Gabriel
4 Capítulo 2
HUNTER, SE ESTE ERA REALMENTE o nome dele, era a vergonha dos caçadores. E não, não era porque ele era ruim nisto, pelo contrário, ele era bom, extremamente bom. O problema era que ele era bom porque ele era um mestiço, e a carga sobrenatural em seus genes lhe dava vantagens sobre os pobres mortais. Hunter era metade demônio por parte de pai, e cuja mãe humana fez parte do clã Benedetti, mas este nome ele não tinha a honra de carregar, e demônios não tinham sobrenomes.
Hunter era como o filho bastardo de um rei:
Todos na corte sabiam que ele existia, sabiam quem ele era, mas não o aceitavam como um dos seus. Afinal, havia uma razão para caçadores não se relacionarem de forma alguma (fosse amizade, fosse de forma romântica) com demônios ou anjos: isto afetava o equilíbrio.
Como poderiam fazer o trabalho se ficariam se perguntando se aquele demônio (porque havia mais chances de um demônio engravidar uma humana do que um anjo, e estes eram os fatos) que mataram era pai, mãe, primo, cunhado, o que fosse, do demônio que tinham em casa como parceiro? Não, isto era péssimo! Caçadores tinham que ser imparciais, e quando Angelina Benedetti quebrou as regras, ela foi punida de acordo: expulsa do clã e esquecida por eles.
Que fim Angelina levou ninguém sabia, mas todos sabiam que fim levou o bebê que ela carregava no ventre quando foi expulsa do clã.
Hunter surgiu no cenário há alguns anos, caçando criaturas sobrenaturais e usando as mesmas técnicas padrões ensinadas pela maioria dos clãs de caçadores. O problema era que ele não fazia isto de graça, ele cobrava. O filho da mãe cobrava pelos trabalhos e não tinha discernimento algum, pois não fazia a mesma triagem que os caçadores faziam. Se um anjo dissesse para ele que um demônio tal era o responsável pela morte de outro anjo, ou vice-versa, e pagasse bem, Hunter iria lá caçar a criatura e ponto final. Sem investigação, sem saber os pormenores, sem nada, o que era uma bruta dor de cabeça para os caçadores de verdade, que tinham que apaziguar os ânimos, aplicar de diplomacia e basicamente limpar a cagada que as atitudes desmedidas de Hunter causava, para assim evitar uma guerra.
Sem contar que Hunter era extremamente arrogante para alguém que não era bem-visto pelos clãs. E talvez, somente talvez, tenha salvado a pele de Lorenzo em uma ou outra caçada, o que foi um baita chute em seu orgulho pelo fato de ter sido ajudado por um mestiço.
Lorenzo preferia ter morrido a ter passado por essa vergonha. Pior, a ficar devendo a vida àquele mercenário.
E a coisa não parava por aí.
Hunter tinha a beleza surreal dos demônios. Os seus 1.88m de altura faziam Lorenzo se sentir nanico com os seus 1.79m. Ele tinha o físico de um ginasta e era completamente proporcional em todos os ângulos, com músculos bem definidos e membros poderosos, o seu cabelo era curto e arrepiado e tão negro que ganhava tons azulados sob a luz artificial, a barba rente e bem feita era o charme a mais, e a sua pele clara não possuía uma imperfeição que fosse. Mas eram os olhos de Hunter que mais atraiu Lorenzo na primeira vez que viu o mestiço: eles eram de uma cor intrigante e fascinante, um violeta escuro, quase negro, lembrando uma densa pedra ametista.
Lorenzo não era magricela, mas também não tinha o corpo esculpido em mármore como Hunter. Na verdade, Lorenzo gostava de subestimar as pessoas. Ele não era uma montanha de músculos, como alguns caçadores, mas compensava esta falta com agilidade e a técnica de usar a força do adversário contra ele mesmo, durante um combate. Lorenzo também era o típico italiano: pele morena graças às horas de trabalho sob o sol, em uma caçada, cabelo castanho escuro e ondulado e olhos de igual cor. Não era extraordinariamente bonito, mas também não era ruim aos olhos. E não, não era porque ele se sentia ridiculamente humano ao lado de Hunter, que Lorenzo o detestava.
Lorenzo detestava Hunter por várias razões.
A primeira razão era a moral duvidosa de Hunter. O cara podia não ser um caçador, mas aos olhos de quem estava de fora, e que não entendia da política dos caçadores, ele era um e por isso trazia má fama ao coletivo.
E a segunda razão era por causa de um momento vergonhoso de seu passado, um momento relacionado a como eles se conheceram, se encontraram pela primeira vez.
Hunter salvou Lorenzo quando ele tinha dezesseis anos, durante a sua primeira caçada, em seu teste para a emancipação, na Alemanha, e a caçada terminou mal. Lorenzo só não morreu porque Hunter surgiu como um cavaleiro de armadura brilhante, imponente e letal, e talvez, somente talvez, Lorenzo teve uma paixonite que durou uns cinco segundos, diante daquele cenário de contos da Disney, isto antes de Hunter abrir a boca e acabar com todo o encanto.
Porque não foi humilhação o suficiente para Lorenzo ter sido salvo por um mestiço, ele também teve que se sentir atraído pelo infeliz. Atração esta que morreu quando ele descobriu quem o suposto caçador na verdade era. Hunter era um cretino, arrogante, presunçoso e sabia disto, e fazia questão de enfatizar isto, apenas para irritar Lorenzo.
E agora ele estava ali, no QG dos Cipriani, com aquele sorriso de gato que comeu o canário, como se fosse o conquistador do mundo.
Lorenzo lançou um olhar para Carmem que praticamente gritava: ‘que diabos?!’, mas a resposta dela foi apenas o silêncio, acompanhado de uma expressão azeda.
— Lorenzo, acho que você conhece Hunter — Walter disse em seu eterno tom de ‘nada me abala’. Lorenzo tinha inveja da absoluta calma que o homem possuía. Parecia que nada nunca era com ele.
Lorenzo conhecia Hunter e, sinceramente, preferia não tê-lo conhecido.
— Hunter irá nos auxiliar no próximo trabalho — Walter completou e tudo o que Lorenzo queria naquele momento era uma arma. Poderia ser daquelas de cano curto, feitas para serem carregadas dentro de bolsas femininas, qualquer coisa para tirar aquele sorriso presunçoso da cara de Hunter. Uma bala bem alojada entre os olhos dele com certeza faria este trabalho de maneira espetacular.
Lorenzo sinceramente não entendia do que Hunter tanto se orgulhava. Ele era um bom caçador? Era, não tinha como negar. Quando ele recebia um trabalho o fazia bem feito. O problema era a sua falta de ética que sempre fazia com que os caçadores de verdade tivessem que limpar o rastro de merda que Hunter deixava no caminho. Se Hunter tivesse um pingo de consciência saberia que não tinha nada do que se vangloriar.
— Ele? Vai nos ajudar? — Lorenzo disse em uma mistura de escárnio e descrença. Nenhum caçador de respeito se associaria a Hunter e muito menos o teria como parceiro de caçada. Hunter era um espinho que não dava para arrancar por maneiras legais da sociedade dos caçadores, então, na maioria das vezes, o que eles faziam era ignorar a existência do mestiço e por trás dos panos torciam para que o mesmo acabasse sendo estripado por algum lobisomem.
Walter soltou um longo suspiro, em uma demonstração clara e rara de frustração, enquanto Carmem fazia uma careta ainda mais azeda. Ele apontou para as pastas abertas sobre a mesa e em seguida pegou um punhado de fotos, imagens características feitas pela equipe de criminalística da polícia.
— Esta na imagem é Acqua — Walter começou, antes que a tensão crescesse mais naquele sala e ficasse densa o suficiente para ser cortada com uma faca, e indicou com a ponta do dedo a foto de uma jovem largada contra a parede de um beco sujo, largada como um pedaço de pano velho, de cabelos castanhos desgrenhados, com a palidez característica dos cadáveres, vestindo roupas humanas e as asas estavam empenadas e depenadas. Anjos tinham nomes que, quando traduzidos para a língua humana, significavam coisas como água, armário, escada, etc. Bem ridículo mesmo. Já demônios tinham nomes esquisitos e sem equivalência na língua humana. Por isso que, quando andavam entre mortais, eles escolhiam nomes humanos que mais se aproximavam da sonoridade de seus nomes originais.
— Acqua é uma sucessora — Carmem explicou e Lorenzo quis dar com a testa na mesa diante da assustadora informação passada pela avó.
Demônios e anjos possuíam uma organização política semelhante à realeza humana: havia a nobreza, a família real, o primeiro-ministro e o parlamento. Sucessores, em ambas as raças, eram o equivalente a príncipes e princesas herdeiros do trono.
— O que uma princesa anjo fazia entre os humanos? — Lorenzo perguntou.
A realeza dos anjos e demônios evitava ao máximo andar entre os humanos, pois ambos eram os alicerces de suas sociedades e se capturados ou mortos, poderiam causar um desastre político. Afinal, sempre tinha alguém querendo sentir o gostinho do poder real e almejando o trono. Demônios e anjos também tinham famílias nobres, cuja especialidade eram jogos de intriga e propensa traição à coroa, e caçá-los era um inferno, porque os caçadores não podiam simplesmente ir atrás de um nobre de uma das raças e fazer o seu trabalho normalmente. Não, eles precisavam de autorização real para isto. Um documento anistiando os caçadores, dizendo que eles estavam apenas cumprindo com o seu trabalho como contrapeso, e que se qualquer integrante da família daquele que estivesse sendo caçado resolvesse se vingar, seria punido de acordo com a lei de sua devida raça.
Conseguir esta autorização era o mesmo que arrancar um dente com raiz profunda e sem anestesia. Primeiro porque os demônios queriam ver o circo pegar fogo, segundo que ter acesso ou contato com anjos era quase impossível. Os poucos humanos que eles confiavam como seus interlocutores foram escolhidos a dedo pela família real, e cada um vivia em um canto da Terra. Até os caçadores conseguirem contato com este mensageiro e a autorização, a presa deles já tinha desaparecido, as pistas ficariam frias e o trabalho teria que ser refeito do zero.
E agora isto. Um corpo, no quintal deles, e de uma princesa anjo. E se o assassino for um demônio então, era guerra na certa. Foda-se o equilíbrio. Os anjos desceriam de seus ninhos e finalmente causariam o Apocalipse.
— Acqua estava desaparecida há uns sete meses, e quando finalmente foi encontrada… — Carmem apontou para a foto da jovem mulher caída como uma boneca de pano sobre o bando de sacos de lixo. Ela usava jeans e camiseta, e como ela conseguiu vestir a camisa com aquelas asas, Lorenzo acreditava ter sido por magia, e haviam talhos enormes na barriga dela, quatro rasgos perpendiculares e profundos, contudo Lorenzo podia ver pela foto que não foi aquele ferimento que a matou.
O que matou Acqua foi o enorme rasgo na garganta dela, que ia de ponta a ponta, que atingiu a jugular em cheio e a fez sangrar até a morte.
O tipo de morte empregada por um demônio.
Isto era um desastre.
— Também pensamos nisso. Também pensamos que a morte foi causada por um demônio — Walter falou, lendo na expressão do caçador mais jovem a mesma conclusão que Carmem e ele chegaram mais cedo, e Lorenzo ergueu os olhos da foto para pegar a pasta que foi estendida para ele.
Lorenzo percorreu os olhos pelas folhas impressas, o relatório do legista da polícia, e segurou uma risada.
A polícia de Roma era uma das poucas do planeta acostumada a lidar com o sobrenatural, mas ainda sim podia ser surpreendida por este mundo. Isto porque o relatório do legista deixava claro de que ele não fazia nem ideia por onde começar a necrópsia e aprofundar a causa da morte, encontrar no corpo pistas para auxiliar na investigação. Anjos e demônios eram parecidos com os humanos externamente, mas, internamente, eram outra história. E não havia Biologia estudada na faculdade que fosse ajudar os médicos forenses da polícia neste caso.
Felizmente os caçadores tinham os seus próprios legistas e o relatório deles estava na página seguinte.
Este não dizia nada diferente do que Lorenzo pôde avaliar dçna foto.
Lacerações, o rasgo na garganta foi a causa da morte, o corpo apresentava hematomas, sob a unha da vítima foram encontrados resíduos de pele que poderiam ser do assassino, e havia marcas de defesa, Acqua lutou contra o seu algoz. Fora as roupas, nada mais foi encontrado no corpo, nenhum objeto estranho foi encontrado na cena do crime, nada que apontasse para algum suspeito, e sem suspeitos, não haveria como fazer uma análise comparativa de DNA com os resíduos de pele localizados sob as unhas. Também foram encontradas substâncias diferentes em ambos os ferimentos, e as amostras já estavam no laboratório que ficava em um dos prédios da praça Navona, e dentro de algumas horas sairia o resultado.
Mas foi um parágrafo destacado com marca-texto amarelo que chamou a atenção de Lorenzo.
— A vítima apresenta recente contração muscular característica de expansão abdominal prolongada? — Lorenzo leu em voz alta, com as sobrancelhas franzidas.
— Grávida. Acqua estava grávida — Carmem esclareceu.
Mas que merda!
— E o que aconteceu com o bebê? — Lorenzo perguntou, porque na foto Acqua não parecia grávida. Nem mesmo as roupas humanas que usava eram típicas de gestante, e se ela teve retração muscular que ainda era possível identificar na necrópsia, a gestação foi recente e também poderia ter sido a causa do desaparecimento dela meses atrás do ninho. Acqua fugiu para esconder o bebê e, ao que parecia, havia grandes chances dessa criança ter nascido. A gestação de um anjo era entre oito e dez meses, e Acqua estava sumida há sete. Fora que um dos golpes havia sido na barriga, o que poderia também indicar que o bebê foi arrancado de dentro dela, porém as marcas dos ferimentos, apesar de profundas, não foram o suficiente para deixar órgãos expostos, não cortaram todas as camadas de músculo e pele necessárias para alcançar o útero, o que significava que elas foram aplicadas naquele local com outro propósito, um que não foi o de uma cesariana improvisada.
— Boa pergunta. Mas tem mais — Carmem estendeu para Lorenzo outra pasta, uma que era de fotos somente da cena do crime, sem o corpo, tiradas pela equipe criminalista que os caçadores possuíam. Sob as fotos havia um relatório.
Sangue além do sangue da vítima foi encontrado no local. Duas amostras diferentes e a análise preliminar dizia que uma era de um demônio e a outra de um anjo.
— Uma amostra pode ser do assassino e a outra do bebê, o que provavelmente significa que temos um infanticídio em nossas mãos — Lorenzo concluiu e Walter fez que não com a cabeça e disse:
— As duas amostras mostraram ser o sangue de dois adultos — certo, então não havia um pequeno anjo morto, mas sim desaparecido — E ninguém sabia que Acqua estava grávida. Ela não era interligada — traduzindo: Acqua não era casada. Então este filho era um bastardo, o que era uma enorme desonra para os anjos, do tipo que poderia ser punida com a morte ou o banimento.
Sim, anjos podiam ser arcaicos deste jeito a ponto de cometerem exageros em suas punições. Lorenzo sempre acreditou que eles eram a verdadeira encarnação do drama, uma peça tragicômica grega, e depois tinham a audácia de falar que os humanos que eram a espécie pouco evoluída. Ao menos eles pararam de queimar mulheres na fogueira, como bruxas, séculos atrás, só porque elas sabiam ler, escrever e multiplicar.
— Acqua fugiu de casa para esconder a gravidez, provavelmente iria ficar desaparecida até este bebê nascer, depois se livraria dele e então voltaria como se nada tivesse acontecido — Lorenzo teorizou, voltando os olhos para o relatório em suas mãos.
Acqua não quis abortar a criança, sabe-se lá porquê. Como dito antes, anjos tinham regras arcaicas e se Acqua não fosse punida com o banimento ou apedrejamento em praça pública, no mínimo seria forçada a livrar-se do bebê antes deste nascer. O fato dela ter fugido e prosseguido com a gestação, tido a criança, tornava tudo ainda mais intrigante.
— Mas o que isto tem a ver com a presença dele aqui? — Lorenzo indicou com a cabeça Hunter, que durante todo este tempo ficou pacientemente calado, somente observando a troca entre os Cipriani.
Carmem grunhiu e Walter soltou outro suspiro de frustração. Hunter deu mais um de seus sorrisos presunçosos e um passo à frente, aproximando-se da mesa e tamborilando os dedos grossos no tampo desta.
— Soberana Estrela me contratou há dois meses para encontrar Acqua. A sucessora não estava completamente desaparecida, ela ainda mantinha algum contato com o ninho. Segundo Estrela, Acqua desceu para terra plana porque queria aprofundar os seus conhecimentos e estudos antes de assumir o trono. Mas quando os contatos cessaram, eu fui contactado — Hunter explicou e Lorenzo, pela segunda vez naquela noite, quis bater com a testa no tampo da mesa.
Estrela era a atual rainha, ou soberana, como era a definição traduzida para a língua humana, da comuna dos anjos da Itália, o que significava que Acqua era a filha dela. Um sucessor não precisava ser necessariamente o filho do atual soberano (anjos) ou regente (demônios), poderia ser apenas alguém nomeado para a sucessão, mas para a própria soberana Estrela envolver-se no assunto para localizar uma sucessora perdida, quando poderia simplesmente nomear outro para a posição, significava que havia apego emocional envolvido. Significava que Acqua era parente e anjos só davam tamanha importância a parentes se esses fossem de primeiro grau. Filhos, pais, primos, sobrinhos, etc.
— E o que eu encontrei foi um corpo no necrotério da polícia, prestes a ser despachado para os Cipriani, e nenhum rastro — Hunter completou e Lorenzo riu com deboche.
— E o quê? Como Acqua não foi encontrada viva, você não recebe? É isto?
— Pelo contrário. Estrela vai me pagar o dobro para encontrar o assassino e despachá-lo. E é aí que impera o problema.
— Não vai me dizer que cresceu em você uma súbita consciência? — Lorenzo disse com desmedido desprezo, arremessando sobre a mesa, sobre um punhado de mapas, a pasta com os relatórios da necrópsia. Hunter sorriu matreiro para ele, aquele sorriso que dava nos nervos de Lorenzo e, ao mesmo tempo, causava um comichar gostoso na boca do seu estômago. Lorenzo detestava essa sensação, porque não era mais um menino de dezesseis anos deslumbrado e fazia anos que ele não via Hunter, portanto não tinha razão para ainda permitir-se sentir abalado por um mero sorriso.
— Consciência? Não. Sobrevivência? Sim — Hunter continuou, alheio a como o sorriso que ele deu mexeu com os alicerces de Lorenzo, ou talvez tivesse plena consciência disto. Demônios, até mesmo mestiços, tinham o faro apurado, como o de um cão de caça, e conseguiam cheirar tesão ao longe, não é mesmo? E Hunter adorava usar a fraqueza do adversário contra este, quando o momento era oportuno — A morte de Acqua deixou de ser um simples assassinato e virou um crime político, e a família dela vai querer derramar sangue, muito sangue, para compensar a perda. Se for provado que o assassino é um demônio, então, irão querer reparação por igualdade — o que significava o bom e velho olho por olho. Estrela iria querer a morte de um sucessor dos demônios para compensar a morte de Acqua. O que, sinceramente, Lorenzo achava sem nexo.
Se Acqua estava grávida sem estar interligada ela, de uma maneira ou de outra, iria ser punida. A não ser que as leis da idade média dos anjos se aplicavam somente aos que estavam na base da pirâmide social e a nobreza, especialmente a realeza, era isenta de cumprir tais formalidades. Ou talvez Acqua fosse interligada e eles não sabiam. O que eles sabiam era que Acqua estava morta e não importa quem fez isto, ainda havia um bebê anjo desaparecido e soberana Estrela estava disposta a esquecer as formalidades, a balança, o que fosse, para começar uma guerra.
— Por isso ela contratou você — Lorenzo disse à Hunter — Caçadores não vão atrás de demônios ou anjos fugidos, ou desaparecidos, não é nosso trabalho, mas você faz qualquer trabalho, não é mesmo? Basta pagar bem — Lorenzo acusou e Hunter arqueou as sobrancelhas grossas — A sua fama o precede. Todos sabem que você atira primeiro e pergunta depois. Se alguém disser que foi, por exemplo, um dos sucessores dos demônios que matou Acqua, você dará cabo dele sem perguntas, sem se ater à burocracia que isto envolve, e isto seria o estopim para uma guerra.
— Verdade. Mas Estrela esqueceu de uma coisa — Hunter cruzou os braços sobre o peito largo — Eu não sou estúpido a ponto de causar uma guerra deste nível. Porque se isto acontecer, adivinha onde será o campo de batalha? — No plano, no território dos humanos. Anjos estariam em desvantagem no subterrâneo, pois desconheciam o território e as suas armadilhas, e os demônios não conseguiriam subir nos ninhos — Mas também não tenho os recursos necessários para encontrar o verdadeiro culpado.
— E você veio até nós. E espera que nós o ajudemos? — Lorenzo soltou uma risada de deboche — Ou nós podemos chutá-lo para fora daqui e resolvermos o caso sozinhos — Carmem pigarreou a direita de Lorenzo, um gesto que ele sabia dizer que as coisas não eram bem assim — O que foi? — A mulher fez uma careta, se possível, ainda mais azeda.
— Estrela não confia em nós para fazer o trabalho. Está cega pela dor da perda e desejo de vingança. Ela quer um culpado, ela quer reparação, não importa de quem. Ela não quer caçadores e as suas regras no caminho — a explicação de Carmem foi praticamente um tapa na cara de Lorenzo.
Como assim?
Anjos viviam pelas regras, as veneravam como se essas fossem alguma espécie de divindade, e agora Carmem vinha lhe dizer que eles estavam a ignorando em favor da vingança? Olha a ironia dando as caras novamente. Porque os humanos que eram a raça inferior e irracional, não é mesmo?
— E ela confia nele? — Lorenzo soltou em um tom tão ultrajado que assemelhou-se a um guincho. Hunter sorriu novamente presunçoso, um sorriso que Lorenzo queria com todas as forças arrancar do rosto dele a base de socos.
— Infelizmente — Walter mais uma vez suspirou de frustração. Era o terceiro suspiro naquela noite, uma clara demonstração de como tudo estava de ponta cabeça.
— E Estrela não vai saber desta união insólita? Porque ela confia em você, mas não em nós — Lorenzo soltou na direção de Hunter, completamente humilhado diante desta revelação e, mais uma vez, o mestiço deu um sorriso cheio de dentes para ele. O sorriso que Lorenzo odiava e que, ao mesmo tempo, causava reações gostosas em seu corpo e um acelerar indesejado das batidas de seu coração.
— Eu não conto se você não contar — Hunter murmurou de forma sedutora, praticamente ao pé do ouvido de caçador e, pela terceira vez naquela noite, Lorenzo quis bater com a testa no tampo da mesa com força o suficiente para desmaiar.
oOo
NO FIM, FICOU DECIDIDO QUE Lorenzo e Hunter trabalhariam juntos, para o completo desespero do primeiro. Lorenzo não tinha problemas em caçar com parceiros, fez isto várias e várias vezes no passado, com o próprio clã ou outros clãs, ele tinha problemas em caçar com Hunter.
Lorenzo ainda tentou protestar, falar para Carmem que deixar o mestiço trabalhar com eles iria denegrir o nome dos Cipriani, porém Carmem apenas lançou ao neto um dos seus patenteados olhares desgostosos, aquele que sempre fazia os irmãos Cipriani calarem a boca e pedirem desculpas, mesmo que a culpa não tivesse sido deles, e o efeito foi imediato: Lorenzo fechou a boca tão rápido que o seu maxilar chegou a estalar.
— Se Estrela descobrir que estamos trabalhando no mesmo caso que Hunter, ela vai colocar empecilhos em nosso caminho, mas se Hunter estiver a frente da caçada, acreditamos que ela não irá se opor. Claro que ela não pode saber que você é um Cipriani. Com sorte ela vai pensar que você é apenas um pau mandado contratado por Hunter — Carmem explicou.
Estava claro, no rosto marcado pelo tempo dela, que a ideia de unir forças com o mestiço não a agradava mas, no momento, era a única opção que tinham. A opção mais segura.
— E como ela vai saber do nosso envolvimento, estando isolada em seu ninho no alto dos alpes? — Lorenzo protestou em um tom semelhante ao de uma criança que foi contrariada.
— Não faço ideia, mas também não quero arriscar — Carmem rebateu no tom que usava quando queria encerrar o assunto e não estava disposta a discutir com um caçador teimoso, especialmente se dito caçador fosse de seu próprio sangue.
E com isto dito, a matriarca dispensou Lorenzo e Hunter, dizendo que até que o resultado do laboratório chegasse, eles não tinham mais nada para conversar, e quando os dois homens saíram da sala, Lorenzo lançou a Hunter o mesmo olhar desgostoso típico da sua avó, mas em menor intensidade.
— Eu não confio em você — Lorenzo disparou em um tom baixo, apenas para o outro ouvir. Um caçador estava ao longe, perto da entrada do corredor, e com certeza esperava por Hunter para assim chutá-lo o mais rápido possível para fora do QG dos Cipriani, porque a expressão fechada do homem deixava claro que tudo o que ele queria era sumir com aquele mestiço dali.
Hunter gargalhou e inclinou-se de modo a sussurrar na orelha de Lorenzo, que retesou o corpo por completo diante deste gesto e da proximidade do outro.
— Não era o que você dizia há nove anos.
Certo, Lorenzo mentiu um pouquinho, ou talvez muito, sobre as razões para ele desprezar Hunter, porque elas iam além de uma simples fascinação adolescente.
O seu encontro com Hunter não se resumiu apenas a um resgate típico de contos de fadas e uma paixonite adolescente, pela parte de Lorenzo, por aquele homem misterioso que surgiu do nada e evitou que ele virasse picadinho, literalmente, por um wendigo. Rolou algo mais entre eles. Eles tiveram um relacionamento, por mais breve que tenha sido, e sabe-se lá como, pois ambos eram tão diferentes que não era nem engraçado.
Lorenzo não sabia explicar como eles criaram uma conexão tão rápido, porque tudo o que lembrava daquela época é que em um momento ele estava prestes a morrer, no momento seguinte Hunter e ele davam cabo do wendigo, e no minuto seguinte ele estava no quarto de algum hotel barato de Berlim, gemendo e se contorcendo sobre lençóis ásperos, com o corpo de Hunter sobre o seu e as suas peles suadas roçando uma contra a outra em uma fricção deliciosa.
O caso deles durou um mês.
Um mês em que Lorenzo enrolou a sua família, inventando outras caçadas, para permanecer na Alemanha, um mês entre fodas e carícias, um mês de sussurros cúmplices durante a madrugada, de confissões e conversas acaloradas, discussões e risadas, um mês na companhia de Hunter que parecia entender tão bem aquela vida. Hunter, que parecia ser bem mais velho do que Lorenzo diante da tamanha sabedoria que continha, mas a verdade é que entre eles só havia dois anos os separando. Então ambos entendiam o peso daquela responsabilidade em seus ombros jovens e ambos adoravam ser caçadores mas, naquele um mês, por um breve momento, Lorenzo considerou deixar a caçada. Considerou deixar a vida que conhecia para viver um sonho de conto de fadas, um sonho ao lado de Hunter.
Hunter apenas riu na cara de Lorenzo quando ouviu os planos fantasiosos do jovem.
“Eu não sou o tipo de homem que você escolhe para formar família, ou apresentar para a família. Especialmente para a sua família.” Hunter falou com deboche, enquanto tomava o último gole de sua cerveja quente. “E você é mesmo uma criança ignorante se não sabe quem eu sou.” Ele completou em um tom de amargura e em seguida jogou as roupas de Lorenzo praticamente na cara dele, em um gesto claro de dispensa. “Se manda moleque! Este mês foi divertido, mas eu tenho mais o que fazer da minha vida do que bancar a babá!”
E com o coração partido e desiludido, Lorenzo voltou para sua vida na Itália e por semanas, a cada demônio que caçava, via neste o rosto bonito de Hunter. A raiva era uma boa maneira de mantê-lo concentrado e a caçada um excelente modo para descontar as suas frustrações.
Lorenzo só veio reencontrar Hunter dois anos depois e, desta vez, bem ciente sobre quem o outro suposto caçador era. E quando foi salvo mais uma vez pelo mestiço, ao invés de agradecer, deu um soco no queixo do outro homem e foi embora sem dizer nada.
Foi naquele dia, depois do soco, que Lorenzo quebrou qualquer encanto que Hunter tenha colocado sobre ele, e quando os seus caminhos se cruzavam em alguma caçada, Lorenzo fazia questão de manter a distância e a frieza e não trocar uma palavra que fosse com o mercenário. Mesmo com o encanto quebrado, com o fogo da paixão extinguido de seu coração agora endurecido pelo tempo e pelas porradas da vida, o seu corpo ainda lembrava com saudades daquele mês vivido na Alemanha, e isto era enervante. E sim, na mente de Lorenzo, Hunter era um mercenário e jamais seria um caçador.
— Dor de cotovelo ainda, Lorenzo? — Lorenzo não respondeu a provocação de Hunter, pois não era apenas despeito, ele verdadeiramente tinha vários motivos para não confiar em Hunter, e talvez um deles fosse o caso mal resolvido que eles tiveram no passado, mas esta não era a principal razão — O meu avô me ofereceu anistia, sabia disto? Convidou-me para ser um Benedetti — era mentira, Lorenzo pensou, como tudo que saía da boca de Hunter, tinha que ser. Angelo Benedetti era orgulhoso demais para fazer tal proposta — Mas eu não estou disposto a servir a uma instituição hipócrita como os Caçadores.
— O quê? — Agora Lorenzo estava devidamente ofendido. Caçadores não eram perfeitos, mas também não eram cretinos como as palavras de Hunter implicavam.
— Eu me tornei uma ameaça, mas os caçadores não podem me caçar sem uma razão, razões que eu não dou, então o que lhes resta é tentar me controlar. E como fazem isto? — Lorenzo não deu a Hunter uma resposta, mas sabia exatamente do que ele falava.
Uma maneira de controlar Hunter era colocá-lo sob as regras de um clã, porque assim, se ele fizesse uma besteira muito grande, poderia ser punido pelo próprio clã e ninguém teria nada com isto.
Lorenzo lançou um olhar para o caçador que iria escoltar Hunter de volta a saída do QG e que milagrosamente manteve-se afastado da dupla, dando a eles um pouco de privacidade durante a conversa deles. O dito caso mal resolvido era de conhecimento de poucos dentro do clã, e Lorenzo gostaria que permanecesse assim.
Lorenzo fez sinal para o homem aproximar-se deles.
— Ainda assim eu não confio em você — Lorenzo rebateu com firmeza e veracidade em suas palavras e ao invés do sorriso de escárnio característico, Hunter permaneceu calado e sério diante da declaração de Lorenzo, que apenas observou em silêncio o mestiço ser escoltado para fora do QG dos Cipriani por outro caçador.
Bem, isto havia acontecido há umas quatro horas. Lorenzo, após essa breve conversa, foi para o seu apartamento em um dos prédios que cercava a praça, na intenção de tomar um bom banho e dormir, mas os planos dele só chegaram até o banho.
Lorenzo chegou a deitar na cama sob a janela do quarto, enquanto sentia a brisa de Outono entrar por esta, na esperança que o vento frio o ajudasse a relaxar e a pegar no sono, porém não teve sucesso. Por horas ele ficou encarando o teto enquanto o relógio na mesa de cabeceira mudava os minutos com uma lentidão absurda, e talvez Lorenzo tenha conseguido dormir ao menos uns vinte minutos entre um piscar de olhos e outro, porque uma hora eram 4:35h da madrugada, então ele piscou e eram 4:55h. Depois disto o sono evaporou de vez e ele afundou o rosto no travesseiro e soltou um grunhido de frustração.
Maldito fosse Hunter, cuja existência só servia para dar trabalho aos caçadores e atormentar a vida de Lorenzo
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