Gênio Infame, Dama Mordaz
28 Irmão
No qual nossa heroína tem uma péssima notícia.
Enquanto o Sr. Jarvis abre a porta para Howard entrar e, na sequência, dá a volta no Plymouth a fim de assumir a direção e partir, tento assimilar tudo que aconteceu nos últimos minutos aqui em frente ao Griffith.
Primeiro, fui surpreendida pela visita do meu irmão. Algo que ainda não entendi direito, embora esteja muito feliz por revê-lo, claro. Depois, fiquei meio desnorteada quando Howard nos abordou de repente. E com raiva logo em seguida, porque ele fez isso de um modo que eu não gostei nenhum pouco. Ficou muito claro que o patife pensou o pior de mim ao me ver abraçada com Jimmy.
Tudo bem que ele não sabia se tratar de alguém da minha família e que um pouco de ciúme é até fofo, entretanto, depois de tudo que aconteceu entre nós dois nos últimos dias, custava Howard confiar um pouquinho mais em mim?
— Qual o problema com o seu patrão? — Jimmy questiona de repente, despertando-me do momento reflexivo.
O olhar intrigado dele acompanha o veículo dirigido pelo Sr. Jarvis pela avenida adiante.
— Como assim?
Jimmy fica em silêncio por um instante. Avaliativo.
— Não sei direito, mas... ele pareceu meio incomodado quando você o chamou de Sr. Stark. Achei curioso porque do que mais você o chamaria?
Sem pensar direito, dou de ombros e deixo escapar:
— Bem, às vezes, eu uso patife...
Com um movimento rápido, Jimmy deixa o Plymouth para lá e volta o olhar na minha direção. Um olhar surpreso e — maldição! — desconfiado.
— Claro que só digo isso em pensamento! — apresso-me em esclarecer, embora seja uma grande mentira.
A verdade é que já disse isso para Howard em voz alta também. Antes era porque ele me irritava e a ofensa caía feito uma luva. Agora, a palavra simplesmente escapa com profundo carinho. E, nos últimos dias, Howard tem me feito sussurrar patife aos arquejos também. Isso quando consigo encontrar minha própria voz e falar alguma coisa...
Pisco um tanto desnorteada pelas lembranças íntimas. O corpo subitamente mais quente e o coração disparado.
Torcendo para que Jimmy não tenha lobrigado o rubor repentino em meu rosto, limpo a garganta e recupero alguma compostura antes de continuar:
— Afinal, ele é meu patrão, chamá-lo assim seria desrespeitoso e colocaria em risco o meu emprego.
Meus argumentos fazem sentido, porém solto um riso um tanto nervoso sem querer no final de tudo e sinto que isso compromete a mensagem firme que pretendia passar.
Droga. Será que soei suspeita?
Meu irmão estreita o olhar. Acho que isso responde a pergunta.
Por um instante, quase o ouço questionando diretamente o que está acontecendo entre mim e Howard Stark. Conheço o meu irmão e o seu faro. Ele está desconfiado de alguma coisa.
Para minha sorte, no entanto, ele relaxa um pouco logo depois. Meus argumentos fazendo sentido para ele, ao que parece. Minha pequena e inocente mentira ganhando força para convencê-lo.
Por falar nisso, não pretendo esconder para sempre que fui flechada por um cupido bêbado, mas preciso de algum tempo para preparar o terreno antes de contar a verdade para Jimmy. Ele acabou de chegar na cidade e aposto que vai tirar conclusões erradas e precipitadas se descobrir a verdade tão cedo.
Tenho certeza que Jimmy vai pensar que Howard é só um malfeitor cercando sua irmãzinha desprotegida numa cidade nova, alguém que se aproveitou da posição superior para seduzi-la, uma ameaça masculina que ele precisa espantar da minha vida a qualquer custo.
Embora, há pouco tempo eu pensasse justamente como o meu irmão, agora sei que as coisas não são bem assim. Howard até tentou no começo, mas, no fim das contas, não me seduziu de um jeito baixo. O patife encantou meu coração de verdade ao invés disso, enquanto eu, de algum jeito, enfeiticei o coração dele também. Foi algo mútuo, aconteceu aos poucos e parece tão... especial.
O problema é que Jimmy não verá as coisas dessa maneira. E enquanto não preparo o terreno para que ele enxergue como tudo realmente é, temo pela integridade de Howard caso entre na mira superprotetora do meu irmão.
— Bom... — Ele retoma, o ar pensativo e a testa levemente vincada. — O jeito que ele nos abordou foi meio exagerado para um patrão, você não achou? Se não fosse loucura, eu diria que ele estava até com ciúme de você, Maria.
Meu estômago afunda. Não, despenca.
— O quê?!
Acabo rindo. Muito alto. Acuada. Sou uma péssima atriz. Maldição! E eu pensando que Jimmy deixaria a história para lá!
— D-de onde você t-tirou essa ideia absurda?
Mais uma vez, ele me encara com o olhar semicerrado. Para arrematar, coloca as mãos no quadril e responde como se estivesse falando com uma idiota:
— Como eu acabei de deixar claro, querida irmã, observando o comportamento dele. Você não estava me ouvindo?
Penso rápido, agarro uma linha de raciocínio e articulo do jeito mais natural que consigo:
— Estava sim, mas a ideia é tão absurda que pensei ter entendido errado. Bom, se quer saber a minha opinião, o que acontece é que o Sr. Stark é um inventor, um homem muito inteligente sobre coisas científicas que são como grego para pessoas como nós, Jimmy, mas acho que ele tem uns parafusos soltos ou a menos como homem. Às vezes, falta-lhe um pouco de tato mesmo, ele é excêntrico, tem reações exageradas e acaba sendo mal interpretado assim.
Confesso que sinto um prazer diabólico ao chamar Howard de doido com tanta polidez. Só queria que ele tivesse ouvido tais palavras e ficado mordido de raiva, como eu fiquei ao vê-lo desconfiado do meu caráter.
— Além disso, você ouviu o Sr. Jarvis, não ouviu? Os dois estavam passando e só pensaram que eu estava em perigo.
Quisera fosse só isso. Ainda não acredito que Howard supôs que eu tinha um amante qualquer. Tonto!
Meu irmão reflete um pouco. Parece quase convencido. Quase.
— Então, ele não está bancando o engraçadinho com você, Maria? Pensando que só porque paga o seu salário, tem algum direito a mais? — Jimmy eleva um tanto a voz ao emendar furioso: — O infeliz não está se aproveitando da posição de empregador para te encher de gracejos impróprios, está?!
Como eu disse, conheço o meu irmão...
— Não! Nada disso! Argh, Jimmy! Esqueça o Sr. Stark, tudo bem? Você está sendo ridículo!
E perco a paciência com ele!
Moradoras saindo do Griffith olham para a discussão na escadaria de soslaio. Transeuntes na calçada adiante também.
Sim, Howard me cercou por todos os lados no começo, mas fui eu quem o beijou primeiro de fato. Naquela biblioteca, enquanto ele dormia, um dia após ele ter prometido me deixar em paz. E apesar da atração que sentia e da paixão por mim que mal compreendia, sei que Howard estava falando sério e prometeu aquilo para valer.
Ah, se meu irmão soubesse de todos os detalhes dessa história... Seria capaz de cair duro no chão!
Mas ele não saberá de nada por enquanto porque não está pronto. E tem mais, acabei de perceber que cansei de pisar em ovos com ele. Chega dessa discussão.
— Agora, venha comigo — intimo, segurando-o pelo braço para enfim descermos a escadaria do Griffith. — Eu já ia tomar café aqui perto mesmo, por que não me acompanha e aproveita para explicar o que você está fazendo em Nova York?
Minha estratégia funciona. Jimmy finalmente sai da defensiva e aceita a mudança de assunto. É sempre uma boa ideia mencionar comida para ele, eu devia ter pensado nisso antes.
— Não é óbvio? Visitando a minha irmãzinha fujona.
Não preciso olhar para ele para saber que me lançou um sorriso torto.
— Eu não fugi de casa, Jimmy, eu saí. É diferente — faço questão de retificar. — Se quer saber, não me arrependo nenhum pouco. Posso saber como você descobriu o meu endereço?
Jimmy parece sentir um prazer especial quando revela:
— Por causa da sua última carta.
Pondero um pouco sobre essa resposta. Desde que deixei nossa cidade natal para trás, tenho enviado cartas regularmente. Fiquei magoada com a falta de apoio de Jimmy e do nosso pai quanto ao meu desejo de recomeçar em outro lugar, porém nunca quis que os dois ficassem preocupados comigo.
As cartas nunca contêm informações relevantes. Não contei, por exemplo, sobre o emprego de arrumadeira na mansão Stark, embora tenha mencionado por alto que havia conseguido uma ocupação sim e que estava me sustentando bem com ela.
Pelo visto, Jimmy ignorou totalmente esse trecho porque ficou surpreso quando descobriu que estou trabalhando. De certo, pensou que eu ainda estava me sustentando com as joias (falsas) que o salafrário do William me deu enquanto estávamos juntos.
Nunca coloco meu endereço nas cartas. Pois não queria correr o risco de que Jimmy ou nosso pai viessem atrás de mim em Nova York e tentassem me levar embora a todo custo, mas...
— Droga!
Finalmente mato a charada. Como fui relapsa e idiota!
— Pois é, parece que alguém esqueceu de preencher um endereço falso no envelope dessa vez.
Contrariada, resmungo baixinho:
— Eu estava meio distraída quando escrevi.
Distraída pensando em... Howard, droga. Por motivos óbvios, guardo essa confissão para mim.
— O lugar parece respeitável. — Jimmy indica o Griffith, já muito atrás de nós, com um gesto de mão. — Por que você não queria que eu soubesse onde está morando?
Dessa vez, sou eu quem lhe oferece um sorriso enviesado.
— Porque eu sabia que você viria até aqui se soubesse.
— Ai! Essa doeu... — Ele faz uma careta e se encolhe um pouco, numa encenação que me faz rir. — Está feliz por me ver, certo?
Entrelaço seu braço e apoio a cabeça nele enquanto seguimos pela calçada.
— Estou — admito a mais pura verdade. — Só não me peça para voltar para casa, Jimmy. Lamento dizer que irá perder o seu precioso tempo.
Num tom de desafio que eu não gosto e que acende um incômodo alerta dentro de mim, meu irmão murmura:
— Veremos.
Há segurança nessa única palavra. É como se Jimmy tivesse alguma carta na manga que eu, obviamente, ainda não sei qual é.
Odeio ficar no escuro assim.
[...]
Só depois que chegamos ao Marsh's Bakery, lembro que Howard e o Sr. Jarvis estavam vindo para cá também. Um reencontro deles com Jimmy agora seria desastroso, pois tive muito trabalho para dissipar o faro do meu irmão e não acho que ele acreditaria na coincidência.
Entretanto, para minha sorte, eles não estão aqui. Devem ter ido a outra padaria ou voltado para a mansão. Aposto que por orientação do Sr. Jarvis, a sensatez em pessoa. No que dependesse de Howard, era capaz dele não só manter o local como se convidar para a nossa mesa também.
Escondo um sorriso atrás da xícara de café ao me lembrar de como ele fez exatamente isso comigo, há algumas semanas. Na ocasião, Howard teve o atrevimento de se acomodar à minha mesa e, entre provocações e gracejos, insistiu para que eu aceitasse o emprego oferecido por ele.
— Por que está sorrindo feito boba?
Repouso a xícara no pires com um leve sobressalto. Pelo visto, ela não foi barreira suficiente para ocultar meu sorriso.
— Nada, só... pensando em como o café está delicioso.
— Ah, isso é verdade. — Jimmy praticamente entorna a xícara dele e depois ataca a terceira porção de biscoitos amanteigados que pediu.
Sinto olhares vindos das outras mesas, porém quando decido sussurrar a ele que coma mais devagar, Jimmy ergue a mão para chamar uma das garçonetes. E além de mais uma porção de amanteigados, pede também uma panqueca com calda.
Nesse momento é inevitável, meu pensamento retorna para Howard Stark. Para aquela manhã nesse exato lugar. Foi isso que ele comeu naquele dia e, apesar de ter me irritado ao extremo com uma série de comentários impertinentes, me convenceu a provar uma porção do seu prato.
Nem que eu viva mil anos, vou me esquecer da sua expressão embasbacada quando eu gemi baixinho ao experimentar a deliciosa panqueca.
Antes que outro sorriso imbecil ganhe força, endireito-me no assento e me concentro na visita de Jimmy. Até agora só imagino que ele conseguiu alguns dias de folga na fábrica de automóveis onde trabalha e que pretende me convencer a voltar com ele para Richmond. Entretanto, o que tem na manga permanece um mistério.
Querendo desvendá-lo, decido começar pelo começo:
— Como o papai está?
— Sofrendo desde que a filha desnaturada o abandonou.
Ele arqueia as sobrancelhas para mim de modo divertido, embora o tom acusatório nas entrelinhas não me passe despercebido.
— Não diga isso, você sabe que não foi assim.
Jimmy toma mais café e ataca a comida como se sua vida dependesse disso. É um caso perdido mesmo...
— Ele não admite, mas sei que está sentindo sua falta — diz depois de engolir tudo. — Não fez nenhuma objeção quando eu avisei que ia aproveitar uma folga para vir a Nova York. Nosso pai, assim como eu, esperava que você fosse colocar a mão na consciência e voltar logo para casa. Aliás, ainda esperamos isso, Maria.
Fico em silêncio por alguns instantes, assimilando o que ouvi. Só então volto a me manifestar:
— Eu entendo que o papai pense assim pela idade e costumes enraizados, mas você?
Por mais que esse seja um assunto que daria tudo para evitar, sigo em frente e deixo as palavras saírem de mim:
— Jimmy, o... Você sabe quem me traiu e me humilhou perante o bairro inteiro. Eu não podia continuar num lugar onde, a cada esquina, um olhar de pena caía sobre mim. Sinto em te dizer, mas você perdeu mesmo a viagem porque eu não vou voltar. Ainda mais agora que tenho uma vida aqui, um emprego, amigos, um lugar decente pelo qual posso pagar para morar e...
E alguém especial de quem não quero me afastar. Acho que não conseguiria mesmo se quisesse.
— E-e é isso — gaguejo um pouco, mas Jimmy não parece notar.
Para meu total horror, ele ergue a mão de novo e solicita mais uma panqueca e uma cestinha de brioches. Encolho-me um pouco no assento, desejando ficar invisível.
— Eu estou orgulhoso de você. De verdade, Maria, estou mesmo. Você provou o seu ponto, conseguiu se virar sozinha. Ainda assim, aqui não é o seu lugar. — Jimmy faz uma pausa e o ar à nossa volta pesa. — Acho que chegou a hora de explicar o real motivo da minha visitinha e, então, aposto como você vai concordar comigo e querer ir embora daqui bem rápido.
O ar não apenas pesa agora, sinto um mau pressentimento pairando nele como uma névoa sinistra.
— Por que eu tenho a impressão que não vou gostar de ouvir sua explicação, Jimmy?
Ele não responde a isso exatamente, preferindo retomar o raciocínio:
— Eu sei que o William agiu mal. Você sabe que eu também fiquei furioso.
Não consigo evitar o tom irônico ao replicar:
— Ah, muito obrigada pelo apoio.
E isso irrita Jimmy de algum jeito porque ele deixa a comida de lado, inclina-se na minha direção e reforça seu ponto:
— Por Deus, Maria! Eu deixei o miserável com os olhos roxos por dias! As costelas? Bom, tenho certeza que fiz um bom estrago nelas também. E ele ainda mancou por um bom tempo!
Ah, sim. Eu me lembro bem disso tudo. Quando tive a infeliz ideia de desabafar com Jimmy, contando sobre a traição por trás do noivado rompido, ele fez questão de agir como um homem das cavernas apesar dos meus apelos para que ficasse calmo. Ao avistar William caminhando pela praça, não teve dúvida do que fazer com ele. Foi em plena luz do dia e com uma plateia de curiosos em polvorosa.
— Agradeço muitíssimo por defender minha honra com violência, querido irmão. Foi a cereja do escândalo todo.
Ele trinca os dentes e olha para um ponto vazio da padaria. Claramente, está tentando se acalmar para retomar a conversa. Consegue fazer isso algum tempo depois:
— Eu não me arrependo de ter batido nele, foi mais do que merecido naquela hora. Por outro lado, isso não vem mais ao caso porque... O que eu estou tentando dizer é que...
Como assim naquela hora? Só naquela hora?
O mau pressentimento ganha força. É uma presença quase palpável entre nós.
— Eu não vou gostar mesmo de ouvir, vou?
— Só escute, Maria, por favor — ele pede, erguendo um pouco as mãos sobre a mesa. — Depois que você foi embora e a poeira abaixou, eu tive uma conversa muito séria com o seu noivo. Uma conversa definitiva e de homem para homem. E ele me garantiu que aquela mulher foi apenas uma aventura, um deslize sem importância, que se arrependeu muito e que está disposto a se casar com você.
A presença invisível cai sobre mim. Coloca as mãos pesadas nos meus ombros primeiro. Depois, ao redor do meu pescoço. Meio sufocada, mal consigo pronunciar:
— O que você disse?
Jimmy expira com impaciência.
— Que o William concordou com tudo. Ele vai se casar com você. Não é maravilhoso? Tudo que você queria, hein?
Não digo nada. Mal pisco.
Jimmy me analisa, o cenho franzido, como se eu fosse uma peça particularmente curiosa em exposição num museu.
— Você não parece feliz.
Isso não pode estar acontecendo. Respiro fundo e fecho os olhos por um segundo. Infelizmente, está sim.
— Por que eu estaria? — questiono, com a voz apática e o sangue gelado nas veias. — Por que meu irmão obrigou o homem que traiu a minha confiança a se casar comigo?
Jimmy ergue o indicador em riste.
— Epa, eu não o obriguei a nada, veja bem...
— Ah, claro! Ele concordou por livre e espontânea pressão! — interrompo-o, rindo sem o menor humor. — Bateu nele mais uma vez, Jimmy? Ou só ameaçou jogá-lo naquele maldito chafariz de novo? Me diga! O quanto você aprimorou suas técnicas de persuasão? Ah... Mal me aguento de tanta curiosidade!
A insatisfação de Jimmy ao ouvir isso é notável em cada traço do seu rosto. Sim, porque é claro que ele tem todo o direito de se sentir ultrajado... Haja paciência!
— Não fale comigo como se eu fosse um ogro idiota.
Mais uma vez, solto um riso sem energia.
— Então pare de agir feito um.
Meu irmão recua um pouco, o olhar confuso. Quando recomeça, seu tom está mais suave:
— Maria, eu não estou te entendendo. Minha intenção foi boa. E é do seu Will que estamos falando. Qual o problema com você?
Algo se encolhe dentro de mim numa reação à dor infligida por essas palavras. Percebo que é o meu coração.
— O problema é que de boas intenções o inferno está cheio e não existe mais meu Will, seu ogro idiota! — cuspo, furiosa e magoada com Jimmy.
Dessa vez, é ele quem ri de um jeito descrente que beira à inocência.
— Como não? Você sempre gostou dele. Vocês estavam noivos, afinal. O imbecil cometeu um erro, eu sei. Um erro que me fez querer matá-lo por magoar você e quase me levou à cadeia. Mas agora que ele está disposto a te reconquistar e a... — Jimmy engole em seco, há um leve rubor em seu rosto e um desconforto gritante em seu olhar ao desviar do meu. Mesmo assim, ele se esforça para me encarar de novo e conclui baixinho: — E disposto a consertar o mal que te fez, por que não deixar o orgulho de lado e agarrar essa chance?
Antes ele não tivesse dito mais nada. Preferia não ter ouvido essa parte. Porque dói. Machuca demais. E transforma a fúria que eu vinha sentindo e tentando conter até o momento em algo mais difícil de lidar, um sentimento desolador que me decepciona e entristece profundamente.
O mal que William me fez foi algo muito além da traição. Ele me convenceu que me amava de verdade, fez eu me sentir a mulher mais especial do mundo, porém seu único interesse era me levar para a cama. Uma vez bastou para que perdesse o interesse.
Nunca contei essa parte para Jimmy, só que ele descobriu de algum jeito. Talvez pelo próprio traste, talvez pelas fofocas que William não fez questão de desmentir, talvez pelo maldito faro.
Por um bom tempo, não digo nada. Nem Jimmy. O burburinho das conversas nas outras mesas tornam nosso silêncio ainda mais pesado.
Olho para a saída da Marsh's Bakery, a visão meio turva me impedindo de enxergar com clareza as pessoas que percorrem a calçada lá fora. Ainda estou olhando para elas quando me manifesto de novo:
— Sabe... Quando William apareceu com aquela mulher, eu pensei que nada mais poderia partir meu coração daquele jeito. Agora vejo como estava enganada. — Volto-me para Jimmy. — Eu sempre pensei que você estava preocupado com a minha felicidade acima de qualquer coisa.
— Eu estou. — Meu irmão busca minha mão sobre a mesa, soando ofendido por eu pensar o contrário. — Maria, eu sempre estive. Eu juro que não estou te entendendo...
Olho para as nossas mãos juntas. Devagar, deslizo a minha para escapar do seu toque.
— Você só está preocupado com a minha reputação por causa do que as pessoas estão comentando nas rodas do bairro. Por causa da suposta imagem que eu tenho a zelar como mulher perante esse mundo hipócrita. Um mundo que sempre perdoa a traição dos homens, mas que não hesita em julgar as mulheres por qualquer maldita coisa que façam. Mesmo que elas sejam as vítimas da traição suja e se afastem dos crápulas, são vistas como culpadas!
Ele não diz nada. O olhar dardejando perdido pelo meu rosto sem que consiga pensar num bom argumento agora.
— Não eram só olhares de pena que eu recebia — digo, com uma tristeza ainda maior. — Eu sei dos comentários maldosos também, das fofocas por toda a parte, eu imagino que todo mundo naquele lugar tomou conhecimento do mal que William me fez. E que me culparam por isso, por ter sido ingênua, uma boba apaixonada que se deixou seduzir. Eu sei que, para elas, o casamento é a solução perfeita agora e que eu serei uma idiota se não agarrar essa chance! Só que... você esperar que eu faça isso? Que me case com aquele estrupício depois de tudo? Meu próprio irmão dizer que eu preciso engolir o meu orgulho? — Furiosa de novo, endireito a postura e digo entre dentes: — Caso não tenha percebido, o meu orgulho foi a única coisa pura que me sobrou depois daquela maldita história. E eu fico com ele. Jogo fora as aparências, esse plano hipócrita de felicidade que você me arranjou e fico com o meu orgulho sem pestanejar.
Levanto de súbito, desejando ir embora daqui o mais depressa possível. Amo meu irmão, porém o odeio por ter feito isso e só quero me afastar para digerir o real motivo de sua visita surpresa.
Afoito, ele se levanta também e segura minha mão. Olhares se voltam para nós.
— Maria, eu... E-eu sinto muito. É sério. Por favor, acredite em mim. Eu não sabia que você se sentia desse jeito. Nem que reagiria assim. Juro que pensei que estava fazendo uma coisa boa ao convencer William a se casar com a minha irmã.
— Ao convencê-lo a se casar? — repito o absurdo, largando sua mão e deixando-me cair no assento.
Jimmy se senta de novo também. Parece desnorteado com a minha reação e ansioso para se explicar.
— E-eu... Eu pensei que isso ia te fazer feliz, juro! Pensei que era o que você queria, voltar para o seu noivo, continuar de onde pararam, esquecer o que passou e...
— Ex-noivo. — corrijo, rangendo os dentes e lançando um olhar fulminante a Jimmy. — E pensou errado. Casar com aquele infeliz é a última coisa que eu quero na minha vida. Nem que ele fosse o último homem na face desse planeta e o destino da humanidade dependesse disso, nem assim eu o aceitaria de volta. Entendeu bem?
Meu irmão me encara. Por um bom tempo. A boca abre e fecha algumas vezes. As engrenagens da mente trabalhando depressa até que...
— Você não gosta mais dele.
Não foi uma pergunta, e sim uma dedução. Dedução que parece surpreendê-lo até o último fio de cabelo. Jimmy é assim, possui faro apurado para certas coisas, embora para outras demore assaz para compreender.
— Mesmo que gostasse, o que definitivamente não é o caso, não me casaria com William. Porque hoje eu gosto muito mais de mim. Chama-se amor próprio e estou muito feliz por ter conquistado isso.
Jimmy tenta falar alguma coisa. Desiste por ora e pensa um pouco. No fim, tudo que acaba pronunciando é:
— Mas por que, exatamente, você não gosta mais dele?
Inclino a cabeça enquanto o analiso abismada. E exausta.
— Não importa, você deveria estar feliz com isso, por mim e só.
Levanto de novo e, dessa vez, Jimmy não tenta me impedir. Apenas ergue a cabeça na minha direção, o olhar ainda perdido.
Respiro fundo, pensando em como encerrar essa conversa desastrosa. Por fim, sei exatamente o que lhe dizer.
— Acho melhor você antecipar a sua volta. E quando chegar em casa, por favor, desfaça o arranjo humilhante que fez para mim. Eu não preciso que você convença qualquer homem a se casar comigo. Você é meu irmão e eu te amo, mas não se intrometa nunca mais nos meus assuntos ou eu juro que paro de falar com você.
Jimmy não responde uma vírgula sequer. Não me parece em condições de fazê-lo agora. Ainda está surpreso por ter me magoado e pelo seu plano ter dado tão errado. E no meio disso, parece muito intrigado com algo específico também. Pelo visto, ele ainda não entende como William deixou de ser importante para mim e está desconfiado de alguma coisa.
Ora... azar o dele! Que fique com a pulga atrás da orelha!
Sem esperar mais, me afasto da mesa e vou embora sem olhar para trás.
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