Gabriel

10 Capítulo 8


QUANDO LORENZO ABRIU OS OLHOS, já amanhecia e fracos raios de sol tentavam vencer a neblina da madrugada, enquanto o astro rei subia pouco a pouco atrás do montes e em direção do céu.

Peter não estava mais ao volante. Ao invés disto, Bee era quem dirigia, com a sua perna completamente curada. Esta era uma vantagem que demônios e anjos tinham sobre os humanos e que Lorenzo neste momento também adoraria ter: sistema imunológico mais resistente e capacidade de cura três vezes mais rápida do que a de um ser humano. Porque a coisa que Lorenzo mais detestava era ficar de molho por causa de ferimentos de caçada. Pior ainda era sentir o corpo todo moído quando finalmente a descarga de adrenalina sumia de seu sangue. E neste momento, Lorenzo estava mais moído do que carne.

— Você dorme como alguém em coma — Bee comentou quando percebeu que Lorenzo tinha acordado. Na verdade era uma mentira, todo caçador tinha o sono leve e o fato de Lorenzo ter conseguido dormir um sono profundo, cercado por desconhecidos em quem ele não confiava completamente, mostrava o quão cansado ele realmente estava — E baba como um buldogue — provocou e Lorenzo só não deu um safanão no mestiço porque este estava dirigindo e tinha acabado de ligar a seta para cruzar a pista e entrar em uma parada para viajantes. Era um posto de gasolina com um enorme centro comercial com um mercado, restaurantes e lanchonetes.

— Acha prudente entrarmos ali no estado em que estamos? — Lorenzo comentou quando Bee parou em uma das vagas para veículos de passeio, e que ficava quase em frente a entrada do complexo.

— Que estado? — Bee perguntou, genuinamente confuso.

— Oras, as nossas roupas sujas… — mas então Lorenzo olhou para Bee, realmente o olhou.

Bee usava jeans e camisa de algodão de manga comprida e calçava tênis, e todas as peças eram novas e limpas, assim como a pele dele não tinha mais fuligem, suor e sangue. Peter, dormindo no banco de trás, encontrava-se no mesmo estado imaculado e vestia-se de maneira parecida com o primo, mas tinha uma jaqueta de brim o cobrindo. Lorenzo vestia roupas praticamente iguais às que usava na noite passada, porém limpas. E, ao bater levemente com as palmas nos bolsos da calça, notou que até mesmo o típico arsenal que carregava estava ali.

— Eu vou querer saber? — se Peter e Bee o manusearam durante o seu sono, Lorenzo teria acordado de pronto e no mínimo dado um soco em algum deles. O recente estado de limpeza dos três provavelmente era resultado dos poderes sobrenaturais de Peter. Ao menos ele esperava que Peter tenha usado de feitiçaria para consertar as suas roupas e limpar o seu corpo, porque se o contrário aconteceu, se na verdade eles o limparam e o trocaram de maneira manual, Lorenzo iria entrar em pânico diante desta pequena possibilidade.

Uma coisa era baixar a guarda por causa do cansaço, outra coisa era o seu cérebro desconectar de tal forma que perdia qualquer senso da realidade a sua volta, e isto era perigosíssimo para um caçador. Tal relaxamento profundo, sem ter um companheiro de clã guardando a sua retaguarda, era morte certa.

— Por isso eu falei: você dorme como alguém em coma — Bee disse com um riso e abriu a porta do carro, saindo deste e indo na direção do centro comercial, sem nem ao menos esperar por Lorenzo que suspirou e virou sobre o banco, segurou Peter em um ombro exposto pela jaqueta, e o sacudiu.

Lorenzo precisou chacoalhar Peter ao menos umas cinco vezes antes dele abrir os olhos bruscamente e segurar com força no pulso do caçador, o apertando de maneira dolorida e o mirando como se não o reconhecesse. Mas então ele piscou e, quando percebeu quem o acordava, soltou Lorenzo vagarosamente.

— Chegamos? — Peter perguntou, sentando e vestindo a jaqueta. Lorenzo tinha a certeza que aquela parada não era exatamente o destino final deles.

— Não. Café da manhã, na verdade — anunciou e saiu do carro, fechando a porta com um estalo e seguindo caminho para o centro comercial.

O som da outra porta do carro fechando foi a indicação de que Peter o seguia, porque dez segundos depois ele alcançou Lorenzo e juntos eles entraram no complexo e foram à procura de Bee, o encontrando em um dos cafés perto da entrada, sentado a uma mesa de três lugares, e bebericando uma xícara de cappuccino enquanto lia alguma coisa na tela de seu celular.

Era irônico que entre toda a confusão da noite passada, Bee conseguiu manter a posse de seu celular. Lorenzo não tinha do que reclamar, quando tateou os bolsos da calça, também sentiu o aparelho em um deles.

— Quais são as más notícias? — Lorenzo perguntou quando sentou em uma das cadeiras vazias e Peter acomodou-se na cadeira ao seu lado. Bee não disse nada, apenas virou a tela na direção de Lorenzo, que viu a foto de capa de um jornal online, cuja imagem eram os restos mortais do Por Una Cabeza.

— Foram encontrados seis corpos carbonizados pelo incêndio — Bee explicou quando um garçom terminou de anotar o pedido de Peter e no momento em que Lorenzo abriu a boca para dizer alguma coisa, o garçom deu às costas para eles e foi embora.

— Ei! — Lorenzo protestou, mas o garçom já tinha desaparecido restaurante adentro.

— Eu já fiz o pedido por você — Peter falou antes que Lorenzo levantasse para ir atrás do garçom.

— Você fez o quê?

— Eu fiz o pedido…

— Essa parte eu entendi — Lorenzo interrompeu Peter com severidade. Os seus ouvidos ainda zumbiam por causa das explosões da noite passada, mas ele não ficou subitamente surdo — O que eu quero saber é por que você fez isto. E desde quando você sabe do que eu gosto? — As bochechas de Peter ficaram vermelhas, o que Lorenzo sabia que não deveria considerar uma graça, mas era mais forte do que ele. Realmente era — Ah, eu esqueci! Pseudo médium — disse com zombaria — Mas a parte do pedir para mim… — e Bee gargalhou, interrompendo Lorenzo que desviou o olhar irritado do rosto rubro de Peter para a expressão divertida de Bee — O que foi?

— Você é realmente inocente dessa maneira? Peter está te cortejando, agora que Hunter está fora da jogada.

— Hunter nunca esteve na jogada — Lorenzo disse ácido — E mesmo que ele estivesse, devo te lembrar o por quê ele estar fora agora? — O sorriso sacana no rosto de Bee desapareceu rapidinho ao ser recordado da morte de Hunter — E cortejando? — Lorenzo voltou a olhar para Peter, que agora tinha a cabeça tão baixa enquanto lia algo no celular de Bee, provavelmente o mesmo jornal que o primo consultava mais cedo, que estava prestes a literalmente mergulhar nas notícias. — Você não me conhece nem há oito horas.

— Você deve ter sido mergulhado em beladona ao nascer para ser tão atraente para demônios, ou meio-demônios — Bee deu de ombros e tirou o aparelho das mãos de Peter com um puxão, sumindo a desculpa do primo para esconder as suas bochechas vermelhas e não olhar Lorenzo nos olhos — Mas vocês não ouviram o que eu disse? Foram encontrados seis corpos no prédio.

— Só que éramos quatorze pessoas — Lorenzo respondeu. Ele lembrava bem a contagem de cabeças durante aquele embate: foram quatro demônios, cinco anjos, Bee, Peter, Lorenzo, Hunter e Lorena — Tirando nós três, temos cinco pessoas que conseguiram escapar do incêndio.

— Ou os corpos não foram encontrados ainda — Bee falou.

— É cinquenta, cinquenta — Lorenzo silenciou-se quando o garçom retornou à mesa para servir cappuccino com brioches para ele e café preto com torradas e ovos mexidos para Peter. Não gostava de discutir casos perto de estranhos, porque nunca se sabe quando o estranho não é tão estranho assim. Apenas quando o garçom se afastou o suficiente que Lorenzo voltou a falar — Hunter e Lorena podem estar vivos — continuou.

— Assim como Castelo — Peter completou de maneira sombria — O que pode piorar o nosso caso. Aquele sujeito mente de maneira espetacular, e qualquer coisa que ele disser à Estrela poderá ser impactante o suficiente para nem mesmo a presença de Gabriel fazê-la mudar de ideia.

— Eu realmente preciso falar com a minha família — Lorenzo falou em um suspiro. Os Cipriani sabiam para onde ele tinha ido noite passada, portanto, ele ainda estava dentro da janela de 24 horas para contato. A janela das 24 horas ocorria quando um caçador saía em caçada e então desaparecia. Dentro de 24 horas ele precisava entrar em contato com o clã e informar que estava vivo e bem. Depois deste tempo, teria a sua morte presumida pelo clã. Após 72 horas, e intensas investigações sobre o seu paradeiro, com ou sem corpo encontrado, a morte seria confirmada e oficializada pelo clã.

Após todos serem servidos, o café da manhã prosseguiu em silêncio. Bee ainda rolava as notícias pela tela de seu celular, tentando obter alguma nova informação sobre mortos e sobreviventes. Lorenzo pensou em fazer o mesmo, mas ao checar o seu aparelho, percebeu que este estava sem bateria. Poderia usar o celular de Bee para ligar para a família, claro, mas não queria arriscar deixar o número dos Cipriani na memória do aparelho do mestiço, e ele ainda tinha tempo para entrar em contato, antes que sua avó e irmãos resolvessem soltar os cães farejadores nas ruas de Roma, no encalço dele.

Peter, no entanto, não parava de dar relances nada discretos para Lorenzo.

— O que foi? — Lorenzo disparou na quarta vez em que Peter deu a ele uma olhada mal disfarçada.

— A sua tristeza não foi por causa da morte de Lorena — Peter atestou e Lorenzo fez uma cara de ‘e onde você quer chegar com isto?’ — Foi por Hunter — Peter abaixou a cabeça em sinal de vergonha — Desculpe-me, eu não tinha ideia de que ele era o seu Escolhido.

— Escolhido? — Lorenzo franziu as sobrancelhas e depois arregalou os olhos — Não! Não, não e não! Hunter era um idiota que eu conhecia e com quem eu tive uma história mal resolvida. Ele não era o meu Escolhido.

Escolhidos eram os parceiros predestinados dos demônios. Os civis, que tinham ciência da existência dessas criaturas, chamavam os ditos Escolhidos de alma gêmea, romantizando a coisa, quando na verdade não havia nada de romântico ou sobrenatural nesta seleção.

Os Escolhidos dos demônios eram selecionados quando se enquadravam em vários quesitos:

Compatibilidade emocional,

Compatibilidade de gênios,

Compatibilidade química (os feromônios liberados pelo demônio nem sempre atraíam o seu Escolhido),

As famílias de ambos os demônios tinham que aprovar o Escolhido.

Hunter era emocionalmente constipado, tinha uma personalidade irritante e embora Lorenzo fosse atraído por ele (e talvez, somente talvez, ainda um pouquinho apaixonado por ele), os Cipriani jamais aprovariam tal união.

Ah! E quando todos esses critérios eram encontrados, o casal se cortejava. O que explicava Peter e todo o seu cavalheirismo do século quinze, mas não explicava o por que do cortejo. Peter o conhecia não havia nem oito horas. Escolhidos, às vezes, levavam anos para se certificar de que eram mesmo os demônios certos um para o outro e assim consumar a ligação deles. E demônios se entediam fácil e, se demorassem muito com o cortejo, perdiam o interesse.

Era por isso que tinha mais demônios solteiros ou enrolados do que realmente casados, o que levava a outra dúvida que estava corroendo Lorenzo desde que ele ficou sabendo que Peter era o pai do filho de Acqua.

— Como foi que Acqua e você se conheceram? — perguntou e Peter deu um sorriso fraco diante da menção de Acqua. O sorriso de alguém que tinha memórias boas da pessoa e não podia acreditar que ela tinha partido.

— Nos encontramos por um acaso, enquanto eu procurava por Lorena. Ela se envolveu em uma confusão com alguns demônios e eu a ajudei. Ela pareceu chocada por um demônio estar salvando a vida dela, a defendendo de seu próprio povo, e eu fiquei curioso em saber o que um anjo estava fazendo andando entre os humanos como um turista. A partir daí os nossos encontros se tornaram mais e mais frequentes. Às vezes acidentais, às vezes propositais. A Itália não é tão grande assim.

— E Acqua alguma vez te disse por que de estar em terra?

— Ela estava curiosa. Ela era curiosa. Curiosa sobre o mundo ao seu redor, sobre as criaturas à sua volta, sobre os humanos. Então, ela decidiu explorar.

— Ela decidiu explorar — Lorenzo repetiu em um tom incrédulo — Ela era uma sucessora e simplesmente resolveu descer à terra plana para explorar. Sem escolta, sem planejamento, sem nada. E sem o conhecimento de Estrela. Porque se Estrela soubesse dessas explorações da filha, saberia onde procurá-la quando ela fugiu do ninho — tinha alguma coisa nessa história que não se encaixava.

Lorenzo terminou o seu cappuccino já morno em um único gole e envolveu o brioche em guardanapos.

— O horário do lanche acabou, crianças, hora de seguir viagem — declarou e deixou a mesa.

Se Bee e Peter o seguiram, Lorenzo não olhou para trás para confirmar, mas se eles não estivessem no jipe em dois minutos, iria embora sem eles, e não interessa que Peter foi quem abriu as portas do carro e ligou o motor, Lorenzo também sabia arrombar trancas e fazer ligação direta como ninguém.

oOo

O RESTANTE DA VIAGEM ATÉ Verona foi feita em silêncio, com Lorenzo ao volante, Peter no banco carona e Bee de volta ao banco de trás. Quando entraram na cidade, Peter começou a dar direções de que rua entrar e onde virar até que, às oito horas da manhã em ponto, eles estacionaram em frente a um prédio residencial de cinco andares e fachada histórica.

Os três desceram do carro e Bee olhou com curiosidade para Lorenzo quando o viu remexer sob o banco de trás do jipe e retornar minutos depois com duas pistolas 9 mm, que ele prendeu às costas, sob a jaqueta, e pentes reservas que ele colocou nos bolsos da calça.

— Isso tudo é mesmo necessário? — Bee perguntou quando Lorenzo fechou a porta de passageiro com um empurrão.

— Isso tudo? Eu ainda acho pouco — Lorenzo falou e foi para onde Peter estava, na soleira da entrada do prédio, conversando com alguém pelo interfone. Lorenzo não captou o que e com quem Peter falava, porque assim que ele se aproximou, a conversa terminou e um ‘buzz’ indicou que a porta tinha sido destrancada eletronicamente.

— Fácil assim? Qualquer pessoa poderia chegar aqui, fingir ser você, ou estar te ameaçando, e quem está do outro lado iria deixá-lo entrar sem averiguar nada? — Lorenzo falou enquanto eles subiam por lances de escada. O prédio era antigo, portanto não tinha elevador.

Peter riu.

— Acredite, não seria tão fácil assim se ela não quisesse — Peter respondeu com um tom de divertimento.

— Ela quem?

Lorenzo obteve a sua resposta quando eles chegaram no quinto andar, em frente a porta do apartamento 502, e esta se abriu depois de Peter dar três soquinhos na madeira.

— Angelina? — Lorenzo soltou surpreso ao reconhecer a mulher sob o batente. Ele só havia visto Angelina por fotos antigas e ela não tinha mudado muita coisa com os anos.

Angelina Benedetti ainda estava em forma para uma mulher na casa dos cinquenta anos, o seu cabelo ainda era de um castanho escuro, chegando até os ombros em um corte em camadas, o seu rosto era de um formato quadricular e ela ainda conservava o físico atlético de um caçador. Os seus olhos eram castanhos e calorosos, destacados por longos cílios negros, e quando ela sorriu diante da surpresa de Lorenzo, covinhas apareceram em suas bochechas.

— Graças a Deus você voltou. Ele não para de chorar — Angelina abriu a porta por completo e cedeu caminho para Bee, Peter e Lorenzo. E foi quando Lorenzo entrou no apartamento que ele viu que ela carregava uma espingarda de cano duplo e curto, que escondeu atrás da porta quando abriu esta. Angelina riu quando percebeu para onde Lorenzo olhava — Você pode tirar o caçador da caçada…

— … Mas não tira a caçada do caçador — Lorenzo completou assim que ela fechou a porta e girou todas as trancas de volta ao lugar — Como, exatamente, vocês se conhecem? — indicou com um dedo de Peter para Angelina e de volta a Peter.

— A mãe de Peter era uma médium do clã Benedetti. Eu nem sabia que ela teve um filho até que Peter apareceu ontem na minha porta pedindo por ajuda, falando que foi a mãe dele que lhe disse em sonhos que eu poderia socorrê-lo neste momento de dificuldade. E, aparentemente, eu lancei moda — Angelina disse sarcástica.

Com certeza a mãe de Peter também foi expulsa do clã como Angelina foi, por ter se envolvido com um demônio, e como Peter era bem mais novo do que Hunter, isto certamente aconteceu alguns anos após o banimento de Angelina, mas isto não impediu a médium de desafiar as regras do clã e prosseguir com a gestação de Peter até o nascimento deste.

Quanto a Lorenzo? Ele não engolia aquela história de mãe aparecendo em sonhos. Embora os médiuns fossem de grande ajuda para os Caçadores, ele nunca confiou 100% no talento deles, pois este era complexo demais e de difícil explicação sobre como funcionava, e muitas vezes incertos. Nem sempre eles acertavam na mosca, seus dons eram como raios, viviam caindo em lugares variados e eram imprevisíveis. No entanto, Lorenzo preferia não questioná-los, para não causar conflitos. A expressão de Angelina mostrava que ela pensava a mesma coisa que ele sobre o assunto, mas também preferiu não comentar.

Peter deveria ter mesmo uma boa lábia, para ter convencido uma caçadora graduada como Angelina a ajudá-lo.

Angelina tomou o mesmo caminho que Peter e Bee haviam seguido mais cedo, logo depois que ela agradeceu aos céus pela chegada deles, e Lorenzo a seguiu, percebendo que quanto mais perto eles chegavam da sala, mais alto um barulho peculiar e irritante ficava. O som lembrava a Lorenzo do miado de um gato, choramingado e estridente, e ele descobriu a fonte deste quando Peter, que estava de costas para a entrada da sala, girou na direção deles assim que Angelina e Lorenzo se aproximaram.

Lorenzo já tinha visto bebês bonitos antes, mas Gabriel era praticamente fora desta realidade de tão bonito.

O bebê tinha a pele da mesma cor que a de Peter. Os olhos lacrimosos eram esverdeados como a água do mar e o cabelo era do mesmo tom dourado de Peter. As bochechas eram redondas e rosadas, ele era rechonchudo e fofinho como todo bebê deveria ser, mas o que chamou mais a atenção de Lorenzo foram as duas pequenas asas que se agitavam as costas de Gabriel. Asas tão brancas que pareciam brilhar sob a luz artificial.

Os anjos tinham asas em tons de cores, todas eram gradientes de uma única cor, espalhando-se pelas penas de forma a criar uma tonalidade exótica. Um exemplo era o anjo que Lorenzo abateu, cuja asa começava no topo em um tom vermelho da cor do vinho tinto e ia clareando ao longo das penas, até chegar a ponta que era de uma cor rosada bem clara. Gabriel, no entanto, tinha as asas totalmente brancas. Toda a penugem nelas era branca. Provavelmente isto explica porque Acqua o batizou como Gabriel.

— O que há de errado com ele? — Lorenzo não era um especialista em bebês, mas era bom em ler as emoções das pessoas, ou criaturas sobrenaturais, mesmo versões em miniatura delas, e Gabriel parecia extremamente incomodado com alguma coisa.

— Bebês demônios criam ligações emocionais muito fortes com as mães desde o útero. Esta ligação persiste durante os seis primeiros meses de vida. É o que nós humanos chamamos de codependência. Com Acqua morta, Gabriel sente a falta desta ligação e por isso que ele está tão inquieto. Esta é a razão da alta taxa de mortalidade de mestiços se a mãe morre no parto — Angelina explicou — Felizmente Gabriel tem Peter para suprir a falta desta ligação. Gabriel sabe que Peter é o pai dele e se Peter fica muito tempo distante, o seu subconsciente acha que Peter teve o mesmo fim que Acqua. Que ele não vai voltar.

— Por isso do choro exacerbado — Lorenzo completou.

— Vai levar algum tempo para ele se acalmar — Angelina falou e Lorenzo a olhou com culpa corroendo as suas entranhas ao lembrar-se de um detalhe extremamente importante.

— Angelina… — esta mulher não era apenas uma caçadora prestando um favor, ela era a mãe de Hunter. Embora o mestiço tivesse a beleza surreal dos demônios, o rosto dele ainda tinha alguns traços bem humanos, traços que herdou de Angelina.

Lorenzo não tinha ideia de como era a relação de Hunter com a mãe. Até poucos minutos atrás ele acreditava que Angelina tinha morrido no parto ou coisa parecida, ele sempre acreditou que Hunter era órfão, por isso era cheio de traumas e complexos, por isso do comportamento desregrado dele. Talvez, de certa forma, Hunter foi órfão, talvez Angelina o tenha abandonado, ou o culpado pela sua derrocada, as possibilidades eram imensas, mas se ele tivesse um filho e este pudesse estar morto, Lorenzo iria querer saber, mesmo que não falasse há anos com o dito filho.

— Preciso conversar com você.

Angelina o olhou com desconfiança, mas não negou o pedido. Apenas deu um último olhar para Peter e Bee, que tentavam acalmar Gabriel, e guiou Lorenzo para a cozinha, apontando uma das cadeiras ao redor da mesa de refeições, em um convite silencioso. Ele sentou na cadeira mais próxima e Angelina sentou do lado oposto a ele.

Lorenzo hesitou várias vezes antes de começar a dizer alguma coisa e Angelina esperou pacientemente que ele tomasse coragem até que, uns três minutos depois, ele começou a relatar tudo o que aconteceu na noite passada. Angelina o ouviu com atenção e uma expressão impassível no rosto, e só falou alguma coisa quando Lorenzo pôs um ponto final na história.

— Então há cinquenta por cento de chances de ele estar vivo ou morto.

— Sim — Lorenzo concordou e Angelina inspirou profundamente, mas não debulhou-se em lágrimas ou entrou em desespero por causa de Hunter, e Lorenzo não esperou que isto acontecesse. Angelina era uma caçadora e mesmo que tivesse sido expulsa do clã, Lorenzo via na postura dela, no total controle de suas emoções, que ela detinha todo o conhecimento que adquiriu em todos os anos que viveu com os Benedetti, que o treinamento que sofreu ainda estava entranhado no cerne dela.

— A janela das 24 horas ainda está ativa — ela disse por fim Lorenzo deu um meio sorriso para ela, ao finalmente conectar os pontos, ao obter uma resposta que sempre martelou em sua mente desde o primeiro dia em que conheceu Hunter, até o último quando descobriu quem o mestiço verdadeiramente era.

— Foi você que ensinou Hunter a caçar — Lorenzo sempre se perguntou onde Hunter tinha aprendido a caçar. Ele era uma ovelha desgarrada, era fato, causava mais estragos do que benefícios, mas muitas das técnicas que o mestiço usava em campo eram exclusivas do treinamento dos caçadores. Cada clã tinha o seu jeito peculiar de caçar, a sua ‘marca registrada’, mas a base do ensinamento nesta arte era a mesma para todos e Hunter tinha esta base.

A resposta de Angelina para a afirmação de Lorenzo foi um sorriso contido e presunçoso. Um sorriso que Lorenzo viu dezenas de vezes no rosto de Hunter. Então era dali que vinha a personalidade do mestiço.

— Mas por que dar a ele o nome de Hunter? — porque era um nome ridículo e óbvio. Hunter significava ‘caçador’ em inglês.

Angelina riu.

— Hunter é um codinome. Eu jamais daria a um filho meu um nome tão óbvio — Angelina rolou os olhos, deixando claro neste gesto o que ela verdadeiramente achava da escolha do filho por este codinome. Ou seja, ridículo.

— E qual é o nome dele? — Lorenzo perguntou e Angelina deu um sorriso misterioso para ele.

— Isto você vai ter que perguntar para ele — falou com a convicção de uma mãe que recusava-se a acreditar que o filho poderia estar morto, não até que visse o corpo dele sem vida aos seus pés. Lorenzo fez um bico igual ao de uma criança contrariada e Angelina riu mais uma vez — Mas se eu não estiver enganada, a sua janela também está ativa. Você pode o meu telefone — e apontou um aparelho antigo de linha fixa e sem fio, cujo suporte estava preso na parede ao lado da geladeira — Eu vou ver se Peter e Bee não sufocaram Gabriel — brincou e somente agora que Lorenzo percebeu que o choro do bebê havia parado.

Quando Angelina deixou a cozinha, Lorenzo foi até o telefone e discou o número pessoal de Carmem, e foi preciso apenas dois toques para ela atender.

— É bom isto ser importante Angelina, porque eu estou ocupada no momento.

— Por que eu não estou surpreso em saber que você mantém contato com Angelina Benedetti?

— Lorenzo — o suspiro de alívio de Carmem foi ouvido claramente por Lorenzo, mas este não durou muito tempo — Diabos, garoto! A não ser que você estivesse morrendo, custava ligar mais cedo? Carlo está me enchendo o saco por notícias! — e esta era a sua avó, senhoras e senhores, delicada como um coice.

— Não temos tempo vovó — Lorenzo a cortou antes que ela começasse o sermão. Carmem era uma mulher prática e sem rodeios, mas também era a sua avó, e preocupação de avó era uma coisa que ela ainda não tinha conseguido reprimir, e talvez nunca o fizesse — Estamos com um problema — e Lorenzo contou para ela tudo o que aconteceu desde a chegada deles no Por Una Cabeza, obviamente deixando de fora o quase beijo que compartilhou com Hunter, até a fuga deles para Verona e a conversa que teve com Peter no caminho e sobre a incapacidade do sucessor de bolar um plano decente e, quando terminou, Carmem ficou em silêncio por um minuto.

— Você não anda vendo o noticiário, anda?

— O quê? — O último noticiário que viu foi o jornal digital que Bee tinha mostrado à eles mais cedo.

— Ligue a TV, Lorenzo — Lorenzo não discutiu, apenas foi para a sala, com o aparelho telefônico ainda no ouvido, percorreu o local com os olhos, ignorando os olhares curiosos de Angelina, Peter e Bee, e quando encontrou o controle da televisão sobre uma mesinha com abajur, o pegou e ligou o aparelho. Em seguida mudou o canal para um de notícias.

— Os geólogos não conseguem definir o epicentro dos tremores, mas afirmam que este tipo de evento é sem precedentes… — A fala da repórter foi cortada quando o cenário às costas dela, a Praça de São Pedro, tremeu por inteiro enquanto a polícia e os bombeiros tentavam evacuar transeuntes e turistas o mais rápido possível. Mas não foi exatamente o terremoto que chamou a atenção de Lorenzo, mas sim os vários meteoros em fila que foram contra o piso da praça e desapareceram sob este, sem deixar rastros.

— Você viu aquilo? — A repórter soltou para a cinegrafista após o desaparecimento do estranho vulto.

Se ela tivesse sido criada como Lorenzo, saberia que aquilo foi um anjo com controle sobre o elemento terra, e que tinha acabado de mergulhar no subterrâneo, e que o controlador da terra foi o primeiro da fila para assim abrir caminho para os outros que vieram atrás dele.

— Estrela atacou — Lorenzo atestou o óbvio ao telefone, porque os terremotos contínuos deveriam ser o reflexo da batalha acontecendo no subterrâneo e a prova do fracasso de DeMarco em negociar um cessar fogo antes mesmo que o fogo em si começasse — Vovó, falo com você depois.

— O quê? Lorenzo! — Carmem protestou, mas Lorenzo desligou antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.

— Como foi que Hunter conseguiu o trabalho? — Lorenzo perguntou para Angelina.

Ela disse que Hunter estava dentro da janela das vinte e quatro horas para contato após desaparecimento, o que significava que eles mantinham contato. Angelina era o clã de Hunter e a base dele e Hunter era a única família que Angelina tinha depois que foi expulsa da família Benedetti. Por isso ela o treinou. Angelina treinou um caçador que não seguia o Código porque ele não tinha o nome de um clã poderoso para atrelar ao seu, não tinha conexões com exceção da mãe que foi rechaçada pela própria família.

Cada clã tinha o seu próprio código, adaptado do Código original dos Caçadores. O pequeno clã formado por Angelina e Hunter simplesmente abdicou dessas regras, com certeza para irritar os caçadores que os ostracizaram. Esperto isto, se não um tanto mesquinho, porque nem sempre eram os Benedetti que eram afetados por essa briguinha besta, não é mesmo?

— E-mail — Angelina respondeu.

— E-mail? Desde quando os anjos têm wi-fi? — Lorenzo disse com incredulidade e Angelina deu de ombros — Por favor, me diga que o computador dele está aqui.

— No quarto dele — Angelina apontou para o corredor que levava para os quartos e Lorenzo sorriu. Que gracinha, Hunter ainda morava com a mãe.

— Perfeito! — disse e discou um novo número no aparelho em sua mão. Desta vez a ligação demorou quatro toques de chamada para ser atendida e, quando foi, Lorenzo abriu um largo sorriso ou ouvir a voz familiar do outro lado da linha — Alessandro, meu irmão delinquente favorito, preciso de um favor!