Galanteia
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Betheguel, constelação de Touro, setembro de 2025.
Três meses haviam se passado desde o resgate de Dandara. Apesar do carinho da família e do apoio dos betheguelianos, a jovem não se conformava com o destino de Petrus e por não estarem juntos. Preferia ter morrido com ele a viver sem ele.
Tornou-se necessário uma intervenção clínica. Foi-lhe injetada uma droga com efeito de modificar a bioquímica corporal de quem é afetado pelo estado patológico da paixão. Em Betheguel era conhecida como Padoxil e estava em processo de aprovação pelo Conselho de Bem-Estar da Galáxia para estar disponível aos humanos da nova safra de ocupação terrestre.
A bela jovem sentiu os efeitos de imediato. Seu corpo-mente relaxou. Passou a pensar em Petrus como alguém que já fizera parte da sua vida, mas que já não lhe era importante. Abriu-se ao novo. Às belezas de Betheguel e àquele adolescente lindo e ruivo como ela, que estava sempre solícito e sorridente ao seu lado. Era Nithiel, seu anjo guardião.
Teodoro foi convocado a retornar a Terra. Havia um bioma pronto à inserção humana. Ele fora escolhido para liderar este projeto e junto a Mestre Higgs, Lia e seus respectivos anjos guardiões, definiram idéias e princípios a serem adotados neste processo. Utilizariam as técnicas da permacultura na produção de alimento, habitação e energias renováveis. Construiriam assim uma cultura de sustentabilidade.
Reunidos na sala hexagonal anexa ao portal da Pirâmide de Cristal, Teodoro apresentou seu projeto aos representantes do Comitê de Bem-Estar da Galáxia, pelo qual foi ovacionado com vivas.
Apesar do uso do sintonizador lingüístico, Teodoro percebeu o quanto era fácil comunicar-se com aqueles seres, que apesar da aparência, nada comparável à humana, possuíam o dom da empatia e do altruísmo elevado, tornando possível a comunicação num nível superior ao das línguas faladas.
Estavam tão felizes e satisfeitos que Mestre Higgs propôs uma festa. Uma grande festa em Betheguel para comemorarem a partida de Teodoro e o início de seu projeto.
Ylambras, o ser que parecia uma mutação entre a espécie felina e a humana, falou que teriam mais um motivo para comemoração. Aproveitariam a ocasião para um novo batismo do planeta, que inauguraria uma nova era celebrada por toda a galáxia. Na festa, Teodoro, o humano responsável pelo projeto, anunciaria o novo nome do planeta pelo qual seria reconhecido pela comunidade interplanetária a partir de então.
No dia da festa, o salão nobre do palácio governamental de Betheguel fora lindamente decorado com flores e aves de exuberantes espécies. Desde a manhã chegavam continuamente representantes de vários planetas e sistemas planetários. Seria um dia de grandes surpresas e havia muita expectativa no ar.
Além de Teodoro, Lia e seus filhos, Betheguel havia acolhido centenas de humanos índigos e cristal teletransportados por conta do colapso terrestre. A festa se estenderia a eles também e a todos os betheguelianos.
O príncipe Ylambras, que parecia um belo gato persa de pêlo cinza e olhos amarelos, ricamente vestido, cercou Dandara com seus galanteios monopolizando a dança no baile em sua companhia e desde tempos imemoriais não se viu em Betheguel um anjo tão enciumado quanto Nithiel.
O momento mais esperado da festa era o pronunciamento de Teodoro. Antes disso, no entanto, o mestre de cerimônias apresentou oficialmente aos convidados da noite, o sumo representante do sistema solar, ao qual o planeta Terra pertencia. Mestre Higgs se apresentou em pompa e circunstância. O salão momentaneamente silenciou para em seguida irromper em sucessivos “hip,hip, hurras”.
— Caríssimos! – iniciou sorridente Mestre Higgs, seu breve discurso – Esse é um grande dia para todos nós. Sofremos grandes perdas, mas devemos recomeçar sempre. Um ciclo se encerra para que outro possa se iniciar. Estamos juntos aqui hoje, graças à coragem e a fé de muitos. Fizemos o melhor apesar das conseqüências e devemos continuar assim. Sempre buscando o melhor, coletivamente. Porque só seremos plenamente felizes quando o contexto no qual estivermos inseridos também projetar essa mesma energia vibratória de plenitude.
Depois de muitas palmas, Mestre Higgs chamou Teodoro à frente dos convivas.
— Este é nosso representante humano cujo destino o conduziu a cumprir novamente, o papel adâmico no cuidado da Vida no planeta que será rebatizado por ele, neste momento histórico.
Mais uma sucessão de vivas e palmas. Teodoro procurou o olhar de apoio de Lia. Essa seria também uma homenagem a ela.
Ele começou a falar inicialmente de forma tímida, diante de tantos olhares ansiosos fixos nele.
— Há muito tempo, o que pra mim até parece ter sido em outra vida, uma garotinha nervosa e perfeccionista me fez enxergar um mundo de possibilidades que se abrem quando, como o Mestre Higgs assim falou, buscamos o melhor. E um dia, de sua boca, ouvi a história de Galanteia. A estátua em pedra que foi esculpida com tanto amor que ganhou vida, retribuindo o amor recebido por seu criador. Assim, em homenagem ao amor, que tudo torna possível e pelo poder que me foi conferido, eu batizo a nova Terra com o nome de Galanteia.
E o salão irrompeu sonoramente em aplausos e vivas.
Lia Mey conseguiu chegar até Teodoro com dificuldade. Todos queriam cumprimentá-lo e abençoá-lo com votos de sucesso e boa sorte.
Abraçou-o forte sussurrando em seu ouvido:
— Te amo pra sempre meu amor amigo!
Teodoro a envolveu com doçura. Sentia o peito oprimido. Não estariam juntos nessa primeira fase do projeto. Intimamente pedia força e coragem para ter êxito sem ela ao seu lado.
Abraçados, saíram do salão com os demais convidados para verem a queima de fogos de artifício que fecharia com chave de ouro aquela noite em Betheguel.
Quando todos acharam que o espetáculo terminara, nova bateria explodiu formando com esplendor a palavra Galanteia, que perdurou imóvel no céu, registrando nos anais da história aquele evento prenunciado de esperança gloriosa.
Dois dias após a festa, Teodoro partiu através do portal da Pirâmide de Cristal, com um grupo de 12 pessoas, rumo a Galanteia.
Mestre Higgs partiu no dia seguinte a festa para o julgamento de Lucius e Lia Mey deveria esperar por ele no resort da Lua. O que pareceu a ela uma grande incógnita, velada pelo Mestre nos termos: “Você saberá o porquê quando chegar a hora.”
Lia não queria separar-se dos seus queridos, mas intuía que sua aventura pelo desconhecido ainda não terminara.
A despedida foi doída. Não sabiam quando estariam todos juntos novamente. Mas afinal, precisavam confiar. Pois cada novo dia era potencialmente um convite à aventura. E não estavam sós. A força da Vida os impelia rumo ao Propósito Maior da Existência.
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