Gabriella
1 Capítulo 1
Eles estavam apertando meus pulsos. Seguravam-me com força para que eu não pudesse escapar. Eu não sabia onde estavam me levando porque eles haviam colocado uma venda em meus olhos. Eu só conseguia ouvi-los rindo. Rindo de mim. Rindo de como eu era fraco, de como era engraçado me ver sofrer. Depois de um tempo me carregando, eles me jogaram no chão e minhas costas doeram ao bater direto contra a parede. Eles tiraram a venda e minha vista demorou alguns segundos para se acostumar com a claridade. Todos estavam lá, eles gargalhavam e caçoavam do meu medo. Eu implorava para que tivessem piedade e não batessem em mim, mas eles não me deram ouvidos e começaram a me chutar e a me socar.
Acordei assustado. De novo. Fazia tempo que esses pesadelos não me atormentavam. Olhei para o relógio. 5h45. Eu não ia voltar a dormir já que daqui a pouco tempo teria que acordar novamente, então, decidi me vestir e dar uma passeada pelo bairro antes de ir à faculdade. Fiz o máximo de silêncio que pude para não acordar o Lucas e Murilo. Os dois dividiam o apartamento comigo e ontem tinham ido a mais uma das mil baladas que eles sempre participam, e eu queria deixá-los descansar. Os dois adoravam uma boa festa. Eles dizem que eu preciso ir com eles de vez em quando, mas eu prefiro ficar em casa sem aquela música alta e aquele bando de gente se esfregando na pista de dança. Além do mais, acho desrespeitador o modo como tratam as mulheres lá dentro. Quando eu digo isso a eles, os dois reviram os olhos e geralmente mudam de assunto.
Coloquei uma bermuda e uma camiseta e peguei minha carteira, o celular e o IPod. Meu skate estava na entrada. Fechei a porta com cuidado e tranquei-a vagarosamente. O sol já brilhava lá fora, mesmo sendo apenas 6 horas da manhã. Subi no skate e fiquei andando bem devagar, na medida em que era possível observar os restaurantes fechados, as casas com os portões trancados, a calçada vazia. Ninguém andava nas ruas além de mim. Eu gostava do bairro daquela maneira. Uma brisa bem fraca batia contra o meu rosto e o cheiro das flores que eu sentia quando inspirava me deixava mais leve. Dei mais impulso com o pé. Peguei os fones do meu IPod e coloquei-os em meus ouvidos. Escolhi uma música calma, uma que combinasse com o momento e apreciei a melodia. Fechei os olhos por um instante e respirei fundo. Minha vida estava, finalmente, tomando um bom caminho, as pessoas estavam sendo boas comigo e as coisas começavam a dar certo... Meus pensamentos foram interrompidos quando alguém tropeçou no meu skate e caiu em cima de mim. Eu caí de costas no chão e meu skate foi longe.
– Ai meu Deus! Eu sinto muito!
Deitado ali, ouvindo aquela moça se desculpar, algo mudou dentro de mim. Senti-me esquisito com aquela sensação até que ela se levantou e me ajudou a me levantar também. Nós dois pegamos nossas coisas do chão. Ela pegou a bolsa e o celular que tinham caído e eu peguei o IPod, o celular que tinha saído do meu bolso durante a queda e trouxe o skate aos braços. Enquanto tirava o pó da minha camiseta, ela continuava a se desculpar e a dizer que estava distraída e que não tinha me visto. Levantei o olhar e a encarei. Ela tinha uma pele clara, olhos cor do mar que se escondiam atrás de um óculos de aros azuis. Seus cabelos eram longos e de uma cor indefinível, mas que chegavam perto do mel. Tinha um nariz pequeno e lábios nem tão finos nem tão grossos, mas extremamente vermelhos. Ela usava uma saia rodada da mesma cor dos óculos, uma blusa estampada de rosa e azul e sapatilhas.
– Err... Sinto muitíssimo, mas eu realmente preciso ir... – ela deve ter ficado sem jeito pelo fato de ter olhado para ela por tanto tempo sem dizer uma palavra.
– Meu nome é Rodrigo. – eu disse, de repente.
Seus olhos brilharam com a minha fala e ela suspirou aliviada quando percebeu que eu não era mudo.
– Prazer, meu nome é Gabriella. – ela fez uma pausa – Com dois Ls.
– O prazer é meu Gabriella com dois Ls.
Ela riu baixinho e parecia estar envergonhada com a situação.
– Você... – nós dois falamos ao mesmo tempo e rimos instantaneamente. Fiz sinal para que ela falasse primeiro.
– Você anda? – ela perguntou, apontando para o meu skate.
Afirmei com a cabeça.
– Eu também! Adoro andar quando a rua está desse jeito, vazia...
Balancei a cabeça positivamente. Eu não conseguia falar... Algo naqueles olhos me deixava penetrado. Acho que ela deve ter estranhado minha atitude e disse que precisava partir. Então, nós nos despedimos e ela foi embora. Fiquei observando-a enquanto se afastava, quando me peguei torcendo para que ela olhasse para trás. Mas ela não o fez.
Retornei o skate ao chão e comecei a andar novamente. Porém, já não me concentrava mais na música e não conseguia apreciar o espaço a minha volta como antes. Só tinha cabeça para ela. Gabriella... Será que algum dia eu a encontraria novamente? Não sei... Mas de uma coisa eu tenho certeza: aqueles olhos não iriam da minha mente tão fácil.
~~~0~~~
Voltei para o apartamento quando percebi que o Murilo e o Lucas já deveriam estar acordados. Assim que cheguei, vi os dois tomando café na nossa cozinha minúscula. Eles se assustaram com a minha entrada repentina mas pareceram aliviados com a minha chegada.
– Onde você tinha se metido, irmão?
Lucas sempre fora muito carinhoso. Gostava que as pessoas que amava estivessem sempre bem. Eu respondi que tinha tido um pesadelo e que, como já era de manhã, aproveitei o bom clima para passear e esfriar a cabeça.
– O mesmo pesadelo? – o Murilo me olhava sério.
– É sempre o mesmo.
Depois de alguns segundos de silêncio, o Lucas interveio:
– Achei que eles tivessem parado.
E tinham, mas eu não queria explicar que, de acordo com a minha antiga psicóloga, eles poderiam voltar dependendo do meu humor, do meu estado ou até do dia, por isso, apenas respondi:
– Eu também.
Os dois levaram pouco tempo para se arrumar e logo saímos para ir à faculdade. Nós três sempre íamos de skate para não precisar gastar dinheiro com táxi, já que nenhum de nós tinha tirado a carteira de motorista ainda. Chegamos lá 15 minutos depois.
As aulas não foram tão entediantes, para falar a verdade, até que passaram bem rápido. Fui sozinho para o apartamento logo depois, pois o Murilo foi sair com a namorada para almoçar e o Lucas foi jogar futebol com uns amigos. Aproveitei a calmaria da casa para terminar meu livro, mas fui interrompido por um som estranho que vinha da minha mochila. Parecia ser um celular, mas aquele não era o meu toque. Tirei o aparelho da mochila e na tela, o número que aparecia, era exatamente o meu! Olhei o papel de parede. Aquele, definitivamente, não era o meu celular. No desespero, atendi a ligação. Era uma voz feminina.
– Rodrigo?
Era ela.
Fale com o autor