Garasu No Namida

2 I- He was like april skies, sunrise in his eyes...


Alguns meses antes...



– Mudar é mesmo um saco – Dizia um rapaz de longos cabelos loiros presos em um rabo-de-cavalo simples, secando com o dorso do antebraço o suor da testa após empurrar para dentro do apartamento a última caixa da mudança.


– Por que diz isso, Hizaki? – Indagava o jovem de cabelos negros e curtos sem olhar para o amigo, preocupado em organizar alguns bibelôs sobre a estante da sala.


– Porque sou eu quem está levando e trazendo suas coisas enquanto você fica aí, arrumando seus enfeitinhos. Francamente, Kaya-chan – O loiro levava as duas mãos à cintura, franzindo o cenho. – Nem uma criança tem tanta coisa no quarto como você tem!


O mais novo deixou-se rir, pendendo a cabeça para trás. Hizaki sorriu largo, deixando a caixa próxima às outras e caminhando em direção ao braço do sofá, onde se sentou e ficou a acompanhar cada movimento gracioso do moreno que há tanto tempo não via.


“Ele realmente não muda.”


Kasei Tatsuya – para muitos, apenas Kaya – era seu melhor amigo desde os tempos de colégio. Tinha orgulho em dizer que não havia nada que não soubesse sobre aquele que, apesar de seus já quase trinta anos, ainda mantinha a enganosa aparência de um adolescente, e a mentalidade em igual situação. Há poucos dias tinha ligado para ele pedindo ajuda para alugar um pequeno apartamento na capital, e Hizaki sabia bem o que aquela mudança repentina significava.


O verdadeiro sonho de Kaya era ser cantor. Começara na adolescência, fazendo covers por diversão em alguns bares e pequenos clubes noturnos. Hizaki não conhecia este lado do rapaz até chegar à casa do mesmo em uma tarde e encontrá-lo no quintal, cantando algo de sua própria autoria. O loiro ficou obviamente surpreso ao descobrir que por trás daquela aparência tão delicada escondia-se uma poderosa voz, além de uma incrível criatividade para compor. A partir daí, passou a incentivá-lo fielmente. Mesmo com a correria entre os estudos e o trabalho de meio período, todos os pensamentos de Kaya voltaram-se à realização desse sonho. O primeiro passo era se mudar para a grande Tokyo, onde certamente conseguiria acompanhamento profissional, e ali estava ele, encarando o mundo além da janela.


A mente de Kaya vagava enquanto os olhos adornados por lentes azuladas fotografavam a paisagem urbana. Riu baixo ao lembrar-se do drama que fizera com o vendedor para conseguir algo nos andares do meio, já que grandes altitudes lhe causavam extrema vertigem. Lá fora, o intenso fluxo de pessoas e automóveis chegava a lhe dar a comum sensação de frio na barriga.


“Finalmente estou em Tokyo. É aqui que eu vou me tornar um grande cantor.”


Atrás de si, Hizaki olhava ao redor com atenção de um corretor de imóveis, achando o local relativamente pequeno se comparado ao local de onde seu grande amigo viera.


– Kaya-chan... Não acha que é um lugar muito pequeno pra você? Tudo bem que vai morar sozinho, mas... Ah, eu não sei. Esse andar está mesmo bom? É barulhento. Dá pra ouvir os carros o tempo todo.


A cabeça voltou-se na direção do mais velho, e um bonito sorriso se formou nos fartos e atraentes lábios do jovem vocalista.


– Você não pára de reclamar.


Corado, Hizaki se levantou, caminhando de encontro ao amigo e pousando a palma destra sobre seu ombro, retribuindo-lhe o sorriso junto a um claro olhar de admiração.


– É engraçado como tudo parece estar sempre bom pra você.





Ainda havia muito a ser arrumado, entretanto, Hizaki precisava trabalhar. Kaya, cansado de desencaixotar coisas e disposto a conhecer melhor o novo local que chamaria de “sua cidade”, optou por tomar um bom banho após a partida do amigo e dar uma volta pelos arredores. Vestiu um jeans escuro, uma camisa branca simples e calçou as botas plataforma das quais tanto gostava. Apesar de gostar de se maquiar, não exagerou na produção, contentando-se em apenas reforçar os traços do lápis de olho e o brilho labial rosado. Estando pronto, saiu, levando consigo uma mochila contendo um velho caderno e um estojo escolar. Tinha certeza de que, durante o passeio, encontraria um ótimo lugar para compor.


Não foi muito longe já que, próximo de seu prédio, havia um enorme e belíssimo parque e o moreno, atraído pelo conjunto de cores e sons, dirigiu-se para lá. Sentou-se em um banco qualquer, encantado pela quantidade de verde do lugar e pelos tapetes coloridos que as flores formavam ao longo daquela agradável extensão. Crianças corriam entre as árvores, ignorando completamente os chamados dos pais. Idosos sorridentes discutiam os mais diversos assuntos e cães brincalhões latiam uns para os outros. Fechou os olhos por um instante, suspirando ao sentir uma gostosa brisa a beijar-lhe a face. Era perfeito demais para uma primeira parada.


Abriu a mochila e tirou dela o caderno acinzentado de capa surrada, tirando de dentre as folhas um papel avulso onde se sobressaíam rabiscos e anotações do que seria uma música, mais uma entre várias outras que já havia escrito ali. Porém, por algum motivo, aquela ainda não havia sido terminada. Munido de lápis e borracha, pôs-se a rascunhar frases aleatórias nas linhas que se seguiam.



Em uma dessas noites

A suave luz da lua mostrando o caminho

O som das ondas batendo nessa

Escuridão de pálida prata



De repente, parou. Olhou para cima encarando o céu que, devido ao horário, começava a alaranjar. Aquela parecia ser sua composição mais complicada. Pensava em modos de terminá-la até que uma rajada de vento o surpreendeu, fazendo voar de seu colo a música inacabada.


– Ah, droga!


Sem pensar duas vezes, disparou a correr atrás do papel fugitivo, torcendo para que não parasse na copa de alguma árvore ou caísse no bonito lago que ali havia.


A poucos metros, uma pálida mão masculina agarrou a folha. O par de olhos azuis percorreu rapidamente as linhas no papel, em seguida olhando para a magra figurinha que vinha a seu encontro. Arqueou a sobrancelha esquerda.


[ Mana’s POV ]


Não é comum que coisas caiam do céu de Tokyo. Por isso, ao ver aquele papel vindo em minha direção, instintivamente ergui o braço na intenção de contê-lo.


Também não é muito comum ver pessoas correndo atrás de papéis voadores. Presumi que aquele papel devia estar voando há um bom tempo, já que o rapaz que o perseguia estava realmente cansado. Pelo suspiro de alívio que deu ao ver-me com a folha em mãos, devia ser algo extremamente importante.


Não que o conteúdo do papel me interessasse. Só queria saber quem era aquele jovem de traços tão bonitos que ofegava sem parar.


A mão fora levada ao peito, tentando equilibrar a respiração difícil. Até cogitei dizer algo, mas não apenas perdi a chance como também esqueci meu texto quando ele ergueu aquele rosto vermelho e me presenteou com o mais belo sorriso que já pensei em receber de alguém, ainda mais um completo desconhecido. E o mais surpreendente foi que, apesar da tarde já caminhar para seu fim...


Ele tinha o nascer do sol nos olhos...