Galanteia
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Betheguel, constelação de Touro, junho de 2025.
O brilho do interior da Pirâmide de Cristal distraiu por um momento a súbita preocupação de Lia Mey. Mas ao reconhecer a personificação do seu anjo guardião, desabou em seus braços num choro convulsivo.
Mestre Higgs também estava presente e estendendo-lhe um singelo lenço lhe animou:
— Paciência e calma, caríssima! Sua filha está bem. A salvo. Ela e Petrus conseguiram deixar o planeta a tempo. Estão a caminho de Marte.
— Por que Mestre? Por que isso tinha que acontecer? Como não percebi? Que tipo de mãe eu sou? – Lia falava-lhes, inconsolável, mas tentando conter o derramamento das lágrimas.
— O inesperado faz parte do jogo! Você o aceitou voluntariamente quando decidiu jogar.
Sem compreender, mas um pouco mais calma, ela perguntou por Lionel.
— Ele está bem – respondeu-lhe Mestre Higgs. — Você logo o verá... Porém, a algo urgente que precisa ser feito.
Mestre Eliandro aproximou-se trazendo numa pequena bandeja outra corrente com o cristal de teletransporte.
— Muitas espécies animais e vegetais, assim como muitos humanos, foram salvos da explosão generalizada. Como vocês usaram o pó Mitzur para criar um campo de animação suspensa em sua casa, assim também muitos outros locais estarão protegidos, inclusive dos efeitos da radiação. E quando o planeta se curar da moléstia a ele infringida, estes espécimes serão religados à corrente da Vida, repovoando- o no devido tempo.
— No entanto – continuou Mestre Higgs – há um sobrevivente abrigado, sem a proteção do Mitzur. A radiação chegará a ele, mais cedo ou mais tarde. Você precisa voltar e trazê-lo para cá com o cristal.
Falando isso, o Mestre entregou-lhe a corrente e um frasco com pó Mitzur, dizendo-lhe:
— Ele está acompanhado. Leve isto também.
Diante da urgência de seu Mestre, Lia limitou-se a obedecê-lo. Porém, antes disso perguntou-lhe:
— E Dandara?
— Vou buscá-la – respondeu-lhe enquanto Lia Mey deitava-se na plataforma na qual havia chegado há poucos minutos.
Mestre Eliandro ajustou as coordenadas e ela mais uma vez desmaterializou-se.
.....
Lia materializou-se do lado de fora da entrada de uma caverna semi oculta por uma copiosa queda dágua. Imediatamente buscou refúgio, colando-se à parede. A areia em suspensão impossibilitava seu campo de visão.
Tateando e a contra gosto, entrou pela abertura rochosa. Não tivera boas impressões de locais como aquele... Lembrou com um frio na espinha dos ordálios enfrentados. Mas aquilo era novo. “Por Deus, que cheiro forte era aquele!” – pensou ela hesitando em avançar.
Sua presença ruidosa se fez notar pelos ocupantes do lugar. Teodoro levantou-se bruscamente pondo-se em alerta.
Ao vê-los, Lia Mey relaxou em parte. O cheiro estava explicado. “Dois dromedários e um homem, aparentemente um bárbaro!” Na mesma hora, odiou-se por se flagrar julgando pelas aparências.
— Olá! – falou Lia ajustando o seu sintonizador lingüístico sublabial.
Teodoro sentindo-se feliz e aliviado por não ser o único sobrevivente humano daquele cataclismo, aproximou-se ajudando a estranha a avançar entre os animais e se acomodar da melhor forma cabível.
Sem saber o porquê, o toque daquele aparente bárbaro, lhe era familiar. Sentada a sua frente, aquele conjunto de mãos, olhos e sorriso lhe fez lembrar Teodoro, seu querido amor amigo.
— Lamento por recebê-la de forma tão precária... Não imagina o quanto és bem vinda!
“Sim, era ele!” – constatou Lia exultante. “No entanto, ele não se lembra de mim.”
— Desculpe, cheguei assim, sem avisar. Sou Lia Mey.
— É um prazer Lia... Sou Andres. – disse Teodoro estranhamente feliz. Como se aquela fosse a primeira mulher que conhecesse. No entanto, era de fato, a única mulher que lhe importava.
Ficaram os dois sorrindo, bobos, um para o outro. Até que Lia lembrou o porquê estava ali.
— Andres, precisamos ir. A radiação logo se infiltrará por aqui.
E dizendo isso, tirou uma das correntes com pingente de cristal passando ao pescoço dele.
Ao fazer isso, os outros cordões que Lia usava, foram puxados juntos de seu peito, ficando à mostra sobre a blusa dela. Xantos e Bálios, juntos, foram captados pelo olhar aturdido do homem a sua frente.
— Esses pingentes...
— Você lembra? — Lia tirou Xantos entregando-o na mão do amigo recém encontrado.
Ao examiná-lo melhor, flashes de um passado ardorosamente querido e esquecido, lhe vieram à tona da memória: a menina magrela de óculos, a trilha peruana, a inscrição SEMPITERNO na rocha em Machu Picchu. “Lia, Lia Mey, era ela. Estavam juntos novamente!” — de súbito, a envolveu forte em seus braços...
— Ah Teodoro! Meu querido! Quantos dias e tormentos pra te encontrar...
Os animais, mãe e filho, foram deixados em animação suspensa pelo pó Mitzur. E Teo e Lia partiram abraçados para o que viria a ser suas vidas dali por diante.
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