Gareth
1 Capítulo 1 - Gareth
Notas iniciais
Esperam que recebam com carinho e boa energia ♥
Alguns de vocês, para não dizer todos, vão pensar “E daí? Também não lembro o momento em que nasci. Ninguém lembra!”, bom, nós ninfas temos ótima memória, quero dizer, as Néfeles (Ninfas das Nuvens) e as Auras (Ninfas das Brisas), são um pouco esquecidas, mas mesmo assim lembram com detalhes o momento em que nasceram. Eu, não. Lembro nada, nem sequer do que aconteceu depois, apenas de certo dia em que acordei no Campo Florido rodeada de Antusas, Ninfas das Flores, olhando-me acolhedoras.
Apesar de não lembrar o meu, lembro do primeiro nascimento coletivo que assisti, sim, imagine o nascimento de diversas ninfas abençoadas por nossa Grande Mãe, a Rainha Hérmia.
No dia anterior todas estavam agitadas, Anthea dançava no Campo Florido e cantarolava para os Quatro Ventos junto de suas irmãs, Alpinea, Celósia, Chuva de Prata e Allium, nesse dia as flores desabrocharam juntas e seus perfumes se espalharam por toda a região levadas pelas Auras que tranquilamente bailavam no ar. Nesse dia, até as Limneidas, Ninfas dos Lagos Perigosos, acalmaram suas águas e se juntaram à harmonia.
Então, o Grande Dia chegou, após uma noite de intensa movimentação e preparo, antes do sereno ir embora, escapei do Copo de Leite e corri até o Abençoado Local, onde estava para acontecer um dos momentos mais lindo que já presenciei em toda a minha vida até agora, no coração de nossa morada, onde todas as ninfas se conectam, o Kardiá. Chegando lá apoiei em uma das árvores para poder observar com conforto, logo em seguida abafei minha boca para evitar um grito, a árvore era morada de uma Hamadríade chamada Grevillea e ela estava a me olhar curiosa.
“O que faz aqui?” – Perguntou movendo seu rosto no tronco da árvore como se estivesse a me intimidar-
“Procuro um local confortável para poder assistir os nascimentos coletivos no Kardiá.” – Respondi um pouco nervosa, Grevillea não costumava dividir sua árvore com nenhuma outra ninfa que não fosse Hamadríade, que dirá com uma ninfa que não pertence a nenhuma Casa, e desde que me conheço por ninfa que Grevillea cultiva uma implicância especial por mim-
“Hahaha, criança...” – Interessante, seu senso de superioridade é tão grande que ela esquece que temos apenas 115 anos de diferença- “Você é muito jovem para entender a beleza dos nascimentos, apenas volte para as Antusas ou vá brincar com as Auras” – Completou enquanto subia até o ponto mais alto de sua Árvore Casa-
Celósia disse-me uma vez. “Nós ninfas somos delicadas como o Copo de Leite, mas podemos nos transformar em um Cravo Amarelo que a todos os sentimentos bons rejeitam com seu desdém”. Parece um exagero atribuir essa frase a essa situação, mas é como eu vejo Grevillea, como um Cravo Amarelo. Resolvi não discutir, precisava rápido de um bom local.
“Pode assistir daqui.” – Escutei uma voz delicada sussurrar-
Olhei em volta procurando a dona da voz, mas não encontrei.
“Aqui, Gareth.”
Prestando melhor atenção consegui ver uma Náiade que acenava de sua fonte. Caminhei em passos largos até ela para não perder tempo, ajoelhei-me e fitei-a na água. Seus longos cabelos verde-claro a cobria a água como se fosse um só e seus olhos de um azul claro divino me observavam divertidos. Então, seu corpo começou a emergir da água, ficando sobre ela, coberta por seu cabelo, sorriu e sentou-se na pedra acompanhada pelos meus olhos admirados, nunca a vi por aqui, por incrível que pareça. Ela me lançou um olhar convidativo, e acenava para eu sentar ao seu lado, levantei-me e ela me olhou interrogativa, parecia confusa.
“O que foi?” – Perguntei mais confusa que ela-
“Seu cabelo é engraçado.” – respondeu ela ainda intrigada –
“Meu cabelo?” – indaguei enquanto analisava uma mecha de meu cabelo – “Por quê?”
Não que eu me importasse com aparência, afinal pra quê serve sua aparência? Aliás, nem sei o que é uma aparência de verdade, mas escutei essa palavra algumas vezes e era sempre associada ao corpo. Bom, certa vez um grupo de Potâmidas, Ninfas dos rios, disseram que minha “aparência” é “normal, comum, Dionísio nunca a cortejaria”, o que não faz sentido para mim já que não sei quem é Dionísio ou o que é cortejar, perguntei a Alpinea e ela me disse “Nada que você precise saber, Gareth.” Essa resposta me irritou, mas preferi não insistir, Alpinea não é conhecida por ser a mais paciente das irmãs Antusa.
Bom, se eu tivesse que me descrever seria como uma ninfa divertida, esperta, delicada, presta- Não é isso? Hm, como poderia ser então? – Olhei meu reflexo na fonte e pude ver minha imagem – Isso? Quer que eu descreva o que vejo? Vejo uma ninfa menor que as outras, cabelos ridiculamente sem cor, como as nuvens, enfeitado com flores campainha, o corpo coberto por um manto fofo feito do pêlo de um bicho chamado ovelha, presente de uma Epimélide entregue no dia em que nasci. Pelo menos foi isso que Anthea me contou, nunca vi essa Epimélide e não sei muita coisa sobre essa Casa, apenas que cuidam desses bichos de nuvem, chamados Ovelha. Ah, sim. Nunca vi uma ovelha.
“É como as nuvens, nunca vi um cabelo assim, sem cor.” – respondeu-me risonha- “Seu protetor também é engraçado, você é uma Aura?” – acrescentou apontando para o céu –
“Não, não sou uma Aura.” – respondi baixando meu olhar – “Não sei o que sou.” – sussurrei fitando a imagem na água –
Como se me entendesse, rapidamente ela mudou de assunto, apressando-me para sentar na pedra, pois a Benção da Vida estava para começar. Subi ao seu lado, mas não sentei, fiquei em pé e fitei o Kardiá, guardaria para sempre em meu coração esse momento, mal podia esperar para ver a Rainha novamente. As nuvens sumiram e o céu ficou de um azul divino, as Auras bailavam juntas soprando suas brisas por todo o Kardiá, as Hamadríades balançavam suas casas deixando a terra coberta por suas folhas, algumas Pegéias emergiram de suas nascentes apoiando-se nas beiradas para participar também, surgiram ninfas desconhecidas por mim, umas graciosas, outras divertidas. Então ao caírem, as gotas de orvalho transformavam-se em pequenas ninfas, também surgiram dos botões de rosa, tão pequenas quanto uma folha. Dos raios de luz do Deus Sol também surgiram, embaladas pelas brisas e pelas folhas, da terra vieram mais. Até das gotas de água celeste elas vieram. Pequenas plantas abrigavam recém-nascidas, brotos, criancinhas, todas com suas casas definidas. O céu absorveu todas essas cores e de repente não era mais azul, como um grande arco-íris, senti um calor em meu corpo e não pude evitar pensar. “Foi assim que eu nasci?”, “Então como não tenho Casa”, “E irmãs, por que não tenho nenhuma?”. Levei minhas duas mãos ao peito e apertei com força, algo não estava certo, então a felicidade foi se transformando em tristeza e as Campainhas em meu cabelo fecharam, até que senti uma mão molhada sobre meu ombro, era a Náiade, ela balançou a cabeça negativamente para mim, como se dissesse, “Não pense nisso agora”, então fomos interrompidas por um sentimentos, sentimos calor, paz e harmonia com todas que estavam ali, em um clarão dos céus surgiu nossa Grande Mãe, Hérmia, nossa Rainha.
Por um momento perdi o fôlego e meus olhos brilhavam, hipnotizados por Ela. Seu corpo longo tinha um protetor que, aprendi com Alpinea, chamava-se vestido, uma veste elegante, de cor branca, enfeitado por flores e pedras coloridas, seus longos cabelos que mais pareciam raios de luz, davam voltas, eram enrolados, como diz Alpinea, como gavinhas, hahaha. E sobre sua cabeça a Coroa feita com cristais de água e flores. Nossa Rainha trazia consigo um cajado de madeira sagrada adornado com pedras coloridas. Logo começou a cerimônia, a Grande Mãe suavemente levantou seu cajado e começou a girá-lo na sua frente, uma linda energia surgiu então ela parou de girar e tocando o cajado com força na terra essa energia concentrada explodiu em várias bolinhas de luz que foram sendo absorvidas pelas recém-nascidas, que ao sentirem a energia, abriram os olhos e a vida tornou-se presente em seus corpos franzinos.
Um dia, numa conversa distraída, Chuva de Prata me contou, a Rainha costumava andar entre nós, morava no Kardiá, mas vivia entre as ninfas comuns, conversava com todos e dava conselhos, evitava as intrigas entre nós e ensinava as ninfas mais jovens sobre nossa história e sobre um ser chamado Humano, que nunca vi por aqui, mas há muitas histórias de encontros entre ninfas e humanos. Conheci Ninfas que diziam ter conversado com Humanos, essas histórias sempre me cativaram, pareciam ser tão interessantes, sempre tive vontade de ver um, cuidar de um, mas de uns tempos pra cá eles têm se tornado figuras medonhas, ouvi dizer que destroem nossas Casas, matando nossas companheiras.
Enfim, algo aconteceu e isso tudo mudou, a Rainha vem apenas em eventos especiais e comunica-se conosco através de nossas orações em seu Templo, com isso, intrigas entre nós aumentaram, não somos mais as mesmas e nem sempre a harmonia reina, algumas de nós se tornaram amarguradas e egoístas, outras violentas, ainda tem aquelas que se isolaram, soube até que houve casos de ninfas que provocaram a própria morte, e não há nada mais triste do que a morte fora de hora, a ninfa não é capaz de se desprender da energia atual e passa a reviver a mesma dor para sempre, é isso o que dizem.
O último dia que ela apareceu foi quando eu nasci. Ninguém jamais me contou detalhes desse dia, nunca. Foi um nascimento solitário, por isso há quem diga que sou a culpada, como? Não sei. Já lhes disse antes, sou diferente das outras ninfas, não tenho Casa, pertenço a todas e a nenhuma ao mesmo tempo, fui acolhida pelas Antusas, mas sou limitada a andar entre o Bosque e o Campo Florido, mal conheço as ninfas que por aqui habitam. Allium, A Quinta irmã, diz que o melhor é ficar entre as conhecidas, pois há ninfas que não gostam de companhia, podendo até serem violentas com crianças intrometidas. Não entendo, ninfas são doces e acolhedoras, era o que eu acreditava.
O Evento acabou e o céu se acalmou voltando ao seu azul natural, as nuvens foram silenciosamente tomando seu espaço, e o ambiente as suas cores naturais, as Auras voltaram para suas Casas, as Náiade, Hamadríades e as Pegéias também, as outras desconhecidas logo fizeram o mesmo, as Antusas ficaram, assim como a Náiade ao meu lado e eu.
“Sou Althaia.” – apresentou-se a voltando a água –
“Aquela que vem para curar os males.” – disse sorrindo para ela e sentando-me na pedra – “Sou Gareth.” – apresentei-me –
“Aquela que é gentil e amável.” – falou girando na água –
“Nunca entendi meu nome, mas tinha que ser coisa das Antusas.” – sussurrei – “Preferia que fosse Atalia ou Lélia.” – desabafei sonhadora –
Realmente esses dois nomes eram tão bonitos.
“Atalia, A Reluzente. É bonito.” – afirmou me animando – “Mas por acaso sabe o significado de Lélia?” – perguntou-me aproximando-se da pedra-
“Hm, quer dizer, Companheira, Irmã.” – respondi confiante –
E ela riu. Riu que se jogou na água e se pôs a boiar.
“Não, claro que não.” – negou entre risos – “Quer dizer, A que muito fala, Tagarela.” – respondeu fitando-me com um sorriso no rosto-
Fechei a cara, claro que não era isso.
“Acho que você confundiu com Lídia, Lídia quer dizer Companheira.” – explicou dessa vez não rindo apenas fitando o céu enquanto boiava –
“Você não cansa de estar na água?” –perguntei curiosa –
Ela riu novamente sem me olhar.
“Que tipo de pergunta é essa? É como perguntar as Auras se elas cansam de estar no céu, ou as Antusas se elas não enjoam do perfume das flores. Eu nasci aqui, a água doce é a minha Casa.” – respondeu-me tranquilamente –
E assim, encerrou-se o meu dia, conversamos um pouco mais sobre o que aconteceu e observamos as recém-nascidas darem seus primeiros passos até suas casas, quando eu estava indo embora encontrei uma ninfa solitária a observar o Kardiá, era uma ninfa estranha e vestia uma túnica verde-escuro curta, tinha um instrumento estranho nos ombros e longos cabelos da cor do tronco das árvores presos em uma trança. Logo ela notou minha presença a encará-la, então sorriu e virou-se para ir embora, corri até ela, mas não estava mais lá, havia sido levada pelo vento. Aquela figura provocou em mim um formigamento estranho, então corri para o Lar das Antusas, alguém lá poderia saber algo sobre essa misteriosa figura.
Chegando lá fui rapidamente ao encontro de Allium, a única das irmãs distraída o bastante para me dar informações desse tipo. Ela estava confeccionando arcos de flores para as novas Antusas e parecia bem distraída, o momento perfeito para fazer perguntas.
“Allium...” – chamei-a e descrevi a ninfa que vi no Kardiá – “Quem é ela?” –perguntei afinal –
Seus olhos arregalaram, e ela sorriu, parecia feliz demais, quase se feriu com o espinho que usava para unir as flores.
“Então, ela voltou.” – sussurrou para si mesma – “É a Deusa Ártemis, Gareth. A Deusa Guerreira.” – respondeu-me sonhadora enquanto voltava sua atenção para as flores –
Sentei encostada a Allium e respirei fundo sentindo o perfume que o Campo Florido exalava, fitei o céu e as Auras que lá brincavam e pensei “Quem é a Deusa Ártemis?”
Notas finais
Beijos e lembrem-se, As Antusas gostam de flores, quando você planta uma flor, ela é uma casa vazia e uma Ninfa pode habitá-la ^^, Cuide dela com carinho e amor e ela lhe retribuirá.
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