GOD - O Jogo dos Sonhos II

3 Capítulo 2 - Cruzamento


O ambiente estava quase silencioso, podia-se ouvir apenas o som abafado de trovões distantes nas nuvens que pareciam estar muito mais distantes do que deveriam, quase uma pintura, cobrindo todo o céu de cinza. Pelo menos a parte que podia ver do céu. Olhava para os lados, cercada por muros altos de plantas, verdes, vivos e densos. Tão altos que cobriam quase todo seu campo de visão, deixando apenas uma estreita fatia do manto de nuvens a vista. Não estava escuro, embora não houvesse muita luz no local, conseguia enxergar claramente o chão e as paredes que a cercavam. Maria sentia que estava andando naquele labirinto por horas, mas de alguma forma sabia que o desafio havia acabado de começar. Andava rápido em direção a curva que surgia em sua frente, não queria estar sozinha, procurava por Leila por entre as paredes verdes que a aprisionavam.

Em alguma outra parte do labirinto, Beatriz caminhava determinada pelos corredores, seguindo o que julgava ser os passos de alguém, sem nunca chegar perto o bastante para ver quem era. Andava silenciosamente, como se não quisesse ser vista, mas não tinha realmente um motivo para isso. Criava em sua mente um mapa de cada curva que virava, esperava conseguir não se perder naquela imensidão. “É inútil”, dizia uma voz infantil que vinha do alto do muro. Lá estava Ana, andando por cima do labirinto, distante demais para ser ouvida — ou sequer mesmo ser vista se não fosse por estarem em um sonho. Podiam estar a centenas de metros de distância, mas Beatriz acreditava que ela estava próxima o bastante, e ela estava. Era como se estivessem lado a lado. “Você não pode saber por onde está indo, o labirinto não vai deixar”, dizia em deboche, saltitando com seu vestido preto pelo muro, “se você pensar que está indo para um lugar, estará indo para outro”. “Isso não faz sentido”, dizia Beatriz irritada, mas acreditava na garota. A jovem estava certa, de fato, não fazia sentido andar para um lugar e chegar em outro, mas a lógica e a física não precisavam se aplicar naquele mundo. “E como eu acho a saída?”, perguntava para a menina que já não estava mais ali.

Perto dali, Gabriel andava pesadamente sem notar que estava sendo seguido por Beatriz. O rapaz não tinha um rumo, apenas andava chutando a grama esperando fazer uma curva certa e encontrar a saída daquele lugar. Todos os jogadores sabiam de alguma forma que esse era o objetivo: sair do labirinto. Ninguém questionava se havia algo a mais, ninguém pensava que poderia haver outro objetivo, todos apenas sabiam o que deviam fazer, apenas não faziam ideia de qual caminho seguir. Gabriel estava irritado, não por estar perdido, mas por estar participando daquele jogo estúpido. Demorava para acreditar que estava realmente em um sonho, mas não conseguia de forma alguma se convencer de que o vencedor realmente teria um desejo, qualquer que fosse, realizado. E muito menos conseguia se convencer de que todos já estavam mortos. Para ele, tudo era apenas uma encenação muito bem elaborada, mas ainda sentia que precisava seguir as regras daquele jogo.

“Você sempre foi muda assim?”, implicava Ana com a garota de cabelo rosado. Seguia-a de perto, sabendo que isso incomodava a jovem. “Ora, vamos Camila! Eu sei que tem alguém aí dentro!”. A moça andava rápido, quase correndo, sentia-se espremida pelos corredores. Não estava sendo espremida de fato, havia espaço de sobra para se esticar, mas ela sentia como se as paredes se fechassem sobre ela, sentia que a qualquer momento não conseguiria nem mais respirar com o sufoco. Tentava fugir da garotinha que parecia nem ao menos se mover enquanto Camila corria em desespero, ofegante. Não conseguia espaço para falar entre os soluços, e nem queria falar. Camila preferia fugir de todos naquele momento, sentia que estavam contra ela, não tinha um lugar seguro para se esconder.

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Em algum lugar do labirinto Mateus andava em um ritmo constante. Não tinha a menor noção de tempo naquele lugar, e isso o preocupava. Não sabia se precisava correr, não sabia se podia parar para descansar, então andava rapidamente em direção a lugar nenhum. Sentia que estava andando em círculos, mesmo seguindo em linha reta. Era um corredor longo, vários outros caminhos se cruzavam com aquele, mas ele ignorava a todos e seguia em frente, determinado. Sentia o ar umedecido pelo chuva, mas não chovia, apenas trovejava suavemente na distância, o tempo fechado e abafado. Mateus pensava em como havia parado naquele lugar, se lembrava de estar andando no labirinto mas não de como chegou lá, e só então começava a perceber as inconsistências do sonho. Estava quente, mesmo com o clima assustadoramente frio ao seu redor, mas também estava confortável usando um casaco, um casaco que nem sequer percebia de qual cor ou tecido era, na verdade, a única coisa que sabia sobre o casaco é que ele tinha bolsos onde Mateus deixava suas mãos.

— Está perdido? — Uma voz melódica chamava sua atenção para um dos corredores com o qual cruzava, avistava Leila, que agora passava a segui-lo.

— Não.

— Ótimo, então você deve saber onde é a saída. — E continuava a andar ao lado do garoto.

— Eu não disse que sabia. — Ele parava, incomodado, queria estar sozinho. — Eu não estou perdido, só não sei para onde estou indo.

— Isso não faz sentido Mat…

— Para com isso. — Ele interrompia a garota friamente. — Eu não conheço você, não te dei o direito de falar comigo.

— Você não devia agir assim. Talvez ajudar uns aos outros seja útil, todos estamos no mesmo problema.

— Não todos. Um de nós é um assassino, lembra? Você mesma disse. E eu não tenho motivos para pensar que você não é esse assassino.

— Certo, assim como eu não tenho motivos para acreditar que você não é. Eu não sou burra, Mateus, eu não me arriscaria se achasse que o assassino pode fazer algo contra nós agora.

— E por que acha que ele não pode?

— Ele gosta de jogos. Sabe, eu estudei muito esse tipo de comportamento, seja quem for o assassino, ele quer jogar com a gente, ele quer vencer o jogo. E se ele for minimamente esperto… — A moça olhava para Mateus punitivamente, como se julgasse sua atitude, sabendo de cada erro em sua personalidade. — Ele vai querer formar alianças.

— Assim como você está querendo fazer comigo?

— Sim, exatamente assim. Mas eu sei que você não acredita que eu sou a assassina, assim como eu sei que você também não é.

Mateus voltou a andar, olhava para baixo quase ignorando a presença de Leila, mas continuava a falar, quase como em um monólogo.

— Eu já disse, qualquer um pode ser o assassino, você só me deu motivos para desconfiar de você.

— Nesse caso, você teria o melhor motivo para formar uma aliança comigo.

— Jura? Pra mim parece mais um motivo para me afastar de você.

— Você não está pensando! Digamos que eu seja a assassina, então eu quero jogar com minhas vítimas. Se eu estou no jogo, eu não quebraria minhas alianças tão cegamente, eu fingiria que estou apenas me protegendo e iria cooperar até não precisar mais fingir. Estamos apenas no segundo desafio Mateus, eu ainda precisaria fingir.

— Você seria uma péssima vilã. Eu não quero a sua ajuda, vai embora.

— Certo… Então pelo menos me ajude em uma coisa, pelo lado humano que existe em você?

— Olha garota, eu não quero cooperar com ninguém. Eu só quero sair daqui, então… — Mateus olhava para Leila que agora estava com uma expressão de tristeza, quase implorando por ajuda. — Diga logo o que quer, eu decido se vou ajudar.

— Acontece que… Eu estou com medo, de verdade. Eu não gosto de ficar sozinha, e esse labirinto é um pesadelo do qual eu não consigo acordar…

— E o que eu tenho com isso?

— Eu só não quero ficar sozinha! Me deixe seguir você, por favor. Pelo menos enquanto eu não encontrar Maria…

Mateus parava para pensar na situação. Estava preso em um jogo com pessoas estranhas, sentia-se sozinho também, não tinha em quem confiar, não tinha com quem falar. Sempre foi um pouco solitário em sua vida, desde criança não era muito de se enturmar, não se dava bem com os outros. Tentava resolver seus problemas sozinho, tentava ignorar os problemas dos outros. A vida dele sempre pertenceu apenas a ele, e não compartilhava com mais ninguém. Lembrava-se da época em que era pequeno, os amigos diziam que ele era estranho, então ele se afastava acreditando que ninguém entendia o que se passava na mente dele. E talvez ninguém realmente entendesse, nenhuma pessoa é capaz de entender perfeitamente a mente de outra. E talvez isso fosse o que mais o irritasse em Leila. A jovem agora parecia insistir que entendia o que estava acontecendo, mas não entendia. Mateus não queria companhia, não queria ajuda, queria apenas ignorar as outras pessoas e seguir em frente. E era o que fazia no labirinto, ignorava todas as curvas, todas as dificuldades alheias, e seguia em frente. Seu caminho estava decidido, e não queria que ninguém atrapalhasse aquilo.

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“Ele nunca vai sair do labirinto se continuar andando assim”, dizia Ana do topo do labirinto. Maria olhava para cima, confusa, enquanto continuava seguindo em frente. “Aquele menino, sabe, ele está apenas dando a volta no mundo… Pela terceira vez!”. A moça ignorava a garota e continuava a andar, não se importava com os outros jogadores, queria apenas encontrar Leila. Não sabia dizer se confiava ou não na garota, mas sabia que as duas se ajudariam até apenas uma poder continuar. “Bem, se não se importa com ele… Talvez você devesse saber que ele está com a sua garota”. “Que?!”, interrompia Maria, intrigada. Não gostava de falar, principalmente com pessoas que não conhecia, mas aquela parecia uma informação importante, e sabia que Ana não ajudaria se não conversassem. “Sim”, continuava a garota, “Leila está lado a lado com ele! Mas não fique com ciúmes, ele não está gostando disso, ela disse que ‘não quer ficar sozinha’, sua amiga é uma atriz e tanto”. Ana ria apontando para uma curva a frente de Maria, e pulava para o outro lado do muro, desaparecendo em meio ao verde e cinza.

Maria andava apressadamente pelo corredor, chegando em um cruzamento que se seguia indefinidamente para a frente. Ao longe, avistava duas pessoas andando. Sabia que era Leila e Mateus, mesmo sem poder vê-los claramente, muito menos escutá-los. Corria na direção dos dois, queria alcançar Leila, queria sair daquele pesadelo e acreditava que sua maior esperança era confiar na moça de cachos dourados.

Sempre foi assim. Maria sempre dependia de alguém para fazer as coisas. Não por depender de verdade, mas por não saber ficar sozinha. Odiava ter a responsabilidade sobre qualquer coisa, gostava de ser cuidada, mesmo pelas pessoas erradas. Fazia amigos com facilidade, mas não se apegava a eles, não a todos eles, sempre se aproximava mais de um ou outro, e acabavam juntos como se colados. Era sempre alguém que julgava ser superior a ela de alguma forma, a garota mais bonita da turma, o rapaz mais inteligente, a moça mais alegre… E nunca achava em si essas qualidades. Não era proposital, apenas se encantava com essas pessoas e entregava sua vida a elas, quase sem querer, quase sem perceber.

Sua última melhor amiga era uma dessas pessoas, ela era simpática com todos, gostava de falar, e Maria, sempre quieta, admirava o comportamento livre da amiga. A seguia para todos os cantos, cada vez mais silenciosa, como se não precisasse falar com tal amiga por perto. Ia para festas que não gostava, saía com pessoas que não entendia, ia para lugares que não a entretiam, mas não reclamava, deixava que a amiga a guiasse, achava que aquele era o melhor caminho, afinal, a amiga parecia sempre feliz fazendo aquilo, talvez ela também ficasse se conseguisse entender.

Então aconteceu o acidente. Era uma tarde qualquer quando Maria recebeu o aviso de que sua melhor amiga estava internada, um acidente na rua, atropelada. Quatro dias no hospital, Maria não faltou a nenhum deles, e então o funeral. “Pessoas morrem”, pensava. Estava certa, pessoas morrem, não se controla quando. Mas para ela a amiga era muito mais do que uma pessoa. Era a vida dela, todo o mundo dela estava naquela única pessoa. O acidente não tirava dela apenas a melhor amiga, tirava também todo o mundo em que vivia.

Tentava voltar ao mundo na noite em que fora sequestrada, saía com os colegas de turma, achava que talvez devesse tentar viver um pouco por conta própria. Ia para uma festa da qual certamente não gostaria, mas ao menos tentava se divertir. Bebia para se enturmar, pessoas que mal conhecia, pouco falava, mas tentava viver, tentava ser. Um gole, alguns goles. Ficava tonta, andava para fora da multidão tentando respirar, e então apagava, abrindo os olhos em um quarto que não lhe pertencia, acorrentada a uma parede fria, cercada por estranhos desacordados. “Vai ficar tudo bem”, dizia a garota dos cachos para ela, “nós vamos sair daqui”.

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Ele continuava caminhando, quieto, tentando ignorar a presença de Leila, mas a moça insistia em falar, queria conversar, e Mateus não tinha muito mais controle sobre a situação, podia tentar ignorar o quanto fosse, as palavras da moça penetravam em sua cabeça como se fossem o próprio pensamento do rapaz.

— Você acha que ela está realmente morta? A moça que ficou para trás, Diana.

— Como espera que eu saiba? Eu não sei nem mesmo se eu estou vivo.

— Bem… Eu me lembro de você ainda estar por lá antes de eu encontrar a chave… É estranho, não me lembro de ter saído do jogo, apenas de ter colhido uma flor do chão, e ao invés de fogo, ela virava ouro, tomava a forma de uma chave, e… Acaba aí. A única lembrança que tenho depois disso é a de estar andando nesse labirinto.

Mateus continuava em silêncio, mas pensava no que a moça dizia. Era como um sonho, as cenas não precisavam de uma ordem lógica. Estava em um gramado flamejante procurando por uma chave, e de repente estava em um labirinto. Um sonho do qual ainda não tinha acordado.

— Ela estava lá quando eu saí, sentada debaixo da árvore. Eu não fui o último a sair, mas duvido que ela tenha feito alguma coisa, parecia já ter desistido da vida.

— E você não tentou ajudá-la?

— Não. — Mateus vestiu o capuz de seu casaco, começando a sentir um pouco de frio, vendo a chuva começar a cair sobre eles, fina, quase inexistente. — Eu não devo nada a ninguém aqui. Ela parecia decidida a ficar lá, e alguém precisava perder o jogo. Foi escolha dela perder, não acho que podia haver um cenário melhor.

— Mateus! Isso é… — Leila se afastava um pouco, enojada com o pensamento do rapaz. — Isso é cruel! Você descartou a moça simplesmente por não se importar?

— Olha quem fala, a senhorita “eu saí antes de você, não tive responsabilidade”. Se você se importasse tanto, devia ter ficado no lugar dela.

Leila parava de andar, o rapaz continuava, abrindo distância. Ela então voltava, a caminhar, seguindo-o sem se aproximar mais. Sabia que ele estava certo, ela havia abandonado Diana lá, fizera isso sabendo que alguém perderia o jogo, mas era diferente ouvir outra pessoa dizer isso. Sentia que estava em um ambiente menos lógico e mais hostil, e isso a assustava. Pensava no que devia fazer, não estava realmente mentindo quando disse que não queria ficar sozinha, mas agora já estava incomodada com a presença do rapaz, e parava novamente, olhando para trás em alívio percebendo que Maria corria em sua direção.

— Maria! — E abraçava a garota, como se fossem melhores amigas a anos. — Que bom que te encontrei. Vamos sair daqui.

— Mas… E ele? — Maria apontava para o rapaz que seguia em frente sem nem olhar para as meninas. — Ele está andando em voltas, nunca vai sair daqui.

— Ele não quer a nossa ajuda. — Respondia segurando a mão da garota e seguindo para a primeira curva que via. — E bem, alguém precisa perder o jogo, não é?

A dupla caminhava em outra direção, abandonando a linha reta e deixando para trás o rapaz que seguia em frente. Não demoraram muito mais que alguns minutos para acharem uma porta pela qual deixavam o jogo, as últimas a deixar o labirinto, e Mateus, ainda com as mãos nos bolsos de seu casaco indefinido, continuava a andar, sozinho, sem mudar seu caminho, sem uma saída. Apenas andava e pensava se realmente havia feito certo em abandonar os outros jogadores. Para sempre.