Galateia
1 Um artista e sua obra
Notas iniciais
Já na aurora daquele dia na pequena ilha isolada no mediterrâneo, o artesão acorda cedo, dirige-se para seu ateliê e santuário da arte. Pigmalião era seu nome, um grande rei para seu povo e o melhor artista e escultor já visto em seu reino. Sua mente era repleta de inspiração, paixão e desejo por seu trabalho; mas seu coração estava vazio das delícias do amor; nunca fora casado e ainda nunca amara. A verdade era que naquele pequeno pedaço de terra que ele chamava de seu, não havia mulher que correspondesse em beleza e virtudes; todas eram vulgares e promíscuas, e não se deixavam acalmar pelo laço do matrimônio. Então, sua única fonte de escapatória da realidade, sua única catarse, era a arte, sua amante.
O artista, levado por mais uma de suas inspirações, percebeu um grande bloco de mármore ao canto da sala, solitário e ainda sem forma. Ele desejou profundamente criar algo que lhe preenchesse mais um vazio, e assim, começou a trabalhar naquela pedra alva e ainda virgem. Ele limou, lixou, esculpiu... Enquanto isso pensava nas ninfas; rostos angelicais, boca risonha e cabelos compridos que lhes caiam até as nádegas alvas. Aquele deveria ser o auge da sua arte, a representação de toda sua solidão, porque agora ele estaria dando forma a sua companheira...
Todos os dias, sempre no mesmo horário, na aurora de sua vida, o rei Pigmalião ia na saleta. Admirava a pedra ainda disforme e não acabada, e sorria, já imaginando o resultado final de seus esforços. Delicadamente, ele acariciou os contornos breves, o mármore gelado e sem vida. Ele mais uma vez limou, lixou e esculpiu... Passou-se assim as horas, os meses, e a pedra antes sem essência, ganhou a beleza e os contornos de uma deusa. Quando por fim a escultura foi finalizada, Pigmalião já não mais saía de seu ateliê, e ficava todo tempo ao lado da perfeição que havia criado. Ele não mais poderia chamá-la de sua escultura, e por isso deu-lhe um nome, tão delicado quanto o mármore de que fora feita e tão belo quanto ela: Galateia.
O rei, então, mandou trazer todas as jóias do palácio para enfeitá-la, e conversava com Galateia por horas, mas apenas em seu monólogo solitário e triste. Ele sonhou todos aqueles anos com uma mulher como aquela, revestida da mais sublime candura e pureza, mas se desesperava, ao constatar que jamais poderia possuí-la e fazê-la sua. Seu único consolo era tocar suavemente o corpo rígido de Galateia; sentir sob seus dedos os mamilos pequenos e seios fartos, descer as mãos até seu sexo nunca explorado e arder de desejo perante aquela maravilha criada para si. Pigmalião acariciava seu rosto e beijava avidamente os lábios gélidos e sem vida; lágrimas escorregavam pelo mármore branco.
Ele a deixava apenas para exercer suas funções de rei, e num desses compromissos foi dado um grande banquete em honra dos heróis de guerra. O palácio estava todo em festa, decorado com os mais ricos ornamentos e mais fascinantes meretrizes do reino, mas Pigmalião só pensava em Galateia, sua criação. Nem o vinho de Baco, nem a lira de Apolo podiam embalar seus sentidos. Tudo nele ansiava por aquele ser sem vida mas tão amado!
— Majestade, uma senhora gostaria de vê-lo. – dirigiu-se a ele um soldado.
— Que senhora? – indagou ele, curioso.
— Ela não quis se identificar, mas é muito bela e parece ser uma princesa que lhe veio visitar.
— Mande-a até mim. – respondeu ele, por fim. Pigmalião já estava cansado de receber os nobres da região, mas sabia de suas responsabilidades.
A princesa dirigiu-se ao trono adornado com ouro, e lhe fez uma mesura. O soldado estava certo, era uma mulher muito bela e vivaz, mas ainda assim não lhe atormentava tanto os sentidos quanto sua obra de arte.
— O que deseja a senhora? – perguntou ele.
— Não sou eu quem deseja algo, rei Pigmalião... Há muito tempo percebo sua aflição e descontentamento. O senhor anseia o que todo humano anseia.
— O que sabes de mim? Nunca me vistes antes, mulher! – repreendeu a ela o rei.
— Sei o bastante para saber que amas... mas que este amor é impossível. – retrucou a princesa.
— E o que a senhora poderia fazer por mim? Declamar umas poesias? – riu ele sarcástico.
— Poderia dar vida ao seu ser amado e fazê-la te amar com o mesmo ardor que tu a amas.
—És uma feiticeira? – ele perguntou, curioso e surpreso.
— Sim e não. Depende da minha vontade.
— E o que queres tu em troca? – Pigmalião quis saber.
Porém, esta foi a vez da estranha mulher sorrir em retorno, um riso irônico e misterioso.
— Suas lágrimas por ela já foram um alto preço, oh rei. Antes que termine este dia estarás deitado consumando seu desejo, e na próxima aurora o reino terá uma rainha.
— Quem és tu? – perguntou mais uma vez ele. Entretanto, a princesa virou-lhe as costas e saio pela grande portal da frente do palácio, sem nada mais lhe dizer.
O rei saiu da presença de todos, e foi para seu eterno refúgio na companhia de sua amiga muda. Ele se ajoelhou aos pés da estátua e agarrou-os com toda força, vertendo mais lágrimas de tensão do que jamais chorara antes.
— Oh, se esses sonhos pudessem um dia se concretizar, Galateia. Tu serias minha rainha e amante para sempre. Agora sei que lhe criei não para mim, mas para o amor; não a criei para ser minha, mas para angustiar-me a alma. Estarei eu sempre a contemplar-te, mas o destino nunca me permitirá tomá-la. – e erguendo as mãos para cima como em uma prece, Pigmalião invocou o nome do próprio Amor, Afrodite. – Bela Afrodite, por que me inspirastes a criar a imagem da perfeição e do desejo, se não posso receber as carícias do meu ser amado? Por que seu filho Cupido me flechou o pobre coração para adorar esta jovem de pedra?
Ele levantou-se e abraçou por completo a forma nua e lasciva da estátua, beijando sofregamente sua boca descarnada. Neste instante, lábios molhados tocaram os dele, e um calor de outro corpo invadiu todo seu ser. Galateia retribuía o afeto, e o beijava ainda mais intensamente. Pigmalião não teve tempo para se assustar, imaginava que tudo era um sonho, e que se não aproveitasse o momento, jamais poderia senti-lo novamente. Os dois se entrelaçavam formando um. Tocaram-se e se amaram com o furor das tempestades de verão, e quando, enfim, descansaram no leito de pedra do chão, os olhos de Pigmalião encontraram os dela, ainda vivos e cheios de brilho.
— Sou sua. – ela segredou.
— Não posso acreditar! Será possível que os deuses, enfim, ouviram minhas preces? – ele bradou. – Como eu te admirava sem poder te ter, e como eu a amo ainda mais agora que a tenho!
— Tu não sonhas, Pigmalião. Tu mesmo me criastes para ti.
Tudo agora estava claro para Pigmalião... a princesa na verdade era a própria deusa Afrodite que viera em pessoa realizar o seu mais ansiado pedido! Galateia o amou assim que tocou seu rosto agora calmo e sereno, e continuando num momento sublime, ela canta-lhe esses singelos versos:
"Fui criada para você, nos modelos de suas necessidades. Como uma completa companheira, para lhe servir e ser amada. Para nos entrelaçarmos no cosmo da vida, vivendo um pelo outro e a cada dia.
Fui criada por você, quando me sonhava ainda acordado nas noites frias, nos momentos de solidão.
Criei-me para ti e para mim, com a ternura dos serafins do céu, e o fruto do seu ardente desejo na terra."
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