Notas iniciais
Oiee!!!!
Eu escrevi isso depois de ler o capítulo 509 e imaginei essa possibilidade no enredo. Algumas coisas estão levemente alteradas para se encaixarem melhor no cenário, mas em geral aqui têm informações canônicas então tomem cuidado com leves spoilers.
Bem, acho que é isso. Boa leitura e até mais,

Khun corria o máximo que conseguia, virando pelos corredores tentando chegar ao time do Hockeney, Rak e Elaine.

O perigo sussurrava no seu ouvido tão próximo que ele poderia paralisar de medo, se já não estivesse afundado em frustração. O gosto de fracasso, tão familiar, era a única coisa que ele se concentrava além do esforço nas suas pernas para continuar correndo.

Ele podia sentir seu coração batendo no ouvido, o impacto dos seus pés no chão e o medo impulsionando seu corpo a correr ainda mais. O ranker que estava atrás dele sem dúvida o mataria no primeiro segundo em que pusesse as mãos nele, e apesar das suas novas habilidades com o shinsu e cura não havia nenhuma garantia que ele pudesse vencer, então ele correu.

Ele virou por mais um corredor enquanto ouvia os gritos dele cada vez mais próximo, e ele teria acelerado se isso fosse possível, mas ele já estava no limite. Logicamente um regular humano, mesmo com sangue das dez famílias, não poderia ter vantagem física em comparação a um ranker. Nesse ritmo ele teria menos de um minuto de vantagem antes que ele o alcançasse.

Não ajudava que sua mente estivesse tão perturbada, repetindo de novo e de novo informações para se auto sabotar. Dizendo para ele parar, porque era ilógico correr quando não há garantia para escapar. Dizendo o quanto ele era patético, levando um ranker em direção aos seus amigos, quando devia estar os ajudando. Dizendo o quanto ele tinha piorado tudo e colocado Bam ainda mais em risco quando devolveu os poderes de White, simplesmente porque estava desesperado para ser útil.

Então Khun sentiu seu corpo encolher para o lado, desviando instintivamente do raio antes que ele pudesse tomar a escolha consciente de fazê-lo. Nem um segundo depois o som do grito e do raio chegaram até ele, um estridente e outro estrondoso tão alto e doloroso que ele teve que resistir o impulso de tapar os ouvidos.

Quando ele se virou para quem usou o raio, uma parte dele quase estava aliviada porque sentiu que poderia ser Ran. Mas era impossível, porque Khun garantiu que Ran estivesse longe dali, longe de Maschenny.

— Estava à procura de um rato, e encontrei um grande. – a voz masculina vinha da pessoa coberta pela capa, e mesmo sem poder vê-lo, sua voz era indistinguível. – Olá, irmãozinho, sou Asensio.

— Eu sei quem é você. – Khun respondeu.

Marco sorriu suavemente, e começou a descer em direção ao chão, à Khun. Apesar do sorriso não ser cruel, ou do tipo que prometia segundas intenções, não fez com que Khun ficasse menos apreensivo. Ainda sentindo a adrenalina correndo pelo corpo e a resposta de fuga ainda disparando na sua cabeça, Khun se forçou a tentar parecer externamente calmo.

— Entendo. Parecia que você estava em perigo, então me intrometi, desculpe por isso.

— Gentileza não faz o tipo da nossa família. — Khun disse descaradamente ousado para mascarar a apreensão que a aproximação de Marco lhe causava.

Marco parou na sua frente afastado o suficiente para respeitar seu espaço pessoal, mas próximo o suficiente para acionar mais bandeiras vermelhas na sua mente.

— Sim, “nenhuma boa ação será perdoada”— Marco disse a frase tão repetida pelos membros mais jovens da família Khun como piada, apesar de verdadeira. – Minha intervenção não é genuinamente bem-intencionada, é claro.

— O que quer comigo?

— Quero um acordo. Agora que todos na Torre sabem que o irregular está escalando, o caos inevitável está se instalando. Muitas revoltas estão sendo organizadas e realizadas pela esperança do fim de Zahard e seu governo, e muitos estão aproveitando o levante para conseguirem o que querem. O irregular se tornou uma imagem de esperança pela mudança, muito parecido com o que você se tornou quando saiu da família. Mostrando a todos que era possível irem contra o sistema hierárquico da família, que era possível desafiar a autoridade do pai e até roubar dele. Alguns anos se passaram, mas muitos ainda se lembram do seu nome, AA. Então porque não usar essa imagem para ajudar a destronar nosso pai?

Khun queria ter uma resposta na ponta da língua, seja ela sim ou não, porque tempo para pensar significava que ele não estava convicto das suas vontades. E essa não era uma verdade que ele queria que fosse do conhecimento de terceiros. Mas apesar disso, ele se viu parado em frente a Marco, com os olhos arregalados, considerando.

A resposta certa era sim. Era para esse objetivo que ele estava escalando, procurando aliados e tentando ficar mais forte a cada dia. Certo? Isso era o que ele queria desde antes de Bam entrar na sua vida e bagunçar suas prioridades.

Mas o sim não saiu espontaneamente e Khun sabia por quê. Era porque ele não queria ir, apesar de suas ambições. Ele queria ficar ao lado de Bam, para escalar com ele e Rak. Khun prometeu que levaria Bam até o topo da Torre, e pela maior parte de todos os segundos conscientes da sua vida até então, é só isso que ele tem pensado.

Ele sempre pensou que esse era um objetivo a longo prazo, e que por enquanto só o que ele poderia fazer era o que já estava fazendo. Portanto, depois que ele colocasse Bam no topo da Torre ele iria atrás de Eduan. Depois. Depois que Bam ficasse forte, e não estivesse em perigo. Depois das estrelas. Depois que ele não precisasse mais de Khun.

Mas o gosto do último fracasso ainda estava na sua boca, e todos os anteriores não foram esquecidos. Ele não era forte o suficiente para ficar ao lado de Bam sem ser um fardo, e ele já estava ciente disso há muito tempo, mesmo antes de atrasar dois anos de crescimento. E mesmo se Khun for indulgente consigo mesmo, se convencendo de que ele poderia ser útil de outras formas isso seria mentira. Porque mesmo no seu elemento, mesmo em estratégia, ele falhou. Bam precisava mesmo dele ou Khun estava se enganando para ter motivos para ficar? Em tudo o que Khun poderia pensar que ele seria um suporte, Bam poderia ter um substituto melhor. Ele tinha bons amigos que ficariam ao seu lado, tinha aliados fortes, princesas caindo aos seus pés e a FUG. A verdade era que Khun nunca precisou ficar, ele quis ficar. A pergunta era: ele poderia continuar sendo egoísta?

— Além disso, quando tomarmos a família Khun, você poderá ter poder e influência o suficiente para ajudar o irregular. Porque não ir onde você pode fazer a diferença?– Khun não sabe quando ele abaixou o olhar enquanto pensava, mas teve que levantar a cabeça para ver Marco sobre a sua franja.

Khun se alarmou ainda mais com o argumento que bateu com tudo nas suas inseguranças. Era pior do que não ter nenhuma carta na manga, era como ter todas as cartas viradas pra cima na mesa para que todos vissem. Como ele poderia voltar aos jogos da família Khun estando tão fraco e vulnerável?

— Esse acordo está suspeitosamente bom pra mim.

— Suas vontades já estavam de acordo com o que queremos. Isso é tudo.

Khun não precisava ter tido nem um décimo da experiência de acordos com sua família para saber que claramente tinha mais lá do que Marco estava falando. Mas ele já sentia a balança pendendo para o sim, e sentir que tinha enfim um objetivo cujo resultado era alcançável foi aliviante. Uma determinação que ele não sentia a tanto tempo que já tinha esquecido como era corria pelo seu corpo, e isso fez espontaneamente um sorriso não muito agradável cortar seu rosto.

— Eu só tenho mais um pedido. – Khun disse com confiança – Quero que Bam consiga sair desse lugar vivo e com Jinsung.

— Isso pode ser arranjado, irmãozinho.

Bam tentou se manter calmo e não pensar no pior.

Quase todos os amigos dele estavam espalhados com os outros sobreviventes naquela nave e Bam estava procurando por Khun a alguns minutos e não conseguia encontrá-lo. Os únicos que viram Khun desde que todos se separaram foi Hockney, Elaine e Rak, e Hockney disse que na última transmissão de Khun com eles ele estava em uma sala de controle a procura de um rato com seus faróis.

Bam viu a preocupação nos olhos dele antes de sair rapidamente para continuar procurando.

Ele tinha uma suspeita que Hwaryun poderia estar pairando por perto da sala onde seu mestre estava se recuperando e sem esperar mais um segundo se dirigiu para lá.

Quando ele a encontrou do lado da porta de entrada, ela não deu a ele a oportunidade de perguntar antes de responder.

— Ele está trilhando seu próprio caminho.

Bam teria perguntado “o que?” se não tivesse parado um segundo para respirar depois de correr todo o caminho com o corpo machucado e exausto. Mas esse segundo deu tempo pra ele pensar, e quando ele entendeu só conseguiu sentir alívio de Khun estar em algum lugar e não simplesmente morto.

— Onde ele está?

Hwaryun olhou pra ele atentamente, e esse era seu olhar de sempre, mas Bam não podia deixar de sentir que dessa vez era diferente.

— Meu Deus não deve ir atrás dele.

Bam estava muito exausto psicologicamente para lidar com outra montanha russa de emoções, e quanto mais ele pensava no que poderia significar aquelas palavras mais ele sentia que poderia começar a chorar.

Hwaryun andou para frente até parar ao lado de Bam, e estendeu uma mão até seu ombro como se o quisesse confortar.

— Você deve aceitar.

— Aceitar...? – ele disse confuso, mais para si mesmo do que para ela. As próximas palavras não vieram rapidamente, mas Hwaryun olhava pra ele como se apesar de saber o que ele queria saber ainda esperava que ele perguntasse. – Seu caminho não é comigo?

— Alguns sim.

— Então eu não tenho que aceitar. – Bam falou teimosamente. — Se existe um caminho que você consiga ver, eu o trilharei.

— Meu Deus. – ela disse e parou de repente como se estivesse repensando o que diria. E isso era tão diferente da sua confiança calma que Bam tentou se agarrar a essa esperança, de que talvez ela não tivesse certeza.

— Esses caminhos não existem mais. Eu sinto muito.

Parecia inquestionável, sem margem para discussão. Entretanto ela não se afastou, como se soubesse que ele não aceitaria.

— Por quê? – ele perguntou e sua voz estava mais baixa do que seu tom normal.

— Os caminhos podem mudar com as nossas escolhas – ela disse como um discurso ensaiado – Khun Aguero Agnis escolheu qualquer caminho que poderia estar ao seu lado, mas você não o escolheu de volta.

— Não, isso está errado – Bam respondeu, seu tom se elevando com a indignação – Eu nunca abandonaria ele, nunca o afastei, e pedi para ele ficar comigo. Como então eu não o escolhi?

— Tem certeza? Pelo que consigo ver você sempre teve escolhas, enquanto você sempre escolheu Rachel, Khun sempre escolheu você. Mas isso não era o suficiente para selar seus destinos.

Ela começou a se afastar, mas Bam já tinha se decidido.

Hwaryun virou para ele, como se encerrasse a discussão com a frase.

— A torre não se importa com corações partidos.

Mas se tem uma coisa que Bam sabe, é que a Torre não controla o destino dos irregulares.

Notas finais
Khun parece do tipo que precisa fazer a diferença para se sentir merecedor, né não? Realmente acho que ele se sinta um pouco de lado na jornada de Bam, por isso essa ideia não me saiu da cabeça. Se Bam conseguisse transmitir seus sentimentos Khun entenderia que Bam precisa dele ao seu lado, independe de habilidades, e que Khun é insubstituível.
E esse fim sugere que Bam fará justamente isso e estou torcendo por eles ♥

Não hesite em comentar o que achou por favor!! Eu tenho tantas ideias pra esse fandom, e juro que elas são (em média) mais felizes e otimistas do que essa. Provavelmente outras coisas chegarão em breve.
De toda forma, obrigada por ler e chegar até aqui. Se cuidem! (me siga no twitter para falarmos de KhunBam @simpof2D)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!