Terminava de fazer as pipocas e levava para a sala, o grande balde de pipoca. Os outros aguardavam jogados pela sala, Paulo mudava os canais da televisão, Maria rebatia as cócegas de Letícia e Leila chegava na sala, se sentando no tapete grande e olhando para o ventilador girando lentamente no teto. “Não faz sentido vocês ligarem o ventilador se é para ele ficar quase parado”, dizia aos outros que ignoravam. Comia uma pipoca, olhava para a tela. “E o que está assistindo?”, perguntava para Paulo que tirava a mão do queixo e olhava para a garota. Pensava que era uma resposta óbvia, era só ela olhar para a televisão saber que programa era aquele, e só então percebia que não sabia o que era. Só então percebia onde estava, com quem estava.

Todos percebiam no mesmo momento que estavam no sonho. O ambiente era o mais real dentre os que estiveram, todos pareciam reais, mas aquele era especialmente vívido, talvez apenas por ser o que estavam sentindo no momento. “Vocês vão ficar me ignorando pra sempre?”, implicava a garotinha sentada na mesa de centro. Ana atraía a atenção de todos, especialmente de Letícia que parecia surpresa em vê-la.

Leila estava confusa, sentia que conhecia a menina, mas não sabia como. Ela sem dúvidas estava nos outros desafios, percebia agora, mas não era uma jogadora, disso Leila tinha uma estranha certeza. Maria e Paulo também estavam um pouco confusos, sabiam perfeitamente que aquela era Ana e que ela estava em todos os desafios, que não era uma jogadora, mas nunca pararam para pensar a respeito. Até o momento. Letícia parecia ser a única que tinha algum conhecimento da menina, e agora corria em direção a ela, abraçando-a como se fosse uma amiga que não via a muito tempo.

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“Vocês não fazem ideia do quão irônica essa reunião é” — ria Ana enquanto rodeava os jogadores. — “A única pessoa que não está morta de verdade aqui é a única que não tem nenhuma chance de ganhar o jogo. Letícia, é claro!”. Todos olhavam para a garota, que agora parecia aceitar algo que devia ter reparado a muito tempo, mas não fazia o menor sentido para os outros. “Então… Eu perdi o jogo?” — perguntava a menina, quase tranquila, mas ainda confusa. — “O que aconteceu? Eu saí da casa de Leandro, não era esse o objetivo?”. “Eu não deveria falar disso agora” — interrompeu Ana. — “Vai deixar os outros jogadores confusos! Mas eu deveria dizer que agora você está em casa”.

Os jogadores estavam realmente confusos. O que deveria ser um dos desafios parecia mais uma conversa amistosa entre duas pessoas que nem ao menos estavam na mesma situação que eles, pareciam fazer parte de uma história maior que não haviam lhe contado. “Então…” — interrompia Leila, sem graça. — “Você é a ‘dona’ deste jogo, Ana? Você pode fazer qualquer coisa aqui?”, dizia para a garotinha que parecia rodar pela sala, seguindo o movimento do ventilador. “Dona é uma palavra chata, você pode dizer que eu sou uma deusa!” — respondia, rindo. — “mas eu não diria que posso fazer qualquer coisa, eu tenho meus limites. Por exemplo, não posso tirar vocês do jogo até ter um vencedor” — dizia sabendo que era exatamente o que Leila procurava ouvir. — “O jogo continua. E também… Não tenho o poder de tirar você daqui, Letícia” — dizia olhando para a menina que tentava absorver as informações. — “Aliás, esse é o desafio dessa rodada. Resolvi mudar um pouco as regras dessa vez, não vou fazer disso um enigma, vou contar o objetivo logo, estão ouvindo?” — questionava, implicando com todos que estavam já ansiosos para saber o que iria acontecer. Todos acenavam que sim com a cabeça, trocando olhares confusos e assustados. — “Ótimo, então primeiro devo dizer que Letícia será a juíza dessa partida. Como devem ter percebido, ela não faz parte do jogo de vocês. Na verdade, Letícia perdeu o último jogo, e não foi culpa minha, eu tentei ajudar, eu juro! Mas como não consegui, eu resolvi me redimir tirando você daquele inferno e trazendo para um... Paraíso pessoal”. Todos se assustavam um pouco, mas para Letícia aquilo parecia quase natural. Olhavam o ambiente ao redor, era uma casa legal, tinha tudo o que precisavam lá, sabiam que do lado de fora tinha um mundo para explorar, mas também sabiam que não tinha mais ninguém lá. Era um sonho confortável, mas um mundo silencioso. “É claro que alguém precisava ficar no seu lugar, mas vocês descartaram aquele rapaz tão facilmente que não acho que tenha sido um problema” — Ana ria sadicamente, mas tentava se controlar. — “E bem, um de vocês três vai precisar ficar aqui. Fim da linha. E eu vou deixar Letícia escolher, afinal, essa casa é dela agora”.

Os jovens se olharam assustados. Percebiam agora que por mais tranquilo que fosse, o ambiente era uma disputa. Havia chegado o momento em que eles não poderiam mais ser uma equipe. O momento em que era cada um por si. Letícia olhava para todos pensativa. — “Não quero fazer isso” — relutava. “Não posso escolher alguém pra mor…” — “Alguém para morar com você!”, interrompia Ana. — “Eles já estão mortos, os três, você só vai escolher um para passar a eternidade nesse paraíso. Mas é claro que isso quer dizer que ele, ou ela, vai deixar o jogo e não vai poder ter um desejo realizado. Mas acredite, de todas as possibilidades, ficar aqui é uma das melhores”. Ficava um silêncio enquanto os jovens pensavam a respeito.

“O que aconteceu com os outros?” — perguntava Paulo quebrando a atmosfera. Ele já imaginava qual seria a resposta, mas queria ouvir, queria ter certeza. “ho ho ho, essa é uma pergunta interessante” — respondia Ana animada. — “Resposta curta: estão mortos. Mas vocês também estão. Menos Letícia, ela está em coma!”. Havia uma comoção por parte da menina de olhos castanhos, que interrompia a garota. “Em coma? O que aconteceu?”. Em parte ela já sabia a resposta, sabia que o jogo no qual entrara a deixaria em coma se falhasse.

O jogo dos sonhos mantinha as regras entre todos os jogos. Os participantes dormiam durante o horário do jogo, não importava onde estavam, o que estavam fazendo, era como um coma instantâneo que durava até completarem o desafio. Mas os que não cumpriam o objetivo, não acordavam, ficando presos naquele sonho para sempre. Era como um limbo, não importava o que acontecia com o corpo deles fora do jogo, a consciência deles estaria lá para sempre. O que também permitia que continuassem no jogo mesmo sem um corpo, mesmo estando mortos, como todos os jovens naquele galpão.

“Então vou lhes contar na ordem. Primeiro a menina chata que tem medo de fogo, Diana, ela se recusou a participar do jogo e ainda está lá, olhando para as chamas, sentada do lado da árvore, deve ser horrível passar a eternidade de frente para o seu medo, mas ela não foi a única… Depois veio Mateus, o cabeça dura sabe, você parecia gostar dele Leila! Maria podia ter avisado que ele estava andando em círculos, mas não vamos botar a culpa em ninguém!” — As meninas se olharam. Leila sabia que Ana estava apenas implicando com a garota, podia até ver algo atraente no rapaz, mas já até havia se esquecido dele no momento. Maria já estava mais assustada, só então percebia que Ana realmente havia lhe dito que o rapaz não iria a lugar nenhum, mas só agora realmente percebia que deliberadamente escolheu não avisá-lo e abandoná-lo naquele mundo. De certa forma isso a assustava. Foi uma decisão de Leila, pensava para se livrar da sensação de culpa, mas não conseguia acreditar nisso, sabia que poderia ter feito algo e não fez. — “Ele ainda está lá, andando em linha reta, ainda se questionando se está fazendo certo ou não, mas quem liga? Eu não, haha. Depois veio a bonequinha de cabelo rosa, Camila. Essa parecia que não ia conseguir sair de lá de qualquer forma, então eu aproveitei pra causar um pouco de caos, sabe? Bia tava saindo do controle, estava estragando meu jogo, então usei o desafio pra dar uma pequena lição nela, e como prêmio, Camila ganhou um paraíso também, e podem ficar felizes por ela, ela está muito bem naquela mansão, acho que nunca foi tão feliz. E logo depois veio a assassina. Foi bem esperto de sua parte desvendar o jogo, Leila, eu não esperava por aquilo, foi um jogo bem… Emocionante! Ah, e Beatriz está lá ainda, bem onde você a deixou, no alto da plataforma, cercada por palhaços e com a plateia rindo dela PARA SEMPRE! Você sabia que ela tem medo de altura e de palhaços?” — A garota ria sadicamente, tentava se controlar, respirava fundo e voltava a ficar séria como se mudasse totalmente de personalidade em um instante. — “E Gabriel, bem, vocês deixaram ele lá bem cientes do destino dele. Foi bem frio da parte de vocês, não é Leila? Letícia sabe bem o que ele está passando agora. E para encerrar, um de vocês três vai passar o resto de toda a eternidade aqui, para sempre, nessa cidade incrível com essa pessoa incrível chamada Letícia, quem vai ser o sortudo?”. Todos se olhavam, todos julgavam a garota e a si mesmos. Sabiam o que tinham feito. Letícia se sentia culpada por Gabriel, mas um conforto rodava por sua mente, ela era a única que não sabia o que estava acontecendo, era a única que não tinha culpa por aquilo. Era como se qualquer sensação ruim fosse varrida da mente dela, e ela ficava confortável novamente.

“Eu não posso fazer isso” — dizia Letícia recebendo a atenção dos outros. — “Não posso escolher alguém para prender aqui, por mais que seja algum tipo de paraíso, não vou tirar a chance de alguém vencer o jogo e voltar…” e então percebia a situação em que eles se encontravam. Já estavam mortos, talvez pudessem chegar ao final do desafio e desejar voltar a vida, mas sabia que um deles ficaria preso em outro lugar se não ali, e certamente seria um lugar pior. “Não posso decidir por eles. Mas se alguém quiser ficar, então fique. Vocês parecem pessoas boas, os três, e acho que qualquer um pode merecer o paraíso”. Os três se sentiam comovidos com as palavras de Letícia, comovidos não por serem palavras fortes, mas por saberem que dentre as opções, essa era a mais segura.

“Obrigado pela oferta, mas eu não tenho interesse” — respondia Paulo. — “Pode ser um lugar legal, você pode ser uma pessoa legal, parece que estamos aqui a tanto tempo que sinto como se a gente se conhecesse o suficiente para isso, mas esse não é o meu conceito de paraíso. Estamos em um sonho, e eu quero a vida real. Eu não vou abandonar a luta, não abandonei no começo e não vou abandonar aqui”. “Bem, se for assim eu também não quero, lutador” — respondia Leila rapidamente, com um impulso que tirava não sabia de onde. — “Não vou perder esse jogo, estou aqui para ir até o fim. Eu vou chegar no fim e usar esse desejo para desfazer tudo o que o jogo fez. Vou trazer todos de volta. E não posso fazer isso ficando aqui para sempre”. Leila estava irritada, sentia que não podia de forma alguma perder aquele jogo, sentia-se desafiada por Paulo, e sentia o medo, o desespero de perder aquela rodada. “Eu não vou deixa…” — “Eu fico”, interrompeu Maria, “Eu… Eu quero ficar aqui”.

Todos congelaram novamente, olhando para a garota que parecia tomar uma decisão por conta própria pela primeira vez desde que se conheceram. “Eu não sou uma ‘lutadora’ como vocês, me desculpem. Eu só sobrevivi até aqui porque Leila me ajudou, e sei que não venceria de vocês em uma partida. Não venceria do Paulo sem a Leila, muito menos da Leila, sozinha. E eu sei que se eu for para o próximo jogo, isso vai acontecer, é inevitável, vocês sabem disso. Mas aqui… Esse lugar pode ser meu paraíso, eu estou confortável. É a primeira vez que me sinto confortável em muito tempo. E eu vou me dar bem com Letícia, então me deixem aqui e sigam em frente”. Letícia olhava para a garota, já decidida. Os outros não achavam palavras, apenas aceitavam, concordavam com aquilo. “Eu só quero que…” — continuava, nervosa. — “Mantenham o foco, vocês dois. Todos queremos a mesma coisa, então não pensem nisso como uma disputa. Não importa quem vencer, apenas peçam para que nada disso tivesse acontecido, e então vai estar tudo bem para todos nós”.