Gabriel
6 Capítulo 4
— TEM UM ANJO ATRÁS DE NÓS! — Lorenzo disse assim que entrou novamente no carro, após colocar meio corpo para fora da janela por uns cinco segundos para ver o que atirava bola de fogos neles e, felizmente, errava. Bem, felizmente para eles, não tão feliz assim para os outros carros e pedestres que acertavam — Por que tem um anjo atrás de nós? — continuou de forma estúpida e realmente chocado.
Anjos não se expunham dessa maneira, fosse por qualquer razão, e aquele que os perseguia estava sendo devidamente capturado pelas câmeras dos celulares dos curiosos de plantão, que não sabiam se fugiam, apontavam para a criatura alada e soltavam afirmações chocadas, tentando entender o que viam, filmavam o fenômeno ou gritavam. Lorenzo detestava lidar com civis por isto. Sem o treinamento adequado, esses tinham as reações mais imbecis em face do perigo. Era como uma vaca que ao ver um carro vir em sua direção, ao invés de sair do caminho, no susto, corria em direção ao carro, piorando a situação.
— Eu não sei, Lorenzo. Quer que eu pare o carro para você perguntar? — Hunter falou com sarcasmo e Lorenzo o mirou atravessado.
O jipe seguia a toda velocidade pelas ruas de Roma que, por sorte, iam ficando mais largas à medida em que eles se afastavam do centro histórico da cidade e do entorno do Vaticano.
— Você ao menos sabe para onde está indo? — Lorenzo perguntou quando Hunter virou o volante bruscamente, para desviar de um SMART que deixava a vaga de estacionamento, o que o obrigou a espalmar o painel do jipe a procura de equilíbrio se não quisesse voar sobre Hunter.
A manobra brusca os tirou da linha de tiro da bola de fogo. O SMART não teve tanta sorte.
Anjos e demônios tinham poderes grandiosos, que ficavam ainda mais fortes com a prática, mas esses eram extremamente limitados, não estavam dentro do espectro sobrenatural de poderes paranormais (telecinese, telepatia, magia, mediunidade, etc). Usualmente envolvia o controle de algum elemento da natureza, atrelado a força sobre-humana, maior capacidade de cura e sentidos aguçados, e era apenas isto. Parecia pouco, em comparação a outras criaturas sobrenaturais que possuíam uma carga maior de poderes, mas era um pouco que causava muitos estragos. E o anjo que os perseguia deveria estar no nível master de seu treinamento, porque as suas bolas de fogo pareciam com as bombas de lava que um vulcão cuspia durante uma erupção.
Lorenzo sabia que quando os bombeiros fossem procurar por sobreviventes do ataque, daqueles que sofreram impacto direto, não sobrou nada além de cinzas.
— No momento? — Hunter finalmente respondeu — Estou mais preocupado em perder aquele anjo de vista.
— Impressionante o nível do ridículo — Lorenzo soltou com um resmungo — Somos dois caçadores… Bem, um caçador e um projeto mal feito de caçador — e Hunter lançou um olhar de desagrado para ele diante da clara ofensa. Que se dane, era verdade mesmo. E Lorenzo até que foi gentil ao não chamá-lo de coisa pior — sendo caçados. Você não tem nenhuma arma neste carro?
Hunter olhou para Lorenzo como se ele tivesse feito a pergunta mais imbecil do mundo, provavelmente era a pergunta mais imbecil do mundo, mas Lorenzo não tinha culpa, ele não estava vendo nenhum rifle à mão para ajudá-los com aquele problema.
— Sob o banco traseiro há um baú com armamentos. Há também no porta-malas, mas a tranca fica virada para o lado de fora, então o acesso seria mais complicado — Lorenzo soltou o cinto de segurança e debruçou sobre o banco, usando o espaço entre o assento do motorista e do carona para acessar a parte detrás do carro.
— Olho na rua Hunter — Lorenzo repreendeu o outro homem enquanto contorcia-se no espaço apertado, para alcançar o banco de trás. Não tinha os sentidos apurados de uma criatura sobrenatural, mas tinha um ótimo sexto sentido, e este lhe dizia exatamente que os olhos de Hunter estavam focados em outro ponto no momento.
— O quê? — Lorenzo não conseguia ver o rosto de Hunter na posição em que estava, mas a voz do mestiço gotejava falsidade e a expressão dele com certeza era aparvalhada, aquela falsa expressão inocente que ele gostava de ostentar quando fazia-se de desentendido do assunto.
— Os seus olhos no meu traseiro, posso senti-los queimando.
— Bem, eu lembro dele há nove anos e ele não era tão deliciosamente bem formado como agora — Lorenzo rolou os olhos e só de birra deu um chute no encosto do banco de Hunter, quando finalmente alcançou a parte de trás do carro — Ei! — Hunter resmungou ao sentir o coice no meio da sua coluna, perdendo o controle do carro por um segundo, e somente não virou para lançar um olhar contrariado para Lorenzo, porque tinha que manter o olho na rua.
— Desculpe, o meu pé escorregou — Lorenzo respondeu, porém sem remorso algum, e sentou no banco traseiro, levantando o forro sobre este e encontrando um enorme baú de madeira envernizada que servia de apoio para o banco — Tem um cadeado de senha aqui – Lorenzo reclamou. Em outros tempos ele quebraria a tranca, mas esta era reforçada e ele perderia muito tempo e seria um esforço inútil.
— Ah, o código é 29, 07, 97 — Hunter forneceu e Lorenzo franziu as sobrancelhas ao ouvir a combinação. 29, 07, 97? Esses números eram mais do que familiares.
— Essa é a data do meu aniversário? Como você sabe a data…
— Lorenzo, a arma, onde está? — Hunter o interrompeu em um tom nada amigável e Lorenzo deixou o assunto de lado, por enquanto, e abriu o baú, encontrando logo de cara um rifle sniper e um cartucho com as suas balas, o carregando rapidamente.
Em seguida Lorenzo abriu o vidro da janela traseira que ficava atrás do banco do carona e vagarosamente foi saindo por esta de costas, trazendo o rifle consigo e prendendo o pé direito no cinto do segurança. Do jeito que Hunter dirigia enlouquecidamente para fugir das bolas de fogo, o equilíbrio somente não seria o suficiente para mantê-lo no carro. Precisava estar preso a algo se não quisesse ser arremessado sobre a calçada em uma curva fechada.
Assim que estava com toda a parte de cima do corpo para fora do carro, Lorenzo girou e jogou o peso do corpo sobre a perna esquerda, que serviu de ponto de apoio no parapeito, e usou o teto do jipe como suporte para o rifle. Em seguida ele engatilhou a arma, mirou, esperou uns dois segundos para o jipe estabilizar, após desviar de um carro ao avançar mais um sinal vermelho, e atirou.
O anjo vacilou em seu voo, mas não caiu, apenas ficou mais enfurecido ainda, e da distância que estavam um do outro, Lorenzo não conseguia ver o rosto da criatura, mas a enorme bola de fogo que surgiu na mão direita do anjo foi indicação suficiente do quanto ele ficou irritado. Lorenzo engatilhou mais uma vez o rifle e uma ideia absurda veio à sua mente.
— Hunter! — ele gritou para fazer-se ouvir dentro do carro.
— O quê? — veio a resposta abafada de Hunter.
— Diminua a velocidade.
— O quê?! — se Hunter pudesse, ele largava o volante e voaria para a parte de trás do carro, para sacudir Lorenzo, somente para ver se isso colocava algum bom senso dentro da cabeça do caçador. Ao menos foi isso o que o grito dele deu a entender.
— Diminua a porcaria da velocidade — Lorenzo ordenou, com impaciência, Hunter bufou diante do tom mandão que no passado ele poderia ter considerado adorável no garoto de dezesseis anos, hoje era apenas irritante no homem de vinte e cinco, e não somente diminuiu a velocidade, ele simplesmente brecou o jipe que parou de forma abrupta, cantando pneus, deslizando sobre o asfalto e queimando borracha, e Lorenzo só não voou para fora do carro por causa do pé preso ao cinto de segurança.
O jipe derrapou uns dez metros após a parada brusca e Lorenzo engoliu todos os xingamentos possíveis em favor de apontar o rifle para o anjo que se aproximava, e um segundo depois, atirar.
O efeito foi imediato: a bola de fogo sumiu da mão do anjo e ele caiu como um cometa, desaparecendo atrás de alguns prédios. Lorenzo soltou sua perna do cinto se segurança, o seu tornozelo latejou diante do movimento, provavelmente porque foi o único ponto de apoio a segurar todo o peso de seu corpo dentro do carro, e amanhã com certeza ostentaria um lindo hematoma, e, usando o teto do jipe como apoio, saiu por completo do carro. O barulho da porta batendo indicou que Hunter tinha feito o mesmo.
— Eu mandei você desacelerar, não brecar — Lorenzo grunhiu quando Hunter emparelhou com ele, trazendo na mão uma pistola 9mm.
— Desculpe, eu realmente me confundi — mentira! Lorenzo havia pedido para Hunter diminuir a velocidade, em nada isto soava igual a ‘parar’. O mestiço brecou de propósito, sabe-se lá porquê e, sinceramente, Lorenzo não estava a fim de desvendar o mecanismo complexo que era a mente insana de Hunter.
Ambos seguiram pela calçada, ignorando os passantes que os olhavam com expressões chocadas, provavelmente porque, com armas em punho, a dupla era visivelmente intimidadora. Alguns transeuntes pareciam bem curiosos, tentando entender aquele cenário, especialmente porque os dois homens armados não estavam investindo contra a população, somente seguindo caminho para algum ponto ao final da rua, outros estavam claramente temerosos, esperando pelo pior, e a sua maioria estava ao telefone e Lorenzo tinha a certeza que esses ligavam para a polícia. Portanto, era melhor eles acharem aquele anjo logo e sumirem dali.
Cinco minutos de caminhada depois, o anjo foi encontrado caído sobre enormes vasos de decoração, em frente a varanda de um café. Os clientes do estabelecimento estavam praticamente encolhidos na entrada do restaurante, olhando com pavor aquela criatura com asas enormes, de penas multicores, em tons diferenciados de fúcsia, sibilando para quem quer que ousasse se aproximar, como um gato encurralado, e que soltou um guincho longo e ensurdecedor quando viu Lorenzo e Hunter.
Anjos eram capazes de falar a língua humana, mas preferiam não fazê-lo, e realmente havia alguns que não sabiam. E quando foi dito que a língua deles era impossível de se aprender, era porque esta consistia de guinchos, sibilos e gritos, como os de uma ave de rapina, e que as cordas vocais humanas jamais conseguiriam replicar. Mas pela expressão do anjo, Lorenzo não precisava ser letrado na língua dessas criaturas para saber que, no mínimo, o sujeito o estava xingando.
Lorenzo também soltaria diversos impropérios, em alto e bom som, se tivesse levado um tiro em cheio e algum ponto sensível de seu corpo.
— Então passarinho, pode começar a cantar e falar por que estava atrás de nós — Hunter questionou ao agachar-se na frente do anjo que praticamente o fuzilou com o olhar, guinchou, sibilou alguma coisa e tentou acertar um soco nele, sem muito sucesso, pois o braço do anjo mal teve força para erguer-se por completo. As asas de um anjo eram o seu ponto forte e fraco.
Ponto forte porque possibilitava que eles tivessem vantagem sobre o inimigo, que era voar e atacá-los à distância. Ponto fraco porque, se fossem acertadas, incapacitava o anjo como se fosse um ferimento grave, o deixando extremamente fraco.
— Eu acho que ele não fala a nossa língua — Lorenzo comentou com deboche.
— E para mim isso faz diferença, como? — Hunter retornou em igual tom.
Ah é! Lorenzo lembrou, demônios e anjos entendiam a língua um do outro muito bem, sabe-se lá como, pois foneticamente essas não eram em nada parecidas. Vai ver era uma coisa animal, pois ambas as raças tinham alguns traços animalescos mais acentuados em sua estrutura biológica, diferente dos humanos, embora os três tivessem um leve parentesco ancestral (novamente aqui temos a teoria de que no momento que houve a divisão celular, essa ocorreu de três formas diferentes, gerando três espécies com genes semelhantes, mas desenvolvimento evolutivo diferenciado).
Os anjos tinham comportamentos parecidos com os das aves de rapina, demônios com grandes mamíferos predadores, especialmente do gênero felino, os humanos eram primatas e, neste quesito, poucos de seus instintos foram preservados com a evolução, diferente das duas primeiras raças. E reza a lenda que os animais tinham uma linguagem universal, pareciam se entender bem independente da espécie, por isso dos vídeos fofinhos achados na internet com panteras domésticas sendo melhores amigos de cachorros e etc. E, aparentemente, este dom para a compreensão da língua dos anjos também era passado para prole meio-demônios.
O anjo guinchou mais uma vez, mirou Lorenzo e Hunter com ódio no olhar, e simplesmente entrou em combustão espontânea. Sem trocadilhos. O anjo pegou literalmente fogo.
Hunter deu um pulo e recuou rapidamente, para não ser atingido pelas chamas, os clientes do café gritaram horrorizados diante da cena, porque mesmo queimando, o anjo guinchou de forma estridente, até que o seu pulmão virou cinzas e ele calou-se, deixando apenas a cena grotesca para trás de um corpo entrando em estado carbonizado e exalando um cheiro horroroso de carne queimada.
Lorenzo não sabia nem que reação ter, esta era a primeira vez que ele via um anjo kamikaze.
— O que ele disse? — Lorenzo perguntou quando Hunter deu as costas para a criatura ainda em chamas, e começou a se afastar da cena do crime. O anjo não era mais de utilidade alguma e logo os bombeiros chegariam. Lorenzo rapidamente seguiu o outro homem.
— Algo sobre ‘jamais permitiremos’.
— Permitiremos o quê? — Lorenzo perguntou e Hunter deu de ombros.
— Não faço ideia — Hunter completou e ambos seguiram pelo caminho que vieram, completamente em silêncio, cada um contemplando a cena bizarra que testemunharam, cada um tentando entender o que as últimas palavras do anjo significava, até que dobraram uma esquina e chegaram na rua onde haviam abandonado o jipe, para ver bombeiros e policiais isolando o local e socorrendo pedestres.
— Ah, merda — Lorenzo resmungou quando reconheceu uma figura familiar dentre o grupo de socorristas, um homem afastou-se de uma dupla de policiais que recolhia o depoimento das testemunhas, perto do jipe, e aproximou-se da dupla com uma expressão de desagrado no rosto.
— Lorenzo — o homem disse com as sobrancelhas franzidas em desaprovação e Lorenzo sentiu-se novamente como uma criança que foi pega no flagra, ao fazer alguma traquinagem.
— Ei… pai.
oOo
CARLO AMBROGIO ERA APENAS UM aspirante a detetive quando conheceu Giuliana Cipriani.
A história era que havia sido amor à primeira vista, e que durou por anos, até a vida de caçador de Giuliana começar a afetar a sua vida em família. Lorenzo não sabia direito quando foi o estopim, aquilo que os levou ao divórcio, mas, pelas conversas que conseguiu captar através das paredes e corredores do QG, foi quando a sua mãe quase morreu em uma caçada, pela enésima vez, e para Carlo aquilo foi o suficiente para dar um basta.
Carlo queria que Giuliana deixasse aquela vida e não queria de maneira alguma que os seus filhos a seguissem. E, obviamente, que o sangue Cipriani falou mais alto do que o amor deles. Ser um caçador não era um trabalho, era a vida de Giuliana. O clã foi um dos escolhidos no passado para aquela honrosa missão e ela não iria abandoná-lo só porque Carlo não aguentava o tranco.
Com isto, eles se divorciaram, cada um seguiu o seu caminho, um ano depois Giuliana morreu e Carlo lutou na justiça pela guarda dos filhos, perdeu, recorreu, até que Marcelo e Carmem o convenceram a desistir. Carlo era um assalariado da polícia, em pouco tempo chegaria ao posto de detetive, mas ainda sim era um homem comum e com uma vida comum. Os Cipriani eram diferentes, eles tinham nome, dinheiro e poder de influência em muitas áreas do governo italiano. Obviamente que os figurões da Justiça sabiam quem eles eram e o pavor de uma guerra iminente fez o juiz dar a sentença em favor de Carmem, em todas as vezes que o caso foi parar na vara de família. O sujeito preferia ver todos os Cipriani disponíveis em campo, mantendo o equilíbrio, do que vivendo vidinhas mundanas.
No fim, diante de sucessivas perdas e do pedido de um dos próprios filhos para ele desistir, tudo o que restou a Carlo foi engolir o orgulho e negociar diretamente com Carmem a situação. Ao menos o direito de visitar os filhos ele queria ter, recusava-se a ser um pai ausente como os seus pais foram. Carmem concordou, mas somente se as visitas fossem supervisionadas. Traduzindo: Carlo veria os filhos, mas ao menos dois caçadores graduados escoltariam as crianças, manteria companhia à eles e iria com eles aonde quer que eles fossem, e Carlo não teria o direito de reclamar.
Lorenzo conviveu pouco com o pai, pois quando Carlo finalmente desistiu de brigar na justiça pela guarda dos filhos e negociou esta barganha com Carmem, ele já estava na metade de seu treinamento de caçador e logo iria fazer a sua primeira caçada e ser emancipado. Ele só veio a conviver mais com Carlo quando este se tornou sargento da polícia de Roma, e os seus caminhos começaram a se encontrar por causa de uma caçada ou outra.
— E o seu amigo, quem é? — Carlo perguntou, lançando um longo olhar de desconfiança para Hunter. Ele poderia não fazer mais parte do clã Cipriani, mas conhecia todos os caçadores neste, e vários outros de outros clãs, e Hunter não era um Cipriani, óbvio.
Era claro de onde as feições dos irmãos Cipriani vinham. Embora todos tenham herdado alguma faceta da personalidade intempestiva da mãe, fisicamente eles eram parecidos com o pai. Todos tinham o mesmo cabelo castanho cacheado, porém o de Carlo estava em corte bem curto e já continha vários fios grisalhos, Lorenzo foi o único a herdar os olhos castanhos do pai, os irmãos ficaram com o azul penetrante da mãe, Carlo também era alto, quase da altura de Hunter, robusto, com uma sombra de barba no rosto retangular e vestia-se de maneira despojada: jaqueta, escondendo o coldre com as suas armas, jeans, camisa e tênis.
— Hunter — Hunter apresentou-se com um enorme sorriso simpático e estendeu uma mão na direção de Carlo, que olhou para a mão estendida como se esta tivesse o ofendido seriamente. E, ignorando a mão ainda estendida em cumprimento, Carlo segurou o filho pelo braço e o puxou para longe de Hunter, para cochichar em seu ouvido:
— Este é aquele Hunter? — A pergunta de Carlo poderia implicar várias coisas, principalmente se ele queria saber se este Hunter era o mesmo Hunter filho de Angelina, a caçadora que foi expulsa do clã Benedetti por se relacionar com um demônio. Mas, pelo olhar que Carlo lhe deu, Lorenzo sabia exatamente sobre o que o pai perguntava e um rubor tomou conta de suas bochechas.
Carlo queria saber se aquele era o mesmo Hunter por quem Lorenzo teve uma paixonite na adolescência. Porque sabe como é, Lorenzo não podia simplesmente dizer para a sua avó, ou Marcelo, sobre Hunter. Marcelo poderia reclamar o quanto fosse dos irmãos serem bombas relógios ambulantes, com gênios estourados como o da mãe deles, porém ele era o primogênito e era o mais estourado de todos, apenas controlava-se bem. Quando mencionamos que Lorenzo comentou com poucos no clã sobre o seu caso com Hunter, isto resumia-se a Francesco (mais racional e menos temperamental de todos os irmãos, porém constipado emocionalmente como todo Cipriani) e Carlo, que poderia não estar mais ligado ao clã pelo casamento, mas ainda era considerado um deles.
O pai foi a sua rocha e o seu consolo quando ele voltou para a Itália com o coração partido, chorando as mágoas no ombro do homem enquanto, ao mesmo tempo, amaldiçoava o nome de Hunter. Carlo, obviamente, não gostava de ver nenhum de seus filhos sofrendo, em nenhuma instância, fosse emocionalmente ou fisicamente, mas confessava que gostou de saber que ele foi a primeira opção de Lorenzo quando o garoto precisou de consolo e de um ombro amigo. De uma certa forma, apesar de suas vidas atribuladas, ainda sim ele era o pai daquelas crianças que estavam se tornando homens, ainda sim ele era uma opção de suporte quando eles mais precisassem, e isto consolava o seu coração culpado que sempre o fazia ter noites insones, martelando em seu cérebro que ele deveria ter lutado mais para obter a guarda dos filhos e tirá-los daquela vida, o que sempre acontecia toda vez que ele recebia a notícia de que um de seus meninos foi ferido em caçada.
Carlo abominava o dia em que a notícia que receberia seria diferente. Seria uma carta de condolências informando que um dos seus filhos morreu em caçada. Quando isto acontecesse, porque ele sabia que era um fato e não somente uma possibilidade, Carlo sabia que não iria aguentar. Separou-se de Giuliana por conflito de interesses, mas nunca deixou de amar aquela mulher tão tinhosa e, quando ela morreu, parte de si morreu com ela, portanto não tinha tanta certeza se aguentaria outra porrada dessas da vida. Nenhum pai tinha que enterrar o filho, não era algo natural.
— Sim — Lorenzo respondeu, com as bochechas ainda quentes de vergonha e os olhos mirando o chão, mas não esclareceu mais nada, para um bom entendedor, meia palavra bastava e Carlo era um ótimo entendedor. Além do mais, se Hunter o estivesse ouvindo, pois sabe-se lá que outras características demoníacas ele herdou do pai, iria achar que eles falavam sobre a sua insólita ligação com os Benedetti ou qualquer outra história que Carlo tenha ouvido de caçadores que conhecia, devido a má reputação do mestiço.
Carlo olhou por sobre o ombro de Lorenzo para Hunter, dividido entre olhar para o meio-demônio com desprezo e acabar denunciando que ele sabia exatamente quem Hunter era e qual era a história dele com Lorenzo, que estava prestes a entrar em combustão de tanto que corava de vergonha. Querendo poupar o filho da humilhação, porque Lorenzo conseguia ser desagradável quando queria esconder o seu desconforto, Carlo optou por uma expressão neutra, e que em nada o denunciasse, e retornou para perto do outro homem, com Lorenzo em seu encalço.
— Imagino que o relato de uma criatura alada soltando bolas de fogo sobre um jipe em alta velocidade, matando e ferindo pedestres e outros motoristas, é coisa de vocês — o policial simplesmente atestou, pois a presença do filho ali já deixou todo o cenário claramente montado em sua cabeça.
— Coisa nossa? — Lorenzo soltou ultrajado e mirou o pai com descrença, diante da acusação subentendida no tom de voz do homem — Nós não fizemos nada! Um anjo surgiu do além-mundo e começou a atirar.
— E onde está este anjo? — Carlo continuou, cruzando os braços sobre o peito e arqueando uma da sobrancelha, em uma expressão que era extremamente similar a que Marcelo fazia quando queria arrancar alguma verdade de seus irmãos quando estes entravam em módulo ‘trambiqueiro’ de comportamento — As testemunhas disseram que um homem com um rifle, na janela daquele jipe — e apontou para o jipe por sobre o ombro — abateu a criatura alada — e então deu um relance para o rifle na mão de Lorenzo. Hunter tinha conseguido esconder a 9mm no cós da calça e sob a camisa, mas um rifle não era assim tão fácil de camuflar.
Lorenzo deu de ombros e desviou o olhar, não explicando muita coisa. O pai sabia que a caçada só deveria ser de conhecimento daqueles envolvidos nela. Policiais, apesar do treinamento, aos olhos dos caçadores, eram civis, porque tinham desconhecimento daquele mundo. Claro que a polícia de Roma era uma exceção, Carlo então, mais ainda, porém velhos hábitos eram difíceis de serem quebrados.
— A carcaça dele está a duas ruas adiante — Hunter respondeu, porque aparentemente ele não tinha a mesma noção de sigilo que um Cipriani, e Carlo deu ao meio-demônio um olhar tão venenoso que Lorenzo riu quando ele completou em tom de subserviência — Senhor.
— Vocês têm algo mais a dizer sobre o caso? — o policial questionou, somente de praxe a para qualquer ouvido curioso de algum colega que estivesse os circulando e tentando fofocar a conversa. Sabia que mais tarde Marcelo o deixaria a par do que realmente estava acontecendo, ou no mínimo lhe daria uma explicação melhor elaborada, melhor do que a conversa para boi dormir que Lorenzo estava tentando empurrar para cima dele.
— Não muito. Estávamos interrogando um suspeito e quando saímos do local esse anjo apareceu e começou a atirar — Lorenzo respondeu ao pai.
— Isso não teria nada a ver com o caso do outro anjo encontrado morto em um beco, teria? — Carlo soltou, novamente em tom acusador, e rolou os olhos quando o filho comprimiu os lábios e deu de ombros — Lorenzo — chamou-lhe a atenção, entoando somente naquela única palavra toda a sua frustração.
— Sim — Lorenzo respondeu, a contragosto, afirmando aquilo que sabia que o pai já tinha a resposta, mas que tinha que perguntar porque era procedimento padrão entrevistar todas as testemunhas. Precisava constar nos autos.
— Bom, eu ia falar com Marcelo, mas já que você está na caçada, eu te passo o aviso e você passa o recado adiante — Carlo puxou um bloco de notas do bolso detrás da calça e folheou algumas páginas — Uma testemunha disse que viu Acqua, ainda viva, no beco onde o seu corpo foi encontrado, conversando com alguém.
— E sabemos quem foi essa outra pessoa? — Carlo hesitou e Lorenzo arqueou as sobrancelhas diante da reação do homem à sua pergunta — O que foi?
— A descrição é de um homem alto e usando vestido — ele respondeu no tom de quem questionou-se várias vezes se a testemunha em si estava sob o controle de todas as suas faculdades mentais quando presenciou a tal conversa. Especialmente porque ela notou o homem com o vestido, mas não reparou na mulher com asas enormes nas costas. Geralmente este era o primeiro detalhe nos anjos que saltavam aos olhos.
— Vestido? — Lorenzo repetiu bestamente e Carlo suspirou, prosseguindo com o relato.
— Vestido até o tornozelo, corte reto, botões, preto, manga longa, e ele usava por baixo do vestido uma calça.
— Uma batina — Lorenzo concluiu.
— O quê? Acqua confessou os seus pecados a um padre antes de morrer? — Hunter brincou e Lorenzo rolou os olhos.
— Não, imbecil! — o sorriso matreiro que já brincava nos lábios de Hunter, diante da piada inconveniente, sumiu ante a ofensa proferida pelo caçador — Ela falou com um cardeal antes de morrer. Precisamos ir ao Vaticano — Lorenzo declarou, já tomando a direção do jipe, mas foi parado por Carlo.
— O jipe foi apreendido — Carlo explicou e Hunter soltou um agudo e indigno ‘como é?!’.
— Pai… Há um arsenal dentro daquele jipe — o rapaz tentou argumentar. Em outros tempos, se Hunter se ferrasse com a polícia e saísse de seu caminho, Lorenzo iria comemorar o fato. O problema era que Estrela só confiava em Hunter para fazer o trabalho de encontrar o assassino de Acqua e se soubesse que um Cipriani estava envolvido e liderando aquela caçada, cabeças iriam rolar. Portanto, Lorenzo precisava do mestiço em liberdade, porque ele era um pé no saco com a sua arrogância, sua prepotência, seu ego inflado e a sua beleza que estava fazendo as pessoas na rua, apesar de ainda assustadas com o que aconteceu, mirarem o meio-demônio com longos olhares apreciativos e talvez uma ou outra já tivesse se apaixonado, pela expressão abobalhada que estava em seus rostos. Hunter era um pé no saco, mas ao menos servia para ser o testa de ferro neste caso.
— Eu sei — Carlo respondeu seco e Lorenzo tinha a sensação de que Hunter seria chamado futuramente pela polícia para explicar o por que de tanta arma dentro de seu carro, mas por hora o homem deixaria este fato passar despercebido. Claro que Carlo poderia aliviar a situação para o lado de Hunter, liberar o jipe junto aos colegas sob uma desculpa qualquer e depois informar ao seu capitão que o fez porque tratava-se do jipe de um caçador (o que era uma mentira, mas o capitão tinha conhecimento dos clãs, mas não tanto quando Carlos, que foi casado com o integrante de um, portanto a mulher no comando da polícia de Roma não saberia da história de Hunter), mas Lorenzo sabia que este não seria o caso.
Quando foi chorar as mágoas anos atrás, no ombro do pai, Carlo quis caçar Hunter e no mínimo dar-lhe um tiro nas partes baixas. Não interessa que na época o filho passou no Teste dos Dezesseis, que era legalmente emancipado, ainda sim ele só tinha dezesseis anos e Hunter, maior de idade e mais velho, deveria saber exatamente o que fazia, deveria assumir a responsabilidade por seus atos. Lorenzo que o impediu o pai de cometer assassinato e sumir com o corpo. Agora o policial tinha a oportunidade perfeita para se vingar.
— O jeito é irmos de táxi — sinceramente? Lorenzo preferia ir no jipe, junto com o arsenal que este tinha, caso eles sofressem um novo ataque.
— Ah, e Lorenzo? O rifle fica — Carlo completou e Lorenzo olhou do pai para o rifle em sua mão. Estava tão acostumado com o peso de uma arma nas mãos que às vezes esquecia de que estava carregando uma — Você não pode simplesmente andar por aí com uma arma dessas, ou entrar no Vaticano com ela, e mesmo que o abate daquele anjo seja o resultado de uma caçada, ainda sim precisamos seguir o procedimento padrão para inserir nos autos da investigação. Isso significa, recolher a ‘arma do crime’ — muito a contragosto, Lorenzo entregou a arma para o pai — Você também rapaz — Carlo virou para Hunter, fazendo um gesto de ‘venha’ com a mão.
— Eu não estou… — o olhar de Carlo foi o suficiente para fazer Hunter calar a boca e tirar a arma presa às suas costas, a entregando para o homem — Mas eu não disparei a arma, então por que ela precisa entrar nos autos? — Carlo não respondeu, apenas entregou ambos os armamentos a um colega policial, para ser arquivado. Lorenzo sabia porque o pai pediu a arma de Hunter, só para contrariar o mestiço.
— Agora vão, porque eu preciso fazer uma ligação para o meu capitão e explicar à ela a situação, antes que a imprensa chegue — Lorenzo não esperou que Carlo falasse duas vezes, simplesmente puxou Hunter pelo braço e deu o fora dali antes que as câmeras da mídia aparecessem e arruinassem tudo.
oOo
ENTRAR NO VATICANO NÃO ERA particularmente difícil, pois o local era aberto a visitação para turistas do mundo inteiro. Muitos achavam que o Vaticano era apenas um pequeno Estado-Nação, que servia de morada para o Papa, e esqueciam que ali dentro também havia um enorme museu. Porém, a parte que Lorenzo queria acessar do Vaticano não era de trânsito público. Pelo contrário.
O palácio apostólico, atrás dos altos muros da Praça São Pedro, podia ser visto por aqueles na praça, mas não podia ser acessado por essas mesmas pessoas. Felizmente, Lorenzo tinha um trunfo, que ele usou assim que chegou na recepção do prédio.
— Lorenzo Cipriani, para falar com o cardeal DeMarco — o guarda atrás da bancada deu um relance para Lorenzo e depois uma olhada suspeita para Hunter, antes de dizer:
— Identificação por favor — o sujeito só podia estar de brincadeira.
Lorenzo conhecia o cardeal DeMarco desde que era criança, pois o homem costumava jogar xadrez todas as quintas-feiras com Walter, e ele já esteve no palácio várias vezes, uma vez até encontrou com o Papa, e o guarda que trabalhava na recepção naquela época era o mesmo de hoje. Era o mesmo há duas décadas.
— Senhor? — O homem questionou diante da hesitação de Lorenzo, que bufou e tirou a carteira do bolso de trás da calça, retirando de dentro desta a sua licença de motorista e a espalmando sobre a mesa. O policial deu um meio sorriso para Lorenzo.
— Você é um tosco Giuseppe — Giuseppe alargou o sorriso diante do resmungo do jovem, recolheu a licença e digitou algo no computador sob a borda do balcão, devolvendo o documento para Lorenzo logo em seguida.
— Aguarde um momento apenas — Giuseppe recolheu o telefone e teclou três botões neste e após uns dez segundos de espera na linha, foi atendido e passou a conversar baixo com quem quer que estivesse do outro lado da conexão.
Um minuto depois, ele colocou o aparelho de volta no gancho.
— O cardeal irá recebê-lo no salão de estudos — declarou e Lorenzo sorriu em agradecimento, tomando o caminho para a escadaria no final do corredor — O cardeal irá apenas receber o senhor Cipriani — Giuseppe enfatizou, o que fez Lorenzo pausar e olhar por cima do ombro para Hunter que o seguia e parou diante da chamada. O caçador apenas encolheu os ombros para o mestiço em um gesto de ‘o que eu posso fazer?’, e Hunter amarrou a cara, foi até a fileira de cadeiras encostadas na parede oposta da bancada da recepção, e se jogou sobre uma delas como uma criança petulante, prestes a dar um ataque de birra. Até os braços cruzados e o bico ele ostentava.
Lorenzo segurou uma risada diante do comportamento adorável do outro homem, deu as costas para Hunter e retomou o caminho para as escadas. Assim que alcançou o degrau no térreo, seguiu por um longo corredor de paredes brancas, com algumas pinturas o emoldurando, alguns móveis de decoração, com algumas peças religiosas sobre esses, até chegar a uma porta dupla que ficava ao final do corredor, a qual uma das bandas estava entreaberta. Lorenzo empurrou a porta e adentrou o aposento.
O salão de estudos nada mais era do que uma biblioteca cujo aroma de madeira, livro e couro permeava no ar. O cardeal estava sentado a uma das mesas, mais ao canto da sala, e Lorenzo apressou os passos até parar em frente ao homem.
O cardeal DeMarco parecia-se com Walter. Era um homem negro de meia idade, estudioso, educado e que sempre falava em tons brandos e tinha a paciência de um santo. E esta foi testada por Marcelo e Lorenzo várias vezes quando eles vieram de visita, anos atrás e ainda moleques, na companhia de Walter, e resolveram usar o Vaticano como playground. Marcelo já era um adolescente naquela época e o herdeiro da liderança do clã, estava ali para aprender política e também ficar de olho no caçula que insistia em ser trazido junto porque considerava o desenho no teto da casinha bonito.
A casinha era a Capela Sistina e o desenho o afresco de Michelangelo.
Bem, deem um desconto para Lorenzo, ele só tinha seis anos na época.
E, mesmo assim, mesmo estando ali a negócios, Marcelo permitiu-se ser tragado pelo caçula entediado em uma brincadeira louca que foi uma mistura de pique-esconde e pega-pega, que deixou os guardas do palácio apostólico de cabelos em pé, encheu Walter de vergonha, fez o cardeal rir de perder o ar e quase causaram um incidente sem proporções quando trombaram com o Papa e levaram o velho homem ao chão.
Felizmente o Papa tinha espírito esportivo, não sofreu grandes danos, e gostava de crianças. Carmem quase arrancou o couro de Lorenzo e Marcelo quando eles retornaram para a base e Walter relatou à ela o incidente. A mulher não sabia por onde começar a pedir desculpas para vossa santidade.
— Cardeal? — Lorenzo chamou e DeMarco ergueu os olhos do livro que lia, ou fingia ler, e fixou a sua atenção sobre o homem mais jovem, pondo-se de pé para cumprimentar o rapaz ao estender uma mão para ele. DeMarco gostava de testar as pessoas de várias formas possíveis, principalmente Lorenzo, e um desses testes era sorrir para caçador, um sorriso contido e cheio de segredos, estender para ele a mão e esperar que o rapaz pedisse a benção.
Lorenzo não era católico, espírita, budista, o que fosse. E não se enganem, ele acreditava existir uma força superior, e isto apenas porque queria ter alguém em quem colocar a culpa pelas rasteiras da vida, mas ele não seguia nenhuma religião em específico, ou os costumes de nenhuma religião em específico, o que era irônico porque ele era italiano, o país com mais igreja por metro quadrado, e DeMarco sabia disto. Sabia, mas fazia-se de idiota, porque sempre que se encontravam, o cardeal estendia a mão para Lorenzo, esperando o costumeiro beijo nas costas desta e o pedido de benção e o rapaz simplesmente o respondia pegando a mão do sacerdote e a sacudindo em um cumprimento básico, como fez naquele momento.
Lorenzo tinha a leve impressão que o cardeal estava tentando convertê-lo, ou algo do tipo, visto que a maioria de seu clã era adepto a frequentar a missa de Domingo. Um caçador sem uma crença não era exatamente a regra. Quando as armas falhavam, a única outra melhor opção quando a merda estourava no ventilador era rezar para qualquer entidade que você acreditava e esperar pelo melhor, sabendo que só teria o pior. Lorenzo começou a perder essa fé na salvação divina no dia em que os seus pais se divorciaram, e ela sumiu de vez quando a sua mãe morreu.
Giuliana aos seus olhos sempre foi imbatível, ela sempre passou uma aura de que jamais seria derrotada por nada neste mundo, e morreu jovem e de forma mundana, caçando. Lorenzo também sempre acreditou que no dia que a vida conseguisse vencer a sua mãe, ela partiria de forma espetacular, não da forma padrão que todo caçador morre: trabalhando.
— Um dia meu rapaz, um dia — DeMarco disse divertido e apontou a cadeira oposta a ele, em um convite para que Lorenzo se sentasse — Walter saiu daqui agora há pouco — começou a dizer assim ambos se acomodaram em seus assentos — Mas já informo que se a jovem Acqua está morta, não acredito que as minhas palavras serão de muito efeito em soberana Estrela.
— Cardeal, não é bem sobre o seu poder de persuasão que eu vim conversar. É mais sobre o fato de que o senhor foi a última pessoa a ver Acqua viva, e o senhor tem dois minutos para me explicar essa história antes que eu o considere um suspeito — Lorenzo começou a conversa, sem nenhum preambulo, e DeMarco piscou repetidamente, com a sua expressão calma não alterando-se em nada, como se ele não estivesse prestes a ser acusado de assassinato pelo caçador na sua frente.
— Acqua me procurou porque queria que eu servisse de mediador entre ela e a mãe — DeMarco explicou — Eu, sinceramente, fiquei confuso, pois nem sabia que Estrela e Acqua haviam tido uma desavença.
— Estrela sabia? — Lorenzo questionou. Porque se Estrela sabia do estado de Acqua, como poderia tê-la expulsado do ninho e depois pedido para Hunter procurá-la? Não fazia sentido.
— Sabia do quê?
— Que Acqua estava grávida — DeMarco empertigou-se na cadeira diante dessa nova informação, mas nada disse — Ela estava acompanhada de alguém? Disse alguma coisa estranha, alguma coisa que nos ajude a encontrar o bebê?
— O bebê está vivo? Como vocês podem ter tanta certeza disso? — a reação do cardeal deixou claro para Lorenzo que Estrela poderia não saber da gravidez da filha, mas DeMarco tinha conhecimento prévio do fato.
— Uma soma de fatores que agora não estão fazendo mais sentido — o caçador declarou e DeMarco soltou um ‘hum’ do fundo da garganta e recostou na cadeira, cruzando os braços sobre o peito.
— Acqua não me disse exatamente que precisava de mediação, mas sim que precisava falar com Estrela. Curiosamente, o modo com que ela me pediu deu a entender que o recado era somente para os ouvidos da mãe — explicou o cardeal e Lorenzo reclinou sobre a mesa diante dessa informação.
— Se ela queria conversar apenas com Estrela, alguma coisa ela temia. Ela parecia com medo?
— Sim, mas… — um ‘ping’ interrompeu DeMarco, que arqueou uma sobrancelha diante do som e Lorenzo sorriu sem graça para ele, enquanto retirava o celular do bolso de sua jaqueta. O salão de leitura era um local de silêncio absoluto. Afinal, ali ainda era uma biblioteca.
Lorenzo olhou para a tela do celular, onde havia uma mensagem de um número desconhecido e que dizia somente: ‘problemas! dê o fora daí!’, e no instante seguinte um padre entrou no salão e cochichou algo no ouvido de DeMarco.
O cardeal rapidamente levantou de seu assento e ajeitou displicente a sua batina.
— Lorenzo, preciso que você saia imediatamente.
— O quê? Por quê? — mas DeMarco o ignorou em favor de falar com o padre.
— O leve pela outra saída — o cardeal ordenou ao padre. Lorenzo piscou repetidamente e permaneceu no lugar, mesmo quando o padre parou ao seu lado e o olhou contrariado pelo caçador simplesmente não estar se mexendo, obedecendo a ordem implícita do cardeal, que também foi para ele.
— Lorenzo — DeMarco disse no mesmo tom que um pai usava quando estava repreendendo o filho teimoso e, com muita relutância, Lorenzo deixou o seu assento e permitiu que o padre o escoltasse na direção de um dos corredores formados pelas estantes de livros, onde ao final deste havia uma porta de madeira escura e que era praticamente camuflada pela pouca iluminação do local. E quando o padre a abriu, o som de outra porta abrindo ecoou do outro lado do salão.
— Senhor Cipriani — o padre sussurrou o nome de Lorenzo com extremo alarde, quando este parou de segui-lo, mas Lorenzo apenas ergueu uma mão para ele, pedindo que esperasse, e silenciosamente retornou pelo caminho que veio até chegar na quina de uma das estantes, apoiar as costas nesta e inclinar um pouco a cabeça para além do ângulo da quina, para ver o que acontecia na área das mesas de leitura.
O cardeal DeMarco ainda estava de pé, mas agora ele não estava mais sozinho. Havia três anjos na sua frente, e Hunter. O anjo mais destacado do grupo era do sexo masculino, alto, rosto quadrado, testa larga, tinha cabelo grisalho nas têmporas e negro no restante da cabeça. Vestia um terno absurdamente humano, de risca de giz e corte impecável, e as suas enormes asas tinham no topo, onde era a sua envergadura, penas negras que iam clareando até um cinza da cor da fumaça, nas pontas, e elas estavam encolhidas às costas dele.
— Primeiro-Ministro Castelo — DeMarco disse em um tom neutro e o primeiro-ministro apenas assentiu — Senhores — o cardeal também cumprimentou os outros anjos, cuja presença não era tão imponente quanto a de Castelo, obviamente (Lorenzo supôs que esses fossem apenas escolta) e por fim o olhar de DeMarco caiu sobre Hunter, que respondeu a mirada do cardeal com um sorrisinho amarelo e um breve dar de ombros, e então o sacerdote voltou a sua atenção para o primeiro-ministro.
Normalmente a regra de etiqueta dizia que, após os cumprimentos, era polido convidar o visitante a se sentar. Com os anjos um convite para sentar era considerado uma ofensa. Para sentarem em cadeiras humanas, os anjos tinham que dobrar as asas de maneira que os deixavam vulneráveis, e humanos não se sentavam porque sentiam-se desconfortáveis em falar com criaturas de asas enormes, que sobrepunham-se a eles como gárgulas.
Por isso que as conferências sempre eram feitas com todos em pé.
— Cardeal DeMarco — a voz de Castelo era profunda, coisa que não era normal aos anjos devido a sua linguagem nativa que consistia de guinchos agudos de estourar os tímpanos — Soube que o senhor foi o último a ter contato com Acqua, antes de sua morte — Lorenzo franziu as sobrancelhas. Como assim? Hunter e ele tinham acabado de saber sobre isto. Lorenzo principalmente tinha acabado de confirmar com DeMarco que foi este o caso. Então como é que a novidade já chegou aos ouvidos de uma autoridade máxima dos anjos, lá no ninho deles?
DeMarco, como sempre, não mexeu um músculo facial. Se a informação sobre Castelo saber que o cardeal foi o último a ter contato com Acqua antes de sua morte o surpreendeu, ele não demonstrou nem mesmo com um piscar de olhos. Ainda bem que Walter e ele jogavam xadrez em seus encontros semanais, porque se jogassem pôquer, e apostassem dinheiro nisto, da modo como os dois blefavam tão bem, a partida seria um eterno impasse.
— Você conhece Hunter? — Castelo disse quando o cardeal não manifestou uma resposta diante da clara provocação do primeiro-ministro. Se o anjo estava pescando por informações, estava fazendo isto no lago errado — Ele está nos ajudando a descobrir que demônio amaldiçoado fez isto com a nossa Acqua — finalizou com um suave tom de desprezo na voz, meneando com a cabeça Hunter, parado a alguns passos atrás dele.
Irônico que Castelo demonstrava de forma explícita o seu desprezo por demônios, mas contratava um mestiço para encontrar o suposto demônio responsável pela morte da sucessora A resposta de DeMarco para esta colocação foi o arquear de uma única sobrancelha negra, e nada mais.
— Como o senhor tem tanta certeza que foi um demônio, senhor ministro? — DeMarco sempre era do tipo de dar o benefício da dúvida a todos, até mesmo a um assassino condenado, mas Lorenzo tinha que concordar que o questionamento do cardeal era válido. O primeiro-ministro não havia soltado a acusação da maneira que um anjo sempre acusa um demônio: especulando somente para ver se a desculpa colava e um caçador cometia a burrice de ir atrás da pessoa errada, causando um desastre, porque demônios e anjos também se reservavam ao direito de caçar caçadores que faziam o seu trabalho errado. Era por isso que Hunter era um espinho na vida dos clãs: o mestiço só servia para deixar um rastro de morte por onde passava.
Mas, neste caso, era diferente. O ministro soltou a acusação com a convicção de alguém que tinha certeza de que havia sido um demônio a matar Acqua.
— Somente uma dessas bestas cometeria tamanha atrocidade — Castelo acusou em um tom venenoso e saindo pela tangente, e DeMarco permaneceu impassível, enquanto Lorenzo já tinha feito várias expressões diferentes que refletiam todos os pensamentos que rolavam pela sua mente.
Acqua era da família real e, por maior que fosse a animosidade entre demônios e anjos, ambos sabiam a estupidez que era matar alguém da família real. Seria guerra declarada e danem-se os Caçadores e o equilíbrio. Talvez a guerra apenas não estourou devido a algum bom senso ao qual soberana Estrela estivesse se apegando. Um que sumia a cada dia que passava e que duraria apenas uma semana, se o prazo que ela deu para Hunter fosse alguma indicação.
— Eu não tenho tanta certeza assim — DeMarco disse com a calma de quem estava lidando apenas como um velho conhecido, e não com a segunda criatura mais poderosa que regia o ninho europeu dos anjos.
Não existiam muitos ninhos e covis espalhados pelo mundo, e a divisão geopolítica deles era diferente dos humanos. O ninho de Estrela era considerado italiano, porém este estendia-se por todos os alpes, que margeavam o norte da Itália, passando por países como a Suíça e a Áustria, e a soberana Estrela era a regente do ninho com maior território entre todos os existentes na Europa, mesmo que houvessem outros soberanos em outros ninhos, como em Portugal, ou Inglaterra, por exemplo. Em suma, Estrela seria a rainha das rainhas e portanto politicamente muito poderosa entre os anjos. Castelo, sendo o seu segundo em comando, estava em patamar de grandeza parecido.
— Soube que a causa mortis de Acqua foi um ferimento na garganta no mesmo modus operandi dos demônios, mas que o ferimento em si não tinha traços de carbono, portanto não foi causado pelas garras de um demônio — DeMarco explicou e Lorenzo teve a ligeira impressão que o cardeal somente o recebeu por polidez, que Walter provavelmente já obteve a informação de que o homem foi o último a vez Acqua viva e, em troca, forneceu a DeMarco as informações que eles tinham sobre o caso, como uma carta na manga caso Estrela resolvesse atacar. O cardeal seria a última chance deles de demover a soberana em declarar uma guerra.
— E? — Castelo disse como quem não entendia aonde exatamente o cardeal queria chegar ao repassar aquela informação.
— Prefiro não supor nada antes de termos provas. Creio que é isso o que o seu caçador está fazendo, certo? — desta vez foi DeMarco a sair pela tangente e ele indicou Hunter com a cabeça. Castelo deu uma risada curta e seca, o que fez um arrepio desagradável descer pela espinha de Lorenzo.
— Hunter é apenas… — Castelo deu à Hunter o olhar de alguém que considerava o homem uma sujeira que não tinha nem a honra de borrar a sola de seu sapato, e Lorenzo quis dar um soco na cara de Castelo só por ele pensar que Hunter era um nada.
Hunter era um nada, mas era o seu nada.
Epa! E de onde esse pensamento veio?
— Não interessa. Demônios fizeram isto, está claro, e levaram o bebê — Castelo acusou, DeMarco piscou repetidamente, em um gesto nervoso que indicava que ele estava controlando-se para não esboçar nenhuma reação, Hunter franziu as sobrancelhas diante do que ouviu, os anjos que acompanhavam Castelo pareciam surpresos com o que ouviram, e Lorenzo só não deixou o seu esconderijo e foi cobrar satisfações do primeiro-ministro, exigir saber deste como ele sabia do bebê de Acqua, porque o padre que deveria escoltá-lo até a saída ainda estava ali e o segurou pelo braço.
Castelo sabia do bebê. Como ele sabia do bebê? Acqua não havia fugido do ninho alpes justamente para esconder a gravidez? Ao menos essa é a teoria com a qual eles estavam trabalhando, e a mais plausível, para dizer a verdade.
— Entendo — DeMarco recuperou o controle sobre as suas emoções rapidamente, diferente de Hunter que ainda estava desconfiado e dos outros anjos ainda surpresos com o que ouviram — Mas por que está aqui primeiro-ministro? — o cardeal perguntou.
—Para avisar que é bom vocês humanos se prepararem, porque a soberana Estrela está se preparando também.
— Preparando-se para o quê?
— Para a guerra, cardeal. Para a guerra.
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