Gakkou Carnival!

3 Capítulo 1.3 - Ishida Souta


Notas iniciais
Terceiro capítulo de introdução, à partir daqui as coisas vão começar a ficar loucas (sim, mais do que já estão)

— Ishida Souta —

Residência da Família Ishida —

Talvez fosse a iluminação baixa. Talvez o leve perfume de essência de rosas no ar. Ou talvez fosse a fina camada de vapor que cobria sutilmente nossos corpos nus. Seja lá o que fosse, a atmosfera era de um romantismo recheado de tensão sexual.

Meus dedos deslizaram pela pele delicada da garota. Ela gemeu de leve, sentindo prazer ao meu simples toque. Seu rosto estava coberto por um vermelho excitante, um misto de vergonha e puro desejo. Ela repetiu meu nome várias vezes.

— Souta-kun... Souta-kun...

Minhas mãos subiram por suas coxas, passaram por sua cintura, até chegarem em seus grandes e lindos seios. Eu os agarrei num movimento súbito, sem conseguir aguentar nem mesmo mais um segundo.

— Kyaan~

A garota emitiu um som estranhamente familiar e nada agradável. Sua voz estava completamente diferente, e foi nesse momento que dei por mim e abri os olhos de verdade.

Na minha frente, estava uma velha enorme e carrancuda, usando maquiagem tão pesada que beirava o bizarro. Minhas mãos formavam uma concha que agarravam os dois objetos rechonchudos pendurados sobre seu tronco.

Meu cérebro travou por um segundo, processando todos os dados que eu tinha sobre formas de suicídio. Enforcamento, hemorragia, Bungee Jumping sem corda... quando eu finalmente voltei a mim, me debati debaixo das cobertas, como um peixe desesperado ao ser arrancado do mar.

— Gah!

Minha perna escapou para fora da prisão de tecido, chutando a barriga gorda da velha para o mais longe possível. O corpo tombou para trás e colidiu com a parede, causando um estrondo que estremeceu toda a casa.

Sentei na ponta da cama, segurando a minha própria garganta enquanto meu corpo se esforçava para colocar as tripas para fora.

— Souta-kun, tendo mais sonhos pervertidos?

A velha perguntou enquanto ajeitava a peruca, com a mesma voz irritante. Eu olhei para ela, no chão, com um olhar de nojo.

— Pai, eu já falei pra não me acordar assim...

Sim, você ouviu certo. O homem de vestido rosa, peruca e maquiagem é, na verdade, meu pai. Como, exatamente? Isso remete a uma história de bastante tempo atrás.

Há muito, muito tempo, meu pai era um homem normal. Ele e minha mãe me criaram juntos, e viveram um casamento feliz. No entanto, meu pai secretamente vinha vivendo uma vida dupla. Durante a noite ele se tornava uma outra pessoa que nenhum de nós conhecia. Foi um choque e tanto quando...

Bah, bem que eu queria.

Isso aí é história pra boi dormir. Na verdade, meu velho louco esteve preso pelos últimos quinze anos por uma acusação de pedofilia, que, devo dizer, não foi nada infundada. Faz você pensar duas vezes antes de colocar um vestido colado no corpo e sair perguntando às crianças do primário se elas querem chupar um pirulito.

Durante esse tempo, fui criado sozinho por minha mãe. Ela lutou para me criar. Batalhou contra o preconceito e as probabilidades, vivendo uma vida digna de...

Ah, quem eu estou enganando?

Para falar a verdade, minha mãe é uma chefe do tráfico. Bem, era. Enfim, ela foi pega mais ou menos na época que meu pai foi solto. Eles a detiveram por mais ou menos duas horas, quando, numa operação de larga escala, os capangas dela conseguiram salva-la e tira-la do país.

Ainda lembro da última vez que a vi, num helicóptero, voando bem acima desta casa. Ela desceu por uma corda e me entregou uma nota de dois mil ienes.

— Compre algum doce pra você, cagão! — Foi a última coisa que ela disse.

E então, simplesmente, desapareceu. Nunca mais a vi. Se ela era uma poderosa chefona do tráfico, bem que podia pelo menos ter me dado um pouco mais de dinheiro... Mas o que esperar de uma mãe que sempre foi irresponsável? Se eu não tivesse aprendido a usar o micro-ondas com dois anos de idade, provavelmente teria morrido de fome em algum ponto do caminho.

Mas passado é passado. Temos que focar no agora, no presente, no hoje.

— Eu sei que você me pediu para não te acordar assim, mas a escola começa hoje! — a fala do homem de vestido me trouxe de volta à realidade.

É, esquece o hoje. O hoje é uma droga.

— Eu vou dormir — virei e me cobri.

— Souta-kun! Souta-kun! Você não pode! É seu primeiro dia de aula!

Respirei fundo para não dar uma na cara do velho tarado.

— Escuta aqui, velhote... Eu passei toda a noite de ontem acordado por causa do trabalho... Me deixa em paz...

— Bem, já que você vai ficar aí deitado, acho que não vai se importar se eu me a-pro-ve-i-tar... — ele sussurrou no meu ouvido e meu corpo todo se estremeceu.

A casa foi preenchida mais uma vez por um estrondo, dessa vez resultado do meu cotovelo se chocando contra aquele nariz com formato de batata.

***

Apesar do meu inicial descontentamento com a ideia de ir para a escola, o pensamento quase instintivo de me afastar daquela casa tornou minha saída consideravelmente mais fácil.

O sol castigava qualquer um que tentasse sair, especialmente alguém como eu, um Hikikomori sem cura. Afrouxei o nó da minha gravata, suspirando.

—Vou morrer...

O caminho para o colégio era um tanto quanto íngreme, formando uma pequena ladeira que, nesse horário, ficava preenchida por estudantes de todas as idades. A maioria faria um desvio em algum ponto, mas eu não. Minha escola ficava no fim da ladeira. Um manicômio que chamam de Ninjin Gakuen.

Surpreendentemente, é uma das escolas mais conceituadas do Japão. Aparentemente a maioria dos gênios e revolucionários saem de lá, ou de um de seus vários campus espalhados pelo mundo. Algo a ver com a lei da sobrevivência do mais forte...

Em outras palavras, você precisa ser uma pessoa espetacular só para sobreviver àquele colégio.

Quando eu me aproximo de um certo ponto, marcado por uma solitária cerejeira há muito seca, sinto um braço me envolver. Meu corpo tomba um pouco pro lado, se equilibrando no último instante.

— Bom dia, Ishida! Caramba, já faz um tempão, hein? Já tava começando a me sentir sozinho!

— Você... Eu já não disse pra não fazer isso?

— Desculpe! Velhos hábitos são difíceis de largar.

— É, mas eu não. Me larga.

— Que é isso! Vai dizer que não sentiu nem um pouquinho de saudades?

— Pra ser sincero, nem lembrava que você existia.

Do outro lado da ladeira, duas garotas cochichavam enquanto olhavam na minha direção. Elas passaram por mim depressa, mesmo que eu tivesse chegado na ladeira primeiro. Isso era por que eu caminhava à passos de tartaruga.

O garoto ao meu lado sorria como um idiota. Futaba Gosuto. Uma série acima de mim, um rapaz animado e comum — exceto que ele é um fantasma.

Em outras palavras, quem quer que passasse e me visse, sabe, casualmente conversando com o vento, definitivamente me acharia um doido varrido por falar sozinho. Por isso, os cochichos.

Suspirei e olhei para o céu, me fazendo a pergunta que todo estudante de ensino médio se faz em determinada época do ano. Por que as férias têm que acabar mesmo?

— Mas que droga é aquela...? — parei de andar na mesma hora, olhando o mesmo ponto fixo no céu.

Disparada do topo da ladeira, uma garota vinha correndo em nossa direção. Além de não usar o uniforme padrão da Ninjin, e, ao invés, usar aqueles robes ridículos e cheios de babados, ela ainda possuía um adorno peculiar — um chapéu pontudo três vezes maior que sua cabeça.

A garota sorriu animada ao nos ver, estendeu as duas mãos para cima e gritou nossos nomes.

— Ishida-kun! Gosuto-kun! High five!

Me esquivei sem nem mesmo fazer contato visual. Ela tropeçou, atravessou o “corpo” de Gosuto e deu com o focinho direto no chão.

Sawahara Moeko. Uma bruxa autodidata e segundanista, embora não sejamos da mesma classe. Na verdade, eu nem mesmo conhecia ela até um incidente na segunda metade do ano passado.

Certo dia, esqueci as minhas coisas na classe e, quando voltei para buscar, lá estava ela, preparando algum tipo de poção.

A bruxa se distraiu ao me ver e derrubou o que parecia ser um saleiro num caldeirão. Isso resultou numa explosão que — e eu enfatizo — interditou o segundo andar do prédio por um mês inteiro. Desde aquele dia, passamos a conseguir ver o irritante fantasma do Gosuto, e a garota, igualmente, senão mais irritante, passou a andar comigo.

Olhei sua figura espatifada, ligeiramente surpreendido com o fato do chapéu gigante não ter saído do lugar. O fantasma deu um risinho sapeca ao ver a cara emburrada dela.

— Vocês fizeram de propósito!

— Mais importante que isso... — Apontei para cima. — Aquilo ali foi você que fez?

Moeko acariciou o nariz, olhando para mim.

— Aquilo o quê?

A bruxa acompanhou a direção do meu dedo. Quando se deu conta do que eu estava falando, desviou o olhar como se não soubesse que era com ela.

— Quem sabe...? Hehe~

— Você...

No fim da ladeira, sobravam apenas os estudantes que estavam destinados à Ninjin, e as coisas começavam a ficar mais parecidas com um festival de loucuras.

Como em todo começo de ano, o diretor logo faria seu discurso para os velhos e novos estudantes dando as boas-vindas ao lugar que ele tentaria o seu melhor para fazer parecer não ser o inferno na terra.

Não que importasse muito, pois a ilusão duraria apenas alguns minutos. Afinal, não sei se já avisaram, mas o nosso diretor é um maldito coelho.

Pois é.

Já jogaram aquele jogo em que os monstros cabem no bolso, e tiveram que ajudar um cara a se separar de um monstro com o qual ele havia se fundido? Imaginem isso, exceto que sem a parte do cara, e então vão começar a ter uma breve ideia do que é viver com o nosso diretor. Não se preocupem, se não entenderam, irão logo logo.

Bem, vamos às opções:

Opção um: Fico no salão e escuto o discurso de um coelho biruta, ou; Opção dois: Não importa a opção dois, afinal, qualquer coisa é melhor do que a primeira.

— Estou caindo fora daqui...

— Eh? Souta-kun, você não vai assistir o discurso do diretor? — disse a garota com chapéu de bruxa.

— É, não vou. Todo mundo sabe o que ele vai dizer. ‘Queridos alunos’, blábláblá, ‘é uma honra recebê-los na Ninjin Gakuen’, blábláblá, ‘não entrem nas masmorras nem na floresta proibida’...

— Mas é uma cerimônia importante! É quando velhos amigos se reencontram e os calouros celebram seu primeiro passo dentro da vida escolar!

— Se você quer tanto ir ver, pode ir. Eu tenho mais o que fazer.

— Não, não, Souta-kun! Você precisa dar exemplo aos calouros! É sua responsabilidade enquanto veterano!

— Você quer me falar de responsabilidade? Já deu uma boa olhada NAQUILO?! — eu apontei pro céu, bem no topo do campus.

Um gigantesco círculo mágico se formava no terraço, brilhando em azul, refletindo como uma projeção nas nuvens.

Deus, se esse fosse meu primeiro dia no colégio e, assim que eu chegasse, tivesse que me deparar com aquilo, já teria dado meia volta e ido pra casa. E isso teria me poupado muito, muito trabalho...

— Está tudo bem! Ninguém consegue ver ele, além de nós três...

— ... e isso era pra ser bom?

— Vamos, vamos, pessoal — Gosuto interveio. — Estamos começando um novo ano na Ninjin. Temos que esperar o melhor, não é?

— Isso mesmo, Gosuto-kun!

— Até parece.

Eu e Moeko respondemos, quase ao mesmo tempo, respostas completamente opostas.

Ah, a atmosfera ao redor desses dois está me deixando enjoado...

— Bem, vão lá se divertir com o Pernalonga. Eu estou de saída.

Caminhei através da área frontal da Ninjin, numa direção diferente da de todos os outros estudantes. Dentro do salão, o diretor começava, finalmente, o seu discurso.

De uma coisa, eu tenho certeza...

Eu definitivamente, odeio esse lugar.

Notas finais
Fechamos então a introdução da loucura! E aí, digam o que estão achando! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.