Dia 4 / Fim do dia

Este foi o pior dia de toda a minha vida. Hoje eu descobri o verdadeiro significado deste jogo. Todos nós descobrimos... São 11:00 horas da noite, e estou trancada no quarto com Ana, mas desta vez, não foi escolha minha ficar trancada... Lucas nos trancou aqui depois de uma briga envolvendo todo o grupo.
A preocupação começou faltando dez minutos para o final do desafio, enquanto Lucas, Marcus e Pedro ainda não haviam acordado. Eles deviam correr, pois se não acordassem em dez minutos, nunca mais acordariam. Eu sabia disso, mas não estava pronta para aceitar. Então eu vi Lucas levantando. Eu só conseguia sentir ódio enquanto via a expressão de vitória dele. Eu perguntei a ele onde estava Marcus, e ele se fez de desentendido, mas percebi pelo olhar dele que ele havia feito algo muito ruim. Ele disse que todos estavam preocupados com eles, e foi para o banheiro. Esperei por volta de cinco minutos, quando Pedro acordou ofegante e saiu correndo para o banheiro. Então eu esperei mais tempo, sentindo novamente a agonia de ver Marcus deitado nos últimos minutos do jogo, enquanto ouvia Amanda dizendo que ele ia acordar, e Manuela dizia que já era tarde demais. E ela estava certa. Olhei para o relógio, e vi que já haviam passado 2 minutos do fim do jogo. Tentei acordar Marcus por vários minutos, me recusei a acreditar que ele não havia acordado, mas é a verdade. Ele ainda está deitado no sofá, por minha culpa, pois não deixei ele entrar no quarto quando ele queria se desculpar. Não pude perdoar ele pelo pequeno erro que cometeu, que agora me parece muito aceitável, afinal, era só uma brincadeira. Eu deixei ele preso em um mundo onde a última lembrança que ele tem de mim é a de que eu o mandei ir embora, o que fez com que ele ficasse preso. Ele estaria aqui comigo se não tivesse cometido aquele pequeno erro. Na verdade, ele não teria feito aquilo se Lucas não tivesse mandado, o que só aumenta meu ódio por ele. E Lucas foi o culpado por prender Marcus no sonho.
Assim que saiu do banheiro, Pedro começou a gritar com Lucas, dizendo que ele não tinha o direito de fazer “aquilo”, e Lucas só respondia dizendo que estava apenas jogando. Pedro deu um soco na cara de Lucas, que ficou com muita raiva, e os dois começaram a se bater no meio da sala. Eu não queria impedir a briga, pois Pedro estava ganhando. Amanda e Manuela estavam gritando para eles pararem, e Ana estava digitando em seu diário. Eu estava em estado de choque, ainda na esperança de ver Marcus acordar, até que resolvi gritar para que Lucas parasse com aquilo. Eu gritei extremamente alto no meio da sala, e todos pararam para me olhar, então não pensei duas vezes ante de correr e dar um chute em Lucas. Eu concentrei toda minha fúria no chute, que fez com que Lucas caísse em cima da mesa que estava cheia de pratos e talheres. Ele reagiu, pegando uma faca na mesa e botando no meu pescoço, deixando todos em silêncio. Pedro agarrou Lucas, me dando chance de sair, e desarmando ele. Eu estava em pânico, então fui correndo para a saída da casa, sem olhar para trás. Eu comecei a chorar pelo caminho, enquanto abria o portão, e via o céu escuro e chuvoso, com medo. A ficha ainda não havia caído: Marcus estava morto.
Eu não sabia para onde andar, e estava no meio do nada. Comecei a chorar, entrando em desespero novamente, até que ouvi Ana gritando, chamando meu nome. Eu virei para trás, e ela estava com um guarda-chuva nas mãos. Ela abriu, e em menos de dez segundos, começou a chover. Eu perguntei para ela se aquilo era verdade, e que Marcus não iria voltar, e ela só pediu para voltarmos para a casa, e a carona que Marcus havia chamado chegaria lá em breve. Eu segui Ana, e voltamos para dentro. A casa estava totalmente escura, pois a eletricidade havia acabado. Marcus ainda estava caído no sofá. Ouvimos vozes em um dos quartos, então fomos ver o que estava acontecendo. Amanda e Pedro estavam arrumando suas malas, pois iriam embora comigo. Pedro estava com várias marcas pelo corpo, e Amanda parecia muito preocupada. Perguntamos sobre Lucas e Manuela, e Pedro disse que eles estavam lá fora. Eu perguntei o que iriamos fazer com Marcus, pois devíamos chamar uma ambulância, e Pedro disse que não iria participar disso, e que ia embora o quanto antes. Amanda falou com Pedro, tentando convencê-lo a levar Marcus para o hospital. Eu perguntei como iriam fazer isso se o carro estava quebrado, e Pedro parou por um segundo, percebendo naquele momento que não havia como sair da casa.
Eu voltei e fiquei sentada ao lado de Marcus, tentando acordá-lo gentilmente. Ana estava andando de um lado para o outro, aparentemente chorando, mas sem emitir nenhum som. Ela parava para olhar para mim as vezes, e corria para o quarto, voltando para a sala alguns minutos depois.
Mais tarde, Lucas entrou em casa. Manuela não estava com ele. Ele me encarou por alguns instantes, e disse que aquele era o jogo dele. Eu fiquei paralisada quando vi ele tirando uma arma de suas costas, e apontando ela para minha cabeça, me mandando fazer silêncio, e apontou para o quarto. Ele me mandou entrar, e fez o mesmo com Ana, e então trancou a porta. Eu tentei gritar, mas Ana pediu para que eu fizesse silêncio, e então ouvimos gritos de Amanda, e um disparo. Ouvimos uma gritaria, e então fui olhar por debaixo da porta, e vi um corpo sendo arrastado...
Eu estou com muito medo, e Ana está me acalmando, falando que tudo vai se resolver... Eu sei que não vai se resolver. Lucas tentou me matar, e não duvido nada que tenha tentado fazer isso com Marcus. E será que ele matou Pedro? O que ele pretende nos prendendo aqui? Esse dia é o pior pesadelo que eu já pude imaginar. Eu espero que seja apenas parte do desafio, e que eu acorde em breve, sabendo que tudo foi um sonho...
Eu aproveitei a chance de estarmos juntas para perguntar como ela saiu do último jogo, e ela disse que não sabe, que apenas acordou no dia seguinte, ligou para seu amigo e os dois estavam vivos. Ela havia perguntado a ele o que aconteceu quando ele sumiu, e ele disse que apenas havia realizado um desejo. Ana perguntou qual desejo, mas ele não quis dizer. Então resolvi ir mais além nas perguntas, e cheguei em uma que pareceu ter tocado no lado emocional dela. Perguntei por que ela estava tentando se matar. Ela refletiu por alguns segundos, e disse que não estava aguentando a pressão, pois tinha visto a morte de vários amigos. Eu entrei em choque novamente, mas voltei a mim e perguntei como eles haviam morrido, e a resposta dela foi: “eu tive que mata-los na primeira vez que eu joguei”.
Eu fiquei paralisada, então ela começou a falar que entrou no primeiro jogo sem saber o que ia acontecer, e todos estavam vivos até o oitavo dia. Ana entrou no jogo, e estava em um círculo formado por seus outros nove amigos que estavam participando do jogo. No centro do jogo havia uma faca. Ana pegou a faca, e ouviu um sussurro dizendo que ela devia perfurar um dos amigos. Todos começaram a correr, seria igual a um jogo de pique-pega, mas de uma forma mortal. Ana seguiu as regras, e em duas horas, havia caçado todos os seus amigos. Ela disse que não se sentiu culpada na hora, pois era um sonho, mas logo depois que viu o deus do jogo, realizando seu desejo, começou a sentir um peso de culpa enorme. Ninguém nunca poderia acusa-la de homicídio, pois não teve nenhum contato com os amigos naquela noite, ela estava dormindo em casa, normalmente. Desde então ela começou a tentar se matar, cortando seus pulsos, mas nunca tendo coragem o suficiente para penetrar a faca fundo o bastante para mata-la. Até que seu único amigo ainda vivo lhe sugeriu fazer o jogo pela segunda vez, onde ela poderia realizar seu maior desejo em vida, ou morrer como havia tentado inúmeras vezes. Mas aparentemente, nenhuma das duas coisas aconteceu. Eu tentei perguntar a Ana qual foi o desejo dela no primeiro jogo, mas ela não quis me responder, e eu entendo.
Se eu ganhar, vou desejar nunca ter entrado nesse jogo, é a melhor coisa que posso fazer, por todos.
Ana esta digitando no diário dela, e eu me pergunto como ela consegue parecer tão tranquila diante da situação... O irmão dela está nos mantendo presas aqui. Eu não quero dormir, quero continuar acordada, para arranjar uma forma de escapar. As janelas estão trancadas por fora, a porta também, e nenhuma de nós duas temos força para arromba-las. Lucas está armado, então se fizermos barulho, podemos morrer. Embora a morte seja inevitável no nosso caso.

Eu quero acordar.