Game Of Secrets
8 Lyanna
Notas iniciais
Estranhamento, aquele prédio feito de tijolos marrons que ficava no meio da rua de Porto Real, era divido pelo departamento de advogados e o departamento de enfermeira. Tipo um duplex.
Na verdade, lá era quase que como uma casa de descanso para as enfermeiras. O Hospital Nymeros Martell ficava bem do lado daquele prédio, e o dono do hospital tinha comprado metade do prédio marrom para que as enfermeiras e alguns médicos pudessem guardar remédios, dormir e comer um pouco lá enquanto faziam seus intermináveis plantões. Lyanna Stark era a que mais sabia disso.
Havia muitas pessoas advogadas que conhecia que trabalhavam lá. Havia o irmão mais novo de Robert — que aprecia ser bem mais velho —, Stannis, o cara que nunca sorria. Tinha Oberyn Martell, irmão mais novo do dono do hospital onde Lyanna trabalhava, que já tinha sido a paixão adolescente da Stark, e também havia o irmão mais novo de Cersei, uma das pessoas com quem Lya mais conversava, Tyrion Lannister. Ah, e é claro, também tinha os irmãos Dayne, Arthur e Ashara.
De acordo com os homens do local, eles chamam o prédio de tijolos de Departamento Inicial de Direito. Lya tinha perguntado a Tyrion porque "inicial" e ele disse que antes era apenas Departamento de Direito, antes de Doran Martell comprar a parte de cima e eles ficarem apenas com a "parte inicial". Outra amiga sua advogada, Ashara, sempre revirava os olhos e dizia que eles tinham pegado a parte principal, não a inicial. Tyrion sempre lhe lançava uma piscadela.
Normalmente, Lya era quieta em seu canto quando se tratava de Martells. Ela podia ser engraçada, bonita e uma profissional competente, mas ainda era uma Stark que tinha roubado e se engravidado do homem de Elia Martell, irmã de Oberyn e Doran. Lyanna realmente não sabia como tinha conseguido virar amiga de Oberyn, Tyrion e empregada de Doran.
Algumas vezes, Jon ia lá no prédio junto com Lya. Mas raramente era por causa da mãe. Cursando faculdade de direito, o lugar de Jon no Departamento já estava garantido tanto por Oberyn e Arthur, quanto por Tyrion — apesar de ser Stannis o chefe. Jon sempre se deu bem com Arthur e Oberyn, sempre teve uma relação estranhamente boa com Tyrion, e era quase um filho para Ashara. Porém, para Stannis Baratheon, ele era apenas o filho intrometido de uma enfermeira que insistia em ficar no andar inicial.
Que Stannis sempre foi frio, isso qualquer um sabia. Até mesmo seu parceiro nos casos, o advogado Davos Seaworth, admitia isso na frente do moreno. Porém, Lyanna sempre achou que o moreno fosse dar um desconto a seu filho, no momento em que Jon era professor particular de matemática da filha dele, Shireen. Porém ele o tratava com a mesma frieza que tratava as demais pessoas ao seu redor, até mesmo Davos.
Pelos múrmuros que tinha ouvido da enfermeira Frey — aquela mulher nunca se calava — ele tinha se separado da mulher Selyse porque a mesma andava demais ao lado de uma mulher ruiva com um rubi no pescoço. Melisandre, ela tinha sussurrado para a outras enfermeiras e Lya ouviu, Melisandre Asshai.
Lya decidiu ignorar aquilo. Já tinha problemas demais, não precisava se preocupar com os outros.
Mas não foi o caso daquela noite.
Tudo ocorreu normal, Tyrion e Oberyn brigavam por um caso enquanto Arthur ficava no canto dele, apenas encarando tudo com uma cara de deboche. Lyanna riu e se aproximou de Ashara, que escrevia alguma coisa em seu bloquinho.
— Arthur já tem o caso, não?
Ashara riu enquanto ainda escrevia.
— Ele sempre tem. — ela disse, com a cascata de ondulações pretas caindo sobre seu rosto. Ashara era bela como ninguém jamais tinha sido, e, às vezes, Lyanna evitava falar com ela porque os olhos da morena o lembravam demais os de Rhaegar.
Lyanna pensou em avisar o dornense e ao Lannister que aquilo era perda de tempo mas, como Arthur, achou aquilo engraçado demais e apenas continuou a beber seu café. Apesar do escritório estar lotado e eufórico por alguma coisa, os dois ainda brigavam naturalmente.
— Vamos ser sincero, anão, sabe muito bem que uma aberração como você no tribunal só iria assustar o juiz. — disse Oberyn a Tyrion. Qualquer pessoa que falasse isso ao anão leva um chute nas bolas, mas para o dornense, o nascido em Rochedo Casterly apenas ria.
— E é por isso mesmo, meu caro Martell, que eu vou pegar esse caso. Uma aberração como eu deixaria qualquer juiz desconfortável ao ponto de fazer o que eu bem quiser.
Oberyn o encarou por alguns segundos e cerrou os olhos.
— Bem, meu querido Duende, eu sou um Martell de Lançassolar.
— E bem, minha querida Víbora, eu sou um Lannister de Rochedo Casterly.
— E eu sou um Baratheon de Ponta Tempestade, ninguém se importa. — disse Stannis, se aproximando do grupinho que tinha se formado entre as mesas de cada um dos advogados, ao lado do fiel Davos. — Lannister, Martell, quero o relatório do caso do Blackwood agora, e Dayne, porque não fala que pegou o caso da Tarth logo?
Tyrion e Oberyn se viraram para encarar Arthur, e até Ashara lançava risadinhas ainda concentrada em seu bloco, enquanto Arthur tinha apenas um meio sorriso sacana com o copo descartável de café na boca.
— Se me permite, Sr. Stannis, você acabou com toda a graça. — disse o sério e recato Arthur Dayne, com seus cabelos brilhantes.
— Eu não me importo com a sua definição de graça, Sr. Dayne, eu quero o seu trabalho cumprido e logo. — ele disse, e Arthur se retirou com um "sim, senhor", nem um pouco ofendido, junto com Oberyn e Tyrion. — Ashara, terminou a lista dos casos cancelados?
— Está aqui chefe. — disse ela, rasgando a folha do bloquinho e entregando a Stannis.
— Ótimo. — disse o Baratheon, encarando a folha. Então, ele levantou o olhar para Lyanna. — Perdeu alguma coisa aqui, Srta. Stark?
Lyanna fez bico e balançou a cabeça, indicando que não, ainda segurando o copo de café.
— Não, senhor. — ela disse, meio zombateira. Se tinha uma coisa que não incomodava Lyanna Stark, essa coisa era Stannis. Depois de se namorar quase seis meses com Robert Baratheon e frequentar constantemente sua casa, Stannis já era tão familiarmente chato como qualquer um de seus irmão.
— Então, Srta., a menos que tenha diploma de advocacia, sugiro que volte para suas agulhas.
— Na verdade, senhor Stannis, eu não mexo apenas com agulhas. Também sei retirar venenos de pessoas que chegam lá no hospital. E, da mesma maneira que sei tirar, também sei colocar veneno em lugares bem diferentes. — ela disse, e encarou a caneca na mão do Baratheon. — Como essa caneca na sua mão, por exemplo. Não sei se sabe, mas as canecas são lavadas no andar das enfermeiras.
Stannis encarou um pouco Lyanna antes de encarar sua caneca, e de depois voltar a encará-la. Lyanna sorrir cínica, e Davos atrás de Stannis parecia que ia ter um ataque cardíaco. O Seaworth se importava com a Stark.
— Isso foi uma ameaça, Srta. Stark? — ele perguntou, frio. — Porque se for, não terei nenhum problema em te expulsar nesse exato momento desse estabelecimento e ainda fazer questão de que a senhorinha seja demitida.
— De maneira nenhuma, Sr. Stannis, foi apenas uma mera hipótese. — ela disse, simplesmente, e beijou a cabeça de Ashara, em despedida, antes de se voltar e sorrir cinicamente para Stannis. — Agora, se me der licença.
E jogou o copo de café na cabeça quase careca do homem.
[X]
— Você é totalmente pirada, Lya. — tinha dito Jyana Reed, ao seu lado quando Lyanna lhe contou a história.
Lya pandas riu, terminado de arrumar sua bolsa.
— E ai? O que ele fez? — tinha perguntado Perra Frey, uma menina bem jovem, que tinha acabado de começar a trabalhar lá.
— O que você acha? Gritou feito uma menininha porque o terno de camurça dele estava estragado. — tinha dito outra enfermeira, Amarei Frey (que agora era Lannister), sempre a mais maldosa.
— Não, você está confundindo, esse é o Renly. — disse Jeyne Westerling, fazendo todos rirem.
Jeyne não devia ser mais velha que o sobrinho mais velho de Lyanna, Robb, mas era extremamente inteligente. Ainda estava na faculdade de enfermagem, mas tinha sido contratada como aprendiz de enfermeira do hospital havia quase um mês. Lya simpatizava com ela.
— Até amanhã meninas. — tinha dito ela, ido em borá junto com algumas meninas.
— Tchau. — disseram as poucas que ficaram, e que depois foram embora.
— Não vai Lya? — perguntou Jyana, quase indo embora.
Jyana era mulher do melhor amigo de Lya, Howland, e uma querida com ela.
— Pode ir, acho esqueci meu celular no andar inicial, vou procurá-lo.
— Tá bem. — tinha dito Jyana, se despedindo e indo embora.
Depois que procurar seu celular em todos os cantos possíveis, Lya desistiu e foi até o primeiro andar, atrás do mesmo. Desceu as escadas e viu tudo escuro, com apenas a luz da sala de Stannis ligada. Ele sempre fazia hora extra, pensou, imaginando se a filha dele não sentia falta dele ou se esse foi o real motivo da separação com a garota Florent.
Encontrou seu celular em cima da mesa de Ashara, e agradeceu aos Deuses por nem Tyrion e nem Oberyn terem pegado — sem senha como ele era —, e o guardou na bolsa. Já estava indo embora quando ouviu algo cair no fundo do andar inicial.
— Olá? — ela tinha perguntado, parada, encarando o escuro. — Olá!? Tem alguém aí!?
Ouviu o gemido de dor vindo do mesmo lugar do barulho, e resolveu ir lá ver.
A cena foi deprimente.
Stannis Baratheon, no chão, com o bebedouro de água jogado ao seu lado. A água jorava por todo lado, e Stannis gemia de dor, tentando parecer baixo. A testa dele sangrava.
— Pelos Deuses, Stannis! — ela exclamou, indo ajudar o moreno.
Ela pegou ele pelo ombro e subiu as escadas com ele, o sentando numa das cadeiras e pegando um estetoscópio.
— Deuses, Stannis, o que aconteceu?
— Nada de mais, foi apenas uma tontura. Tenho pressão baixa, isso é normal. — ele murmurou, colocando a mão na testa. — Tentei me segurar no bebedouro, não deu certo.
— Percebi. — ela disse, e o encarou com olhar de reprovação. — Você precisa ingerir açúcar, Stannis, e sabe disso. Não te vi mascar um chiclete hoje!
— O escritório estava um caos, cheio de relatórios atrasados e...
— Isso! Um homem desmaia e a culpa é dos relatórios! — ela descarregou e, depois, passou a mão pelos cabelos, suspirando. — Droga Stannis, se eu não estive aqui só os Deuses sabem o que teria acontecido com você.
Ela se levantou, guardando o estetoscópio, e colocando um bandeje na testa dele. Ele resmungou um pouco de dor ao contato do ferimento aberto, mas não foi nada demais.
— Obrigado. — ele murmurou, travado, como se não fosse uma palavra que usasse em seu cotidiano. E de fato não era.
— Não tem de quê. E foi mal pelo café na cara, sei que faço isso quase todo dia, mas foi mal mesmo.
— Você fala como uma adolescente. — ele constatou, e Lyanna riu, tirando os luvas e a jogando fora.
— Bem, eu vivo com um adolescente.
— Eu também vivo com uma.
— Shireen é doce demais para falar esse tipo de gírias. — ela disse, e fechou o armário de remédios que tinha aberto por causa de Stannis. — E, vamos combinar, eu sou a tia dos Starks.
Ele continuou em silêncio, e Lyanna deu a conversa como encerrada. Começou a juntar suas coisas, quando ele tentou de novo:
— Seu menino, o Jon. — ele disse. — É um bom menino.
Lyanna sorriu. Todos diziam isso mas, de Stannis Baratheon, o elogio era muito melhor.
— Obrigado. — ela disse. — Shireen também é ótima, um amor.
— Não sei se onde ela tirou isso. — ele disse, meio amargo.
Lyanna ignorou isso e, com senso de humor, colocou sua bolsa nos ombros e sorriu para ele.
— Eu também não. — ela disse e, sorrindo, desceu as escadas e saiu do prédio. Conseguiu ouvir a fraca e quase morta risada do homem enquanto descia as escadas.
Decidiu, naquele dia, que não jogaria mais copos de café na cabeça de Stannis.
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