somos tão idiotas!

Ramón olhou sério pra mim.

– Não seria má ideia.

Gelei.

– Cala a boca. – Moe interviu – Ninguém vai matar ninguém aqui. – deu um puxão nas pernas, que estavam sendo seguradas por Ramón – Correção: eu vou matar você se não me largar nos próximos 3 segundos.

– Moe, procure me entender...

– 3...

– Por favor, me perdoa, eu prometo que...

– 2...

– Moe...

– Ok, prepare o rabo, vou encher ele de bala.

– Com que arma? – ele sorriu, os olhos de Moe cintilavam de raiva – Cala a boca, garota.

E assim, sem mais nem menos, Ramón a beijou.

Eu, Jessy e Laura ficamos com um “Oooooh!” preso na garganta, sabíamos que Moe se levantaria só pra nos bater se o fizéssemos. No início ela ficara surpresa quando ele a beijara, com os olhos alargados enquanto ele encostava seus lábios nos dela. Chegou a fechar os punhos, prestes a soca-lo, mas... Depois de alguns segundos, ela se rendeu. Fechou os olhos e os punhos se tornaram delicados carinhos no rosto do outro. E assim ficaram, num beijo tão doce quanto eu nunca havia visto Moe receber. Ela, encostada na parede; ele, ajoelhado sobre ela, segurando seu rosto e beijando-a como se fosse a última vez em que o faria.

Quando seus lábios se soltaram, não conseguíamos esconder nossas expressões de “ownnnnn!”. Moe nos encarou, séria.

– O que ainda estão fazendo aqui?

Entendemos o recado. Sorrindo, presenciamos um segundo beijo, um terceiro, um quarto, e já Ramón já estava tirando a blusa de Moe quando saímos, silenciosas, pela porta do quarto.

**

Já estávamos na terceira taça de sorvete, e nada de Moe e Ramón.

– Vocês acham que eles vão se casar? – Laura engolia sofridamente uma colher cheia de sorvete de baunilha.

– Moe? Casada? – Jessy riu – Impossível.

– Mesmo com toda declaração de amor? – murmurei – Se Vinícius fizesse por mim metade do que Ramón fez por Moe naquele quarto, eu o consideraria o homem da minha vida.

– Já não considera? – Laura engoliu outra colher de sorvete, olhando pra mim, incrédula.

– Considero. – ponderei – Mas mesmo assim, foi lindo.

– É, nisso todas devemos concordar. – Jessy se jogou no sofá, fazendo com que eu tivesse que segurar minha taça de sorvete com um pouco mais de força – Foi lindo.

Suspiramos juntas.

– Preciso de um namorado. – Laura concluiu – Um namorado fofo como o de vocês.

– Por favor, fale no singular. – Jessy rebateu – Eu também não tenho namorado, caso tenha se esquecido.

– Crise de abstinência? – sorri.

– Exato. – finalizou o assunto, levando uma colher gigantesca de sorvete à boca.

De tempos em tempos, Jessy simplesmente “desistia” de ter algum relacionamento com pessoas do sexo oposto. Se entupia de sorvete, lia histórias de romance e escrevia em um caderno os nomes dos gatos que teria quando ficasse velha e sozinha. Até aquele momento, na lista constava algo próximo a duzentos e quarenta nomes.

Logo ela encontrava um cara que se interessasse por ela, e ela por ele, e todos os nomes de felinos eram esquecidos por um tempo... Até que ela enjoasse do cara ou ele dela, e assim Jessy se afundasse em outra crise, anotando mais nomes em seu caderno.

O silêncio imperou entre nós por mais tempo do que pude contar, mas logo os aposentos foram preenchidos pelos gemidos abafados de Moe e de Ramón. Olhamos umas para as outras e nos sentimos constrangidas: era impossível ouvir aquela baderna sem imaginar o que estava acontecendo dentro daquele quarto.

– Pois então... – comecei, tentando abafar o som pornográfico – Como vai o balé, Laura?

– Tranquei... – ela continuou, entendendo a deixa – Não gostava daquela professora, era muito...

– Rígida? – Jessy interrompeu – Nós a vimos de relance em uma das vezes em que fomos te buscar no ensaio. Além de gorda, era feia, e tinha cara de cachorro.

– Por favor, Jessy, não seja tão indelicada! – a repreendi, rindo – Não insulte os pobres cachorrinhos.

Rimos.

– Nunca a vi dançar... – Laura continuou – Também, como poderia? Está uns cinquenta quilos acima do devido.

– E é feia.

– Nada que maquiagem não resolva. – Laura retrucou – Mas toda aquela gordura... Aquela mulher não consegue controlar a própria gula, como controlará o corpo inteiro?

Jessy torceu o pescoço lentamente em minha direção, com olhos esbugalhados.

– Nunca te vimos tão revoltada com algo, Laura. – ela disse – Você sempre foi tão tranquila...

Laura nos encarou como nunca havia feito.

– Eu sou tranquila. Até pisarem no meu calo.

– Ou atrapalharem seu pliê.

– Ou isso. – ela sorriu amigavelmente, dando por encerrado o assunto.

De repente, senti meu celular vibrar no bolso do meu pijama.

Chamada de Vinícius K. – Aguardando Resposta

– Alô? – atendi, insegura. Eram raras as ligações de Vinícius àquela hora da noite.

– E aí, boa?

– Boa. – ri – Sabia que o correto é “bem”, né?

– Deixa de ser chata, sua nerd. – ele também riu – Ou deveria dizer; “deixa de ser nerd, sua chata”?

– É você quem sabe. – fiz um sinal pras meninas e me dirigi à cozinha, abandonando-as na sala de estar – E então, que houve?

– Nada... – ele respondeu, desconfiado – Por quê?

– Porque você nunca liga a essa hora, e quando eu te ligo e você não atende, você jura que estava dormindo.

– É hora de universitários trabalhadores e empenhados estarem na cama, ué.

– Mais um motivo pelo qual você devia ficar acordado. – ri.

– Mas não sou um universitário trabalhador e empenhado?

Ponderei por um instante.

– Universitário e trabalhador, até pode ser. – tamborilava os dedos no tampo de pedra da mesa de jantar – Mas empenhado? O cachorro de Jessy é mais empenhado em caçar um gato do que você com seus estudos ultimamente.

Ele ficou calado por alguns instantes.

– Obrigado, também te amo.

– Eu sei. – mordi o lábio – Voltando, por que não está dormindo?

– Insônia. – ele respondeu com a voz embargada – Tomei café demais durante o dia. Muitos problemas.

– Ah é, por que saiu daquele jeito? O que houve?

Ele soltou um suspiro alto.

– Não podemos conversar sobre isso outra hora? – eu sabia que ele estava pressionando as têmporas, sempre fazia isso quando suspirava daquele jeito – Se eu quisesse falar de trabalho ligaria pro meu chefe, não pra você.

– Você disse na mensagem que não era nada sério.

– Adiantaria eu dizer que o mundo estava desabando e que ninguém se importava? E que eu que ia precisar limpar a sujeira? Pra quê te preocupar? Prefiro que você continue com sua inocência de adolescente, cuja maior preocupação é qual a cor de esmalte que vai usar amanhã.

– Minha vez de agradecer.

– Sem drama.

– Você fala como se fosse vinte anos mais velho que eu. – murmurei – Não esquece, você só tem 21. Não faz tanto tempo que deixou de ser adolescente.

– A gente deixa de ser adolescente quando começa a arcar com as consequências do que fazemos, não quando completamos a maioridade.

Engoli em seco.

– Vinícius, você realmente ligou pra me dar lição de moral?

– Não.

Ficamos em silêncio por alguns minutos. Tudo o que conseguia ouvir eram as risadas de Jessy e Laura na sala à frente da cozinha, e uns gemidos baixos no quarto de cima.

– Ei... – ele sussurrou.

– Que foi? – perguntei, com a voz dura.

– Sabia que você fica linda quando ‘tá emburrada?

Rangi os dentes. Não ia deixar que ele fizesse minha raiva passar tão facilmente.

– Você não ‘tá aqui pra ver se eu ‘tô linda ou não.

– Mas sei como você fica quando ‘tá emburrada. – eu podia sentir que ele estava sorrindo, sabia que iria me vencer – Fica com os olhos pequeninos, sobrancelha franzida, e entorta um pouco o nariz. – prendi um sorriso – E agora deve estar fazendo bico, segurando a vontade de rir, porque sabe que eu ‘tô certo.

– ‘Cê já sabe que eu te odeio, ‘né?

– Tanto quanto eu te amo, gatinha. – ele riu baixinho – Só queria saber como você está. Liguei pra sua mãe e ela disse que você foi dormir na casa da Jessy. Tudo tranquilo por aí?

– O de sempre. – teria uma séria conversa com minha mãe sobre aquela fofoca mais tarde – Jessy e Laura na sala, conversando, e Moe com o novo namorado no quarto de cima, transando como se não houvesse amanhã.

– Opa. – ele riu – Será que...

– Nem invente. – sorri – Nem invente.

– Poxa, assim você me magoa. – ele falou com uma voz afetada – Destrói todos os meus sonhos puros de criança...

– Sonhos puros de criança? – não segurei a gargalhada – Claro, claro, puro. – ouvi os passos de alguém descendo as escadas – O filme pornô acabou, os protagonistas estão descendo. Nos falamos amanhã?

– Te ligo mais tarde pra dar boa noite. – riu – Você não vai se livrar de mim tão fácil, ainda mais agora que ‘tô sabendo que tem um macho nessa casa.

– Que por sinal, é o Ramón.

– Ramón? Que Ram... – ele parou por um instante – Não... – riu – ‘Cê tá me zoando né?”

– “Nope”.

– Ramón Goerdert?

– “Yepe”.

– Moreno, alto, metido a Ayrton Senna?

– Em carne, osso, e pé no acelerador.

– ‘Tô indo ‘praí.

– NÃO INVENTA.

– Xiu, há meses não vejo esse maldito, perdi contato com ele desde... Sei lá desde quando. Diz pra ele esperar que chego aí em uns quarenta minutos.

– VINÍCIUS, NÃO INVENTA. – esbravejei.

– Já tá decidido, me espera só de lingerie, pode ser? – deu uma risada gostosa – Mentira, põe uma roupa, não quero que ele veja as suas carnes.

– Mais o quê?

– Beijoteamoatédaquiapouco. – ele falou rápido, e desligou.

Notas finais
Galera, esse foi o último capítulo de hoje. Agradeço a todos que leram e claro, comentem, favoritem, etc. Ajuda muito na animação pra novos capítulos. Tia Bia luv u guys, 2bjs e boa madrugada.