Gareth
1 E Gareth se foi...
Sinopse: Um possível final de qualquer história.
Gareth
"Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relogio marque meia-noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo... ou agradecer às águas por levarem a poluição (e irrigarem as plantações). Posso ficar triste por não ter dinheiro... ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde... ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais, por não terem me dado tudo o que eu queria... ou dar graças por estar vivo. Posso reclamar por ter que ir trabalhar... ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com as tarefas de casa... ou agradecer a Deus por ter um teto para morar. Posso lamentar decepções com os amigos... ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saírem como planejei... posso fica feliz por ter o dia de hoje para recomeçar. O dia está na minha frente, esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Depende só de mim..."
Charles Chaplin
A seiva jorrou vermelha como sangue e Gareth, sentindo que tudo acabara, bateu no chão seco aos pés da árvore do conhecimento.
Todos em volta silenciaram. Então o garotinho puxando as saias da mãe, apontou para o céu. As nuvens, cinzentas estavam se movendo, juntando num redemoinho de onde saíam vários raios. Em meio aos clarões de luz ouviu-se um barulho ao mesmo tempo em que um cheiro milagroso atingia a população mundial. A chuva caindo a partir da árvore espalhou-se em todas as direções, atingindo os devastados povoados e cidades. Parecia que a mãe natureza voltava e dava as boas vindas, tomando das mãos dos homens o que é seu por direito.
Então, em Channelwood, um intenso clarão cegou a todos por alguns segundos, e ouviu-se um crack. A árvore do conhecimento fundiu-se ao meio atingida pelo raio. E do meio do redemoinho, as nuvens cinzentas começaram a sumir e um grande vento, não muito forte, espalhou-se deste ponto. De repente cada pessoa começou a sentir um cheiro doce, que parecia mel, em seguida sentiram-se satisfeitos, como se tivessem comido uma refeição com tudo o que mais gostavam. E em meio aquele cheiro que se espalhava por todo o mundo, batizando-o com esperança, os homens baixaram as armas e se abraçaram como irmãos.
Os presos em Adamantia ajoelharam, arrependidos, derrotados, e Kaul olhou para Hássio, e o irmão, em sinal de perdão, estendeu a mão, que Kaul apertou agradecida e emocionada. Os oráculos, deitados na terra, levantaram-se e deram as mãos. As gotas d'água na floresta se solidificaram, formando o castelo de cristal, seus poderes revitalizados pela onda de cheiro doce. Os nórdicos, no castelo branco , puseram suas armas de lado e se ajoelharam diante de Wulfrico, ao lado dos Cérios, mas agora havia apenas uma grande paz no coração desses homens.
As pessoas, saindo dos seus estados de graça, começaram a se aproximar da árvore gigantesca, partida ao meio, onde bem embaixo estava um vulto de cabelos ruivos. A armadura e a espada de Gareth não brilhavam mais, nem pareciam mais impressionantes. Voltara a ser a velha armadura de seu pai e a espada enferrujada de Fabian.
Então, uma pequena figura aproximou-se e sacudiu os ombros do rapaz. Ele ergueu um pouco a cabeça e sentiu que lhe davam algo para beber. Seria algum remédio? Bebida talvez, para aquecê-lo. Mas quando engoliu, percebeu de súbito que era apenas água. Pura e somente água. Sorriu de leve, abrindo os olhos e os vários rostos que o observavam sorriram de volta e o levantaram, e o levaram para longe dali.
Somente quando o largaram e se afastaram, é que Gareth percebeu que estava na praça Vegan, e que a multidão formada em volta de si silenciou. Então, um por um, os habitantes de Stoneship se ajoelharam diante do verdadeiro rei daquele mundo, reconhecendo no estrangeiro da outra vida, o senhor do segundo mundo.
Anos depois, no hospital X...
Um milagre da medicina aconteceu. Os jornais noticiaram sem muito alarde o caso do homem que acordou após 30 anos de coma que os médicos consideravam irreversível. Gareth foi submetido a vários exames, fisioterapia e para o assombro dos médicos, não houve nenhum tipo de dano. Finalmente, um mês depois, foi-lhe permitido sair.
Gareth não tinha família: seu avô, este já havia morrido há muito tempo, segundo a equipe médica, do coração. Não esperava ninguém, mas ficou curioso para saber quem pagara suas contas no hospital. Recebeu então a visita de Eleanora e um garotinho que ficou sabendo ser seu neto. Eleanora casou-se e teve mais dois filhos com o marido: estava vestida ricamente e parecia feliz e tranqüila. Ainda Gareth encarou o rosto enrugado da ex-namorada, sentindo o quão longe havia ficado daquela realidade. Quis saber do filho e ela informou que morrera num desastre de avião, há quatro anos. O garoto, chamado Samuel, não havia herdado seu sangue: moreno, olhos e cabelos castanhos, a pequena criança de seis anos era tímida e assustada, mas mesmo assim Gareth o recebeu com simpatia e fez-se logo amigo. Eleanora combinou com ele visitas regulares do neto e convidou-o para almoçar na sua casa, em Odense. Era óbvio que Gareth não iria, mas mesmo assim agradeceu sinceramente.
Assim que saiu do hospital, entrou em contato com o advogado que ficara responsável por sua pequena herança. Era um amigo seu e do seu avô e Gareth lembrava-se da amizade que sentia por ele, nos tempos que bebiam juntos no barzinho da cidade. Seu avô não deixara muito para ele: uma conta de dez mil no banco e o sítio em que os dois viveram. E respirando aliviado por poder ficar sozinho, Gareth rumou para o pé de aveleira que marcava o inicio da estradinha de terra.
Não esperava outra coisa ao ver o mato crescido, a casa em estado deplorável, o tanque esverdeado, a cerca derrubada. Havia sido um sitio tão bonito, seu avô sempre fora caprichoso com aquele pedaço de terra. Lembrava-se bem de correr com a primeira bola por aquele gramado verde vivo, as roseiras atraindo vários insetos, o tanque limpo com a criação de peixes, o enorme carvalho, onde seu avô colocara o balanço de madeira.
Nas semanas seguintes procurou restaurar um pouco da dignidade do sitio, capinando e reerguendo a casa com as próprias mãos. Foi trabalhoso e demorado. Eleanora apareceu duas vezes e pediu pra ele ligar quando quisesse ver o neto. E depois não deu mais sinal de vida, talvez porque estivesse cansada de falar sozinha.
Enfim Gareth estava sozinho, como queria. Ele parecia alheio ao mundo, não falava mais e preferia viver isolado e trabalhando duro de manhã ate a noite. Ele parecia não pertencer mais a este mundo. Como de fato não pertencia mais. Ele simplesmente não conseguia se encaixar no sistema. Para ele, a lembrança de tudo que vivera enquanto estava em coma sempre o perseguiria. E ninguém acreditaria nele se começasse a dizer que foi capturado para uma outra dimensão. Isso estava fora da realidade do mundo. E assim, ele também estava fora daquela realidade.
20 anos depois, num dia comum em St. Catherine...
- Parabéns pelo sucesso, senhor – dizia o editor, apertando a mão de Gareth, enquanto acenava para mais convidados que chegavam. – A Dinamarca, a Noruega, a Suécia e até a Inglaterra não falam de outra coisa! Seu livro é um fenômeno.
Gareth acenou com a cabeça, pouco acostumado com aquelas efusões. Com a reforma, as duas salas ficaram mais arejadas e agradáveis e agora estava cheia de gente importante, e a imprensa contratada para marcar o evento de comemoração do aniversário de publicação de seu livro.
Apesar de tudo, ainda não conseguia sorrir com a mesma facilidade que antes. Nada era capaz de tocá-lo como antes (a não ser algumas pessoas do seu coração) e, no entanto não tinha se tornado um homem frio. E lá estava Eleanora, recém chegada de outra cirurgia plástica, uma viúva magra e respeitável, e uma das críticas mais renomadas no mundo literário.
Ele dirigiu-se a ela com passos incertos, apoiando-se na bengala (tinha sofrido uma queda, não muito séria, mas na sua idade isso já provocava estragos suficientes). Sorriu e disse hesitante:
- Tudo bem? Quer beber alguma coisa?
Ela sorriu de volta e balançou a cabeça.
- Oh não, vou só dar uma circulada e depois tenho uma reunião com o pessoal da revista.
- Ah – disse ele vagamente – Tudo bem.
- Mas Samuel veio comigo – continuou ela andando pela sala e acenando para ele – ele está lá fora com a esposa. Vá falar com ele.
Gareth virou-se e caminhou até a porta. Samuel estava na varanda com a esposa, e ambos conversavam tranquilamente, olhando para a barriga de 8 meses. Sem querer, Gareth sentiu-se mal com aquela visão. Já era a terceira geração da sua família e ele não conhecia ninguém na verdade. Mas Samuel o viu e o abraçou como o bom neto que era. E a esposa dele o cumprimentou também, tratando-o com excessiva simpatia. Por um momento Gareth ficou mal-humorado com as preocupações do casal e disse:
- Isso mesmo, façam tudo pro seu velho avô incapacitado. Nem na sua própria festa ele consegue ficar sem sujar as fraldas.
Os dois riram e Sam deu tapinhas no ombro curvado do avô:
- Está bem, fique sozinho se é o que você quer, seu velho rabugento.
E entraram na casa também. Gareth ficou um tempo olhando para os dois e antes que percebesse um sorriso se desenhara em sua face. Virou-se e manquitolou até a cerquinha da varanda. Apoiando-se um instante na boa madeira, olhou por um momento seu sítio. O gramado verde tingia-se de alaranjado com o crepúsculo. Vagalumes eram vistos pelo tanque e no pomar, e o velho carvalho erguia-se imponente, onde o balanço de madeira que seu avô fizera para ele ainda balançava ao vento. E sorriu ainda mais, sentindo que se morresse ali naquele momento, morreria um homem honestamente feliz.
O St. Catarina era realmente encantador no crepúsculo. Todos os sons de grilos, sapos coaxando, folhas farfalhando, enquanto tudo era dourado naquela terra. E por um momento, por um breve momento, um som suave pôde ser percebido. Aquele som reconfortante e seguro que as mães fazem para os filhos ao lado da cama. E então o sol sumiu por entre as montanhas, o balanço parou e Gareth se foi, finalmente.
N/A: Nada a comentar ;x Eu escrevi ouvindo Strawberry Swing — Coldplay, essa definitivamente é a trilha sonora da fic ^^
mereço reviews? (se alguém conseguiu ler até o fim ;~)
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