Galanteia

14 Capítulo 14


Notas iniciais
Um capítulo sangrento...

Ao chegarem em Betheguel, Teodoro olhava admirado a tudo e todos. Lia tinha tanto a lhe contar. Anos de ausência para serem preenchidos...

Foram recebidos por Reiiel e por mais um ser especialmente belo que Lia Mey intuiu, acertadamente, ser o anjo guardião de Teodoro. Sentiu certa cumplicidade entre os dois seres angélicos, como se fossem diretamente responsáveis pelo reencontro do casal de humanos.

O guardião de Teodoro adiantou-se a ele e colocando as duas mãos nos ombros dele, saudou-o mentalmente. Teo apresentou-o a Lia como Caliel e nisso Lionel entrou correndo pelo recinto do portal da Pirâmide de Cristal, acompanhado igualmente do seu próprio anjo. Tão luminoso e sorridente quanto o garoto. Aparentando ter a mesma idade, como um companheiro de brincadeiras. O anjo menino era Amabiel. Lionel soubera de sua chegada e viera lhe contar que Mestre Higgs fora buscar Dandara em Marte.

Teodoro estava totalmente por fora do assunto, mas tinham agora o tempo a seu favor. Mas primeiramente precisavam descansar. Um banho e uma refeição adequada eram suas prioridades.

Lia confiava em Mestre Higgs, porém mesmo assim sentia-se apreensiva. Só relaxaria quando todos os que ela acreditava lhe pertencerem, estivessem a salvo, ao seu lado. Ao alcance de seus olhos e mãos.

......

Colônia Paradiso, Marte, junho 2025.

Mestre Higgs chegou a Marte no momento em que seus habitantes assistiam estarrecidos, no projetor holográfico da praça central, as imagens enviadas via satélite, da destruição de seu planeta natal.

O recém chegado caminhou entre a aglomeração de pessoas, captando os sentimentos mistos de alívio, alegria, medo, inquietação e indignação.

A colônia parecia esteticamente perfeita. Tudo era belo, organizado e pacífico. Mas havia de alguma forma, uma ameaça latente que o Mestre não soube precisar. Tentou rastrear psiquicamente Petrus e Dandara, sem êxito.

Sua empreitada não parecia ser tão fácil como imaginara a princípio. Havia na colônia muitos reptilianos camuflados pelo bioplasma humano. Procurou manter sua aparência no anonimato, oculto sob a capa e o capuz de sua vestimenta.

Todos os hotéis e pousadas estavam lotados por conta do êxodo terrestre, inclusive o resort da Lua, como lhe foi informado. Sem ter para onde ir, resolveu ficar no canto de um bar, da última hospedaria que encontrou naquele dia.

Os ânimos do lugar estavam exaltados. Falava-se de uma auto coroação. Teriam um imperador. Na certa um tirano, usurpador de direitos inapropriados.

E, com efeito, na manhã seguinte, ao som de trombetas, a população foi convocada a comparecer à praça central para o anúncio oficial da coroação de Lucius Marconi, Imperador e Magnífico Dignitário de Marte. A cerimônia ocorreria naquele mesmo dia, às 15h00min horas do dia primeiro do sexto mês do novo tempo marconiano.

A reação geral foi de protesto. Viviam muito bem até então sem a imposição de liderança. O funcionamento da colônia era inteiramente automatizado, alimentado energeticamente por meio de poderosos captadores de irradiação solar.

Mestre Higgs previu insurreições e possivelmente violência contralateral. Mas Lucius era versado no domínio das artimanhas da sobrevivência em meio hostil. Surgiu diante da multidão perplexa em sua forma reptiliana. Salvaguardado por duas alas de milícia igualmente reptiliana.

A coroação efetivou-se sem que os habitantes atemorizados se manifestassem contra. O Magnífico Dignitário e Imperador de Marte assumiu com orgulho sua asquerosa forma física e sua até então, detestável gagueira. Pronunciou-se às massas com a coragem e a empáfia do poder recém adquirido:

— Aos irmãos humanos, aceito vossa gratidão por revelar-lhes a verdade: nós reptilianos desde sempre estivemos entre vós. Sem que soubésseis controlamos vossas mentes para que vossas condutas fossem de acordo com nossos preceitos.

— O tempo terrestre se findou e com ele a farsa e a mentira. Sou vosso Salvador e como tributo a esse grande dia, que inaugura uma nova era, ofereceremos as vidas de dois representantes de nossas raças. Selaremos assim uma aliança de ajuda mútua, entre irmãos de raças longamente coexistentes.

Nisso, dois oficiais da milícia reptiliana, trouxeram à frente da multidão, os dois representantes das raças. De mãos atadas por correntes e escoltados a ponta de espadas, surgiram Petrus e Dandara.

Mestre Higgs precisava agir rápido. Aquele leso réptil, que até então passou despercebido à Superintendência da Galáxia, revelou-se um vilão inescrupulosamente brilhante e perigoso. Com certeza levaria a cabo o seu show público de horror.

Usou para tal o seu cajado de criar ilusões espaciais. Para isso precisava formar uma forte projeção mental e batê-lo vigorosamente no chão. Assim, criou uma espessa névoa e um corredor de livre acesso aos prisioneiros.

No entanto, os dois estavam acorrentados juntos pelos pulsos e não poderia mandar Petrus à Betheguel, para onde ele irremediavelmente iria estando preso a Dandara.

Petrus percebeu a situação e disse para Mestre Higgs usar a espada do soldado a sua esquerda para cortar seu braço da corrente.

— Não! – gritou Dandara.

— Está tudo bem pequena caríssima – suavizou-lhe o Mestre – ele se regenerará como acontece com todos os répteis.

Em dois movimentos absolutamente precisos, Mestre Higgs agarrou a espada da mão hesitante do soldado, amputando o punho de Petrus. Ato contínuo colocou o cristal no pescoço de Dandara acionando o teletransporte.

O esforço físico exauriu momentaneamente as forças do Mestre, desfazendo sua projeção mental.

O pânico e o caos haviam se instalado. Ao fio de espadas de um lado e de outro, bancos e lixeiras usados como aríetes, a ordem era matar ou morrer.

Em meio à confusão, Mestre Higgs perdeu Petrus de vista. Sequer podia seguir seu rastro de sangue, pois a praça estava banhada pelo fluido vermelho sob o amontoado de corpos sem vida.

Correu para a base de lançamento da zona permeável da cúpula atmosférica e chegando lá presenciou outra batalha, dialética, entre Petrus e Lucius.

O sangue do punho decepado já estancara e Petrus tentava com dificuldade içar todo o combustível disponível para partir antes do colapso de outro planeta do sistema solar.

Sem que Mestre Higgs precisasse intervir, de súbito, uma grande nave com o signo da Superintendência da Galáxia, atravessou a zona permeável, pousando ao lado da nave que estava sendo preparada por Petrus.

Enquanto os oficiais da justiça intergaláctica detinham Petrus e Lucius, a tropa de contenção a bordo da nave justiceira, espalhou-se em pelotões pela colônia. Com suas armas de curto alcance, acionaram campos de Mitzur imobilizando os combatentes.

Mestre Higgs foi recebido com reverência no interior da nave justiceira pelo alto comandante Zenoar.

— Salve Mestre Apolônio Higgs de Bel-Alúbia!

— Paz e bênçãos comandante! Chegaram bem a tempo de impedir uma perigosa evasão!

— Sim, no entanto, a galáxia inteira se ressente pelo destino da Terra. A ordem máxima das Altas Esferas de não intervenção, por vezes, é custosa de se acatar – desabafou Zenoar convidando Mestre Higgs a se sentar.

— O que será feito dos prisioneiros? – perguntou o Mestre acomodando-se a uma das poltronas do recinto social da nave.

— Os reptilianos sobreviventes junto a Petrus de Domenico serão enviados à Lacerta e os humanos ficarão em animação suspensa até a possível reintegração ao planeta Terra. Quanto a Lucius Marconi, será levado ao Comitê de Justiça da Galáxia para julgamento por sua conduta criminosa. Vamos precisar do seu depoimento Mestre, como testemunha ocular dos eventos decorridos.

— Certamente comandante. Sempre a serviço da galáxia! – declarou Mestre Higgs de certa forma triunfante. “Afinal” – pensou ele – “nem tudo estava perdido. Precisavam confiar no Propósito Maior da Vida.”

Notas finais
Nada tão terrível assim, não é?!