Notas iniciais
A partir daqui haverão spoilers para o primeiro livro. Se ainda não leu, agora é a última chance!

“Como você sabia?”, perguntava Maria para a menina dos cachinhos. As duas pareciam estar discutindo a alguns minutos, Maria estava preocupada e Leila tentava se explicar. “Bem, só podia ter um perdedor, e quando Paulo… Explodiu… Bem, o jogo não havia terminado”. Leila sabia que havia apostado com a vida da menina, mas a decisão que tomou lhe pareceu certa. “Olha, eu não tinha tempo de explicar na hora, mas assim que percebi que ainda estávamos no jogo, sabia que Paulo não tinha morrido de verdade, então achei que esse fosse o objetivo do jogo, e eu estava certa. Se fizer você se sentir melhor, eu também me arrisquei lá. Eu me joguei do alto de uma plataforma, pode perguntar ao Gabriel se duvidar de mim”. As meninas tentavam se acalmar enquanto percebiam que o jogo estava começando. O ambiente era uma sala fechada. O piso de madeira, a iluminação quente, os quadros antigos nas paredes, não reparavam se haviam janelas no local, apenas sentiam que estavam fechadas lá. Uma porta se abria da qual saía uma jovem que não conheciam. A menina parecia assustada, estava ofegante e chorando, e parecia extremamente surpresa em vê-las.

“Meu nome é Letícia…” — dizia a garota de olhos castanhos, cabelo claro levemente ondulado, mas bagunçado, a pele cheia de marcas, parecia estar fugindo de alguém. “Eu preciso de ajuda… Vocês… Vocês viram uma garotinha de cabelo preto?”. As garotas se olharam por um momento, parecia fazer tanto tempo desde a última vez que se comunicaram com alguém diferente que nem se lembravam de que isso podia acontecer. Leila pensava por um momento, se lembrava de ter visto uma garotinha, mas não onde, nem sabia quem era. Maria a encarou esperando por uma resposta. “Vocês são reais?”, questionava Letícia, ainda em pânico. Leila ria, confusa. “Bem, depende do seu conceito de real. Acho que somos todos parte de um sonho agora, mas eu me sinto real. E você?”

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Gabriel se jogava com força na porta, a sentia tremendo, mas ela não cedia. Tentava novamente, ouvia um estalo, ainda estava trancado. “Não tem nenhuma chave por aqui, estamos presos”, dizia Paulo terminando de esvaziar a última gaveta. O quarto estava cheio de objetos espalhados pelo chão, era desconfortável de se andar, mas nada que chamasse a atenção dos rapazes. Nenhum dos objetos realmente parecia ser alguma coisa, eram apenas bagunça, e o ambiente parecia ao mesmo tempo gigante e pequeno, as paredes distantes de tudo, mas o espaço no qual conseguiam se mover era restrito a alguns poucos metros de chão entre uma janela sem cenário e uma porta. “Eu não acho que essa porta vá ceder” — respondia Gabriel. — “Estamos presos aqui”.

Parecia fazer horas que os rapazes estavam naquele ambiente, não gostavam um do outro, não tinham motivos para isso. Gabriel parecia apenas estar evitando qualquer contato, mas Paulo pensava no que havia acontecido. Se sentia traído, lembrava de ter sido empurrado por Bia quando ela havia prometido que o ajudaria, e não se lembrava de nada depois disso. Era estranho, sabia que havia vencido o desafio, mas não sabia como, e ver que Gabriel estava ali provava que o pacto que havia feito com Beatriz não havia funcionado. “O que aconteceu no último jogo?” — perguntava Paulo, finalmente quebrando o silêncio. — “Eu só me lembro de ter visto uma luta, e Bia me chutando lá de cima, e acabou aí”. O rapaz se lembrava bem da cena, das palavras de Beatriz enquanto o chutava, tinha certeza de que havia sido traído. “Me dá um motivo pra te contar. Eu não confio em você.” — respondia Gabriel. “Você é idiota? Já percebi que é meio burro, mas agora parece que está se fazendo de sonso. Beatriz já admitiu que ela é a culpada por estarmos aqui, somos todos vítimas dela”, respondia Paulo enfurecido. Gabriel o olhava processando a resposta. “Pode ser.” — dizia ele. — “Mas quem garante que ela é a única culpada? Até onde eu sei vocês todos podem estar juntos nisso. Não confio em você, não confio em nenhum de vocês, e não vou…”

O rapaz parava de falar enquanto ouvia um barulho vindo do lado de fora da porta. Passos. E os dois olhavam em silêncio enquanto uma chave parecia destrancá-los. Ele tentava novamente abrir a porta, com sucesso, e agora olhavam para o corredor vazio diante deles.

Encerravam a discussão e andavam para fora do quarto. O local era escuro, sombrio e com um ar de que algo estava a espreita a todo momento. Ouviam uma risada sombria vinda de todos os cantos, mas distante, uma criança. A porta se batia atrás deles, e por mais que o corredor se estendesse para os dois lados, o único caminho possível era para frente, e então caminhavam. Cada passo rangia no piso de madeira, sentiam que a casa iria ceder a qualquer momento, e a respiração pulsava no ar, abafado, frio e fechado. Estavam isolados, mesmo estando tão perto, e por mais que sentissem se odiar, preferiam que estivessem juntos naquele momento.

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“Eu achava que seria só um passeio legal, mas então o pesadelo começou…” — Letícia soluçava entre as lágrimas. — “E eu acho só quero que esses desafios acabem… Só quero voltar para casa, ver minha família de novo, e poder dormir sem cair em um inferno a cada noite!”. Leila abaixava o olhar, sabia como a menina se sentia, estavam presas em um jogo no qual não queriam estar. Maria achava estranho, mas continuava em silêncio. “E Ana está me ajudando a sair daqui, mas… Eu me separei dela a algum tempo…” — “Ana?”, interrompia Maria, finalmente quebrando seu silêncio. “Sim, você… Você sabe dela?”. Maria olhava para Leila novamente, que parecia ainda mais confusa, e se calava.

“Quem é Ana?”, finalmente perguntava Leila. Maria estava perdida, para ela era uma informação quase tão natural quanto o próprio fato de estarem no jogo, Ana era a garota que estava controlando todo o jogo, mas para Leila era diferente. Leila nunca havia feito contato com a garota, nunca falaram a respeito com ela, e a única vez que havia visto uma garota era no circo, a anfitriã que para ela parecia apenas mais um personagem sem identidade no sonho, nem pensava a respeito. Maria tentava decidir se deveria ou não falar sobre, mas antes de chegar a qualquer conclusão, ouvia um baque na porta.

“Não não não!”, sussurrava Letícia em desespero. “Ele me achou… Precisamos nos esconder!”. Olhava ao redor e se dirigia para uma mesa. As meninas não haviam visto a mesa antes, ela apenas estava lá, e Letícia corria, sinalizando para que as garotas fizessem o mesmo. Sem reação, elas a seguiram, e as três se abaixaram atrás do móvel onde estranhamente couberam, enquanto o quarto parecia ficar cada vez maior e mais escuro, até que sentiam a porta se abrindo. Letícia chorava em silêncio, segurava a respiração e evitava fazer qualquer som ou movimento, enquanto o que parecia ser um garotinho rodava pelo quarto procurando por alguma coisa, até decidir ir embora. Então o quarto voltava ao seu tamanho original, a luz parecia voltar, e tudo parecia ficar tranquilo novamente. Letícia tremia, e as meninas, confusas, também estavam com medo.

“Ele já foi embora” — dizia Leila saindo do esconderijo, mas Letícia não se movia, apenas ficava ali, chorando. — “Mas o que exatamente foi isso?”. Sem resposta. Maria observava a garota, sentia o medo dela, e sentia que aquela era a primeira reação sensata que via em muito tempo. Leila as observava, tentando pensar em alguma coisa a se fazer, e então via Maria abraçando a menina, que a agarrava como se realmente precisasse de alguma companhia. “Nós vamos sair daqui”, dizia Maria tentando acalmá-la, “você só precisa aguentar mais um pouco, está bem?”. Era um blefe, e Leila sabia disso, mas via que a menina juntava forças para levantar, então se manteve quieta, abrindo a porta e olhando pelo corredor, vazio.

As meninas caminhavam em trio pela passagem sombria, faziam algumas curvas se se questionar como aquela casa se comportava, era como um labirinto feito de portas e janelas distantes pelas quais não viam nada. Até que viam duas formas humanas correndo em sua direção.

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Os rapazes se perguntavam quem era a garota de olhos castanhos, mas estavam tão nervosos que não conseguiam nem mesmo fazer essa pergunta básica, ao invés disso, Paulo apenas se juntava a elas perguntando se alguém sabia como sair de lá, enquanto todas diziam que não. Ouviam mais passos no corredor, e o medo se espalhava pelos cinco, enquanto Letícia em desespero apontava para uma porta na qual entravam sem questionar.

Parecia um quarto infantil, havia um berço, bonecos e diversos brinquedos, então fechavam a porta atrás deles e cada um se escondia em um canto, ouvindo a risada sombria vindo do lado de fora. Uma sombra era vista por debaixo da porta, mesmo que ninguém estivesse olhando, e ficava estática por alguns segundos, o coração pulsando no ar, até sumir e o ambiente voltar ao normal. Leila se levantava, estava escondida atrás de uma caixa, e falava que todos podiam sair, e aos poucos os jogadores se revelavam de seus esconderijos.

“É como um pique-esconde” — dizia Leila confiante. — “Acho que estamos seguros enquanto ele não nos achar”. “E agora todos vocês são amigos?” — interrompia Gabriel, irritado. — “pareciam todos se odiar até pouco tempo atrás, e agora estão juntos…”. Leila o olhava, irritada. “Nós nos livramos da assassina, não temos motivo para não cooperar”, respondia, mas o rapaz se aproximava discordando em um gesto genérico. “Não mesmo, o que eu não tenho é um motivo para confiar em vocês. Que eu me lembre, a última vez que nos vimos, você me jogou do alto de uma plataforma!” — “Eu estava salvando você!”, retrucava Leila, “Porque eu não sei se você reparou, mas eu me joguei de lá com você”. Todos ficaram em silêncio, processando a informação.

“Você salvou esse cara?” — questionava Pedro. “Bem, alguém acabaria saindo de lá, se não fosse ‘esse cara’, seria a assassina, e quem você escolheria?”, Leila respondia, nervosa. “Eu precisava agir rápido, quando vi que você havia saído do jogo percebi que o objetivo era… Morrer… Então tirei Maria do jogo, e quis apenas pular lá de cima para sair também, mas vi a chance de trazer Gabriel comigo e deixar Beatriz lá. Me pareceu a escolha certa, e não estou arrependida”. Todos paravam, Leila disfarçava o olhar, virava para Maria procurando por uma aprovação, mas a garota não parecia nem estar ouvindo a conversa, estava apenas abraçando Letícia, tentando acalmá-la.

“Que seja” — finalmente dizia Gabriel, quebrando o silêncio. — “você pode dizer o que quiser, mas para mim vocês ainda são meus inimigos. Caso vocês ainda não tenham entendido, só pode ter um vencedor, e não importa o quanto vocês finjam ser amigos agora, todos os outros vão morrer, um vai ficar. E eu não pretendo morrer.”. Os outros ouviam em silêncio, quase chocados. Sabiam que era verdade, tinham plena consciência de que era um jogo de um vencedor e muitos perdedores. Pedro olhava para Leila esperando uma resposta da garota, algum apoio de que aquilo talvez não fosse verdade, e ela apenas olhava para Maria pensando que não demoraria muito para que uma das duas perdesse o jogo.

Desde o início Leila sabia que precisava chegar sozinha no objetivo, mas sentia uma ligação com a garota, mesmo que se conhecessem nas piores circunstâncias. Mas sentia que passavam muito tempo juntas naqueles sonhos, de fato, parecia que estavam a realmente muito tempo juntas em cada sonho antes de começarem os desafios. Não tinha tanta empatia pelos outros, mas também não queria deixar ninguém para morrer, mesmo sabendo que precisava fazer aquilo. Olhava para a amiga que agora parecia prestar atenção no ambiente, a garota estava consciente da situação, mas continuava sem dar importância ao assunto. “É verdade” — finalmente dizia. — “No final estamos sozinhos nisso. Mas isso não quer dizer que não podemos lutar juntos. Não é apenas um jogo pelas nossas vidas, já estamos todos mortos até onde sabemos, mas ainda temos um prêmio no final, um desejo”. Letícia finalmente parecia ter alguma reação na conversa, olhava assustada para os outros. “E eu sei que se eu chegar no final, vou pedir para que nada disso tivesse acontecido, para todos nós. E eu não sei se isso é possível, mas por tudo que passamos até agora, não tenho mais como duvidar de nada, e essa é a minha única esperança”. Maria concordava, e Pedro sentia uma confiança que parecia não sentir a tanto tempo que nem podia mais contar. — “Que seja” — interrompia Gabriel brutalmente. — “Eu continuo sem motivos para acreditar que qualquer um de vocês realmente pediria isso”.

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“Então vocês também estão no jogo…” — comentava Letícia enquanto caminhavam pelos corredores. — “Não sabia que podia encontrar com jogadores de outra partida. Sei que se encontrarmos Ana ela pode nos ajudar a sair daqui, mas eu não vejo nenhum dos outros jogadores a tanto tempo…” — “Onde você a viu pela última vez?”, interrompia Leila. “Talvez a gente possa voltar lá e procurar”. Letícia pensava por um momento. “Eu posso levar vocês lá, mas é perigoso… Leandro está caçando a gente, e estávamos no quarto dele quando nos separamos”. Leila olhos para os outros antes de acenar que queria prosseguir, ninguém contestou a escolha, embora Gabriel estivesse relutante em aceitar qualquer ideia.

“Quem mais está aqui? Digo, do seu jogo?”, perguntava Leila para a menina. “Eu não sei, não sei quem ainda está vivo… Amanda estava comigo, mas Lucas apareceu ameaçando a gente, ele está maluco, quer matar todos nós, os que ainda estão vivos… E Ana apareceu logo antes de Leandro jogar cada um pra um lado e me perdi”. Os nomes não significavam nada para Leila, a moça apenas seguia em frente, indo pelo caminho indicado pela menina perdida, quando finalmente chegavam em um quarto que parecia diferente do resto da casa.

Abriam a porta, assustados. Havia sangue pelo local, as paredes estavam manchadas, rachadas, haviam buracos pelos quais pessoas pareciam ter sido arrastadas, e sentiam a atmosfera pesar. Todos os móveis pareciam quebrados e retorcidos, a bagunça se espalhava até pelo ar, e podia-se ouvir os estalos da casa, ranger das paredes, tudo era assustador. Letícia exitava em entrar no local, mas seguia os jovens que continuavam decididos. Soava lógico para todos que alguma coisa relevante aconteceria ali. “Isso é estúpido” — dizia Gabriel. — “Só eu acho estranho que essa garota que ninguém conhece apareça tentando ‘ajudar’ a gente?”. A menina se encolhia, não tinha explicações para dar. “Ela não é real, ela faz parte do sonho, e vocês estão a seguindo sem questionar, e o ambiente está ficando cada vez mais pesado, não repararam?”. Todos paravam para pensar. “Eu não sou um sonho” — chorava Letícia. — “Só quero sair daqui, tanto quanto vocês..”. “Então saia sozinha, todos vocês, se virem sem mim”, respondia Gabriel se virando para a saída do quarto, e então a porta se batia em sua frente.

Era como se todas as luzes que já não existiam se apagassem, e um vento frio percorria a espinha de todos. A mesma risada assombrava o ambiente. Gabriel se juntava ao grupo novamente, como uma criança assustada, e o medo sobressaía dentre todos os sentimentos. De um canto do quarto surgia uma sombra, o menino os encarava fixamente, sem vida em si, apenas frio. Eles recuavam enquanto as sombras preenchiam o local. “Ele não vai deixar vocês irem embora…”, dizia uma voz que vinha de trás do grupo. A garotinha estava sentada no canto, brincando com uma faca ensanguentada na mão. “Não todos vocês”. “Ana!” — dizia Letícia, se virando apressada para a garota que já não estava lá. Maria agora tinha a certeza de que sabia quem Letícia estava procurando, mas estava ocupada demais para pensar a respeito, apenas, recuava com medo. Leila já nem se importava com quem era a criança, apenas pensava rápido como de costume, olhava para Paulo que retribuía o olhar, e os dois se viravam para Gabriel. Alguém precisava perder aquele desafio.

Como se fossem uma única pessoa, Leila e Paulo juntavam suas forças e davam um chute em Gabriel, provavelmente o chute mais forte que já deram em qualquer momento. Leila se sentia poderosa nesse momento, como se percebesse que seria tão forte quanto acreditasse ser, afinal, estavam em um sonho. E para o azar de Gabriel, ele acreditava que caíria com aquele chute. Os dois puxavam Maria e Letícia para a porta que abriam em um movimento contínuo, sem parar de correr, e a batiam atrás deles. Corriam em desespero pelo corredor, ofegantes e gritando para que as garotas fossem o mais rápido possível para a saída. Letícia tentava dizer que a porta estaria trancada, mas ofegante demais para o aviso, apenas liderava o caminho. O quarteto corria pelos corredores quase sem tocar no chão, virando as curvas como pudessem correr pelas paredes que se desfaziam em rachaduras. Ouviam gritos ao longe, Gabriel, que tentava lutar contra a criatura de sombras, e corria, rastejava e cambaleava atrás do grupo. Desciam pelas escadas em um pulo, realmente não pensavam muito no caminho que faziam, apenas se concentravam em ser rápidos, até chegar na porta de saída. Letícia tentava dizer que estava trancada, mas Maria corria na frente, girava a maçaneta e abria a porta, revelando uma luz branca intensa do lado de fora. Saía puxando a mão de Letícia, Leia e Paulo pulando pela saída logo em seguida, e a porta se batendo logo antes de Gabriel alcançá-los.

Um baque. Batia com o corpo na porta que não se movia. Ouvia os passos do menino se aproximando, e sem conseguir abrir a porta, a única opção que tinha era correr e se esconder em outro lugar.