Garçonete

3 Cap. 3 - Lembranças impertinentes e vida maldita


- Ei, Em, você está bem? — perguntou Benji notando minha palidez.

- Que? Ah, to sim, to bem. Já volto. — falei, dando-lhe as costas, mas não antes de pegar um pedaço de queijo.

Ouvi Benji rir atrás de mim e sai disparada escada acima.

- (...) Vocês não sabem como esse menino me deu trabalho. — ouvi minha mãe dizer quando cheguei onde estavam. Encarei Igor e trinquei o maxilar. Meu querido e perfeito irmão havia retornado. Que ótimo! Ele notou que eu o encarava e suspirou ao meu reconhecer. Minha mãe parara de falar e olhou para mim, como todos ali presentes.

- Ah você está aí – disse minha mãe puxando-me para perto de si.

- Oi Emma. — disse ele.

- Oi Igor.

- Vejo que se reconheceram. — disse Ricardo atrás de Igor, tocando-lhe o ombro. Igor enrijeceu a postura com o toque de Ricardo, ele não gostava dele tanto quanto eu. Pelo menos algo em comum com meu irmão. Igor não era lá muito parecido comigo, de fora ninguém diz que somos irmãos. Temos quase o mesmo tom de pele, mas seu cabelo é bem mais escuro que o meu. Seus olhos são mais escuros partindo para o preto. Nada a ver um com o outro. Mas talvez, na mentalidade e na personalidade, há quem diga que somos iguais.

- Irmãos se reconhecem de longe Ricardo. — disse Igor, sem tirar os olhos de mim. Cara, to me sentindo uma anã, ele é alto demais.

- Você cresceu. — falei.

- E você diminuiu. — falou ele, dando um sorriso de lado.

- Só na altura. — sorrio também, enquanto ele mantém seu sorriso.

- Porque não colocam o papo em dia, vejo que tem muito que conversar — ouço Ricardo dizer, eu o encaro torcendo para que meu autocontrole funcione, para que eu não o esmurre aqui e agora. Olho para Igor e noto que ele até quer sair dali, mas sei que é só para não ouvir a voz de Ricardo.

Dou-lhe as costas e volto para onde Benji está. Ele me segue. Dou a volta na bancada de comida com os olhos de Benji focados em mim, mas logo se desviam para fitar Igor, que para frente à bancada.

- Ben, este é Igor, meu irmão. — falo, puxando uma cadeira e me sentando ao lado de Benji. Pego o pote de queijo e coloco alguns pedaços na boca.

- Prazer cara. — diz Benji, levantando-se e estendendo a mão, cumprimentando Igor. Ele aperta sua mão, mas não diz nada, só me observa.

- Vejo que continua gostando de queijo. — fala ele. Assenti.

- É sempre assim cara, não pode ver queijo. — fala Benji. Vão começar a falar de mim agora?

- Era assim quando criança também, disputávamos quem comia mais queijo e Em sempre ganhava. — os dois riram. Coloquei o pote na mesa e cruzei os braços, o fitando.

- E ai Igor, o que tem feito nesses últimos cinco anos? – chega de falar de mim.

- Acabei a faculdade de direito, to trabalhando numa empresa boa e provavelmente daqui a alguns meses pretendo me casar. — eu arqueio as sobrancelhas, realmente chocada.

- Casar?

- É. Conheci uma garota, ela é legal, bonita. Bem inteligente por sinal, é do trabalho.

- Sei. E cadê ela? – o queijo estava acabando.

- Não pode vir. – Igor baixou os olhos e arqueou os ombros em sinal de “tanto faz”.

- Entendo. Muito trabalho, né?

- Sim. — ficamos em silencio por instantes. Olhei para Benji e ele comia o resto do queijo que tinha no pote, tiro o bendito pote da mão dele e o olho de cara feia. Ele encolhe os ombros e eu sorrio, voltando a comer o queijo. — E você Emma, namorando? Ta trabalhando em que?

- Ah, nada demais não. E to investindo numa parada ai. – Benji me olha desconfiado.

- Sério? Que parada? – pergunta realmente interessado. Ferrei-me.

- Ah! Prefiro não comentar, vai que não dá certo. — Benji me encara com uma cara confusa, eu o olho, mas logo desvio meu olhar e encaro o pote de queijo na minha mão. — Quando vai se casar?

- Ainda não sabemos. Rachel está cheia de coisa no trabalho, estamos adiando isso por enquanto.

- Mamãe já sabe? – pergunto, olhando para onde ela se encontrava.

- Ainda não.

- Quando pretende contar?

- Quando for certo. – se limita a falar.

- Hm. — Benji olhava de Igor para mim, de mim para Igor, sem entender o tom de hostilidade que usávamos.

- Algum objetivo Emma? Ou continua sendo descompromissada? — o fuzilei com os olhos e respirei fundo antes de responder.

- Não precisa se preocupar com meus objetivos Igor, tenho meus próprios caminhos para chegar onde eu quero. Se não conseguir, não foi porque eu não tentei. Eu nunca tive nada na mãozinha como você, irmãozinho.

- Se tivesse aguentado mais alguns anos aquele merda estaria bem melhor que eu.

- Mas eu não sou falsa como muitos por aqui, eu tenho minha própria cabeça e não faço nada que não queira.

- Essa é a minha irmã. — disse ele sorrindo. Parecia realmente orgulhoso. Igor havia mudado, senti isso. Havia se tornado mais responsável do que antes, apesar de ser o único responsável desde pequeno nessa família. — Não sabia que você tinha se tornado tão matura.

- Você não me conhece mais. — ele me olhou com uma expressão que eu diria estar decepcionado. Talvez ele se culpe por não me conhecer, talvez não. Bem que eu queria, assim eu também me sentiria culpada por não ter ido com ele.

- Oi, você é o Igor? — perguntou uma senhora com a cara cheia de botox. Ela brotou ao lado do meu irmão. Benji estava quieto como sempre, ele nunca se metia em assuntos que não lhe desrespeitasse. Foi fazer os pratos que serviria no jantar.

- Sim, sou eu. E a senhora?

- Sou amiga da sua mãe. Ela falou muito de você. — disse ela, abrindo um sorriso de “Vem que tem bebê”. Sabem? Aquela criatura que saiu do sarcófago que quer um garotinho pra criar? Tipo de velha que gosta de garotão! Onde esse mundo vai parar? Respondam-me! Ah sim! No fundo do poço!

- E o que ela falou? — perguntou Igor afastando-se um pouco da mulher que já se aproximava dele pronta para atacar.

- Disse que você é um exemplo de filho, se formou em advocacia. Meus parabéns! — essa COISA já passou da idade, né? Idade não! ÉPOCA! MILENIOS! ERAS! Essa mulher deve ser a noiva do matusalém! Aquele eremita barbudo e fedorento conhece? — Vejo a sorte que ela tem de ter um filho como você, deve ser o orgulho dela.

- Nem tanto, sei que minhas irmãs também são. — ele me olhou, pedindo-me ajuda.

- Irmãs? Não sabia que você tinha irmãs, sua mãe não disse nada. — ela olhava dele para mim, surpresa.

- O que? – perguntei, franzindo o cenho. Minha mãe não fala das filhas? Por que não? Vergonha de ter uma filha que é mãe e uma que é desempregada? Puta merda!

- Deve ser algum engano Emma, a mãe não falaria... — não o deixei acabar de falar, peguei minha bolsa e sai dali. Subi as escadas com passos pesados e determinados. Passei pelas pessoas que me passavam repulsa e falsidade. Ouvi minha mãe berrar meu nome. Ignorei e sai daquela casa. Bati com a porta e fui caminhando até o ponto de ônibus.

Peguei o que me deixaria mais para o centro. Sentei-me num dos bancos lá de trás e fitei a rua pela janela. Vi uma mulher com duas crianças entrarem no ônibus.

Um menino e uma menina. As duas riam e implicavam um com o outro, divertindo-se. A mãe brincava com eles, fazendo cócegas. Sentaram-se perto de mim e pude ouvir o que falavam.

- Mamãe, mamãe, você vai comprar sorvete pra gente? — perguntou o menino.

- É mamãe, você prometeu. — disse a menina.

- Se eu prometi, eu vou cumprir, não é?

- Eba! — gritaram ambos.

- Eu quero de chocolate! — disse a menina

- Eu quero de morango! — informou o menino.

- Você me dá um pouco do seu? — perguntou a menina cutucando o irmão.

- Só se você me der um pouco do seu. — ela assentiu e eles voltaram a implicar um com o outro. Lembrei-me de mim e de Igor. Brincávamos em nossa casa da árvore quando tínhamos seis e 10 anos. Jamie não gostava muito de brincar com a gente e preferia brincar com suas bonecas – a patricinha que engravidou, que ironia. Eu sempre fui mais chegada a futebol, vídeo game, e sempre brincava com Igor.

Um dia eu estava na casa da árvore e Igor brincava de bola no jardim. Ao chutar, a bola quebrou a janela de vidro da sala. Desci da árvore e fui ver o que tinha acontecido.

- A mãe vai brigar muito. Droga! – ouvi Igor xingar.

- Você sabe que não pode jogar bola perto da janela Igor. — eu falei.

- Tá ta. Para de ser tão certinha Emma. O que eu faço agora? – perguntou para si.

- Mas que porra foi essa aqui?! — ouvimos a voz de minha mãe berrar dentro de casa.

- Sobe pra árvore Igor. — falei.

- O que?

- Sobe logo! — ele fez o que eu mandei. Minha mãe chegou ao quintal com a bola debaixo dos braços e chamou por Igor.

- Sabe muito bem que não quero você brincando de bola perto da janela! — gritava ela.

- Mãe! Mãe! — eu berrava.

- Que é Emma?! – ela olhou pra mim furiosa.

- Fui eu.

- O que? — minha mãe me olhou chocada.

- Fui eu. Eu estava tentando chutar como o Igor, mas acabei chutando errado e bateu na janela. — menti.

- Mas que droga Emma! Sabe que não é pra jogar bola aqui! Está de castigo entendeu? Sem tv por uma semana. — falou ela. Virou-se e entrou na casa.

- Porque fez isso? — perguntou Igor ao descer da casa da arvore.

- Já to cansada de levar esporro, mais um não faria diferença. — e era mesmo verdade. Igor era o santo, mas quando fazia merda era A merda. Jamie sempre foi à mimadinha, desde que fugiu com o rockeiro, grávida. E eu, sempre fui a ovelha negra mais ferrada da família. Sem grana, sem namorado, sem emprego.

Até na escola eu não tinha muitos amigos, era mais o Igor mesmo, e quando ele estava com os amigos ou atrás de um rabo de saia, era eu e só eu. Se bem que de vez em quando aparecia algum garoto correndo atrás de mim, mas nunca fui de dar bola para essas paixonites. Isso nunca foi problema. Eu me conhecia, eu me conheço. Eu sou a companhia perfeita pra mim mesma. Sempre fui.

Agora vendo esses irmãos brincarem e combinarem dividir o sorvete lembrou-me o tempo que perdi odiando minha família e o caos em que ela se instalou. Mas ainda acho que esse meu ódio é justificado.

Cheguei ao centro e saltei na esquina da agencia de empregos. Fui até lá e entrei. Parando em frente à mesa de Chêrise, ela me olhou e bufou, baixando a cabeça.

- Mas que coisa garota, você não consegue se manter em nenhum emprego?

- Não é minha culpa se não sabem lidar comigo.

- Ou você que não sabe lidar com eles — Chêrise havia se tornado minha amiga. Ela que me arrumara todos os possíveis empregos. Desde secretaria numa empresa falida, — onde eu fui assediada por um bêbado fajuta que nem bêbado aquela criatura conseguia ser, — até o empreguinho miserável na Agencia de Correio Amorosa, onde eu separava as correspondências conforme eram datadas. Tipo, eu separava as cartas de amor, das datadas para a Igreja. Recebíamos muitas cartas para a Igreja – como se Deus respondesse via cartas. Uma vez recebemos um pacote, e pelo que deu para notar, era uma fita de vídeo cassete. Coisinha mais velha, né? Enfim. Eis que eu pensei que era de amor, botei na parte de amor.

Duas semanas depois, recebo um processo dizendo que mandamos um vídeo pornô para Igreja. Só que no vídeo, aparecia uma das irmãs mais nova do padre, da paróquia que tinha ali perto, transando com um dos noviços que a Igreja educava para se tornar padre. Ferrei a vida da garota, ferrei a vida do noviço, ferrei a minha vida com um processo do qual não tive culpa! AFINAL, QUEM EM SÃ COINCIENCIA GRAVA UMA TRANSA E MANDA PRA CASA DA GAROTA?

E claro, perdi o emprego.

- E ai, tem algum trabalho disponível? – perguntei, apoiando-me em sua mesa.

- E o restaurante Emma? Há dois anos você não aparece aqui. Pensei que tinha dado jeito na vida e se dado bem.

- Que nada Ché, um mané veio de gracinha pra cima de mim.

- Que gracinha? – perguntou, piscando os cílios algumas vezes.

- Um cara com cara de traveco me chega e pergunta como é feito o macarrão alho e óleo do restaurante?! Ah, faça-me o favor, né? Eu disse pra ele que o macarrão é posto na água quente e pronto, só esperar. — Chêrise ri nessa hora.

- Só você Em.

- É né? Ai ele vai chama o gerente dizendo que eu estava de gracinha pra cima dele, então eu fui e coloquei pimenta no maldito macarrão dele.

- E assim você é despedida. – disse constatando o óbvio. – Você não vale nada garota. – disse, rindo.

- É. – afirmei. – Eu sei.

- Olha Em, não sei o que eu tenho aqui pra você.

- Vê ai Ché, eu preciso trabalhar. – implorei.

- Sei que sua mãe poderia te ajudar.

- Não peço nada pra ela Ché, sabe disso. — nesses dois anos, Ché sabe mais da minha vida do que eu mesma.

- Bom Em, se você é mesmo tão cabeça dura quanto me mostra ser, não sei se vai aceitar este emprego que tenho aqui.

- É o que? — levantei-me da cadeira e olhei no computador dela. — Ah não Ché, de novo?!

Notas finais
reviews?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.