Garota Ideal
9 Acho que você foi agressivo demais
Notas iniciais
Coisa de artista ou não, Hugo estava verde de ciúmes. Sua irmã, com o passar da semana, constantemente vinha comentando sobre a tal pintura e como estava curiosa para vê-la. Ela tinha parado de insistir que ele conhecesse Atena, e isso o colocava louco.
Era difícil para ele não se intrometer em tudo, como Carlos. O próprio vinha insistindo loucamente para que ele agisse — tinha medo de que Atena influenciasse Alicia a não o encontrar. Porém, ele não podia se concentrar tanto assim em seus assuntos amorosos, quando sua mãe achava que ele devia dar uma de babá de pré-adolescentes.
Estava ele na fila do cinema, a imagem da infelicidade, cercado de mais três garotas risonhas, além da sua irmã e um infeliz rapazinho, que, provavelmente, fazia a mesma pergunta mentalmente, o que estou fazendo aqui?
Carlos ainda não tinha dado as caras, o que ele considerou inteligente de sua parte. Se fosse esperto, realmente continuaria longe do grupo. Bufou mal-humorado, notando que a fila não andava.
Ares estava quieto, olhando para o seu lado e fazendo uma careta ocasionalmente quando as meninas viravam em sua direção, cochichavam algo entre elas e riam.
Notou o menino pegar o celular e digitar algo nele.
— Precisamos mesmo ver esse filme de mulherzinha? — indagou contrariado.
— Não posso deixar minha irmã e as amigas sozinhas na sala. — Hugo resmungou.
— Se eu achar alguém para acompanhá-las, podemos ver outro filme?
— Não sei, ainda acho impossível isso acontecer. Mas boa sorte.
Ares não respondeu, apenas voltou a digitar no celular.
A fila andou mais um pouco quando sentiu Ares se agitar ao seu lado e contorná-lo. Estava tentando entender o garoto quando o próprio levantou o braço, chamando alguém. Logo uma garota loira estava parada de frente para os dois, com um sorriso enorme no rosto e os olhos agitados. Sabia quem era, já a tinha visto várias vezes na faculdade.
Giulia.
— Olá, Ares gatinho. — balbuciou, agarrando o garoto. Ele apenas fez uma careta. — O que foi? Não quer que sua namorada o veja com outra?
— Corta essa, Giulia. Eu não tenho nenhuma namorada. — resmungou.
— Diga isso as garotinhas com olhares hostis. — riu musicalmente, enquanto o apertava ainda mais e encarava as meninas.
Não demorou muito para Alicia aparecer, sorrindo minimamente e acompanhada de ninguém menos do que Carlos.
Um Carlos bastante sorridente e satisfeito consigo mesmo.
— Hey, H! — exclamou, caminhando na direção do amigo. — Bella, namorada! — arrulhou para cima da garota, que apenas revirou os olhos, enquanto as amigas davam risadinhas. — Continua saindo com o deus de menor?
Quem revirou os olhos dessa vez foi Ares, ainda agarrado a Giulia.
— Agora que tem mais pessoas, podemos dividir os grupos? — indagou esperançoso.
— Eu vou onde Alicia for. — murmurou Carlos, olhando-a fixamente.
Ela apenas sorriu.
Hugo estava exultante e um pouco temeroso, as meninas estarem ali significava que Atena também estava por perto. Olhou por cima do ombro de Alicia, esperando vê-la surgir bonita como sempre. Porém, ela não apareceu. E ninguém pareceu se importar, seu nome não foi citado nenhuma vez e isso o enlouquecia.
Olhou nervosamente sobre o ombro quando a fila andou mais um pouco. As meninas se juntaram a ele na fila, conversando amenidades, e Carlos se colocou bem no meio das duas, como o grande fofoqueiro que é.
Resolveu olhar para frente e adotou uma expressão neutra no rosto, não queria demonstrar o quanto a situação o deixava nervoso. Ele tinha certeza que, em breve, ela apareceria, e Isabella não ter saltado e alardeado que uma das meninas presentes era Atena só lhe dava certeza de que ela era a que faltava. E que também era a garota da barca.
— Demoraram! — criticou Giulia atrás dele. — O que estavam fazendo, buscando diretamente da gráfica?
— Estava uma fila enorme, ok! — a nova voz se fez de ofendida.
— Que nada, ela que analisou cada livro que tinha na livraria. — reclamou uma voz masculina. Hugo não precisou se virar para ver que era Breno. — Eu fiquei esperando com os meus livros por quase 30 minutos, enquanto ela se decidia se estava a fim de um livro histórico ou new adult, para ler e choramingar depois por sua vida amorosa ser uma merda.
— Minha vida amorosa não está em discussão. — resmungou.
— Sua não vida amorosa que sempre está em discussão. — rebateu divertido.
— Agora que você apareceu, pode ir ver o filme de mulherzinha que tanto gosta, e eu, algum de ação com os caras? — Ares interrompeu.
— Atena! Você veio! — animou-se, correndo até a garota.
Hugo não pôde evitar seguir os movimentos da irmã, que abraçou rapidamente Atena.
Ele a analisou.
Seus cabelos estavam amarrados no alto da cabeça, num pequeno coque em que vários fios soltavam do elástico, emoldurando seu rosto. Este não possuía muito maquiagem, mas ela não precisava de nenhum desses artifícios para ficar bonita. Na opinião dele, ela era excepcional de qualquer jeito. Vestia jeans e uma blusa leve, azul-esverdeada e de alça. Estava carregando uma bolsa grande e uma sacolona azul com o logotipo da livraria de onde tinha vindo.
Era a garota da barca, e ele se sentia um idiota por não ter aceitado que sua irmã os tivesse apresentado antes.
— Finalmente vai conhecer meu irmão mais velho. — nem esperou a garota responder, pegou em sua mão e começou a arrastá-la. Atena levantou os olhos em pânico. — Hugo, seja educado. — repreendeu.
Ele apenas ficou parado, olhando-a incrédulo. Era como assistir a um acidente de carro, simplesmente não pôde evitar olhar, apenas viu sua irmã puxar a garota para mais perto dele.
Quando ela finalmente olhou em seus olhos, Hugo se sentiu incapaz de falar. Ela também parecia não querer ser a primeira a dizer algo, simplesmente se abraçou e olhou sem graça em sua direção, sorrindo levemente.
Hugo levantou a mão, acenando, e tentou sorrir também, mas ainda se sentia muito transtornado. Porém, Isabella não deixaria barato; revirando os olhos azuis, ela cutucou o irmão até que ele parasse de encarar a envergonhada Atena. E, com a cabeça, instigou-o a dizer algo.
— Ah! — gaguejou estendendo a mão. — Oi. A Bella fala bastante de você.
— Ela também fala muito de você. — rebateu, hesitando ao apertar a mão dele. — Bom, Bella, agora que seu irmão e eu já nos conhecemos, podemos resolver o que fazer. Os meninos vão ver um filme, e nós outro? — indagou, ignorando Hugo, que continuava a encará-la como se ela fosse desaparecer a qualquer momento.
— Não devíamos fazer todas as vontades do seu irmão. — chiou Isabella, discordando, e suas amiguinhas apoiaram.
— Você sabe como ele é, vai terminar esse filme chateada e em uma grande discussão por ele não ter gostado, e você, sim. — apontou.
— Eu vou com vocês — apressou-se Carlos. —, e o H disse que estava doido para ver esse filme também, só não queria confessar a Bellinha. — sorriu malicioso, recebendo um empurrão do amigo.
— Bellinha é nome de cachorro. — choramingou a menina.
— Breno, me tira dessa, cara. — pediu Ares.
— E perder a festa? Nunca! — exclamou. — Pare de reclamar, tem quatro gatinhas querendo ver um filme com você, e o que você faz? Quer se enfiar em outra sessão com os caras! — repreendeu. — Todos devíamos assistir a um filme de terror.
— Sim! — exclamou Ares.
— Por mim, tudo bem. — disse Atena. — E para vocês, meninas?
— Eu tenho medo. — choramingou uma das amigas de Isabella.
— Fique tranquila, nós colocamos você ao lado de um desses bravos cavaleiros. — sorriu brilhantemente, enquanto se colocava no meio delas.
— Lá vai a rainha das pré-adolescentes. — zoou Breno, que recebeu um olhar mortal da própria.
— Você não sabe que ela congelou nessa idade? — continuou Giulia, sorrindo maliciosa enquanto dava o braço a Breno. — Acredita que Alicia nos abandonou para ficar de paquera? Faça algo, você é o empata! — choramingou. — Se eu não tenho vida amorosa, ninguém mais tem!
— Eu não atrapalho ninguém. — fez-se de ofendido. — Durante o filme nós sentamos um de cada lado dela, ele nem verá o que o atingiu. — conspirou, e Hugo não pôde deixar de rir da ingenuidade de Carlos em achar que se daria bem.
A fila andou lentamente, e ele não pôde evitar olhá-la rindo e conversando tranquilamente com as meninas.
— Por que eu fui arranjar amigas? — resmungou Ares ao seu lado.
— Onde estão seus amigos?
— Viajando ou evitando ter que encontrar as quatro loucas. Por estar passando as férias com o meu pai, eu simplesmente não posso evitá-las.
Hugo apenas assentiu.
— Ao menos conseguiu mudar o filme.
Ares ponderou sobre a questão e, no fim, deu um suspiro resignado, seguindo os outros até a bilheteria. Foram duas fileiras escolhidas, cinco cadeiras para os menores e seis para os outros, na fileira detrás.
Já dentro do cinema, todos foram para a fila dos lanches. Ares ficou chiando ao lado da irmã sobre suas preferências, ainda chateado por ter de sentar perto das meninas.
Isabella, que estava ao lado do irmão, não permaneceu por muito tempo quieta.
— Você não está se esforçando.
— Como?
— Hugo, eu notei o jeito que a olhou. Como eu previ, você gostou de Atena, mas sequer tentou uma conversa com ela. — reclamou.
— Não nos conhecemos, não sei como começar uma conversa com ela. — murmurou.
— Vocês já deixaram de ser meros estranhos, agora é hora de investir. Atena é tímida, você não pode esperar que ela comece.
— Você não disse que ela estava interessada em outro? — cochichou.
— Ela está tentando superá-lo. Mas segundo Giulia, nunca foi algo sério. Ela só esteve interessada.
— Ela ainda pode estar interessada.
— Não acho, ela esteve relutante em tratar disso até agora. Ela vai superar, só precisa de um belo rapaz para rasgá-lo fora dela. — aconselhou.
— E desde quando você entende tanto disso? — indagou, olhando-a cético.
— Eu leio. — fez-se de ofendida. — Ela é uma garota romântica, você vai ter de fazer mais do que apenas encarar sua nuca. — Hugo não pôde evitar a leve careta.
Agora, as amiguinhas de Isabella estavam cercando Atena e Ares para comprarem suas pipocas, e ela bufou ao lado de Hugo.
— O que é isso? Está com ciúmes? — zombou, e sua irmã ficou supervermelha.
— Não estou com ciúmes! — ralhou. — É só que ele é o meu amigo e não estou acostumada a dividi-lo com elas.
— Bom, garanto a você que nem ele gosta dessa atenção. Ele está quase agarrando as pernas da irmã. Provavelmente, odeia o fato dela estar ajudando-as.
Isabella apenas riu levemente enquanto observava os dois irmãos interagindo. Atenas empurrou os dois refrigerantes grandes para o irmão segurar, enfiando os pacotes de doces na bolsa para poder carregar as pipocas. As amigas já tinham comprado, então, elas escolheriam os lugares primeiro, só estavam esperando os outros.
Depois de comprar os lanches, Isabella agarrou sua própria pipoca e refrigerante e correu atrás das amigas para, provavelmente, poder pegar um lugar ao lado de Ares.
Carlos o aguardava chateado.
— Acredita que os amigos da Alicia agarraram os braços dela e arrastaram-na com os lanches, de forma bem precária, para dentro? Provavelmente, não vou conseguir sentar ao seu lado. — emburrou.
— Acho que, para isso, você vai ter primeiro que arranjar um namoradinho para a loira. Ela disse que se não está em um relacionamento, ninguém mais estará.
— Então, é questão de trocarmos o foco. — sorriu malicioso.
— O que você quer dizer?
Carlos ignorou a pergunta e seguiu para dentro da sala, o sorriso buliçoso ainda dançando em seus lábios enquanto ele ia em direção aos outros. Hugo não teve escolha, apenas os seguiu.
Eles já estavam acomodados. Isabella isolou Ares na ponta, sentando-se ao seu lado e deixando-o fora do alcance das meninas. Atrás, os amigos de Atena discutiam baixinho — Giulia estava na ponta e tinha Alicia entre ela e Breno, que estava ao lado de Atena. Ela comia pipoca enquanto os observava conversando.
Carlos foi na frente e sentou na última cadeira reservada, restando apenas a cadeira entre ele e Atena. Nervoso, Hugo pulou as pernas do amigo, tentando não derrubar nem o refrigerante nem a pipoca.
Quando finalmente sentou, sentiu os olhos dela em cima dele. Tinha que se controlar, estava com medo de começar a ficar vermelho por sua atenção. Sempre fora um cara seguro de si, no entanto, Atena conseguia trazer à tona o cara inseguro que havia dentro dele. Ele se sentia tão estúpido — não por causa da situação que o levou a se esconder dela, mas por tê-la evitado por tanto tempo.
Olhou de rabo de olho para seu perfil. Ela olhava fixamente para tela do cinema, que ainda estava branca. Tinham entrado cedo, por isso não tiveram problema em achar os lugares.
— Vá em frente! — cochichou Carlos.
— O quê?
— Comece a conversar com ela, provavelmente os amigos dela irão focar em você e deixarão Alicia e eu em paz. — resmungou no final.
— Acho difícil — sussurrou —, ela parecer ter algum problema comigo.
— Não seja absurdo! — sussurrou com falso choque. — Você só é o cara que deixou claro que estava fugindo dela. Isso não tem nada de mais.
— Não estava me escondendo dela, só não me sentia confortável no momento. — murmurou.
— Então, tente.
Respirou fundo antes de voltar o corpo para ela e dizer alguma coisa em voz baixa, para que a irmã, que estava bem na sua frente, não prestasse muita atenção — ela conversava com as amiguinhas e pareciam entretidas, enquanto Ares simplesmente estava entediado.
— Você acha que esse filme vai ser bom? — tentou. — Não vi o trailer, não sei nem sobre o que é.
— Então por que aceitou vir? — sussurrou cortante.
— Por que seu irmão não nos deu escolha — sussurrou de volta. — Estava psicologicamente preparado para o filme que minha irmã estava nos forçando a ver, mas esse aí... Não tenho ideia do que se trata.
— É um terror básico, nada de mais. — de repente, ela sorriu maliciosa. — Por que, tem medo? — seus olhos brilhavam brincalhões.
— Se isso fizer você segurar a minha mão — respondeu, não conseguindo evitar a brincadeira —, estou morrendo de medo.
Atena pareceu ficar sem graça quando manteve seus olhos fixos nos seus.
Muito séria e sem responder, virou para frente e abriu a bolsa, caçando algo.
— Acho que você foi muito agressivo — sussurrou Carlos perto dele, mas pôde notar o riso na voz —, mas estou orgulhoso.
Frustrado, afundou na poltrona e pegou um punhado de pipoca, colocando na boca. Esperava que, mantendo a boca ocupada, não assustasse mais a garota.
Quando Carlos tentou pegar sua pipoca, Hugo simplesmente deu um tapa rápido na sua mão. Primeiro, a pipoca e, em seguida, estariam dividindo o refrigerante!
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