Gabriele e Tomas
1 Capítulo 1
O verão no Brasil, costumava ser quente, mas aquele verão estava agradável. Gabriele havia chegado na casa dos pais há uns dois dias e estava se sentindo bem mais quente do que jamais havia se sentido, não só pelo verão, mas por que estava sendo recebida com calor e carinho, pois seus pais como sempre eram muito atenciosos.
O quarto continuava o mesmo de quando havia se mudado para estudar em Londres. Se passaram quatro anos desde a ultima vez que estivera ali, e nada havia mudado. A parede ainda era de cor verde clara, com flores em um papel adesivo que eram como adornos seguindo até o espelho. O espelho por sua vez era do tipo antigo, com detalhes floridos, e estava repleto de fotos coladas por toda a sua extensão. Mas mesmo o quarto estando impecavelmente igual, já faziam quatro anos, e nesse tempo muito havia mudado.
Talvez ela não estivesse tão ansiosa para o reencontro com o pessoal da escola, pois eles haviam sido cruéis com ela. Se uma tristeza deixa uma marca profunda em uma pessoa, uma tristeza acompanhada de uma humilhação pública a deixa muito pior. Há quatro anos atrás, Gabriele era a típica menina tímida, que usa aparelhos e óculos. Seus cabelos estavam sempre em duas tranças caídas aos ombros e seus olhos possuíam uma coloração única em uma mistura de verde e âmbar, mas como suas íris não se decidiam entre as cores, ela sempre dizia que seus olhos eram verde-âmbar.
Agora usava lentes transparentes e já estava sem aparelho. Seus cabelos agora bem cuidados e tratados, viviam soltos em uma longa cachoeira de ondulações e a única coisa que os prendiam era uma tiara que sempre usava, por vezes branca, por vezes azul, eram na verdade varias tiaras e variadas cores.
A única coisa que em quatro anos Gabriele não conseguia se livrar era da timidez, mas estava visitando um especialista para se sentir mais confiante. "Não posso desistir. Eu sei que vai dar certo! Tem que dar certo!"- sempre pensava, se estimulando. E estava ajudando um pouco, Gabriele já não tinha problemas em cuidar de seus pacientes (Gabriele viajou para fora do país a fim de estudar pediatria, a formação fora lhe traria prestigio.....) , já sorria para as crianças e servia de animadora para as mães:
"Seu filho ficará bem, não se preocupe mãe, estamos fazendo o nosso melhor"- sempre usava essa frase para as mães preocupadas. Hoje era terça-feira e na sua agenda, ela teria que ir com o advogado para resolver burocracias da clinica pediátrica que estava tentando abrir. ''Que roupa uso hoje? Algo mais casual? Hum..''-estava pensando consigo mesma quando ouviu sua mãe bater na porta:
— Querida, você tem visita! — Exclamou a mãe animada.
— Só estou me vestindo. Já desço e te encontro na sala, mãe. — respondeu Gabriele, no mesmo tom, mas depois olhou-se no espelho para ver se seu rosto refletia a mesma animação,
e se arrependera na mesma hora. Aquilo fez somente com que se desapontasse, já que não estava nada animada em receber visitas.
Estava a descer as escadas quando ouviu uma voz familiar. Parou de súbito, não conseguia falar, nem se mover, sentiu na boca do estômago a mesma dor que sentira há quatro anos atrás. Era ele....sem dúvida nenhuma era ele...E o que ele estava fazendo na casa da mãe dela? Como se atrevia a vir olhar na sua cara depois de toda aquela idiotice que fez com ela? Ele era o motivo de Gabriele ir embora, ele e toda aquela corja que ela não estava nem um pouco ansiosa para encontrar. Se sentindo forte por toda a raiva acumulada em seu peito, ela engoliu toda a sua timidez e desceu, preparada para o que havia de vir.
Mas foi só seu olhar se encontrar com o dele, que ela perdera tudo rapidamente. As pernas vacilaram, seu coração disparou e ela ficou sem ar, pois apesar de tudo ainda era ele.
Ele estava cansado. O dia de trabalho havia sido corrido e longo, e Tomas só queria descansar. Só conseguia pensar em tomar um banho, comer alguma coisa e dormir. Mas foi só por o pé dentro de casa e já vinha sua mãe recebê-lo mais uma vez com mais uma fofoca da vizinhança:
— Querido! Você soube? — Disse com a animação de uma exímia fofoqueira. Ele tentou sorrir, mas tudo o que conseguira foi uma careta, deixando a mãe nervosa. Caminhou em direção a geladeira e como não havia respondido a pergunta da mãe, ela repetiu já com a voz fina levemente alterada:
— Soube ou não Tomas?
Impaciente e começando a ficar nervoso com a voz da mãe, olhou em seus olhos curiosos e acenou um ''não'' com a cabeça.
"Será que isso cala sua boca mãe?"- Pensou com decepção, já se preparando para ouvir a mais velha, mesmo que a contragosto.
— Ai, estou tão animada, quero ver sua cara quando souber. Olhe para mim enquanto falo, quero ver sua reação querido — tagarelava dona Ilda o tempo todo, sem dar brechas ao pobre coitado. Falava pelos cotovelos a mulher e como ela não cedia, ele descarregou de uma vez só:
— Mãe, o dia hoje foi torturante naquela empresa. Tive cinco reuniões, me chamaram a atenção por causa de outras pessoas e eu estou com muita dor de cabeça e fome, mas nem um pouco de paciência, então diga logo o que quer para que eu possa ir tomar um banho, ou se preferir compro um apartamento pra mim e a deixo sozinha! — Soltara tudo de vez para só depois perceber o quão grosso havia sido. Quando olhou para a sua mãe, sua expressão havia mudado e ela já não tinha mais animação no rosto. Em seu lugar havia tristeza, o que fez o coração de Tomas se apertar. Ela meneou a cabeça e disse:
— Se quer tanto se livrar de mim tudo bem. Pode ir. Mas antes de comprar seu tão sonhado apartamento, visite a Gabriele. Ela voltou de viagem há uns dois dias, só que você nunca me deixa falar, nunca me ouve, sou sempre recebida com essa sua fúria e... — Ela parou assim que percebeu que Tomas só estava ali fisicamente, pois os pensamentos já se encontravam em outro lugar, mais especificamente, em uma moça.
— Mãe, pare de brincadeiras, eu realmente estou cansado. — disse Tomas cheio de aflição ao falar. Seu coração havia disparado ao pensar na possibilidade de Gabrielle estar de volta. Já faziam quatro anos... Será que havia mudado muito? Será que ainda usava as tranças repartidas? Ou ainda mantinha o jeito tímido? Será....que ainda pensava nele?
— Tommy, não estou brincando. A Gabi está de volta, e pretende abrir uma clinica pediátrica aqui na cidade. Ou seja, ela não vai embora. — Disse esta parte da noticia com a mesma empolgação do inicio, mas percebeu que Tomas estava sério, e um pouco triste.
— Perdi a fome mamãe. Vou tomar um banho e vou me deitar, minha cabeça está doendo demais. Tenha uma boa noite. — Ele subiu as escadas com rapidez, pulando os degraus.
Bateu a porta do quarto sem perceber. Seu quarto estava um pouco escuro, mas ele poderia ver o quarto dela de lá. Apenas algumas casas os separavam. Se ela realmente estivesse ali, aquela linda luz amarelada estaria acesa. E se ele pudesse explicar-se para ela?
Gabriele sempre fora linda aos seus olhos, mas sofria bullying do pessoal da escola, e ele não sabia exatamente o por quê. Muitas pessoas na escola usavam aparelhos e óculos, mas somente ela era tímida. E isso era uma das coisas que ele mais gostava nela. Adorava quando aqueles olhos de cores indecisas olhavam para ele, quando demonstravam o quanto ela necessitava de seu carinho, de sua atenção. Adorava quando ela sorria e suas bochechas ficavam coradas, e quando ela gaguejava nervosa.
Gabriele havia se mudado pra Londres há quatro anos, e ele não havia conseguido impedir. Ele queria dizer tudo para ela. O quanto ele a amava, o quanto precisava dela, e o quanto queria sentir outra vez sua pele macia e quente.
O pessoal da escola havia marcado um encontro e sempre que lembrava desse encontro, sentia raiva. A fizeram sentar em uma cadeira com Ketchup, e depois que ela correra sentindo-se humilhada viu Sandra, uma das mais atiradas do grupo, beijando ele. Seus olhos encheram de lágrimas e ela saiu correndo, sem escutar ele dizendo que sentia nojo daquela garota asquerosa, e só em pensar nela sentia náuseas.
E depois do ocorrido as coisas mudaram. Ela se tornou mais esquiva, evitando falar com ele, passar por ele e olhar para ele. Com pouco tempo depois ela foi para Londres e ele não havia conseguido falar nada, se desculpar e dizer o quanto ele sentia, e o quanto a queria de volta. "Acho que vou dar uma passada na casa dela antes do trabalho. Preciso vê-la, pedir desculpas e encerrar esse mal entendido"- pensou ele.
Com toda aquela animação ele deitou, porém sua mente não o deixava dormir imaginando como ela estaria e como reagiria ao vê-lo. Rolou e rolou na cama até que devido ao cansaço ele adormeceu, e mesmo assim continuou a pensar em Gabriele.
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