Notas iniciais
Caros leitores: acostumem-se com as viradas de espaço-tempo nesta aventura...

Lençóis da Serra, sul do Brasil, maio 2021.

Circe e Medeia estavam preguiçosamente estendidas ao sol de outono. As duas gatinhas de pêlo negro pareciam por vezes, completamente alheias ao movimento da casa.

A casa de Lia Mey era rústica e cercada de verde, destoando da paisagem local predominantemente cinza de concreto e asfalto.

Lia era a sétima geração de sua família a viver nas mesmas terras. Cultivava o seu alimento, criando além dos dois filhos e das duas gatinhas, animais exóticos como a águia de nome Júpiter e o pavão fêmea chamada Juno.

Naquele fim de tarde, Lia Mey triturava os grãos de milho da sua pequena safra, enquanto Juno ajuntava pra ela o que caía no chão. Júpiter preferia permanecer alerta à chegada de qualquer roedor intruso que pudesse lhe servir de alimento de forma mais satisfatória ao seu paladar.

Ambos foram encontrados por Lia quando filhotes em caixas caídas na beira da estrada de acesso ao seu endereço. Ela era uma das poucas pessoas que ainda usava carro para trafegar. Não existia mais a venda de combustível fóssil. Esgotadas as reservas do planeta.

Mas se ainda houvesse, não existiram consumidores. Todo o tráfego atual era aéreo. Os céus viviam congestionados, enquanto lá embaixo a selva de concreto tornou-se um deserto entulhado de toda a espécie de lixo.

Lia produzia seu biocombustível e circulava entre os entulhos como um espectro em sua relíquia motorizada.

Júpiter e Juno possivelmente tinham-se extraviado de uma operação de tráfico. Como excentricidades de aficionados colecionadores.

De repente, Júpiter com estridente grito, alçou vôo ao encontro do robô alado MXII programado pra trazer as crianças do Instituto Sócio Educacional para casa.

O MXII era uma sucata em excelente estado. Tinha sido doado por parentes ao adquirirem um modelo mais avançado.

— Mãti, mãti! – Lionel saltou da máquina assim que a porta abriu.

Dandara, no entanto, não compartilhava do mesmo entusiasmo.

Eles eram sua âncora, seu porto seguro no conflituoso mundo em que viviam.

Dandara era a mais velha. Introspectiva, de caráter resiliente. Ruiva como o pai, mas de olhos escuros como a mãe. E Lionel era a alegria da casa. Sempre sorridente, imune a qualquer aborrecimento.

— Olá meus amores! Como foi a tarde no Instituto?

— Como sempre mãe, fomos discriminados como dois aliens em um planeta hostil. – respondeu a menina largando a bolsa e esticando-se no gramado.

O garoto estava todo sujo de tinta e eufórico por ter manuseado as cores sem os recursos gráficos do computador.

Era o primeiro ano de Lionel no Instituto. As crianças cursavam as disciplinas curriculares através de programas interativos on-line, mas uma vez há quinze dias tinham suporte presencial com convívio sócio educacional.

As crianças a partir dos cinco anos aprendiam nessas ocasiões a diferenciar as relações humanas pessoais das virtuais. Nem sempre era uma experiência agradável aprender sobre o comportamento do mundo...

— Mãe, amanhã é dia 23, não se esqueça da reunião de orientação pedagógica no Instituto. – lembrou-lhe Dandara despretensiosamente.

“Dia 23 de maio, como esquecer essa data?” – pensou Lia Mey.

Há dezesseis anos que ela esperava por uma chamada de Teodoro no PHP. Durante esse longo tempo ainda não se convenceu que Ted a deixara, conforme a conclusão oficial do caso. Teodoro não voltara a sua casa e seus pais já haviam encerrado as buscas. Ele era apenas mais um desaparecido, sem que se fizesse alarde por isso.

Os cinco anos seguintes após o desaparecimento de Ted, ela agira como uma autômata. Não se lembrava de como desceu a montanha e chegou em casa. Tudo parecia sem sentido, então ela não pensava, não reagia.

Num entorpecimento psíquico, casou com o pai de seus filhos.

Mas com o nascimento de Dandara ela aterrizou novamente na realidade e de repente percebeu o absurdo do mundo que vivia em função do consumo descartável. Tudo tinha que ser novo, da última geração e 100% esterilizado. Tudo o que era biologicamente vivo era perigoso...

Todos pareciam alegres e satisfeitos. Viviam de acordo com o ideal de vida imposto pela mídia alienante. Não sabiam mais a origem do alimento que consumiam, mas não se importavam. Era agradável aos sentidos e rico em vitaminas sintéticas. Quem vivia fora desse padrão era discriminado.

O auge do poder de consumo estava em abandonar o planeta a sua miséria natural e viver em Marte. Nas brilhantes cúpulas da Colônia Paradiso, onde existia o melhor da tecnologia e ciência.

“Será que só ela percebia o caos disfarçado? A tenebrosa manipulação das massas? Se existiam outros, eram psicologicamente massacrados assim como ela.” Concluía lugubramente em seus pensamentos.

Porém com o nascimento de Lionel, ela teve forças de tomar as rédeas de sua vida e enveredar-se por um caminho sem volta. “Não precisava concordar com a ignomínia. Se alguma vez existiu um caminho sagrado e uma promessa de aceitação, foi perdido e invalidado com a traição da ausência sem sentido de Ted.” Com essa reflexão, Lia desfez o casamento e abandonou o emprego na agência bancária.

Cuidaria dos seus filhos assim como a Mãe Terra cuidou de seus habitantes desde tempo imemoriais. Viveriam sem dinheiro e marginalizados, se preciso fosse, mas não seriam marionetes no jogo sinistro que a humanidade pagava pra jogar.

“Teodoro! Onde quer que você esteja, esteja bem... Agüente firme, pois haveremos de nos encontrar novamente” – pensava Lia enquanto acariciava os cabelos de Lionel em seu colo.

Circe e Medeia se juntaram a Dandara no prazer de estender-se sobre a relva verde.

......

Eram pontualmente 13h00min quando Lia Mey estacionou o seu automóvel numa vaga livre para aeromóvel, em frente ao Instituto Saber de Amparo Sócio Educacional.

O edifício possuía uma fachada inexpressiva, totalmente ausente de adereços arquitetônicos. Reforçando o apelo das imagens que pipocavam no telão de led frontal junto à porta de entrada.

Lia seguiu pelos corredores ladrilhados até a sala de orientação pedagógica. Era a primeira vez que fora chamada para esclarecimentos pedagógicos, conforme informava o e-mail recebido.

Parou diante da porta com a plaquinha OFÉLIA BASTOS – ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA. Antes de bater pensou se seria possível que fosse a mesma Ofélia Bastos, sua professora do ensino fundamental.

Ao ser convidada a entrar, pôde concluir espantosamente que era a mesma senhora, quase esquecida do seu passado.

— Boa tarde senhora Lia! Queira sentar-se, por favor!

“A mesma voz e praticamente a mesma aparência. Como seria possível?” – pensou Lia Mey surpresa. Esboçou um sorriso concluindo que deveria ser o resultado da medicina anti envelhecimento, tão em voga no momento.

— Faz alguns anos que não nos vemos, mas posso reconhecer a antiga fisionomia em cada um de meus alunos. E vou te contar somente agora, que eu mantinha atualizada uma ficha com as características da personalidade de todos eles. E o fato de hoje eu ainda continuar com a pedagogia é para comprovar um estudo de filiação, evidenciado pelas características de personalidade adquiridas de forma congênita.

— Desculpe D. Ofélia, acho que não entendi...

— É muito simples Lia. Você foi uma criança índigo. Sua filha Dandara é tipicamente índigo e seu filho Lionel um caso clássico de criança cristal.

— Já li a respeito. Tem a ver com a cor da aura e o desenvolvimento espiritual, não é?

— Sim. Cada vez mais crianças índigo e cristal nascem. Ainda que o número de espíritos que vem ao planeta para resgatar seus karmas ainda seja maior. Porém no mundo todo, estas crianças estão sendo catalogadas e supervisionadas. E o motivo pelo qual chamei você aqui para conversarmos é esse: não sabemos o real interesse do Sistema vigente para com estas crianças. E por via das dúvidas, precisamos protegê-las.

Lia sentiu o fel na boca com esse prenúncio de ameaça direcionada aos seus filhos. ”Poderia confiar em Ofélia Bastos?”

Com certa relutância indagou:

— E qual a sua sugestão?

— Você será abordada por outra pessoa em outro local mais seguro. No momento certo. Confie. Queremos protegê-los.

O som estridente da campainha anunciando a troca de docentes entre as turmas do Instituto tirou Lia de seu estado de perplexidade.

“Será apenas um mau pressentimento ou o círculo estaria realmente se fechando?” Precisaria de um chá de melissa pra pensar com maior clareza.

Durante seu retorno pra casa tentou se distrair observando a paisagem artificial. Mas tudo lhe parecia denso e estagnado como antecedendo uma tempestade.

Notas finais
Comentem, pls!