Garin - O Filho das Cinzas

2 Capítulo 2 - A Ovelha


Notas iniciais
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Três seres eram criados nos fundos da edificação, quem passasse pela porta da cozinha facilmente os veria no cercado. O primeiro eram as cabras que davam o leite que alimentava os estômagos; o segundo eram as ovelhas que ofereciam a lã que aquecia os corações; e o terceiro, ao qual lhe fora dado um telheiro desonfortável, era o demônio, também chamado de Garin quando conviesse o bastante ser lembrado o nome.

— Não atrapalhe ninguém, logo trarei sua refeição — disse a mãe, deixando-o em seu despretensioso aposento.

Há certos ordenamentos que mesmo com muita vontade de seus interessados, não se torna análoga à realidade. Os tapumes que formavam as paredes de seu "quarto" eram frígidos e toscos. Sua cama não passava de um catre improvisado com palha velha a servir de colchão para as pulgas. Seu único e módico pertence era um bonequinho de madeira que já havia perdido a cabeça, ao qual possuía desde tempos imemoráveis.

Seus pés se mexeram quase sozinhos em direção ao sol que aquecia o cercado. Um pai tirava leite de uma cabra, e quando notou sua proximidade, dirigiu-lhe um olhar de asco e rapidamente deu de acabar com sua tarefa. Quando retornou com o balde já vazio, enxotou-o como se enxota um bicho do mato.

— Não tem mais o que fazer demônio?

Pelo menos não se fingiu de cego, pensou, afastando-se. Haviam muitos que quando o viam fingiam não tê-lo visto, e nas vezes que inadvertidamente se encontrava no caminho, era rapidamente empurrado para um lado e premiado com um insulto. "Aparta-te de meus caminhos criatura sepulcral." Era um dos praguejos mais comuns, mas também já ouvira: "O demônio me tocou. Preciso me lavar." Aquele pai ao menos fora gentil; ao menos gostava de pensar assim.

Então retornou para seu "quarto", postando-se como uma sentinela cinzenta, uma sombra a observar a luz, um fantasma a vigiar os vivos. Enrolou-se em seu cobertor velho e aguardou por Mãe Gálata.

Ela retornou só bem depois com seus desjejum; um copo de leite frio acompanhado por um naco de pão preto. Deu graças e jogou tudo pra dentro com a mesma vontade que um homem preguiçoso tem de trabalhar.

Quando terminou, ainda sentindo-se vazio.

Mãe Gálata então começou mais um de seus ensinamentos, uma fábula qualquer sobre um mastim que abandonava os pastos para seguir um amigo lobo que migrara para as montanhas, ou algo como isso. Garin estava distante em pensamentos.

Quando ela terminou, fez uma pergunta ao qual não soube responder.

— Não estava me ouvindo?

— Estava — mentiu.

— O que eu disse?

Nunca fora tão fácil pegar um mentiroso na própria mentira.

— Palavras, muitas palavras.

Ela não conseguiu conter o riso.

— É, e deveria dar mais atenção a elas. Sabe o que acontece a um mentiroso, vou chamar os juízes pra você — ela disse, colocando a língua pra fora e tocando-a com o dedo indicador, fazendo um silvo como de carne sendo marcada por um ferrete.

Garin já era muito grande para ter medo dos juízes da Guarda da Alvorada, sabia que as ameaças só eram isso, ameaças. Se realmente existiam, estavam levando a justiça do Senhor da Alvorada para outro lugar muito longe dali. Ou estão muito ocupados queimando a língua de algum gigante.

— Voltarei amanhã — ela disse por fim, já que não conseguira dele nenhuma reação. — Não cause problemas.

— Tá — respondeu sem vontade.

Muitas vezes Mãe Gálata lhe trazia charadas cheias de significado e aparentemente nenhum propósito. Antes não viesse, pensou amargurado. Suas histórias não me levam a lugar algum.

Certa vez lhe fez quebrar a cabeça em uma questão de uma mulher com dois filhos doentes e um único remédio. "Para qual deles ela deve dar a cura? O que cozinha em febre ou o que se contorce em dores?" Garin dissera que ela deveria compartilhar entre os dois, que para ele faria sentido uma mãe salvar ambos os filhos. Porém, assim o remédio não seria eficiente para nenhum deles. Quando Mãe Gálata lhe deu a resposta, ele ficou o restante do dia buscando o sentido daquilo: "Nem para um e nem para o outro, há doenças que vêm para nos tornar mais fortes, e para estas não devemos arrumar remédios."

As tardes eram todas suas, e não havia ninguém para incomoda-lo, estavam todos absortos em suas tarefas no interior da Casa, e restava-lhe apenas os animais como companhia; e Amicum, mas ela já não era um animal. Ouvia de dentro da Casa o burburinho de crianças nas oficinas. Pelo som de cerra e martelo, sabia que em uma sala lá dentro cerravam madeira e martelavam coisas, nada poderia ser mais óbvio. Em outra, mais silenciosa, ouvia-se o som inarticulado de teares e muxoxos de garotas que eram ensinadas no ofício de tecelã. Como deve ser? Pensava curioso. Deve ser horrível ter que ficar cerrando e cerrando, martelando e martelando, tecendo e tecendo. Ele não precisava de nada disso, era livre de todo o trabalho duro; mas estranhamente isso não lhe trazia nenhuma satisfação. No cercado um bando de cabras e ovelhas pareciam bastante interessadas na porteira, alguém havia deixado ela meio aberta — ou meio fechada — e bastava que os bichos se organizassem que ela seria aberta sem dificuldades.

Virou as costas e dirigiu-se para dentro do bosque que crescia ali perto, ainda envolto em seu cobertor. As árvores ocultavam boa parte do sol, o que deixava o ar frio, mas ainda havia feixes de luz que atravessavam as copas das árvores e chegavam ao seu rosto. As folhas farfalhavam sob seus pés, e ouvia-se o som de um riacho correndo mais ao fundo. Caminhou em sua direção, até chegar à parte onde o chão terminava e um desfiladeiro terminava em um caudaloso rio. Lá embaixo as pedras lhe deram boa tarde.

Olhou para baixo e o que o aguardava, então virou-se para a imensidão do céu, e tudo lhe pareceu bastante parecido; mas um era inalcançável, e o outro estava ao alcance de um passo errado. A dor só duraria um instante, era apenas o tempo da queda e do impacto nas pedras. Respirou fundo, fechou os olhos, abraçou-se ao cobertor. Seria melhor para todos, disse para si mesmo. Será que a água é fria?

O instante pareceu tomar-lhe muito tempo, e quando não conseguiu dar o único passo que o aproximaria de seus pais, recuou e voltou-se para a mata.

Amicum o esperava no mesmo lugar de sempre.

Seu corpo se embalava para frente e para trás com a suavidade de uma dança. O laço no pescoço impedia-o de cair e se estatelar no chão. O manto de lã suja ainda aderia por seu corpo, aquecendo seus ossos. Ele o fitava com um olhar assombroso, desprovido de olhos, aquele rosto caprino e de órbitas vazias parecia-lhe censurar por sua decisão.

— Farei amanhã, juro que farei, não precisa me olhar assim — disse-lhe. — É fácil para você, já está morto, mas ainda tenho minha vida, é o pouco que me resta.

Afagou a lã de seu corpo buscando algum calor, mas estava úmida e coberta de folhas. Tocou-lhe a mão ossuda, mas era gelada como o próprio inverno. Então cruzou as pernas e sentou-se à sua frente, vendo a corda balança-lo.

Quando deu por si, havia adormecido e despertado com uma sensação estranha no peito. Os ventos traziam vozes ao seus ouvidos, sua mente dizia para não se levantar e continuar ali com a ovelha, mas seus pés se moveram quase que sozinhos.

Pais e Mães se amontoavam em uma balbúrdia que cortava o sossego como uma faca. O sol brilhava alto no céu, fazendo suas vestes brancas cintilarem como mármore novo. Estavam estupefatos com algum acontecimento inacreditável que havia ocorrido.

Dentro do cercado não se avistava nenhum animal.

— Deixaram a porteira aberta, de que outra maneira isso poderia ocorrer? — disse um deles.

— Quem seria capaz de tamanha irresponsabilidade?

— Tem alguma dúvida? O demônio, quem mais? Ele nos matará a todos de fome se lhe dermos a chance.

— O maldito espinho em nossa carne, onde ele está? Tragam-no aqui.

Deveria ter continuado no bosque, teria sido mais sensato. Mas tinha que se defender, ele nunca seria capaz de abrir a porteira, sabia bem o que lhe custaria. Mas assim que o viram, já pareciam ter feito suas conclusões e seus julgamentos, e não lhe deram nenhuma chance de defesa. Dois pais com mãos do tamanho de pás o arrastaram para o dentro do cercado e o atiraram ao barro. Os olhos ardiam ao fitá-lo e nem precisou abrir a boca, não lhe seria dado o direito à palavra.

— Ele nos matará de fome, é isso que deseja, para isso foi enviado. Nos tirará tudo que o Principiador colocou em nossas mãos.

— Não, mentira — gritou. — Não fiz nada.

Então procurou por Mãe Gálata, mas seus olhos encontravam apenas rostos inflexíveis.

— Cria da perdição, não é à toa que os pais não o quiseram. Gálata nunca deveria tê-lo acolhido como bastardo.

Logo fora chamado por centenas de coisas e não saberia dizer quem dissera o quê. Então alguém surgiu com uma vara do tamanho de um braço, vermelha como sangue.

— Não fui eu — tentava dizer, sua voz se perdendo em meio a tantas outras.

— Trinta e três varadas — disse um. — Uma para cada cabeça que deixara fugir.

— Só? — indagou outro consternado.

— Não fui eu, não fiz nada.

E alguém completou:

— É também mentiroso, queimem-lhe a língua em seguida.

— Levante-se demônio sepulcral — ordenou o pai brandindo a vara.

Duas mãos o agarraram pelos ombros e o colocaram de pé.

— Mostre-me as costas — ordenou.

Garin sentiu o desespero saltar por seus olhos e escorrer com gosto de sal.

— Eu não fiz nada, juro, juro.

— Não — disse uma voz doce e conhecida.

Sentiu um alívio ao ver finalmente sua mãe. Ela tomou a vara das mãos que a brandiam, e quando Garin pensou que ela estava ali para resgatá-lo e falar em seu favor, ela rapidamente alterou o tom da voz, perdendo a suavidade e tornando-se gélida.

— Eu faço, é meu filho.

Garin não teve tempo para suplicar.

Um par de mãos o girou nos calcanhares e o endireitou. À sua frente a sombra dela se elevava como uma serpente negra.

— Levantem a camisa — uma voz rugiu.

Assim fizeram.

— É realmente um demônio, vejam essa pele, não poderia ser filho de homem e mulher — disse uma voz alarmada.

Então a sombra desceu em suas costas, lambendo-o em um estalo agonizante que o fizera dobrar sobre si mesmo. As mãos o seguraram para o segundo golpe. E então o terceiro. Logo viera o quarto. O quinto trouxe gritos que lhe feriram a garganta. Mandaram calá-lo, e assim a mãozorra tapou-lhe a boca. E sem poder gritar, afogou-se em lágrimas, pensando como teria sido melhor afogar-se em um rio.

Em algum lugar ali perto uma ovelha balia em liberdade.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.