Gabriel

14 Epílogo


FINAIS FELIZES EXISTIAM APENAS EM Hollywood, onde mostravam um futuro promissor, mas nunca o que aconteceu entre o antes e o agora. Neste caso, o dito intervalo não mostrado foi o que se tornou a vida de Lorenzo depois da briga com Castelo, e vamos dizer que não houve um felizes para sempre no final desta história. Pelo contrário, a vida continuou como sempre foi.

A batalha teve uma baixa de ao menos umas vinte cabeças. Sete caçadores para treze anjos. Dez caçadores feridos, com dois em estado grave, e uma Praça de São Pedro em ruínas, o que deixou o Papa e outras autoridades do Vaticano bastante irritados, e também romanos e turistas ao verem os estragos causados pelo suposto terremoto. Porque, para os civis, a causa daquela destruição foi o terremoto e dane-se que os prédios no entorno, e a própria basílica de São Pedro, estavam praticamente intactos, mas o pessoal do alto escalão do Vaticano sabia que a história não era bem essa, o que os fez berrar impropérios não permitidos a criaturas cultas do clero, bem no rosto impassível de Carmem.

Ela sabia como ser uma coluna inabalável como Walter e DeMarco. Era um dom que Lorenzo invejava e queria aprender um dia.

Como prometido, a soberana Estrela cedeu os poucos anjos elementais da terra que tinha para ajudar na reconstrução e Lorenzo descobriu como é que eles andavam entre os humanos sem serem percebidos.

Os anjos possuíam um poder especial que camuflavam as suas asas de maneira que aqueles que não sabiam o que eles eram, não as via. Mas esse truque só funcionava enquanto estavam vivos. Depois de mortos, o encanto acabava, por isso que os médicos do IML ficaram coçando a cabeça, sem conseguir explicar o que era Acqua, antes do departamento de Carlo entrar em ação e retirar o corpo de Acqua da custódia da delegacia de polícia que atendia a área onde a anjo foi encontrada. Isto também explicava porque Peter disse que conseguiria desaparecer com Gabriel pelo mundo. Embora, no caso de Gabriel, ainda levaria vários anos para ele aprender a dominar esta arte.

Soberana Estrela, ao mesmo tempo em que pedia mil perdões a Elias pelo ataque, tentava negociar um acordo de paz mais permanente entre as raças. Mas, aparentemente, o regente Elias não tinha tanta fé em profecias como Estrela. Lorenzo acreditava que este acordo só tinha chances de acontecer porque Estrela era teimosa e tinha Peter a apoiando e a ajudando a convencer o pai igualmente teimoso.

— Mas se eles acordarem a paz, não perderemos o nosso trabalho? — Alessandro comentou quando as notícias do progresso das negociações entre Estrela e Elias chegaram ao QG.

— Ainda há outras criaturas para caçar. Além do mais, nós ainda manteremos o equilíbrio. Mas desta vez, ao invés de evitar uma guerra, garantiremos que a paz permaneça entre os anjos e demônios — Marcelo explicou enquanto apoiava-se nas muletas. Um tornozelo quebrado foi o que ele ganhou na briga contra Castelo.

Lorenzo ganhou mais ferimentos que virariam novas cicatrizes para fazerem companhia às que ele já tinha, e dois dias faxinando o apartamento que ficou revirado por causa dos tremores, reflexos da batalha entre os anjos e os demônios, no subterrâneo.

E era quando Lorenzo estava desvirando a mesa de centro, que fazia par com o jogo de sofás, que alguém bateu na porta de entrada de seu apartamento. Lorenzo grunhiu quando terminou de virar a mesa, pois o gesto repuxou os seus pontos e fez uma dor incômoda latejar em seu quadril. Quando ele destrancou a porta e a abriu, Carlo era quem esperava do outro lado.

— Ei, pai — Lorenzo deu um passo para o lado, para permitir que o pai entrasse no apartamento, e fechou a porta assim que ele passou.

— Gostei da nova decoração — Carlo brincou após rodar os olhos pela sala e ver quadros de decoração tortos, vasos caídos sobre mesas e cômodas, ou espatifados no chão. Os sofás haviam deslizado com o tremular, arrastando o carpete com eles, e o embolando por completo.

— Se veio aqui para saber como eu estou, saiba que Marcelo e Giovane estão piores — Marcelo tinha um gesso decorando o seu pé e Giovane voltou para a Espanha com o braço em uma tipóia e rouco depois de dar um longo sermão em Lorenzo, o que o deixou com os ouvidos zumbindo por horas.

— Já dei o meu alô para eles. Mas não foi por isso que eu vim — Carlo estendeu para o filho uma pasta de papel pardo.

— O que é isto? — Lorenzo pegou a pasta, a abrindo e folheando as suas páginas. O que encontrou foi um relatório do legista da polícia sobre a identificação dos corpos encontrados nas ruínas do Por Una Cabeza.

— Peter e Angelina cederam amostras de DNA para fazermos o comparativo — Carlo explicou quando Lorenzo chegou na página em que dizia que os corpos encontrados não possuíam DNA humano, embora a sua estrutura óssea fosse humanoide, e que dois deles tinham extensões no esqueleto que eram do mesmo formato de asas.

— Ainda não entendo aonde você quer chegar — porque ele não queria ler aquele relatório para ver, impresso no papel, a confirmação de que o DNA cedido por Peter e Angelina bateu com um dos corpos. Para ter documentado que Lorena e Hunter estavam realmente mortos.

— Continue lendo — Carlo aconselhou e Lorenzo assim o fez, com extrema apreensão, até chegar na página que Carlo realmente queria. A página que dizia com todas as letras:

"As amostras de DNA cedidas por Peter e Angelina não batem com as amostras coletadas dos corpos."

Traduzindo: dos seis corpos recuperados dos escombros, nenhum deles era de Hunter e Lorena.

Lorenzo ergueu os olhos do relatório para mirar o pai, cuja expressão confusa com certeza era igual à que ele fazia naquele momento.

— É, eu pensei o mesmo que você está pensando agora, quando li esse relatório — Carlo falou — Se Hunter e Lorena não estão entre os corpos resgatados… — ele deixou a hipótese no pairando no ar. A hipótese que Lorenzo pescou e completou com o coração aos pulos e cheio de esperança:

— Então, onde eles estão?

Notas finais
OBS: Continua em "Cipriani".
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!