Garçonete
1 Capítulo 1 - A vida pode piorar?
Notas iniciais
Cá entre nós, eu não sou a pessoa mais confiável para perguntar: “Você é feliz no seu emprego?” Se eu ao menos gostasse, até responderia um singelo e alegre “SIM”. Afinal, para quem trabalha há dois anos como garçonete, não é para acreditar em um “SIM” desses.
- Ei, você ai! — chamou-me mais um dos clientes. Fui até ele e parando na sua frente, esperei que este me falasse o pedido. Aguardava com um bloco e uma caneta nas mãos. — Como é feito esse prato aqui? — perguntou ele, enfiando o cardápio na minha cara, apontando um dos pratos principais da casa. Afastei-me dando um passo para trás, olhando para onde o cara apontava.
- Senhor, isso é macarrão. – falei o óbvio.
- Sim, eu sei! — esse cara deve está de onda com a minha cara, como ele cisma em me perguntar como é feito um macarrão? — Como é feito?
- Ahn, então... O macarrão é posto na água quente e esperam-se alguns minutos, sabe? Pra cozinhar? Então... — fui falando, gesticulando, mostrando-o como se colocava o macarrão na panela com água quente. Fiz com os dedos as bolhas de água fervida que subiam.
- A senhorita está debochando de mim? — parei de falar na hora, com cara de “Esse cara deu um tapinha antes de vir pra cá!”.
- Não senhor, foi o senhor mesmo que me pediu para falar como o macarrão é feito e...
- Ora essa! Onde está seu gerente?! Chame seu gerente!? Isso é uma falta de respeito!
- Como é hein? Falta de respeito? Senhor... — o cara então se levantou da mesa. Sério, esse homem aparentava ter seus 50 e poucos anos, mas era alto e forte como um touro brabo, e levar uma chifrada na bunda era a última coisa que eu queria.
- Cadê o gerente?! — berrou ele, atraindo a atenção das pessoas que estavam ali. Olhei ao redor dando de ombros e arqueando a sobrancelha. Se o cara queira pagar um mico, que pagasse sozinho.
- O que está acontecendo aqui? — perguntou Ângelo ao chegar à mesa onde o Senhor Berrante aclamava seus direitos!
- Está garçonete... — começou ele. Coloquei minhas mãos na cintura o olhando com descrença. — Debochou da minha cara.
- Não debochei nada! — me virei para Ângelo, explicando — O senhor aqui, — apontei para ele com o queixo — pediu-me que explicasse como o prato era feito. Um macarrão! Então eu lhe falei que se colocava o macarrão numa panela de água quente e espera-se que este cozinhe! Só foi isso! — me expliquei. A cara de Ângelo foi do roxo azulado para o vermelho, de vergonha. Os clientes ali presentes riam baixinho.
- Vai deixa-la falar assim comigo, senhor? — aquele tapado queria levar um soco ou algo assim? Aparentemente, sim.
- Desculpe senhor, a Emma é meio... – Ângelo olhou para mim de cima a baixo. — É o jeito dela. Ela se desculpará e irá trazer sua comida. — ele me olhou, esperando que eu “concordasse”. Olhei em volta, notando que os clientes também esperavam minha resposta. Olhei para o cara de traveco e baixando os olhos, assenti. Ele se sentou, mostrando-me de novo o cardápio, apontando para o tal macarrão. MACARRÃO ALHO E OLEO CARA! POR DEUS! Dei-lhes as costas e entrei empurrando a porta com força, a abrindo, na cozinha. Fui até Benji, o cozinheiro.
- Ben, um macarrão alho e óleo pra um traveco que tem lá fora. — ele me olhou, rindo. Apoiei-me na bancada onde eu podia vê-lo. Estiquei-me e peguei um pedaço de queijo o enfiando na boca, mastigando.
- Traveco Em? Que traveco?
- Tem um cara lá fora que pediu macarrão! Ou melhor, pediu que eu lhe explicasse como se fazia o tal macarrão! Então, eu expliquei. — dei de ombros, pegando outro pedaço de queijo. Sim, sou viciada em queijo. Uma verdadeira ratinha.
- O que você disse? – ele parou e me fitou com um sorrisinho de canto.
- Falei que era só colocar o bendito macarrão na água quente! — exclamei, fazendo uma careta, pegando mais um queijo.
- Vai acabar com o queijo! Saia daqui sua ratinha! — disse ele, rindo. Tirou o pote de queijo de meu alcance, o colocando bem longe de mim. Triste.
Benji era o tipo de homem que você quer por perto. Além de ser bonito, era inteligente e engraçado. Fazia faculdade de culinária e estava nesse emprego medíocre por questões financeiras. Só que no caso dele, era pra pagar a faculdade mesmo. Benji tem 21 anos e é um exímio chef!
- E o macarrão? — perguntei.
- Aqui está. — disse ele, derramando o macarrão no prato a minha frente. Olhei para um dos temperos que estavam dispostos ao lado do fogão. Espreitei-me até lá e procurei pela pimenta. — O que vai fazer Emma?
- Você vai ver. — peguei o frasquinho de pimenta, e uma colher. Tirei um pucado do frasco e joguei no macarrão. Soltei um ”tsc”, pegando mais um cadinho de pimenta, a despejando no macarrão. Acabei jogando o frasco inteiro no macarrão, que se transformou em uma coisa rosada.
- Você ficou maluca?! Você pode matá-lo! — o olhei diabolicamente. Joguei o frasco para ele, que pegou com uma mão. – Volte aqui com isso Emma! – o ignorei.
Caminhei até a mesa de aquele ser miserável e coloquei o prato à sua frente.
- Aqui está senhor, bom apetite. Aproveite seu delicioso macarrão! – falei em tom de deboche. Ele me olhou desconfiado, sorri e lhe dando as costas, fui atender outro cliente. Enquanto anotava o pedido, olhava de soslaio para ele.
O cara enrolou um pouco do espaguete no garfo e o enfiou na boca, mastigou uma, duas, três vezes até... Levantar num pulo da mesa e apertar a garganta, lágrimas escorriam pelo seu rosto, ele batia na mesa, apertando a garganta e com a língua para fora. Num voz rouca, pedia água. Fui até a bancada do caixa, onde sempre deixavam uma jarra de água, e a peguei. Fui ate ele e num ato de total impulso (!!??) joguei toda a água em sua cara. Ele me olhou desconcertado e chocado. Parada na sua frente com a jarra nas mãos, ele sentou-se a mesa e me fuzilou com os olhos. As pessoas a nossa volta nos olhavam assustadas e perplexas. Ângelo veio trotando, como sempre fazia, quando estava nervoso e emputecido.
- Mas que porra foi essa Emma?! O que você fez? O senhor está bem? — perguntava, ora olhando pra mim ora olhando para o Senhor Aquaman. O senhorio estava mesmo encharcado!
- Ele estava pegando fogo eu só apaguei! — falei, ainda com a jarra nas mãos.
- Tinha. Algo. Nesse... — ele inspirava com dificuldade, arfando. — Nesse... Macarrão! — falou, finalmente. Benji aparecera na porta que dava para cozinha, espiando o incidente que eu causara. Ângelo, o vendo ali parado, o chamou. Benji, receoso e amedrontado, veio em passos lentos até nós.
- O que você colocou nesse macarrão? — Benji me olhou de relance, e eu baixei os olhos.
- Eu o preparei como sempre senhor. Ao alho e óleo.
- Mas tinha algo... Ardente... Como... Pimenta! — murmurou o Homem Tocha! Ardente, né? Hm, ta bom. Ele gosta de um fogo!
- Benji, o que mais colocou nesse macarrão? — Ângelo me olhou e dobrou a cabeça de lado como se quisesse ler minha expressão. Bom, eu sei mentir, sou uma ótima atriz, então em minha face, ele não via nada. — Ou me fala o que tinha nesse macarrão... Ou você está na rua!
- Não! Senhor, eu não pus nada no macarrão!
- Então, alguém colocou. Você sabe quem foi Benji? — Ângelo andou até ele, parando bem a sua frente. Às vezes me lançava uma olhada, pronto para qualquer movimento audacioso meu. Eu sabia que ele desconfiava de mim. Ameaçando Benji, eu ia acabar falando.
- Não, senhor. — disse Benji, eu sabia que ele não ia me dedurar. Era algo que construímos nesses dois anos trabalhando juntos. Confiança e proteção. Muitas das vezes, ele me protegia, no final, eu aprontava e ele me salvava. Mas dessa vez, parece que terei que retribuir.
- Benji, quem colocou pimenta no prato deste senhor? — olhei de Benji para Ângelo, de Ângelo para o Homem Tocha. Acho que ele precisa voltar a ser o Aquaman, o cara estava vermelho.
- Como se o senhor não soubesse! É claro que foi essa garota mal educada aqui! — falou ele, apontando para mim, vindo pra cima de mim. Peguei a jarra de água que joguei nele, a levantando para me proteger – como se uma jarra fosse dar conta de um cara como esse.
- E foi Benji? — perguntou Ângelo, olhando com uma cara de “vou te comer” para ele. Benji estava impaciente, ele odiava ser pressionado assim, ele começava a suar e a gaguejar, entregando-se tão facilmente.
- E se fui eu? — perguntei, colocando finalmente a jarra na mesa.
- E foi Emma? — Ângelo virou-se para mim, o cara com cara de buldogue miserável se sentou na cadeira, pegou um guardanapo e tentou se secar. Benji me fitava, balançando a cabeça negativamente. O que? Não me entregar?
- Foi. — as pessoas murmuraram um “oh” espontâneo que me fez rir. — Gostou do macarrão, senhor? Foi feito especialmente para você — debochei, sorrindo para o idoso bobão! Já devem ter notado que adoro inventar apelidos, não é? Sim, é meu passatempo preferido.
- Ora sua... — ele fez menção de se aproximar de mim, mas Benji se pôs em minha frente, bloqueando seu caminho.
- E você foi cúmplice, certo? — perguntou Ângelo para Benji. Ele ia responder, mas, o tirei da minha frente, pronta para argumentar.
- Benji não teve nada a ver com isso, ele não me viu colocando a pimenta. Foi tudo minha ideia, minha culpa. — e era mesmo, uai.
- Você está demitida Emma, pegue suas coisas lá atrás e saia do meu restaurante! — bradou Ângelo na minha cara. O olhei inexpressiva. Eu sempre aprontara em seu restaurante nesses dois anos e ele passava por cima, por saber que preciso desesperadamente desse emprego, mas, agora, eu realmente vi que havia passado dos limites.
- Ângelo, você não pode me despedir, sabe que preciso desse emprego. – sussurrei, apenas para ele.
- Pensasse nisso antes de armar mais uma de suas travessuras! Não aguento mais, saia daqui agora mesmo! — olhei para o cara de cevada e ele sorria de braços cruzados. Olhei em volta e todos tentavam se concentrar em suas comidas, para quem sabe, diminuir meu constrangimento. Benji me fitava desconcertado, baixou os olhos quando eu o olhei. A culpa não era dele, sei que precisa mesmo desse emprego e eu não faria nada que o prejudicasse.
- Ótimo, fique com esse seu restaurante chinfrim! — dei-lhe as costas, mas antes que eu pudesse sair me virei para o velho e levantando minha mão, mostrei-lhe o dedo do meio. Desamarrei o avental e joguei na cara do Papa Gay.
Ângelo já ia começar o sermão, mas, virando-me, sai dali. E mais uma vez, estou sem emprego. Que fantástico!
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