GOD - O Jogo dos Sonhos II
1 Prólogo - Despertar
“O que significa sonhar para você? — Eu não sei, talvez fechar os olhos e acreditar em um mundo que não existia antes”. Mateus levantava a cabeça dolorida procurando a origem da voz. Sentia-se tonto, com dor, confuso. Observava ao redor sem reconhecer o ambiente, estava escuro, talvez fosse noite, mas mal conseguia se erguer para procurar por alguma janela. Olhava assustado para as pessoas desconhecidas no cômodo, em sua maioria desacordadas. Uma moça pálida de cabelos cacheados com um leve brilho, iluminada por velas que cercavam o local, lia um tipo de papel em sua mão, uma carta, enquanto uma outra garota também desconhecida a observava silenciosamente.
Maria, a garota silenciosa, acompanhava as palavras de Leila sem notar o movimento de Mateus. Se questionava internamente se devia confiar na garota que lhe dissera estar tão perdida quanto ela mesma. Não conhecia nenhum de seus companheiros, mas sabia que estava ali contra a própria vontade. Se lembrava de ter se separado de seus amigos na festa da noite anterior — ou pelo menos sentia que era a noite anterior — tinha passado mal com a bebida, e então acordara naquela sala cheia de pessoas desconhecidas, acorrentada à parede como todos eles. Contava sete, oito pessoas com ela mesma, mas apenas uma estava acordada quando contara, a garota dos cachos caramelados, Leila.
“...Se a vida é feita de ilusões, o que a torna mais especial que nossos sonhos? — O fato de voltarmos para ela no final de todos os sonhos, talvez?”, continuava Leila com suas palavras baixas, quase sussurrando. Ela olhava para frente, observando o rapaz que acabava de acordar. “E você, quem é?”, dizia trêmula, com frio. O rapaz ainda tonto se apoiava com os braços no chão, tentando achar alguma força para se sentar, só então sentindo a corrente em seu braço. “O-onde é que eu tô?”, ele gaguejava assustado. Leila não sabia responder, não sabia onde estava, com quem estava e nem o motivo de estar ali. Sabia que havia sido drogada no caminho de volta para casa enquanto corria por um dos parques mais quietos da cidade, mas não sabia por quem, e imaginava que nenhum daqueles rostos a reconheceria. “Leila”, ela dizia tentando conseguir uma conversa com o rapaz. “Quem são vocês?”, perguntava Mateus desconfiado, “O que… Ah!” — e levava a mão à cabeça, certamente sentindo dor. “Nós também não sabemos”, continuava Leila apontando para a parede atrás do rapaz. Com tinta vermelha se lia a frase “Qual de nós?” em letras tortas e úmidas. “Se eu precisasse adivinhar”, ela prosseguia, “diria que seja lá quem foi que nos trouxe também está nessa sala, fingindo ser mais uma vítima”.
Mateus olhava desconfiado enquanto a menina voltava a murmurar. “E como você sabe disso?”, ele perguntava ainda sem entender bem o que estava acontecendo. “Eu leio muitos livros de mistério e investigação. Em muitas histórias o assassino gosta de brincar com suas vítimas, e acho que estamos em um desses jogos”, ela dizia quase como se quisesse se exibir. Maria ainda estava calada, quase chorando. Estava acorrentada próxima à Leila, e ambas estavam ao lado oposto da sala em relação a Mateus. Ao lado do rapaz haviam uma moça de pele escura e cabelo cacheado, e um rapaz grande e ruivo, ambos desacordados. Em outra parede estavam acorrentados mais um rapaz de cabelo raspado, uma garota de cabelo preto curto e piercings pelo rosto, e uma outra garota de cabelos cor-de-rosa, os três também desacordados. “Até onde eu sei”, reclamava Mateus, “você pode muito bem ser a pessoa que tá querendo ‘brincar’ comigo”. Os dois se olharam por um momento, então Leila voltava a ler a carta ignorando o comentário. “Se fecharmos os olhos por tempo o suficiente, podemos fazer com que os sonhos sejam a nossa vida”.
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Camila se levantava trêmula, olhava para os rostos curiosos que agora se viravam para ela. Sentia frio, sentia fome, e reconhecia brevemente aquele local. Acordara mais cedo naquele mesmo ambiente, acorrentada naquele mesmo canto da sala, mas mal teve tempo de se desesperar antes de ser desacordada por uma injeção de alguma droga pesada. Não havia visto seu raptor, não reconhecia nenhuma das faces além de uma das moças que também a encarava, a de cabelos cacheados, que já estava acorrentada na primeira vez que Camila acordara. Ela tentava pedir ajuda, mas sua voz parecia não sair, e seu corpo extremamente dormente se recusava a obedecer seus comandos.
“Você está bem?”, dizia a garota dos piercings enquanto Camila se levantava, sem resposta. “Antes que você pergunte, estamos presos aqui”, prosseguia. “Meu nome é Beatriz, Bia. Você sabe de alguma coisa que possa nos ajudar?”. Camila tentava olhar para as pessoas na sala, havia um rapaz ao seu lado ainda desacordado, assim como uma moça também caída ao chão, essa do outro lado da sala. “Qual é o seu nome?”, perguntava Leila olhando para a garota de cabelos rosas que se recusava a entender a situação. “Eu…” — a voz de Camila sumia em sua garganta. Ela não queria responder aquela pergunta, sabia que havia sido sequestrada, se lembrava de três rapazes terem a levado para um ferro velho após roubarem seus pertences e de ter sido drogada. Não sabia o que havia acontecido, mas os hematomas em seu corpo, as marcas, as dores que sentia, conseguia imaginar os piores cenários pelo qual passava. A garota se encolhia no canto, com medo, coberta apenas com um roupão fino que sabia não ser seu.
Beatriz a olhava quase desistindo de perguntar, e logo se virava para o rapaz ruivo sentado ao lado de Mateus. “E você, Gabriel, resolveu falar alguma coisa?”. O rapaz a encarava de volta, claramente irritado. “Eu não sei quem me trouxe pra cá, mas não confio em vocês”. Ele olhava ao redor, incomodado. Mateus estava ao seu lado, desviando o olhar como se tivesse medo do rapaz.
Pouco tempo depois, a moça de pele escura ao lado de Mateus também se levantava. Assustada, olhava ao redor como se procurasse alguém. “Antes que pergunte”, dizia Beatriz em tom de deboche, “você está em uma sala trancada, com pessoas que também foram sequestradas e nenhuma parece saber o motivo. Eu sou Beatriz, e você é?”. A moça olhava assustada para as pessoas na sala, entendia as palavras de Beatriz, sabia que havia sido sequestrada, mas não queria confiar em nenhum deles. “Eu sou Diana”, ela dizia nervosa, “eu… acho que sei quem ele é”, apontava para o rapaz quase careca ainda desacordado ao lado de Bia. “É um amigo seu?”, perguntava a garota dos cachos de mel, “meu nome é Leila, essa é a Maria e aqueles são…” — “Gabriel”, interrompia o ruivo, como se quisesse mostrar que era capaz de falar. “Mateus”, dizia timidamente o rapaz ao lado de Diana. “Não, eu não conheço ele”, continuava Diana testando a corrente que prendia seu braço, “E não conheço nenhum de vocês. Me tirem daqui”. “Você acabou de dizer que sabia quem ele era”, questionou Gabriel, apontando para o rapaz inconsciente, “Já se viram antes?”. “Eu não conheço ele, mas ele tentou ficar comigo numa festa, antes de eu apagar e acordar aqui” — ela parava de falar tentando controlar as palavras — “Não tenho motivos pra confiar em vocês, muito menos nele”. Os jovens se olharam por um momento. Todos estavam nervosos, mas não podiam fazer muito além de esperar.
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“E o seu nome é?”, perguntava Beatriz ao rapaz recém acordado ao seu lado. “Paulo”, ele respondia desconfiado, “mas vocês dizerem que também são vítimas não me faz confiar mais em vocês”. Paulo olhava para Diana que tentava não retribuir o olhar, assustada. “Ei, você é aquela garota da festa!” — ela se virava, acenando com a cabeça, ainda sem saber se deveria confiar no rapaz — “É sim, Diana, não é? Você tem alguma coisa a ver com isso?”. Diana fazia que não com a cabeça, os olhos úmidos, tremendo. “Eu poderia te perguntar a mesma coisa. Como chegamos aqui?”. O rapaz levava a mão a cabeça, inquieto. — “Eu estava tentando falar com você quando você saiu da festa, parecia estar meio tonta, então caiu no chão e desmaiou. Eu tentei te ajudar, mas alguém me atacou enquanto eu andava, e acordei aqui, com essas pessoas” — “Que fofo”, interrompeu Gabriel com sarcasmo, “então você estava tentando proteger a garota?”. O clima ficou ainda mais pesado sobre os jovens. Estavam todos em silêncio pensando sobre a situação. Sabiam que haviam sido sequestrados, mas não sabiam por quem. Se olhavam com desconfiança, qualquer um deles — ou nenhum — poderia ser o culpado.
“Agora que ele acordou”, dizia Leila quebrando o silêncio amedrontado, “acho que podemos abrir isso” — pegava do chão ao seu lado um envelope preto. Em sua frente estava escrito “abrir quando todos acordarem”, e Leila o fez. Os outros jovens questionavam quase quietamente o que era aquilo, mas Leila ignorava lendo o conteúdo da carta, e logo todos se calaram para prestar atenção.
“Sejam bem vindos ao Jogo dos Sonhos! Vocês foram escolhidos a dedo para participar do desafio que concederá ao vencedor um desejo. Isso mesmo, um desejo! Qualquer desejo! Você pode pedir para voar, pode pedir para ser rico, pode pedir pela sua liberdade! Mas infelizmente, vocês precisam dar algo em troca para participar do jogo, mas não se preocupem, já resolvemos isso, todos vocês entraram no jogo pagando uma pequena barganha: as suas vidas!” — houve alguma comoção na sala, mas Leila prosseguia com a leitura, ignorando qualquer interrupção — “Todos vocês morrerão essa noite, e então os jogos começarão. A partida irá durar sete turnos, com um jogador eliminado em cada um. Mas do que se trata o jogo? Bem, deixem-me explicar as regras”. Leila parava por um momento, assustada, e percebia os olhos atentos pedindo para que ela continuasse, incrédulos. “Vocês morrerão essa noite, mas não se desesperem, se vencerem o jogo poderão desejar voltar a vida! O jogo dos sonhos, como o nome sugere, se passará em seus sonhos. Serão 7 turnos no total, cada um com um desafio que vocês precisam superar para chegar ao próximo turno. O último jogador a cumprir o desafio será automaticamente eliminado, perdendo o direito de continuar no jogo, e consequentemente perdendo a chance de realizar seu desejo. Cada turno possui suas próprias regras, que vocês precisarão desvendar se quiserem chegar ao final. Vocês podem sempre cooperar para concluir os desafios, mas lembrem-se que sempre haverá um perdedor. E uma informação importante: um de vocês é o culpado por estarem nesse jogo! Quem? Não vou lhes dizer! Descubram! E boa sorte!”. A menina abaixava a carta, passando-a para Maria que rapidamente oferecia para quem quisesse ler.
“Então…”, dizia Mateus quebrando o silêncio mórbido da sala, “Nós vamos morrer para jogar um ‘jogo dos sonhos’? Quem é o lunático que acredita nisso?”. Beatriz levantava a mão, trêmula, “na verdade… Eu já ouvi falar desse jogo antes. É um daqueles boatos que se espalham por partes estranhas da internet. Alguns amigos meus queriam jogar isso”. Mateus olhava incrédulo para a garota, que agora parecia nervosa, realmente acreditando que aquilo poderia ser real. “Não brinca”, disse Gabriel em seu tom habitual de deboche, “você realmente acredita em um ‘jogo’ que pode realizar qualquer desejo?” — “Ela está certa!” — interrompia a garota de cabelo rosa, ainda com dificuldades para falar — “O jogo existe, eu já vi! Mas nada de bom…” — ela parava de falar enquanto sua voz sumia, e voltava a se encolher no canto. Os jovens se olharam novamente. “Vocês não podem estar falando sério!”, reclamava Paulo enquanto puxava sua corrente, tentando desesperadamente se soltar, “algum maníaco nos prendeu aqui e agora quer brincar com a gente, vocês realmente acreditam nesse tal ‘jogo’?” — “Você ouviu a garota! Nós vamos morrer aqui!”, gritava Diana em desespero, “Não importa no que você acredita ou não! Estamos presos! Seja lá quem fez isso… Já…” — A moça começava a se sentir tonta. Os outros tentavam ajudá-la, mas logo todos começavam a sentir a mesma fraqueza, como se todos estivessem envenenados, um a um perdendo os sentidos.
“Eu acho que…” — tentava dizer Mateus enquanto olhava para Leila que agora se segurava para não desmaiar — “vamos… morrer…” — e caía no chão. Leila tentava acudir Maria que agora caía sobre o colo da garota. Olhava com sua vista turva para todos na sala, todos caindo ao chão, todos em um silêncio mortal, e sabia que aquele era o momento em que todos morreriam.
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