As semanas se arrastaram com relativa instabilidade. Olga havia sido interrogada e foi bem clara — e grossa, na opinião de Flora — em relação ao ocorrido.

“Tenho certeza de que as acusações feita contra a Vossa Majestade precisam ser reavaliadas.”

O promotor de justiça respondeu: “Se fossem apenas acusações, Olga. Temos provas cabais de traição por parte da rainha Victriz, que foi pega em flagrante ao se encontrar com inimigos declarados da União Interplanetária Solar sem a permissão do Parlamento. Este é um crime hediondo desde que a Monarquia foi restabelecida.”

“Preciso lembrar à Justiça de que venusianos só foram declarados inimigos permanentes pela péssima administração das Relações Interplanetárias do Parlamento daquela época? E que caberia ao Monarca conduzir o Parlamento à perfeição, ao reparar seus danos?”

“Sim, mas com o acompanhamento do Parlamento. Do contrário, caímos em um Absolutismo novamente!”

“Como a rainha conseguiria entrar em contato novamente com os venusianos se este Parlamento retrógrado jamais a permitiria?!” Empolgou-se.

Flora estava assistindo à sessão ao lado de Graco. Este abriu um sorriso. “Sou muito fã dessa mulher.”

A moça nada declarou. Claro que queria acreditar na inocência de sua tia — se as evidências de extravio de conduta não fossem tão explícitas. Confirmou-se que os “civis” com os quais Victriz entrara em contato compunham um grande e influente grupo criminoso. Sem mencionar que a Justiça também havia rastreado outras formas de contato da rainha com piratas em Netuno…

Seja o que fosse que Victriz pretendia, não queria a influência da burocracia do Parlamento. Até que se revelasse o que era, Flora não pretendia se posicionar.

Queria perguntar à sua mãe, Poliana, o que ela achava disso tudo. Estava quase impossível entrar em contato, a irmã da rainha estava ocupada demais tentando arrumar uma forma de vir à Terra…

Também queria pedir alguma orientação à Driano, mas este já aparentava abalado e tenso demais. Não tinha irmãos. Sua prima, Brianna, filha de Driano, era uma criança de 9 anos de idade. Sua outra prima, Ismália, estava em um estado ainda mais instável. Flora era filha de uma inseminação artificial que Poliana optara fazer; não tinha um pai.

No final, Flora não tinha ninguém a quem recorrer. Desabafar ou se abrir com o seu amigo Graco, que também estava passando por um momento complicado, soava-lhe egoísta.

“Como está Ismália?” Flora puxou assunto, fugindo dos seus pensamentos.

“Ia te perguntar a mesma coisa.” Respondeu Graco. “A única coisa que sei é que ela responderá um interrogatório hoje à tarde.”

Flora assentiu. “Sabe que a população já está revoltada, não é? Se em qualquer momento, milésimo de segundo, aparentar que a Justiça está abusando do estado de Ismália, não duvido que invadam o prédio.”

“Honestamente, estou quase rezando para que isso aconteça.” Confessou Graco. “Quero a cabeça de todos em estacas, só por estarem submetendo a Ismália a isso.”

“Ás vezes você me assusta!” Deixou escapar, risonha.

Graco nada respondeu.

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Ismália sentou-se frente ao júri. Estava muito mais magra do que sua última aparição pública, meses antes. Suas olheiras eram profundas, seus cabelos haviam sido cortados um pouco acima dos ombros. Sua mão aparentava estar trêmula — assim como o canto de sua boca — mas manteve uma postura ereta e um olhar determinado durante todo o processo.

“Senhorita Umbrana, você tinha conhecimento das atividades criminosas da sua mãe, rainha Victriz?”

“Não.”

“Alguma desconfiança?”

“Não.”

“A rainha Victriz apresentou alguma mudança de comportamento nos últimos tempos?”

“Não.”

Uma longa pausa se estendeu no tribunal. Aquele silêncio constrangedor e tenso. Era uma estratégia do promotor para sugar informações.

“Tem certeza?” O promotor direcionou-lhe um olhar intimidante. Ismália teve vontade de rir. Havia aprendido a ser imune a esse tipo de ameaça passiva-agressiva. Ninguém o faria melhor que sua mãe.

Ismália sabia que precisava dar as respostas mais breves possíveis, mas não resistiu. Olhou para o promotor diretamente, com desdém.

“Tenho certeza de que os membros do Parlamento vão saber te responder isso melhor do que eu. Viam a minha mãe com muito mais frequência.”

“Mas você era uma estagiária. Protegida da rainha, inclusive.”

“Fazem meses que abandonei o cargo, sabe disso.”

“Sim… Por uma… Discussão que teve com a rainha Victriz, não é isso?”

Os olhos de Ismália se intensificaram, mirando ao promotor um ódio mortal. Ela se inclinou da cadeira, com um tom de voz venenoso.

“Quando quiserem me interrogar sobre as acusações direcionadas à minha mãe, responderei. Alimentar boatos e fofocas contra a nossa relação, eu não vou permitir.” E levantou, para se retirar. O promotor pensou em impedí-la, mas o juiz o conteve.

“Porreta como sempre.” Flora comentou, orgulhosa. Sabia que sua relação com a própria mãe nunca havia sido fácil, e estava receosa com que Ismália falasse alguma coisa sobre a vida pessoal da rainha que permitisse um ainda maior alvoroço.

Ravi estava relativamente próximo e ouviu o comentário. “Pode ser louca, mas não é burra.”

Graco inspirou fundo. Flora pôs a mão em seu ombro para acalmá-lo. Glaura, que também estava próxima, retrucou: “Você não precisa chamá-la de louca só porque ela te deu um fora.”

Graco abriu um sorriso do tamanho do mundo, e tentou olhar para o chão para disfarçar. A boca de Flora se abriu em um perfeito O. Seu amigo olhou para ela, incrédulo. “Não é possível que você não sabia dessa.” Sussurrou.

“Não! Eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo fofoca! Eu trabalho, sabe?” Sussurrou de volta.

Graco coçou a testa. “Ah, Flora, você vive em outro mundo…”

“Eu queria mesmo visitar Marte um dia desses! Como adivinhou?”