Galanteia
6 Capítulo 6
Notas iniciais
A casa continuava silenciosa. O antigo relógio digital do quarto de Lia marcava em números vermelhos 22h32min. Tinham se passado menos de quinze minutos...
Um pensamento a sobressaltou: “E se tudo não passou de um sonho?!” – lembrou então, dos cristais em seus bolsos. Eles estavam ali.
Lia Mey levantou-se pra tomar um leite vegetal. Sabia que dificilmente conseguiria conciliar o sono. E havia a promessa de um sonho...
Mas o sonho não veio. Nem naquela noite e nem na noite seguinte. As crianças retornaram a casa e passaram a usar os cristais sem perguntas. Elas sabiam que algo acontecia. Constatavam isso no comportamento da natureza. Não se viam mais formigas, borboletas e abelhas. A polinização das flores precisava ser feita de forma manual.
Dias depois, enquanto ajudavam a realizar esse processo, nas flores dos arbustos de amora, que ladeavam o caminho do portão a frente da casa, inesperadamente Lionel indagou se o plano A havia sido abolido.
Lia lembrou-se do quartinho sob a escada. Há alguns anos, haviam preparado um depósito de comida, água e kits de emergência. Cada um tinha uma mochila pronta para uma saída rápida de sobrevivência.
Estariam preparados para os primeiros dias de uma catástrofe ambiental e até mesmo de um ataque zumbi.
— Não querido! O plano A continua. Os cristais que vocês estão usando são para uma proteção a mais – respondeu-lhe Lia, agachando-se a frente do menino, perscrutando a clareza daquele olhar levemente turvado de indagações.
— Mas você mãti... Não tem o cristal!
“Então”- pensou Lia “ estava na hora de traçarem um plano B.”
Dandara que acompanhava a conversa alguns arbustos a frente, chegou mais perto.
Sentaram-se os três, pernas cruzadas sobre a grama.
Lia sorriu tentando encontrar uma forma lúdica e não apavorante de enfrentarem uma suposta situação. Lembrou de uma de suas diretrizes de vida: “Preocupações são inúteis. Apenas 1% do que se imagina com temor realmente acontece.”
— Queridos... Se o plano A falhar, por meio desses cristais vocês serão teletransportados para um lugar seguro. Sem mim...
— Como assim mãe?! – quis saber Dandara, indignada.
Lia então lhes contou sobre o portal, o guardião, Mestre Higgs e o seu anjo, concluindo:
— Acho que tenho algo mais a fazer por aqui quando vocês partirem.
— Claro que sim! – interveio Lionel – A mãti precisa cuidar dos nossos bichinhos e quando tudo ficar bem estaremos todos juntos novamente.
“Lionel nosso raio de sol!” — pensou Lia. Mas para Dandara tudo continuava nebuloso.
Naquela noite, Lia sonhou com Teodoro. Ele estava sob um campo cirúrgico numa maca metálica num recinto também metálico, iluminado por luz fria.
Assim como ele, haviam outros sendo monitorados por sensores.
Lia notou que a freqüência cardíaca e a pressão arterial estavam normais. Mas não consegui acordá-lo e nem ler o prontuário, que parecia criptografado.
Uma porta deslizou numa antecâmara. Ela se escondeu embaixo do leito de Teodoro. Eram dois seres vestidos com macacões verdes. Podia observá-los pelos reflexos metálicos do piso. Eram altos e escamosos, olhos grandes e sem cabelos.
Lia se encolheu à visão agressiva de suas mãos em forma de garras. Analisavam as leituras e trocavam informações entre si numa linguagem sibilosa entremeada de guinchos.
— São reptilianos – ela ouviu Reiiel em sua mente – E os humanos são índigos. Inclusive Teodoro. Teriam abduzido vocês dois, mas você foi poupada naquele momento. Estão mapeando códigos genéticos. Querem isolar o gen que confere o padrão índigo aos humanos potencializando-o com o gen reptiliano.
Subitamente houve um baque no chão ao seu lado. Um objeto de escrita caíra das mãos de um dos reptilianos. Ao se abaixar para pegá-lo, seus olhos cruzaram com o olhar horrorizado de Lia Mey.
No momento em que a mão em garra a puxaria do seu esconderijo, ela acordou. Os cabelos úmidos de suor sobre seus olhos ainda em pânico.
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