Galanteia

11 Capítulo 11


Notas iniciais
Mudança de cenário... Sejam bem vindos!

Oásis de Chebika, Tunísia, abril 2025.

Passaram-se três anos após aquele fatídico anoitecer em que Teodoro como Andres seguiu sem rumo, passo apertado, carregado de pesar. Chegou a cruzar o Atlântico e a vagar como indigente pelos países da Europa. Conheceu todos os segredos e percalços da clandestinidade. Sua vida reduzida à mera existência física.

Familiarizou-se com a morte em muitas ocasiões. Surpreendendo-se com a peculiar característica humana de preocupar-se com detalhes insignificantes, arranhões no braço, enquanto a vida esvaía-se numa garganta cortada.

Chegando a Itália, atravessou o Mar Vermelho, aportando na Tunísia. Desembarcou em Túnis, a porta de entrada do continente africano. A alegre sincronia de cores, sons e cheiros despertou em Teodoro o prenúncio do alento.

Caminhou pelas antigas ruas de Medina, ainda em intensa atividade, no melhor estilo do comércio árabe. Volta e meia era surpreendido por olhares femininos envoltos em echarpes, que mais tarde soube que eram chamadas de hijab. Naqueles furtivos olhares algo o inquietava. Uma lembrança talvez. Algo querido que lhe oprimia o coração.

Por meio dinar comprou um bloco para desenho e alguns bastões de grafite. Desde sua estada na Itália, começou a desenhar para passar o tempo conseguindo até algum dinheiro com isso.

No segundo dia em Túnis, Teodoro estava no pátio central da Zitouna, a grande mesquita, desenhando os detalhes da construção, quando foi abordado por um típico muçulmano.

— Marhaba! – disse o sorridente interlocutor.

Teodoro não lhe soube responder, o que fez com que o homem de meia idade, rosto curtido pelo sol e ouro nos dentes, mudasse sua estratégica de comunicação.

— Olá!- falou-lhe em um inglês adaptado aos turistas.

— Olá! – respondeu-lhe Teodoro, aberto a uma conversação mais eficiente.

— Chamo-me Husayn Abu – disse-lhe sentando ao seu lado.

— Andres Bolívar – não houve aperto de mãos, no entanto, sentiu-se uma afinidade de almas.

— Você desenha bem rapaz! Não se vê mais esse tipo de atividade ultimamente.

Teodoro consentiu num meio aceno de cabeça.

— Sabe – continuou Abu – sei de um lugar que você iria gostar de conhecer e registrar assim no papel.

Teodoro o animou a continuar visivelmente interessado.

— Minha caravana parte amanhã para o deserto. Faremos negócios no oásis de Chebika, a 475 quilômetros de Túnis, quase fronteira com a Argélia.

Sem esperar resposta, o muçulmano levantou-se, dizendo em despedida:

— Nos encontramos amanhã às 18h00min horas no souks de tapetes do mercado. Smalla’Alik!

O dia seguinte, Teodoro passou percorrendo os diversos souks de Medina. Comprou uma indumentária apropriada para o deserto, um tapete, um cantil e provisões de frutas secas. Imaginou que seria o suficiente para aquela insólita travessia. Estava acostumado a viver com muito menos que isso.

Quando chegou ao souks dos tapetes, meia hora antes do horário marcado encontrou uma incomum agitação de homens e animais. No meio daquela balbúrdia, sobressaía-se Husayn Abu, com uma aura de calma harmonia.

Ao notar a presença de Teodoro, aproximou-se trazendo um dromedário pela arreata.

— Yalah! — Abu o convidou a experimentar a montaria.

Teodoro acercou-se do animal timidamente.

Husayn sorrindo o encorajou:

— Não receie! É uma fêmea e dócil com estrangeiros.

Com a ajuda de Abu, Teodoro subiu e desceu da sua montaria, pegando logo o jeito. Vestiu sua indumentária, acomodando o restante da sua bagagem à sela.

A caravana se pôs em marcha. Do alto, no compasso das rítmicas passadas, o cenário em tons de laranja do pôr do sol na areia, substituiu a lembrança de um pôr do sol de outrora, cinza e negro de sombras.

A jornada de semanas foi fustigante e abrasadora. Nas últimas milhas, antes de chegarem a Chebika, foram surpreendidos por um forte simun, uma tempestade de areia que zuniu por horas sobre o deserto.

Teodoro se protegeu como pôde, atrás do corpo volumoso da Rainha de Sabá, sua dromedário, a qual se afeiçoara. Sendo-lhe gentil em troca da sua paciente resiliência para com ele. Graças a Rainha de Sabá, sua vida fora salva mais de uma vez naquela travessia. Seu instinto animal alertando-o contra a presença dos perigosos Leiurus, escorpiões do deserto, infiltrados em sua tenda.

Quando enfim, o simun cessou, seguiram adiante sem que a tormenta enfrentada lhes freasse o ânimo. A convivência com aqueles beduínos estava lhe ensinando a não se importar com os acontecimentos da vida. Tudo acontecendo porque assim deve acontecer.” Mektoub! Está escrito!”

— Porque se importunar se esta é a Vontade de Alah? – perguntava-lhe Husayn Abu. – Ele sabe o que faz! Mantêm o mundo nos eixos desde muito tempo antes de termos nascido e continuará a fazê-lo depois que partirmos.

Teodoro muitas vezes olhava-o aturdido, sem entender. Mas aos poucos foi incorporando essa antiga sabedoria, seus pensamentos e conduta.

Abu lhe deu para ler uma versão em inglês do livro do poeta Jalaluddin Rumi. Chegou a decorar vários dos poemas do fundador do sufismo. Porém, o seu preferido era:

“Vem te direi em segredo

Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar

E os grãos de areia do deserto

Giram desnorteados?

Cada átomo, feliz ou miserável

Gira apaixonado

Em torno do Sol “

— Mash’Allah! – foi a expressão admirada de Teodoro diante da primeira visão do oásis de Chebika.

— Bem vindo amigo, ao jardim de Alah – falou Abu com a mão ao ombro de Teodoro. Apreciaram juntos a visão daquela pérola verde em meio ao oceano de areia.

Nos dias que seguiram, o descanso entremeou-se às contínuas negociações dos homens do deserto. Teodoro de cabelo e barba longos sentia a quietude tão almejada. Seu passado continuava obscuro, no entanto, se concentrava no milagre do momento presente e confiava.

A caravana regressou a Túnis depois de um mês e Teodoro permaneceu no oásis. Husayn Abu partiu com muitos dos desenhos do rapaz que considerava um filho do coração. Eram sua nova mercadoria para atrair turistas. Abu dizia que era importante manter as tradições sem se perder jamais, a oportunidade do novo. Nunca mais se viram...

Dois meses depois da partida da caravana, o mundo conhecido até então, deixou de existir. Para Teodoro e os demais habitantes do oásis, o fim do mundo foi um enlouquecido turbilhão de areia. A escuridão dos dias que se seguiram os deixou às cegas. Nenhuma tenda pôde resistir ao vento cortante.

Teodoro lembrou-se da gruta sob a cascata, que conheceu assim que chegou ao oásis. Conseguiu levar para lá a Rainha de Sabá e o seu filhote, o pequeno Rumi, que nascera naquela semana. O mundo lhe parecendo deveras hostil para sua infante existência... Avançaram lentamente sem encontrarem mais ninguém no caminho.

A gruta era grande e bem protegida com acesso fácil até mesmo para o porte majestoso da Rainha de Sabá. Tinham abrigo e água. Teodoro sabia que algo grave ocorrera. Não era apenas um simun. A dromedário mãe estava agitada. Isso era novo e assustador para ela também.

Lembrou de Husayn Abu e desejou que estivesse a salvo assim como as demais pessoas do oásis. Desde que chegara à Chebika, viveu isolado, quase um eremita, a sós com seus desenhos e seus pensamentos.

Haviam-no recebido com hospitalidade, eram solícitos. Aqueles beduínos sabiam respeitar as reservas de uma pessoa, sendo ela estrangeira ou não. Sentia falta deles agora.

Precisava sair. Realizar buscas. Mas o cansaço tomou o espaço das suas urgências. Dormiu no aconchego da única coisa que lhe era familiar: o cheiro do pêlo de dromedário

Notas finais
Escrever é ao mesmo tempo viver sonhos. Foi o que aconteceu comigo ao percorrer o deserto com o Teodoro.