Galeria pessoal
9 Compartilhando um corpo
Notas iniciais
Oi, esse veio meio que pra explicar o anterior, ou complicar mais, não sei. :)
Eu nunca fui só eu. É extremamente estranho para mim falar isso, porque parece loucura, mas eu sempre senti que nunca fui completa, ás vezes eu era cheia, ás vezes transbordava, por vezes fui ninguém por instinto, mas eu nunca fui completa.
Eu nunca fui completa pois nunca precisei ser, desde sempre aprendi a conviver com duas ou mais eus existindo, e quando uma ia embora é que eu me sentia mais vazia, mas logo outra eu tomava o lugar.Já pensei nisso como uma mentira, então eu seria uma mentirosa compulsiva, e a pessoa para qual eu mais mentia era meu eu principal. Entretanto não acho que criar alguém pra ser seja uma mentira.Por mais que todas elas sejam um pouco diferentes, todas sou eu, e todas as que eu um dia criei, isso afirmo com total certeza, me representaram mais que a eu que outros criaram.A primeira eu que eu criei não tinha nome, porque era eu, em meu estado mais puro, por assim dizer. Quando eu era apenas uma criança, tinha que esconder suas chateações afinal “crianças não têm preocupações e chateações como adultos têm”¹, e foi assim que eu descobri que se eu não fosse eu, então o que era direcionado a mim não me atingiria.É por isso que quando, naquela época, alguém me segurava, eu não pedia para me soltar, eu pedia pra soltar a menina. Aquela que é dona do corpo que você está segurando, solta ela, ela está aqui dentro e não quer falar, mas eu sei que ela quer que você a solte.“Solta a menina” – era assim que eu gritava.Com o tempo as coisas evoluíram, não digo que pra melhor, tampouco pra pior, o pior ainda não havia chegado.Nani não é o nome na minha identidade, por que seria? Talvez eu vá embora também, um dia. O nome na minha identidade é Laura, e eu nunca tinha notado que todas as vezes que eu recusei dizer meu nome, ou todas as vezes que eu fui outro eu pra não ter que ser a eu com esse nome, e até todas as vezes que eu brincava de procurar nomes na internet me perguntando qual mais combinava comigo, era porque eu odiava meu nome. Não o nome em si.Eu odiava o que fizeram ele ser, o que eu aceitei que ele se transformasse.Por muito tempo eu fui as duas garotas dos primeiros capítulos, a primeira era a com aquele nome, a eu que se sentia presa, a eu que ia a escola, a eu que tentava de tudo pra agradar as pessoas, a eu que era como a Ariana Grande na série de TV Victorious. O jeitinho bem sonso, as vezes engraçadinha. Não pense que foi um papel, eu nunca fingi ser assim, mas sendo assim eu fingia não sentir o que eu sentia por dentro.A outra eu, que eu chamava de Mel, era a que eu me sentia confortável sendo, quase como se eu não precisasse esconder meus problemas, porque eu não os via como problemas, eram apenas uma parte de mim, uma parte que eu não deixava afetar o resto. Mel não era como a outra eu, porque ela nunca se importou com o que Maggie dizia, fazia ou pensava. Isso a fez ser mais livre do que a eu oficial jamais foi.Então a Mel decidiu que já era hora de deixar de existir, quase como se estivesse forçando a eu daquele nome a se tornar inteiramente Mel. Mas isso não aconteceu.A eu daquele nome continuou sentindo coisas ruins, não havendo outra eu pra tomar o lugar dela nos momentos em que eu estava desocupada as coisas que eu sentia simplesmente começaram a me sufocar. Eu me sentia sem ar, então eu caia, as lagrimas desciam e eu não conseguia falar. Cada vez era pior, cada vez era mais difícil e cada vez mais frequente. Até que um dia aconteceu quando eu não estava sozinha. E então eu descobri, junto com o resto da minha família que eu era doente.²De qualquer forma as coisas continuaram ruins, mas eu deixei de ser outras eus, e até a eu daquele nome.Me chamavam por aquele nome, e eu respondia, mas eu não sentia como se eu fosse eu lá, não era nenhuma eu que eu conhecia, de repente eu não estava vivendo, estava observando.Foi assim que as coisas continuaram, até eu Nani aparecer de uma forma completamente aleatória. Ainda compartilho o corpo com a eu daquele nome, mas não sinto como se fossemos duas pessoas diferentes, sou eu, com outro nome. Um que me causa uma sensação terrível de desconforto, mas que eu não posso me livrar por enquanto.
Notas finais
¹Tema dos capítulos "Infância" (em breve).
²Tema do capítulo "A seita" (em breve).
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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