Notas iniciais
Apresento-lhes neste capítulo o vilão da história (ou não...). Acompanhem e boa leitura!

Minas Gerais, centro oeste do Brasil, dezembro de 2021.

A neblina baixa da manhã logo se desfez à presença do sol forte. Seria mais um dia de muito calor. Petrus chegou precisamente no mesmo horário de todos os dias ao edifício do Banco di Milão. Sua presença traduzindo o conceito de prontidão, eficiência e controle autoritário. Mesmo assim não perdendo uma oportunidade de ser gentil. Um sutil aceno de cabeça sendo o suficiente para qualquer mulher se derreter de paixão por ele e qualquer homem bajulá-lo invejando sua posição. Era o presidente. O controle absoluto. Sua imagem impecável assim como sua conduta.

— Bom dia Sr. Petrus! — o recebeu a elegante secretária de traços asiáticos.

— Bom dia Srta. Muchiko! Meu café está pronto?

— Sim Sr. Petrus, como sempre do jeitinho que o senhor gosta — respondeu-lhe Anita seguindo-o com passos ligeiros para servir-lhe o café pessoalmente.

Petrus Angelus Domenico vivia só. O que não o impedia de ter muitas parceiras em sua cama. Nenhuma que lhe desse trabalho. Preferia assim. Podia se concentrar melhor em assuntos devidamente importantes.

O Banco di Milão financiava a viagem e a moradia na colônia de Marte que crescia a cada dia. “Uma armadilha de lebres” pensava Petrus. Financiavam a vida por um sonho que se tornaria um pesadelo. Uma viagem sem volta que os condenaria mais cedo ou mais tarde. Não se importavam com o planeta que deixavam. “Raça ingrata. Mereciam o destino que compravam”.

— Pediu que lhe lembrasse da reunião da Ordem hoje às 19h00min.

Anita lhe falava com sua voz suave que às vezes lhe fazia divagar em pensamentos.

A Ordem dos Memoráveis Conselheiros era formada pela elite das antigas fraternidades como a Maçonaria e os Iluminatti, que se dispersaram nas sombras do mundo depois que a internet os ameaçara com toda sorte de informações públicas tanto equivocadas como comprometedoras. Reuniam-se mensalmente em locais diversos do globo. Petrus era italiano e como Grão Mestre da Ordem, veio ao Brasil para supervisionar o controle dos focos de maior incidência de nascidos gen alfa e gen delta, conhecidos pela ciência esotérica como seres índigos e cristais.

“A reunião daquele dia seria decisiva” pensou Petrus. Em seu noteled, imprimiu as linhas centrais da estratégia de ação do Programa de Enxertogenia Supra Ômega. Ao contato dos dedos de Petrus na fina lâmina de led, os neurotransmissores da sua pele registraram em código binário as diretrizes de seu pensamento.

O dia se esgotou rapidamente no fluir ininterrupto da areia em sua ampulheta de mesa. A cada hora sendo virada ao contrário mecanicamente num apego confortador do controle em suas mãos.

“As areias do tempo sobem e descem e sua raça continuava aqui. Desde as primeiras explorações exoplanetárias em busca do ouro e demais minérios, reptilianos, audazes por natureza, saíram da sua constelação Lacerta, beirando a vasta Via Láctea. O pequeno orbe azul, uma jóia a ser lapidada pelo tempo de sua evolução, tomada pela ambição inescrupulosa de seu povo.

Perderam terreno muitas vezes por conta das hostes protetoras daqueles confins. Mas se mantinham presentes. Conheciam as leis cósmicas e as usavam a seu favor.

Foram eles os grandes benfeitores daquela humanidade. Eram os responsáveis por civilizar e aperfeiçoar os desajeitados humanóides de outrora. Aqueles seres eram demasiado bestiais para lhes servirem. Poderiam ter abandonado a descomunal empreitada. Mas aquele planeta valia todo o esforço. Não o abandonariam. Eram sagazes e pacientes.”

.....

O templo subterrâneo da Ordem no Brasil estava preparado para a solene reunião. Um reduto secreto encravado artisticamente entre veios jamais imaginados de ouro e pedrarias. A insígnia da Ordem, o triângulo invertido centrado pelo olho reptiliano, bordado ricamente nas longas flâmulas do recinto, iluminadas pelo candelabro de 12 velas na mesa posta para os 12 membros da supremacia.

Às 19h00min abriram-se os serviços oficiais pelo mestre de cerimônias. Todos os altos membros da Ordem já haviam votado a favor da execução do projeto de enxertogenia. Há anos, os gens alfa e delta foram isolados numa ampla amostragem humana. Estes seriam os primeiros a receberem o gen ômega, o mais poderoso código genético da raça reptiliana. Tornar-se-iam assim, potencialmente fortes, inteligentes e intuitivos. Seriam uma nova raça a dominar a já existente.

Vergas, responsável pelo Laboratório Base Orbital, relatou que a fase A estava concluída. Para a fase B, os humanos enxertados seriam integrados à sociedade do planeta com reprogramação mental e bloqueio da memória original. Receberiam novas identidades e seriam altamente férteis e reprodutivos.

O programa de Supressão Demográfica Global continuaria em andamento. Laboratórios bioquímicos a comando do Império Reptiliano produziam e veiculavam drogas, vírus e bactérias que assolavam de tempos em tempos a humanidade impedindo o seu crescimento e o desempenho de suas faculdades psicocognitivas.

Lucius Marconi, chefe da Central de Espionagem Avançada e conterrâneo de Petrus, saboreava a expectativa do momento de jogar seu “balde de água fria” na efervescência gloriosa de Petrus.

Esperava anos por uma oportunidade e se aliaria a facção contrária se pudesse destruir a “empáfia mascarada desse cretino”, pensava Lucius. Chegaram a estreitar laços de amizade um dia. Reptilianos também apreciavam certo envolvimento afetivo. Mas o carisma de Petrus o enjoava. Jamais seria como ele, pois era baixo, com um nariz exageradamente adunco, tímido e gago nos momentos mais impróprios. Ao contrário de Petrus, alto, porte atlético, rosto e movimentos harmoniosos, voz enérgica.

Sabia que Petrus o desprezava apesar da generosidade que lhe dirigia. Naquele planeta usavam a matriz bioplasmática dos humanos para se parecerem com eles. Porém sua forma reptiliana era ainda mais repugnante, até para ele mesmo.

Sua linha de pensamento foi interrompida pelo próprio Petrus. Altamente observador e de psiquismo avançado, seu Grão Mestre o impeliu a falar.

E Lucius falou. Pausadamente para conseguir expressar-se melhor.

— Talvez o programa de enxertogenia não seja tão fácil de ser implantado.

— Prossiga — incentivou-o Petrus.

— Temos o registro de intensa atividade dos betheguelianos das Plêiades.

— Isso não é um problema Lucius. Eles sempre estiveram por aqui e nunca foram uma ameaça real — retorquiu Petrus.

— Porém, há um dado novo — continuou Lucius diante da focal atenção dos demais membros da mesa.

— Mestre Higgs está entre eles e iniciará o treinamento de uma humana gen delta.

Diante dessa afirmativa, os presentes, visivelmente agitados, iniciaram uma conversação paralela, enquanto Petrus refletia, tamborilando os dedos na mesa. Cenho franzido.

Retomou a ordem da mesa com seu pronunciamento categórico:

— Tudo continuará como está. Convêm nos tranqüilizarmos. Acharei a humana e veremos o que faremos com relação a ela. Quanto a Mestre Higgs, dificilmente ele entrará em nossa faixa de freqüência.

Somente Lucius não acreditou nele. Sabia que no passado Petrus havia sido escorraçado por Mestre Higgs na malograda expedição à Zona-1 no Cinturão de Órion. A memória reptiliana os acompanhando através das eras...

Notas finais
E então, o que acharam?