Galanteia
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Na mesma noite em que Petrus se reunia à Ordem dos Memoráveis Conselheiros, Lia Mey se reunia com seu anjo a Mestre Higgs através do portal da Pirâmide de Cristal.
— Caríssima! Seja bem vinda... O tempo se aproxima e precisamos saber se podemos contar com sua prestimosa ajuda.
Diante daquele olhar límpido de azul água, Lia não teria como recusar. Reiiel colocou sua mão direita sobre o ombro dela em sinal de apoio.
Haviam conversado exaustivamente sobre as possibilidades de cada escolha que fizesse naquele sentido. Se seus filhos estivessem protegidos e se fosse para o bem maior de todos os envolvidos, Lia respondeu ao Mestre, um confiante sim.
— Nada menos que magnífico! – foi o surpreendente comentário do pequeno e inacreditável ser a sua frente. Há muitos anos atrás, Teodoro a havia acolhido com essa mesma exclamação...
Porém, Mestre Higgs não lhe deu tempo para saudosismos. Ergueu o cajado e ao batê-lo no chão, instantaneamente encontraram-se num outro espaço, desconhecido a ela até então.
Uma clareira no meio de uma floresta de ciprestes, circundada por três portões pilonos, formado cada um por duas grandes pedras verticais e uma terceira sobre elas horizontalmente.
Ao centro, havia uma pira acesa na qual Mestre Higgs acendeu uma tocha.
— Iniciam-se aqui os seus ordálios, caríssima! Escolha um portal. A tocha da Verdade a acompanhará. Ilumine seus temores com ela e siga sem hesitar.
Lia apanhou a tocha. Reiiel não estava lá. Pelo menos não visivelmente.
Dirigiu-se a cada um dos portais, observando se havia alguma diferença entre eles. Porém, eram os três absolutamente iguais. No entanto, à medida que o sol descia no horizonte, um reflexo dele atingiu o portal do leste e foi por esse que Lia avançou.
Ao cruzar o portal, uma densa escuridão a envolveu. Mesmo à luz da tocha, seu campo de visibilidade era muito pequeno. Precisava seguir em frente. O portal não estava mais às suas costas. Entendeu que sua provação era achar a saída da onde quer que estivesse.
Mais aterrorizante do que o escuro era o silêncio. Algo sepulcral...
— Reiiel! Você está aí? – sua voz se perdeu num eco distante como única resposta. O silêncio invadindo-lhe a mente...
Conforme andava, sua visão se acostumava à escuridão. Começou a perceber o relevo das paredes e do teto. Passou a ouvir um sutil gotejar. Parecia uma gruta e logo mais ela estava chapinhando os pés na água.
Andava cautelosamente, com medo de tatear as paredes. Tinha a impressão que inúmeros olhos a espreitavam. Quando a sensação começou a oprimir-lhe o peito, o pior aconteceu: Lia tropeçou e a tocha apagou-se sobre a água a seus pés.
Estava prestes a entrar em pânico quando lembrou que aquilo era apenas uma provação, ou uma ilusão quem sabe. Precisava se agarrar a um senso de direção e manter a lucidez do pensamento.
Seguiu o curso da água que se tornava mais intenso e talvez mais ao longe, o barulho que começou a ouvir, fosse de uma pequena cascata.
Meio de gatinhas, seguiu o mais rapidamente possível. Ao se aproximar notou uma claridade gradual. Encontrou a cascata e também a saída da gruta. Mas para isso precisava saltar.
A cascata formava uma coluna de água de uns dez metros de altura. Não tinha como descer de outro jeito para alcançar a saída. “E aquilo não parecia ser uma ilusão. Era assustadoramente real” — pensou Lia. Se não pulasse poderia ficar ali para sempre o que era igualmente ruim...
Então Lia Mey, respirou profundamente muitas vezes, buscando uma coragem que não tinha. E juntando os braços ao peito, saltou.
E aquele mergulho foi surpreendentemente revigorante. Nadou até a saída. Encontrava-se na mesma clareira, entre os três portões pilonos. Recebeu com alívio a claridade dos últimos raios de sol daquele desafiante dia.
Mestre Higgs a estava esperando com uma grande toalha, uma fogueira, caldeirão de sopa e tenda para descanso.
Depois de aquecida Lia dormiu uma noite e um dia inteiros, acordando somente na noite seguinte.
Ao sair da tenda encontrou Mestre Higgs sentado perto da fogueira, mexendo nas brasas com um graveto.
Lia sentou-se ao seu lado e ficaram assim, sem se falar, observando a dança das chamas.
Em certo momento, Mestre Higgs perguntou-lhe:
— Sente-se pronta?
Lia soube então que não bastou escolher um portal apenas. Teria de enfrentar ainda os dois restantes.
Procurou não pensar a respeito, pois sabia que a mente era mestra em criar toda a espécie de medos imaginários.
— Se eu fui a escolhida, devo acreditar que sim – foi a resposta pouco animada de Lia.
Mestre Higgs, olhar rosa, denotou seu sentimento de amor e compaixão por ela.
Lia levantou-se decidida. Se for pra ir que seja logo. Seus filhos estavam em casa lhe esperando.
Fez uma refeição leve e tomou novamente a tocha da Verdade, seguindo para o portal à direita do primeiramente escolhido.
Ao ultrapassá-lo mais uma vez a total escuridão.
“Claro que deveria ser assim” – pensou Lia “ou então não precisaria de uma tocha.”
Mas onde estava dessa vez não era uma caverna. Era um corredor metálico. Seco e limpo. Caminhou por uns breves minutos até sair em um grande salão.
À visão do que lhe esperava, a faria voltar correndo, se suas pernas não tivessem congelado de terror.
Eles formavam um semicírculo. Eram dez, portando uma tocha apagada.
“São aliens? Só podiam ser.” – conjecturou Lia para si mesma.
Estavam com os olhos fixos nela, talvez tão assombrados como Lia Mey. Tinham um pouco mais de um metro de altura, a pele cinza, crânio volumoso, olhos grandes e negros, com nariz e boca pequenos. “Eram greys! Uma das 49 raças que visitavam nosso planeta” – lembrou Lia das palavras de entusiasmo de Teodoro ao relatar suas pesquisas ufológicas.
“São pacíficos. Cientistas.” – encorajou-se ela.
Um pouco mais confiante Lia começou a andar até eles. O primeiro à sua esquerda, o que iniciava o semicírculo, estendeu-lhe a sua tocha apagada. Ela a acendeu com a sua e assim foi passando, repetindo o gesto um por um, se posicionando na ponta oposta.
O círculo fechou-se neste instante, e o ser a sua frente falou-lhe também telepaticamente:
— Temos algo a lhe mostrar.
Nisso, um globo terrestre surgiu no meio do círculo, rotacionando sobre si mesmo.
— Esse é um registro da memória akásica do que até o presente momento foi o seu mundo.
O ser continuou a lhe falar, mas não podia mais vê-lo, pois o globo lhe ocupava toda a visão.
Aquele mundo acabara de ser criado. Uma esfera de gases incandescentes. O tempo foi acelerado e Lia acompanhou a formação dos oceanos e do primeiro grande continente. As primeiras formas de vida surgidas do mar. Os grandes répteis e os primeiros humanóides.
Viu a chegada das naves. O trabalho de civilizar e aprimorar aqueles animalescos humanos. Grandes cidades sendo construídas. Vieram outras naves. Guerra e fogo destruindo tudo o que havia. A reconstrução dos poucos sobreviventes. Tirania, ódio. Nova intervenção das naves amigas. Civilizações atingindo seu apogeu e sendo destruídas. Novos recomeços. Inevitáveis destruições.
Aquilo se repetiu vezes sem conta. Cenários e civilizações diferentes, mas sempre o mesmo enredo.
Estava começando a sentir-se mal quando subitamente o globo desapareceu.
Lia ousou exclamar:
— Não entendo o porquê da humanidade não conseguir evoluir para poder viver em paz.
— Isso acontece porque algo saiu errado e comprometeu o plano perfeito do Divino Cósmico.
Lia não soube precisar qual daquelas criaturas lhe falou. E para completar sua confusão mental e mal estar geral, todos começaram a falar em uníssono:
— Você sabe! Você sabe! Você sabe!
O círculo foi se fechando sobre ela, oprimindo-lhe os sentidos. Lia desmaiou e quando voltou a si, estava bebendo uma poção quente e amarga, preparada por Mestre Higgs.
Lia Mey o abraçou em desespero.
— Eu não sei Mestre, eu não sei. Eles me acusam. Por favor, me ajude!
Mestre Higgs apenas afagou-lhe os cabelos até que Lia se acalmasse e parasse de chorar.
Então, olhando em seus olhos falou:
— Você saberá caríssima. No momento certo... Talvez devêssemos suspender os ordálios por hora.
— Não — Lia o interrompeu enxugando as lágrimas – Quero ir até fim...
E nisso, levantou-se abruptamente. Portando a tocha acesa, entrou no terceiro e último portal.
Uma vez mais, a escuridão. Dessa vez com rajadas de vento gélidas. A tocha resistindo debilmente...
De repente viu-se sem forças para caminhar. O vento lhe açoitava. Lia ajoelhou-se e uma risada pavorosa se fez ouvir.
A tocha tremia em suas mãos e resistia ao vento. “Mas até quando?” – pensou Lia.
A cada rajada uma lúgubre risada. Aquele lugar estava sob o domínio de uma entidade trevosa.
Lia já tinha visto e ouvido o suficiente. Entendeu que tudo aquilo era superior às suas forças. Apoiou a tocha em uma rocha e se pôs a rezar:
— Ó Deus, Pai-Mãe, eternos em tudo o que há. Criaste-me com um objetivo e não importa que eu não saiba qual é. Confio no Bem Maior que cuida e provê de todas as coisas para todas as suas criaturas. Não sou uma homo sapiens e sim uma homo religious. Que sua vontade se faça agora e para sempre.
Enquanto rezava, ainda sentia o vento e as risadas tão próximas a ela. Mas quando terminou ainda de olhos fechados, notou o silêncio seguido do canto dos pássaros e um calor confortador às suas costas.
Era o sol de um novo dia. Estava na clareira.
Com um sorriso, Mestre Higgs a recebeu.
— Muito bem caríssima! Hora de voltar pra casa...
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