Galanteia
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Lençóis da Serra, sul do Brasil, fevereiro 2022.
Lia Mey estava em casa, tirando do forno a lenha do quintal a segunda remessa de pães, quando a sineta do portão soou.
Dandara estava lendo as notícias do dia e interrompeu seu relato sobre a famosa inauguração do primeiro resort da Lua. Lionel que estava a brincar com as gatinhas Circe e Medeia, se assustou com o salto inesperado de fuga de ambas para o interior do pequeno bosque ao fundo do quintal.
Os três se entreolharam e Lionel se adiantou para ver quem era. Ao lado do automóvel estacionado estava um homem alto, de mãos nos bolsos que ao ver o menino o interpelou:
— Garoto! Sua mãe está?
Lionel não teve tempo de responder-lhe, pois Lia avançou para receber aquele estranho.
— Olá! Posso ajudá-lo? – falou-lhe ao abrir o portão.
O estranho tirou os óculos escuros e estendeu-lhe a mão.
— Olá! Sou Petrus, estou na cidade há pouco tempo e soube que você vende produtos artesanais e orgânicos.
— Sim, entre! Acabei de tirar um pão do forno, vou lhe servir um café.
As crianças os seguiram perplexas. Aquele homem era muito estranho e sua mãe o acolhia de forma tão natural e espontânea. Ela que sempre fora tão cuidadosa e previdente... E em menos de quinze minutos os dois estavam rindo como velhos conhecidos.
— Vocês moram num lugar adorável! Vejam só esses animais... Um pavão no chão da cozinha e uma águia na janela! – falou Petrus realmente impressionado.
— Isso me lembra os meus bons tempos de caça. Mas eu precisava andar milhas contra o vento para localizar uma ave de grande porte... Sinto saudade do cheiro da pólvora e do gosto de uma carne selvagem!
Petrus percebeu que seu comentário foi um tanto infeliz, diante do pesado silêncio que se seguiu.
— Bom, preciso ir andando. Agradeço o café e a hospitalidade.
— Vou preparar uma cesta de víveres, do que tenho hoje para a venda. Pode ser? – falava Lia juntando pães, biscoitos, saquinhos de farinhas e sementes, frutinhas, legumes e hortaliças.
Petrus pagou o dobro do que Lia Mey lhe cobrou e ela o acompanhou até o carro.
— Hora que precisar posso lhe fornecer biocombustível também – lhe falou, apontando a Meriva cor preta ano 2010, que Petrus comprou num ferro velho, tentando convencê-la de que tinham interesses em comum.
— Ótimo! Muito bom saber... Acho que lhe farei visitas freqüentes.
— Venha sempre que precisar! – disse-lhe Lia acenando do portão.
E Petrus esteve na vivenda de Lia Mey muitas outras vezes. Tudo era tão lindo, leve e espontâneo naquela mulher que ele se pegava pensando nela o tempo todo.
O pequeno apartamento que ocupava estava cada dia mais desorganizado. Começava a trabalhar em alguma coisa em seu noteled e não conseguia dar andamento. A tela o encarava, enfrentando-o com os dizeres que até então, orientaram o prumo de sua vida: Vini, vidi, vici!
No caso de Lia, ele veio, ele viu e estava longe de vencer aquela questão. A verdade por mais difícil que fosse de aceitar, era que tinha se apaixonado por ela.
E quanto mais investia no intuito de conquistá-la mais arisca ela se mantinha.
Conseguiu enfim comprovar a veracidade da famosa expressão: “Apaixonar-se é fazer-se em pedaços.”
Nos meses seguintes, Petrus não compareceu às reuniões da Ordem dos Memoráveis Conselheiros e Lucius aproveitou a ausência de seu superior para ganhar influência entre os demais membros. Afinal, ele era o único que sabia onde estava e o que se passava com Petrus Domenico. Saberia usar devidamente a fraqueza do seu rival...
Os humanos enxertados com o gen ômega reptiliano já haviam voltado ao planeta. Porém de tempos em tempos, os noticiários comunicavam casos de ataques extremamente violentos, por pessoas que tinham uma característica em comum: a pupila em forma de fenda vertical.
Lia Mey sonhou algumas vezes o mesmo sonho com Teodoro inerte sob o domínio dos aliens.
Acordava sufocada, pois queria gritar, tirá-lo de lá e não conseguia. Sonhava com ele a noite e pensava nele o resto do dia.
Mas nos últimos tempos deixara de sonhar. Dormia um sono vazio e suspeitava que pudesse ter alguma relação com Petrus. Ele a assediava continuamente, vampirizando sua energia.
Sentia que havia um forte vínculo entre eles, quase que indissolúvel. Quanto mais ele investia em conquistá-la mais ela duplicava a espessura dos muros psíquicos que a protegiam.
.....
Teodoro agora era Andres, vivendo uma vida a qual não pertencia. Nada se encaixava naquilo que acreditava para si e para o mundo. Buscava respostas em rostos desconhecidos em lugares nada familiares.
Faltava ao trabalho e se entregava cada vez com maior freqüência ao álcool, na tentativa de afastar a dor da incompreensão.
Irritava-se ao extremo com tudo e com todos e numa noite o inexorável aconteceu.
Ele saíra para caminhar a esmo. Atravessou a viela suja que dava à rua principal, quando foi interpelado por um assaltante, quase um menino, desses tantos que abundavamn as periferias urbanas.
Tomado pela surpresa, num movimento rápido e enérgico, agarrou-o pelo pescoço e num sem número de vezes, bateu-lhe a cabeça contra a parede próxima, até os olhos de seu atacante ficarem mortiços, com o sangue a escorrer-lhe pela boca e nariz.
Ao sentir o corpo do infeliz inerte, largou-o atordoado consigo mesmo. “Quem era? O que se tornara?”- pensava enquanto andava apressado sem olhar para trás.
Anos depois, a muitos quilômetros de distância dali, ao anoitecer, lembrava com angústia daquele sangue negro fluindo sobre seus dedos.
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