Notas iniciais
As surpresas estão só começando...

No sábado seguinte a reunião no Instituto, a casa estava silenciosa. Lia Mey desligou Efigênia, a roboméstica e subiu para seu quarto. As crianças foram à tarde com o pai, passar o fim de semana com ele.

Era uma noite quente de fim de maio e ela ouvia os sapos coaxando no pequeno lago em frente a sua casa.

Pela janela do quarto Lia observou o brilho pálido da lua nova nascendo, esfumado pela neblina baixa. Vestia apenas seu roupão de seda de cor vermelho escuro com estampa de feixes de trigo dourados. Era sua vestimenta preferida. Dizia em tom de brincadeira às crianças que quando morresse queria ser enterrada vestida com ele.

Não tinha medo de ficar sozinha, do escuro ou da solidão. Sentia-se sempre acompanhada de uma presença protetora de paz e de luz.

Como em todas as noites, Lia deitou-se para o seu exercício de relaxamento e ativação da glândula pineal. Fechando os ouvidos com os dedos indicadores, isolando-se assim dos sons externos. Percebia que seu mundo interior se expandia cada vez mais à medida que se exercitava nesse sentido.

Nesse estado, totalmente relaxada, sentiu o ocasional estremecimento como se caísse. Um salto dimensional. Num piscar de consciência não estava mais em sua cama, em seu quarto.

Estava escuro e sentia a superfície dura e fria sob seu corpo. Vozes se aproximavam e uma luz difusa começou a dissipar a escuridão. Não podia se mexer, mas também não se preocupou com isso. Estava calma e receptiva.

À medida que o enorme recinto foi se iluminando, as vozes iam diminuindo. Lia se encontrava no centro de um amplo salão de cristal. Pela inclinação das paredes, cogitou estar no interior de uma pirâmide sobre uma plataforma também de cristal.

Através de uma única porta à sua direita, três figuras vestidas de branco se aproximaram. Dois homens altos e belos, um mais jovem em relação ao outro e uma figura central de estatura baixa com a cabeça coberta por um capuz. Portava um cajado prateado com um cristal lapidado incrustado na ponta. Mas a pequena mão que o segurava, não parecia ser humana...

O mais jovem se aproximou de Lia sorridente como se já a conhecesse. A certa altura do seu corpo, fez movimentos circulares com as mãos e Lia Mey sentiu-se livre. Levantou-se com cuidado, auxiliada por ele. Ouvia a voz dele em sua mente. Com clareza e nitidez. Dizia-lhe que estava tudo bem e que ela era muito bem vinda. Parecia a ela tão familiar...

— Você me conhece Lia. Não assim nessa forma... Sou Reiiel, seu anjo protetor!

Mal ela pôde assimilar suas palavras, o belo rapaz, que agora ela percebia, possuía um contorno iridescente, continuou a informá-la.

— Você está agora numa outra dimensão de tempo e espaço. Foi trazida para cá por Mestre Eliandro, guardião do Portal da Pirâmide de Cristal.

Mestre Eliandro se adiantou. Era o outro homem alto e louro como Reiiel. Ele pôs a mão direita sobre seu peito curvando-se a ela em reverência.

— Quero lhe apresentar também Mestre Higgs, o oficial embaixador de nossa galáxia.

Nisso, o pequeno ser descobriu sua cabeça, revelando um rosto moreno, de grandes e brilhantes olhos com um nariz e boca pequenos.

Tanto ele como Mestre Eliandro possuíam uma espécie de piercing abaixo do lábio inferior, que ao girarem numa certa rotação, sintonizavam sua voz numa freqüência que podia ser compreendida por Lia.

Convidaram-na a segui-los até a sala anexa à estrutura do portal.

Lia Mey instintivamente procurou apoio no olhar de Reiiel, que a acompanhou estando ao seu lado todo o tempo.

Enquanto caminhava Lia pensava se ele realmente não estaria assim, ao seu lado todo o sempre...

A sala anexa era menor e mais aconchegante. Estava iluminada por muitas velas e tinha um formato hexagonal. Havia um tapete representando uma mandala ao centro do assoalho e ao seu redor divãs de vários tamanhos.

Reiiel pediu que Lia escolhesse um dos divãs para se sentar. Em seguida, os demais se acomodaram e Mestre Higgs se pôs a falar:

— Caríssima! Há muito tempo acompanhamos os habitantes do seu planeta. Durante eras amparamos o desenvolvimento espiritual de vocês. Mas não somos os únicos. Há uma força contrária, de aniquilação, que age nas sombras do mundo, dominando mentes. Estamos novamente em um momento de desequilíbrio e para tanto, estamos reforçando nossas defesas e nos preparando para um inevitável ataque...

Lia pôde ouvir Reiiel em sua mente:

— Fale, expresse suas dúvidas e inquietações. Eles não poderão lhe compreender por hora, mas interpretarei telepaticamente as suas palavras.

Lia tentou organizar o pensamento à medida que falava:

— Não entendo! Qual o objetivo do mal afinal? O porquê desta eterna batalha? E qual a origem disso tudo?

Ao terminar sua exposição, Lia percebeu pela primeira vez a mudança de cor da grande íris dos olhos de Mestre Higgs. Do suave lilás ao roxo intenso...

— Sua consciência caríssima, ainda não pode abranger o todo. Porém, considere que no início de tudo, o que existia era o Mal, no sentido de ausência total, do nada absoluto. Concentrado em si de forma extremamente poderosa. Tal densidade gerou uma faísca, ínfima... Que foi responsável por desagregar o eterno absoluto nada! Uma faísca de explosiva criatividade que gerou multiversos de possibilidades... Desde então, o Mal, pai autoritário, tenta de todas as formas integrar-se, perseguindo o filho rebelde e ingrato, o Bem, pela revelia causada.

— Isso é incrível! – admirou-se Lia. – Se eu compreendi direito, então Deus é o rebelde que destruiu o sistema opressor?

O sorriso de cumplicidade dos três respondeu a sua pergunta.

Mas algo de repente a perturbou:

— Considerando que eu tenha compreendido essa primeira parte, o que eu, Lia Mey, uma humana qualquer, tenho a ver com isso?

O par de íris mutante, do roxo intenso ao azul sideral, preparou Lia para a resposta , que sinceramente, ela tinha medo de saber.

— Caríssima! Cada unidade criada faz parte do todo e possuímos a centelha da não opressão. Você soube por Ofélia, uma de nossas ativistas em seu mundo, que você possui as qualidades de um índigo. Isso a capacita aos propósitos de nossa causa. Você não é a única. Como você, milhões de seres da galáxia, estão sendo recrutados. O seu planeta foi projetado para ser um paraíso às consciências e não podemos perdê-lo para a aniquilação iminente. Queremos prepará-la para o confronto. Lia Mey, aceita ser nossa combatente, em nome da Luz?

Reiiel amenizou a intensidade da proposta, dizendo-lhe que ela não precisava responder-lhes naquele momento.

— Porém... – continuou Mestre Higgs – Há um assunto ainda mais urgente.

E Lia pressentiu que tinha a ver com seus filhos.

— Sim, caríssima... Mestre Eliandro, por favor, mostre a Lia os cristais de teletransporte.

Eliandro, silenciosa e prontamente, se dirigiu à parede oposta à entrada.

Lia o acompanhou com o olhar e só então percebeu que as paredes continham pequenas portas que davam acesso a nichos que continham artefatos para o uso dos cristais de teletransporte.

De um único nicho, Mestre Eliandro retirou duas discretas correntinhas, com um pingente de cristal redondo em cada uma. Quem os usasse poderia muito bem ocultá-los sob a roupa.

A um aceno de Mestre Higgs, Eliandro então falou:

— A principal função deles é a de ampliar o campo de proteção energética da pessoa que o estiver usando e no caso de perigo iminente, teletransportá-la instantaneamente através do mesmo portal que trouxe você aqui, sendo acolhido por nossos acólitos pelo tempo que for preciso.

Lia passou a imaginar como as crianças se sentiriam chegando como num passe de mágica até esse lugar...

— Esse lugar fica num outro planeta?

Mas Eliandro não a entendeu ou fez menção em não lhe responder. Mestre Higgs retomou a palavra:

— Caríssima, por ora quanto menos você souber melhor, para sua própria segurança e a dos seus filhos.

— Agora vá, seu tempo está se esgotando. Mestre Eliandro lhe conduzirá até a plataforma da pirâmide.

— Vá em paz e que a Luz lhe acompanhe!

Deixaram Mestre Higgs na sala hexagonal e Lia seguiu logo atrás de Mestre Eliandro segurando os cristais. Achou melhor colocá-los em seus bolsos.

Reiiel seguia ao seu lado e tinha uma expressão misteriosa de quem queria contar um segredo...

Antes de Lia deitar na plataforma para voltar a sua casa, ela parou e o encarou: — Conte-me!

— Teodoro... Você sonhará com ele!

Lia quis perguntar mais, saber o que tinha acontecido. Mas não havia tempo devido a algum cálculo de sincronização. Junto à plataforma, existia uma mesa de comando que era manuseada por Eliandro.

Enquanto se deitava, Reiiel lhe soprou um pensamento:” Você saberá!”

A última cena que viu, antes de encontrar-se novamente em sua cama, foi a de Reiiel sorrindo e acenando ao lado do guardião Eliandro.

Notas finais
Prometi atualizar a história diariamente, porém fim de semana tive de fazer uma pausa. Espero que me perdoem...