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6 Cartas que um dia escrevi - parte 2
Notas iniciais
Às vezes eu consigo iniciar um texto bem, sem precisar pensar muito, outras eu preciso me concentrar muito para que o início fique “bom o bastante”, mas o que é realmente difícil é a escolha de um título, se me perguntarem o que mais demora na composição de um texto, seja ele o que for a resposta vem incrivelmente rápido, o título.
Férias em família são algo que ou você odeia, ou você ama, não tem essa de meio termo, quem disse que encontrou um meio termo para descrever os sentimentos de viajar com a família toda mentiu pra aliviar. Eu, no momento em que escrevo, estou em uma e compartilho do sentimento de ódio.
Quando soube que iríamos viajar juntos novamente, como uma boa garota cheia de sentimentos negativos, o que passou pela minha cabeça foi “droga, vai ser uma semana dolorosamente tediosa com os integrantes inconvenientes da minha família, eu deveria ficar”, mas logo me repreendi dizendo a mim mesma que se eu pensasse positivo a viagem não seria tão ruim assim, afinal iríamos passar a virada de ano na praia.
E com o pensamento de que eu finalmente passaria a virada no meu lugar (o mar, explicação em outro texto) e que isso seria incrível não importa o que acontecesse eu abracei a viagem.
Veja bem, minha família ama viagens assim, em grande grupo, e com grande grupo eu quero dizer a própria família, ao todo e inicialmente éramos 15, entretanto minha avó não pode vir, por isso estamos em 14 no total, mesmo assim é muita gente, muitas opiniões diferentes e como a maioria já não é tão jovem, muitas situações inconvenientes. O transporte foi uma van, meu pai foi o motorista, e nessa parte eu não reclamei nada, minhas expectativas continuavam altas, pois, claro, dormi grande parte do caminho e quando estava acordada ouvia musica. O real problema foi depois de chegarmos.
Já esteve em um lugar novo onde quis conhecer melhor, visitar os lugares e descobrir as coisas interessantes que tem? Pois é, apesar de ser um lugar que eu já estive outras vezes dessa vez não foi diferente, eu queria sair e experimentar coisas novas, ver todas as coisas que eu nunca tinha visto antes, e é obvio que isso não foi possível.
Um dos motivos de eu ter mantido minha positividade todos os quilômetros de onde eu moro até aqui, foi a vontade que eu tinha de consertar uma pulseira, uma que ganhei da última vez que estive nesse mesmo lugar há três anos, muito tempo havia se passado e ela precisava de reparos. Ainda não consegui visitar o lugar que conserta e vende pulseiras como essa afinal em viagens de família algumas pessoas não têm voz e eu faço parte desse grupo de pessoas.
Um dos motivos do meu ódio, que eu definitivamente não gosto de chamar assim por acreditar que a palavra é forte demais, pela situação ao todo é o poder que ela tem de tornar mais forte uma sensação que eu tento sempre, a todo custo, ignorar. A sensação de não pertencer a uma família.
Desconheço forma de pôr essa sensação em palavras, mas dói, dói tanto que às vezes não consigo aguentar, e é silencioso, vem de uma vez e se quem sentir for tão bom em fingir quanto eu ninguém jamais vai perceber. O que sinto é um dos motivos de eu ter como objetivo me afastar de minha família o mais rápido possível, mas não o único. A verdade é que mesmo que eu não pertença a essa família verdadeiramente, foi os integrantes dela, com seus jeitos de te excluir e te abusar mentalmente que me fizeram acreditar desde muito cedo que eu, mesmo sendo simpática e amorosa, pelo que dizem, nunca vou conseguir ser parte de família nenhuma. Tudo o que já passei me faz acreditar que não poderei ter filhos. Minha mãe também não recebeu muito amor da mãe dela, consequentemente não saberia dar aos filhos, mas o que acontece é a indisposição de me proporcionar uma experiência de filha. Eu tenho um irmão, e ela claramente tem muito amor pra dar a ele.
Ciúmes de irmão é uma coisa chata, pra todos os envolvidos. Sempre que deixo o ciúme transparecer minha mãe fica um pouco mais saturada da minha existência, sempre que eu sinto ciúmes meu irmão vê uma parte fria e grossa de mim, como se não o amasse, mas o amo, apesar de tudo. Se um dia ele pensou, ou se um dia ele pensar que não o amo, não tirarei a razão dele, eu mesma vivo questionando meus sentimentos, pois tem dias que nem consigo olhá-lo.
Mas de nada isso importa no fim, já que farei o possível pra me afastar dele também, o quanto antes.
O último dia de 2018 começou de forma surpreendentemente bem, e continuou assim. Vejo esse dia como uma salvação dessa viagem, e assim, com um sorriso no rosto, passei o dia bem, e agora percebo que, em um dia inteiro, poucas palavras foram trocadas com minha mãe – já cansei de chamar de minha mãe, chamaremos então de Meggie, apelido pra megera – talvez por isso eu tenha ficado bem o dia todo, a noite chegou, me arrumei para a virada, e tudo parecia ótimo.
Meu irmão invadiu o quarto em que eu estava hospedada e, no momento que escrevo isso, são onze horas e eu já não sinto vontade de ver fogos de artifício, só o que eu quero é deitar e dormir. Como eu venho fazendo já há muito tempo.
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