Notas iniciais
Desde que li A Flauta Mágica da Marion Bradley Zimmer, quis escrever uma história que também tivesse ordálios. Acho o máximo... Espero que gostem também!

Na mesma noite em que Petrus se reunia à Ordem dos Memoráveis Conselheiros, Lia Mey se reunia com seu anjo a Mestre Higgs através do portal da Pirâmide de Cristal.

— Caríssima! Seja bem vinda... O tempo se aproxima e precisamos saber se podemos contar com sua prestimosa ajuda.

Diante daquele olhar límpido de azul água, Lia não teria como recusar. Reiiel colocou sua mão direita sobre o ombro dela em sinal de apoio.

Haviam conversado exaustivamente sobre as possibilidades de cada escolha que fizesse naquele sentido. Se seus filhos estivessem protegidos e se fosse para o bem maior de todos os envolvidos, Lia respondeu ao Mestre, um confiante sim.

— Nada menos que magnífico! – foi o surpreendente comentário do pequeno e inacreditável ser a sua frente. Há muitos anos atrás, Teodoro a havia acolhido com essa mesma exclamação...

Porém, Mestre Higgs não lhe deu tempo para saudosismos. Ergueu o cajado e ao batê-lo no chão, instantaneamente encontraram-se num outro espaço, desconhecido a ela até então.

Uma clareira no meio de uma floresta de ciprestes, circundada por três portões pilonos, formado cada um por duas grandes pedras verticais e uma terceira sobre elas horizontalmente.

Ao centro, havia uma pira acesa na qual Mestre Higgs acendeu uma tocha.

— Iniciam-se aqui os seus ordálios, caríssima! Escolha um portal. A tocha da Verdade a acompanhará. Ilumine seus temores com ela e siga sem hesitar.

Lia apanhou a tocha. Reiiel não estava lá. Pelo menos não visivelmente.

Dirigiu-se a cada um dos portais, observando se havia alguma diferença entre eles. Porém, eram os três absolutamente iguais. No entanto, à medida que o sol descia no horizonte, um reflexo dele atingiu o portal do leste e foi por esse que Lia avançou.

Ao cruzar o portal, uma densa escuridão a envolveu. Mesmo à luz da tocha, seu campo de visibilidade era muito pequeno. Precisava seguir em frente. O portal não estava mais às suas costas. Entendeu que sua provação era achar a saída da onde quer que estivesse.

Mais aterrorizante do que o escuro era o silêncio. Algo sepulcral...

— Reiiel! Você está aí? – sua voz se perdeu num eco distante como única resposta. O silêncio invadindo-lhe a mente...

Conforme andava, sua visão se acostumava à escuridão. Começou a perceber o relevo das paredes e do teto. Passou a ouvir um sutil gotejar. Parecia uma gruta e logo mais ela estava chapinhando os pés na água.

Andava cautelosamente, com medo de tatear as paredes. Tinha a impressão que inúmeros olhos a espreitavam. Quando a sensação começou a oprimir-lhe o peito, o pior aconteceu: Lia tropeçou e a tocha apagou-se sobre a água a seus pés.

Estava prestes a entrar em pânico quando lembrou que aquilo era apenas uma provação, ou uma ilusão quem sabe. Precisava se agarrar a um senso de direção e manter a lucidez do pensamento.

Seguiu o curso da água que se tornava mais intenso e talvez mais ao longe, o barulho que começou a ouvir, fosse de uma pequena cascata.

Meio de gatinhas, seguiu o mais rapidamente possível. Ao se aproximar notou uma claridade gradual. Encontrou a cascata e também a saída da gruta. Mas para isso precisava saltar.

A cascata formava uma coluna de água de uns dez metros de altura. Não tinha como descer de outro jeito para alcançar a saída. “E aquilo não parecia ser uma ilusão. Era assustadoramente real” — pensou Lia. Se não pulasse poderia ficar ali para sempre o que era igualmente ruim...

Então Lia Mey, respirou profundamente muitas vezes, buscando uma coragem que não tinha. E juntando os braços ao peito, saltou.

E aquele mergulho foi surpreendentemente revigorante. Nadou até a saída. Encontrava-se na mesma clareira, entre os três portões pilonos. Recebeu com alívio a claridade dos últimos raios de sol daquele desafiante dia.

Mestre Higgs a estava esperando com uma grande toalha, uma fogueira, caldeirão de sopa e tenda para descanso.

Depois de aquecida Lia dormiu uma noite e um dia inteiros, acordando somente na noite seguinte.

Ao sair da tenda encontrou Mestre Higgs sentado perto da fogueira, mexendo nas brasas com um graveto.

Lia sentou-se ao seu lado e ficaram assim, sem se falar, observando a dança das chamas.

Em certo momento, Mestre Higgs perguntou-lhe:

— Sente-se pronta?

Lia soube então que não bastou escolher um portal apenas. Teria de enfrentar ainda os dois restantes.

Procurou não pensar a respeito, pois sabia que a mente era mestra em criar toda a espécie de medos imaginários.

— Se eu fui a escolhida, devo acreditar que sim – foi a resposta pouco animada de Lia.

Mestre Higgs, olhar rosa, denotou seu sentimento de amor e compaixão por ela.

Lia levantou-se decidida. Se for pra ir que seja logo. Seus filhos estavam em casa lhe esperando.

Fez uma refeição leve e tomou novamente a tocha da Verdade, seguindo para o portal à direita do primeiramente escolhido.

Ao ultrapassá-lo mais uma vez a total escuridão.

“Claro que deveria ser assim” – pensou Lia “ou então não precisaria de uma tocha.”

Mas onde estava dessa vez não era uma caverna. Era um corredor metálico. Seco e limpo. Caminhou por uns breves minutos até sair em um grande salão.

À visão do que lhe esperava, a faria voltar correndo, se suas pernas não tivessem congelado de terror.

Eles formavam um semicírculo. Eram dez, portando uma tocha apagada.

“São aliens? Só podiam ser.” – conjecturou Lia para si mesma.

Estavam com os olhos fixos nela, talvez tão assombrados como Lia Mey. Tinham um pouco mais de um metro de altura, a pele cinza, crânio volumoso, olhos grandes e negros, com nariz e boca pequenos. “Eram greys! Uma das 49 raças que visitavam nosso planeta” – lembrou Lia das palavras de entusiasmo de Teodoro ao relatar suas pesquisas ufológicas.

“São pacíficos. Cientistas.” – encorajou-se ela.

Um pouco mais confiante Lia começou a andar até eles. O primeiro à sua esquerda, o que iniciava o semicírculo, estendeu-lhe a sua tocha apagada. Ela a acendeu com a sua e assim foi passando, repetindo o gesto um por um, se posicionando na ponta oposta.

O círculo fechou-se neste instante, e o ser a sua frente falou-lhe também telepaticamente:

— Temos algo a lhe mostrar.

Nisso, um globo terrestre surgiu no meio do círculo, rotacionando sobre si mesmo.

— Esse é um registro da memória akásica do que até o presente momento foi o seu mundo.

O ser continuou a lhe falar, mas não podia mais vê-lo, pois o globo lhe ocupava toda a visão.

Aquele mundo acabara de ser criado. Uma esfera de gases incandescentes. O tempo foi acelerado e Lia acompanhou a formação dos oceanos e do primeiro grande continente. As primeiras formas de vida surgidas do mar. Os grandes répteis e os primeiros humanóides.

Viu a chegada das naves. O trabalho de civilizar e aprimorar aqueles animalescos humanos. Grandes cidades sendo construídas. Vieram outras naves. Guerra e fogo destruindo tudo o que havia. A reconstrução dos poucos sobreviventes. Tirania, ódio. Nova intervenção das naves amigas. Civilizações atingindo seu apogeu e sendo destruídas. Novos recomeços. Inevitáveis destruições.

Aquilo se repetiu vezes sem conta. Cenários e civilizações diferentes, mas sempre o mesmo enredo.

Estava começando a sentir-se mal quando subitamente o globo desapareceu.

Lia ousou exclamar:

— Não entendo o porquê da humanidade não conseguir evoluir para poder viver em paz.

— Isso acontece porque algo saiu errado e comprometeu o plano perfeito do Divino Cósmico.

Lia não soube precisar qual daquelas criaturas lhe falou. E para completar sua confusão mental e mal estar geral, todos começaram a falar em uníssono:

— Você sabe! Você sabe! Você sabe!

O círculo foi se fechando sobre ela, oprimindo-lhe os sentidos. Lia desmaiou e quando voltou a si, estava bebendo uma poção quente e amarga, preparada por Mestre Higgs.

Lia Mey o abraçou em desespero.

— Eu não sei Mestre, eu não sei. Eles me acusam. Por favor, me ajude!

Mestre Higgs apenas afagou-lhe os cabelos até que Lia se acalmasse e parasse de chorar.

Então, olhando em seus olhos falou:

— Você saberá caríssima. No momento certo... Talvez devêssemos suspender os ordálios por hora.

— Não — Lia o interrompeu enxugando as lágrimas – Quero ir até fim...

E nisso, levantou-se abruptamente. Portando a tocha acesa, entrou no terceiro e último portal.

Uma vez mais, a escuridão. Dessa vez com rajadas de vento gélidas. A tocha resistindo debilmente...

De repente viu-se sem forças para caminhar. O vento lhe açoitava. Lia ajoelhou-se e uma risada pavorosa se fez ouvir.

A tocha tremia em suas mãos e resistia ao vento. “Mas até quando?” – pensou Lia.

A cada rajada uma lúgubre risada. Aquele lugar estava sob o domínio de uma entidade trevosa.

Lia já tinha visto e ouvido o suficiente. Entendeu que tudo aquilo era superior às suas forças. Apoiou a tocha em uma rocha e se pôs a rezar:

— Ó Deus, Pai-Mãe, eternos em tudo o que há. Criaste-me com um objetivo e não importa que eu não saiba qual é. Confio no Bem Maior que cuida e provê de todas as coisas para todas as suas criaturas. Não sou uma homo sapiens e sim uma homo religious. Que sua vontade se faça agora e para sempre.

Enquanto rezava, ainda sentia o vento e as risadas tão próximas a ela. Mas quando terminou ainda de olhos fechados, notou o silêncio seguido do canto dos pássaros e um calor confortador às suas costas.

Era o sol de um novo dia. Estava na clareira.

Com um sorriso, Mestre Higgs a recebeu.

— Muito bem caríssima! Hora de voltar pra casa...

Notas finais
O que acharam? Comentem sim?!