No qual nossa heroína mente para si mesma. E não se convence.

Há duas coisas que não consigo compreender. 1. Como eu pude concordar com a proposta de amizade do gênio infame mesmo desconfiando, fortemente, que ele está mentindo e tramando algo com essa história toda de apenas bons amigos? 2. Como eu regredi tão rápido em datilografia após me dedicar tanto nas últimas aulas?

— Pare de catar milho, Srta. Carbonell! — O Sr. Richards, um homem esguio, meio pálido e um tanto impaciente para um professor, me repreende pela terceira vez desde que a aula começou.

E pela terceira vez, estremeço com o sobressalto porque não havia reparado que ele passou perto da minha mesa. Ah! E pela terceira vez, ouço o burburinho de risadas maldosas que vêm das fileiras de alunas ao meu redor.

Expiro com força e olho com raiva para a folha de papel enrolada ao cilindro da máquina. Escrevi não mais do que três linhas do exercício ditado pelo Sr. Richards.

Enquanto espero ele repetir o texto do começo, para acompanhar direito dessa vez, deixo-me levar por um rompante de travessura e aperto algumas teclas. Catando milho mesmo, que seja!

É então que uma palavra se forma. E me encara de volta com ar de desafio. Seis letras, três vogais e três consoantes. Nada mais.

Patife.

Tão logo me dou conta de que escrevi isso, puxo a folha às pressas, forçando um pouco a prensa da máquina com o movimento, e amasso o papel de qualquer jeito. Jogo-o no cesto de lixo aos meus pés, dentro do qual outras folhas amassadas, testemunhas do meu retrocesso hoje, se amontoam.

Pensativa, encontro a resposta da segunda pergunta pelo menos. Eu regredi em datilografia porque o patife em questão me tirou qualquer foco com seu retorno a Nova York.

Sobre a primeira pergunta... Ainda não tenho uma resposta que me satisfaça.

Deixo a aula quando me convenço de que o meu cesto já não tem espaço para um alfinete. Que dirá para mais uma folha amassada!

O Dr. Strange ficou animado quando eu mencionei que tinha me matriculado num curso de datilografia. Ele adquiriu uma máquina de escrever há pouco tempo, o equipamento fica em sua sala por enquanto, mas ele afirmou que pretende colocá-lo na minha mesa para que eu redija os prontuários atualizados dos seus pacientes e outros documentos do consultório.

Venho frequentando as aulas na Escola de Datilografia Remington três vezes durante a semana, sempre após o expediente, e juro que estou evoluindo. Ainda cato muito milho? Sim, admito que cato, porém estou progredindo pouco a pouco.

Exceto, por hoje. Hoje fui mesmo um completo fiasco.

— Patife... — xingo baixinho.

[...]

Enquanto caminho apressada pelas calçadas, procuro não me recriminar tanto pelo mal desempenho na aula e tento desanuviar a mente. Então, concentro-me no que realmente importa: Howard Stark deve estar mentindo.

Ele só pode estar mentindo.

Não fiquei maluca, não sofro de alucinações; ele me olhou de um jeito caloroso por baixo de toda aquela postura descompromissada que quis vender de si mesmo.

E quando flertou comigo, entre um comentário e outro, não foi só porque é de sua natureza flertar feito um descarado. Ele estava me dando corda, sutilmente, jogando sua isca. Se eu me deixasse fisgar, aposto como pararia com todo aquele teatro na mesma hora.

Porque só pode ser teatro.

Ansiosa para contar minha teoria a Angie e ouvir sua opinião, logo cruzo a entrada do Griffith, venço os degraus até o quarto dela rapidamente, bato em sua porta com certa afobação e num instante estou vis-à-vis com minha amiga.

— Você não vai acreditar em quem me procurou hoje! — anuncio, adentrando o recinto sem esperar por convite.

— Ãn... O Sr. Stark?

Giro nos calcanhares e lhe encaro com espanto.

— Como você sabe?!

Angie fecha a porta, cruza os braços e me analisa com seu sorriso mais perspicaz.

— Você parece meio abalada e radiante ao mesmo tempo, é por isso que eu desconfiei.

Abalada? Tudo bem, isso eu até aceito.

Radiante? Faz-me rir!

Abro a boca para protestar e assegurar que não é nada disso que Angie está pensando. Seja lá o que for que ela estiver pensando. No entanto, as palavras me fogem e me sinto como um peixe fora d’água, abrindo os lábios à procura de ar, sem emitir qualquer som.

Afinal, será que estou radiante?

Sem esperar que eu me recomponha, minha amiga passa por mim, senta-se na cama, espalma o lugar a sua frente para que eu também me acomode e indaga com um interesse genuíno:

— Então, ele voltou, te procurou e vocês enfim se acertaram? Foi romântico? Por favor, diga-me que foi.

Devagar, sento na beira da cama e analiso minha amiga. É mais do que interesse para ouvir a história, é esperança.

Uma esperança tola e infundada porque eu não pretendo me acertar com aquele mequetrefe genioso. No máximo, acertar algo na cabeça dele! Um dicionário bem pesado, talvez!

Uma lembrança de nós dois em sua biblioteca, quando eu quase fiz isso, surge sorrateira em minha mente. Engulo em seco e afasto-a para um canto recluso.

— Ele acha que devemos ser amigos.

Tais palavras atingem Angie feito um choque.

O quê?!

E eis a reação que eu esperava dela. Indignação e incredulidade!

— Exato! Howard me propôs, com todas as letras, que sejamos apenas amigos de agora em diante. Dá para acreditar num despautério desses?

Angie franze o cenho e questiona:

— Você não acredita?

Fico confusa e retruco:

— Por quê? Você acredita?

Ela dá de ombros, parecendo mais perdida do que eu.

— Não sei o que pensar nem estava lá para saber. Você, por outro lado, estava, então... qual é o ponto?

— Howard está mentindo — afirmo na lata, embora ainda seja uma teoria. — Ele não quer que sejamos apenas amigos, só está se valendo de um pretexto para se reaproximar de mim e depois mostrar as verdadeiras intenções. Aquele... cínico! Só que eu fui ainda mais cínica e fingi concordar com tudo. Não podia dar o gostinho da vitória a ele!

Angie pisca um tanto desnorteada enquanto assimila o ponto. Em seguida, o semblante dela se ilumina.

— Ah... Que romântico!

Dessa vez, sou eu quem fica meio atônita por um instante.

— Não é romântico, é insano — faço questão de pontuar.

Angie dá um tapinha no ar, desconsiderando por completo essa parte, e dispara com interesse renovado:

— Por que você acha que o Sr. Stark está mentindo?

— Ele deu muitos sinais durante o almoço.

— Que tipo de sinais?

Quando minha amiga pede mais detalhes assim, sou automaticamente levada de volta a horas atrás, quando Howard e eu estávamos almoçando naquele restaurante italiano próximo do meu trabalho.

Desvio dos olhos dela e deixo que os meus se percam em um ponto qualquer do quarto. De repente, é como se eu enxergasse, bem nesse ponto aleatório e sem importância, as lembranças recentes passando como um filme.

Mais do que isso, sou envolvida pela vivacidade do momento e sinto a pele formigar com a memória do toque de Howard Stark.

— Ele segurou minha mão em certo momento, Angie. Olhou para mim de um jeito desarmado quando fez isso. Eu senti um calor e uma doçura vindo desse gesto e daqueles olhos...

Pisco rápido ao me dar conta de como devo estar soando patética. Especialmente porque observava minha própria mão enquanto divagava feito uma boba apaixonada.

Volto a me concentrar em Angie e, pelo modo perspicaz e divertido como me encara, tenho certeza que ela percebeu esse momento de fraqueza.

Disfarço como posso e encurto a história, falando de modo mais prático:

— E quando eu me despedi, dando um beijo no rosto dele, eu percebi como Howard ficou tenso com a proximidade. Ele lutou para disfarçar o descompasso, mas aquele patife de um figa não me engana. Ah... ele só pensa que me engana!

Angie arqueia as sobrancelhas e morde o lábio inferior enquanto me analisa.

— O Sr. Stark estar mentindo te deixa bem animada, hum?

Lanço-lhe um sorriso sardônico ao esclarecer:

— Não, a ideia de desmascará-lo é que me deixa animada.

— Por quê? — Angie dispara um segundo depois.

E me pega meio desprevenida.

— Porque... Porque eu...

Por que, raios?!

Com raiva da sua pergunta e, principalmente, de mim mesma por não encontrar uma boa resposta tão rápido, levanto da cama e aperto as mãos ao lado do corpo.

— Porque eu quero que o patife admita que mentiu, ora! — digo a primeira coisa que me vem à mente. — Que ele confesse, com todas as letras também, que tudo não passou de um plano torpe para me atrair. Digo, para tentar me atrair para os braços dele de novo. Não vai funcionar.

Expiro com força, aliviada por ter conseguido encontrar uma explicação razoável.

Angie, entretanto, não me parece de todo satisfeita. Ela me escrutina por um longo momento. Resisto ao instinto de me encolher.

— Supondo que você esteja mesmo certa e que consiga arrancar a verdade do Sr. Stark em algum momento, o que pretende fazer depois que desmascará-lo?

E ela me atormenta com mais uma questão difícil de responder, levando-me a certo arrependimento por tê-la procurado agora, sem avaliar os pormenores dessa situação toda.

Emburrada, dou de ombros e resmungo:

— Ora... Nada. Não farei nada.

O olhar dela cintila com malícia.

— Nada enquanto suspira nos braços dele?

Perco o ar por um segundo.

— Angie! — repreendo-a. — De que lado você está, afinal?

— Do seu, é claro! Ou melhor, do lado da verdade. E sabe qual é a verdade?

Não estou certa se quero ouvir a tal verdade que ela tem a expor. Só que Angie não me dá chance de cortar seu raciocínio e simplesmente me confronta com as palavras que articula de modo pragmático:

— No fundo, você quer esquecer os percalços que tiveram, perdoar o Sr. Stark de uma vez e se jogar nos braços dele como se não houvesse amanhã.

E, para arrematar, deixa-se cair de modo teatral na cama, suspirando, os braços abertos.

— Você anda escutando bastante radionovela.

Ignorando meu comentário, ela confabula baixinho:

— Talvez até já tenha perdoado e falte muito pouco para admitir que o quer de volta.

Baixo, porém o suficiente para que meus ouvidos captem. Tento soar firme ao reagir:

— Não, de jeito nenhum. A nossa história acabou.

Angie se apoia nos cotovelos para me encarar. Pela maneira como faz isso, algo me diz que não fui convincente.

— Se tivesse acabado, você teria discordado imediatamente quando o Sr. Stark te propôs amizade — ela argumenta de maneira ainda mais irritante. — Ao invés disso, está aí, embarcando no plano dele e muito empolgada com tudo isso.

Volto a me sentar na cama. De queixo erguido, tento, mais uma vez, acreditar no que sai de minha boca:

— Eu só quero pegá-lo no pulo e ter o prazer de lhe dizer a última palavra. Nada mais.

Sinto que agora soei um tanto mesquinha e vingativa. Só que não tenho tempo de pensar muito a respeito, pois Angie logo se ergue mais um pouco, sentando de frente para mim, e me confronta:

— Pois me parece mais que você quer um pretexto para continuar perto dele enquanto não reúne coragem para admitir que quer mesmo é ficar com ele.

Perco o fôlego de novo, atingida pelo golpe.

— I-isso é... — E perco a voz por um instante também antes de conseguir concluir o protesto: — Isso é absurdo!

Angie cruza os braços e me lança um olhar afrontoso, enquanto uma voz no fundo da minha mente sussurra que o seu golpe talvez tenha sido bem do certeiro. Silencio essa parte de mim como posso.

— Absurdo é você acusá-lo de mentir enquanto mente para si mesma — Angie articula com ar magistral, como se falasse com uma criança birrenta. — E saiba que eu digo tudo isso para o seu próprio bem.

— Pois saiba que não parece!

É tudo que retruco antes de me levantar, cruzar os braços e me afastar dela, assumindo o papel infantil que me cabe mesmo.

Venço a distância até sua janela e deixo meu olhar se perder nas luzes da cidade lá fora. Não sei quanto tempo se passa. Estou furiosa, contrariada e com um medo irracional.

Quando Angie torna se manifestar, fala de um modo mais ameno e acolhedor:

— Tudo bem admitir que ainda gosta dele, doçura. Não é nenhum crime não ter superado.

Só que esse tom me irrita do mesmo jeito porque me confronta ainda mais intimamente. Feito um balão prestes a explodir, vejo-me obrigada a esclarecer o meu ponto:

— Eu não gosto dele, Angie! Eu... — Fecho os olhos e apoio a testa na vidraça, derrotada. — Eu amo o infeliz.

Nesse instante, meu coração dá um ligeiro salto e uma batida bem forte, como se assinasse embaixo o que a voz verbalizou, como se complementasse:

“Sim, você ama mesmo, sua tonta, então o que diabos está fazendo?”

Tentando me preservar.

“Jogando fora a felicidade?”

Quem disse que eu seria feliz com ele?

“Você já foi uma vez. Quem disse que não pode voltar a ser?”

Não sei... Não posso me arriscar.

“Por que não?!”

Porque não quero sofrer de novo!

“Você não vai. Ele mudou.”

Será?

Sou trazida de volta à realidade por um longo suspiro que Angie solta seguido por um comentário empolgado:

— Melhor do que qualquer radionovela!

Giro nos calcanhares e ergo o indicador para pontuar:

— O que não significa que eu voltarei para ele! Sequer cogito a possibilidade! Eu vou esquecê-lo e sufocar o que sinto, isso sim, custe o que custar.

Primeiro, Angie me olha com descrença. Depois, dá de ombros, deixando claro que não leva mesmo fé alguma nas minhas palavras. Por fim, muda um pouco o rumo da conversa, indo direto ao que interessa:

— Enquanto não consegue, o que pretende fazer? Tem algum plano para comprovar que ele está mentindo?

Ao que interessa e ao que eu não faço a menor ideia. É óbvio que não tenho um plano. Apesar disso, ao me dar alguns instantes para ponderar a respeito, consigo ao menos uma vaga ideia para um primeiro passo.

— Bom, o patife decidiu me procurar de repente, não foi? Acho que isso me dá o direito de retribuir com uma visita inesperada também.

— Quando?

Caminho até a cama devagar, pensando com meus botões.

— Durante a semana é impossível, mesmo porque eu não posso e não vou sacrificar os meus compromissos por causa dele, humpf! Já no sábado ou no domingo... Bem, acho plenamente possível arranjar um tempinho para atormentar o meu mais novo amigo.

Angie me lança um olhar que só posso definir como diabólico.

— Para brincar com fogo, você quer dizer.

Nego com a cabeça e me sento ao lado dela mais uma vez.

— Não se preocupe, eu sei muito bem até onde posso ir para não me queimar.

Minha amiga ri baixinho, espalma meu ombro e limita-se a murmurar um significativo:

— Se você diz...

Sim, é o que eu digo.

E espero, sinceramente, que essa não seja mais uma mentira que estou contando a mim mesma.

Dias depois...

Claramente estou mentindo para mim mesma. É a conclusão a qual chego assim que detenho o passo em frente à mansão Stark.

Estou mentindo há semanas, bem antes de Howard voltar. Mentindo sobre ser capaz de esquecê-lo e de sufocar o que sinto. Mentindo sobre ter a frieza e o foco necessários para seguir com o plano de desmascará-lo. E, talvez, mentindo até sobre ainda estar com raiva dele.

Quem sabe Angie tenha razão? Quem sabe eu já o tenha perdoado? Afinal, apesar de ter sido rude comigo e agido feito um tolo, o erro do patife foi genuíno e até compreensivo. Howard interpretou mal uma carta que eu comecei a escrever para o meu ex-noivo e meteu os pés pelas mãos.

Quem nunca cometeu um erro do tipo? Quem pode afirmar que nunca cometerá? Eu mesma já não cometi esse deslize?

O sol morno da manhã reluz um brilho suave nas janelas da suntuosa casa, trazendo à tona a recordação do primeiro dia em que estive aqui, munida de uma pedra e determinada a despedaçar uma das vidraças com ela. E tudo por conta de um anúncio infame que li no jornal. E que também interpretei um tanto errado.

Sim, porque, apesar de ter se mostrado um cafajeste de marca maior ao publicar aquelas linhas na seção de empregos, Howard Stark não é o homem que eu julguei que fosse. O mulherengo atrevido era apenas uma faceta dele. Um lado que não me impediu de ver, com o tempo, que eu estava diante de um homem inteligente, engraçado, bom, generoso e irritantemente... atraente.

Além disso, ele deixou para trás o tal lado mulherengo depois que se envolveu comigo, não foi? Não é questão de presunção, mas tenho certeza que Howard foi fiel a mim o tempo todo. E sincero.

Analisando melhor agora, talvez aquele anúncio tenha sido mais uma travessura impensada de um milionário sem noção do que uma isca ardilosa para atrair mulheres dispostas a embarcarem em uma aventura efêmera com ele. Howard não precisava de tal artimanha, afinal. Sempre rodeado por um séquito de tontas.

Inclusive, se não me falha a memória, o Sr. Jarvis mencionou certa vez que eu fui a única candidata à vaga de arrumadeira que apareceu.

É óbvio que o gênio infame sabia, ou ao menos desconfiava, que o anúncio do jeito como foi transcrito seria um tiro no pé. Nenhuma mulher séria, em sã consciência, se daria ao trabalho de mover um passo até o endereço informado no final daquelas linhas.

Exceto eu.

É engraçado pensar que, se eu não tivesse vindo até aqui naquele dia, nada dessa história turbulenta teria acontecido. Howard Stark seria apenas o nome de um cientista mulherengo e milionário nas páginas dos jornais que eu eventualmente passava os olhos com desinteresse. E eu tampouco significaria alguma coisa para ele. Continuaria sendo uma completa desconhecida.

O mundo seria melhor assim? Algo me diz que não.

É engraçado me dar conta que, apesar da nossa relação ter desandado, sinto-me feliz por ter tomado a decisão de vir naquele dia. Não em busca do emprego, tampouco de uma aventura efêmera, apenas movida pelo ímpeto de dar uma lição no homem atrevido por trás daquelas linhas. Sinto-me feliz porque fui mais atrevida do que o autor do infame anúncio. E sinto-me feliz por estar aqui hoje também, disposta a lhe dar uma nova lição.

Subitamente mais segura do que estou fazendo, ergo o queixo e depois a mão para apertar a campainha. Meus dedos se detém no ar quando percebo que não é necessário. O Sr. Jarvis está vindo.

— Srta. Carbonell! Que alegria vê-la!

Ele parece mesmo contente, enquanto apressa o passo para destrancar o portão.

Ana vem atrás dele e logo me vê também. Ela me saúda com um sorriso franco e doce.

— Maria! Quanto tempo! Não me entenda mal, mas o que faz por aqui?

— Bem, eu.. Eu...

Gaguejo feito uma idiota. Como explicar minha presença aqui?

— Jarvis está de folga hoje — Ana anuncia tão logo o portão é aberto. Ela me surpreende com um abraço forte, enquanto o marido se curva em uma mensura breve para me cumprimentar. — Estamos indo almoçar e depois daremos uma volta pela cidade. Que tal se juntar a nós?

Pode ser impressão minha, acho que vi uma faísca cintilar nos olhos de Ana. Não tenho como provar, porém apesar do convite, ela não parece ansiosa por uma resposta afirmativa da minha parte. Apesar de feliz em me ver, parece mais inclinada a me deixar à vontade para dispensar e responder a pergunta inicial.

Então, recupero a confiança e falo de uma vez:

— Obrigada, eu não quero atrapalhar. Além disso, eu esperava dar uma palavra com o pat... com Howard. Ele está?

Acontece muito rápido, contudo eu vejo, muito bem, um discreto sorriso passar pela boca do Sr. Jarvis antes dele me responder de modo solícito e sério:

— Sim, o Sr. Stark está em casa. — O mordomo se move para o lado, dando-me passagem. — Na piscina, para ser mais preciso.

Hesito por um segundo antes de sorrir amarelo para o casal e obrigar meus pés a se moverem para o interior da propriedade.

Howard está na piscina?

Foi exatamente o que o Sr. Jarvis disse.

Na borda, apenas molhando os pés? Estirado em uma das espreguiçadeiras? Ou dentro da piscina?

Isso ele não disse.

Importa?

E por que uma imagem tão refrescante do patife nadando na piscina me desperta um súbito e inconveniente calor pelo corpo inteiro?

Melhor não pensar muito numa resposta.

Serei capaz de lidar com tal imagem bem diante de mim?

Claro! Não seja boba, Maria. Desde que o patife esteja minimamente decente, você ficará bem.

Será que ele está minimamente decente? Ou resolveu fazer como no Pacífico e está nadando completamente... nu?

Estanco o passo, o coração martelando forte.

— Devo anunciar sua presença, Srta. Carbonell?

É o Sr. Jarvis que me desperta com tal pergunta, levando-me a girar nos calcanhares. Do portão, ele e a esposa de braços dados me olham com certa curiosidade e expectativa.

— Não. Acho que prefiro fazer uma surpresa.

Ana me olha de um modo diferente agora, com ar de aprovação e certo divertimento. O mordomo também parece satisfeito e se despede com um simples:

— Esplêndido!

E então ele termina de cruzar o portão com Ana, tranca-o com cuidado e os dois se afastam pela calçada como o perfeito casal que são.

É ridículo, mas só depois que eles vão embora eu me dou conta que eles realmente foram embora. E me deixaram sozinha com o dono da casa. Que está na piscina. Provavelmente, nadando nu.

Não, o Sr. Jarvis teria me alertado quanto a isso. Não teria?

E claro que deve haver outra chave que abra esse bendito portão. Certo?

Expiro com força e encaro a propriedade à minha volta. Porque é isso que ela é, uma suntuosa propriedade e nada mais. Não é a toca do Lobo Mau e eu, tampouco, sou a Chapéuzinho Vermelho. Não há o que temer. Mesmo porque não estou fazendo nada de mais. Estou apenas seguindo meu plano de desmascarar Howard Stark.

E se tenho que mentir para mim mesma até me convencer de que sou capaz de manter o foco apenas nessa meta, que assim seja. Eu vim até aqui e nada me fará voltar atrás.

Aperto as mãos com força ao lado do corpo e retomo o passo, pisando firme pelo caminho que logo me levará até a piscina.

E até ele.

Momentos depois, quando me aproximo dela o suficiente para avistar Howard em uma das espreguiçadeiras que fica à borda, o mistério tem um desfecho. O patife não está nu, afinal.

Apesar do alívio que sinto, uma parte insana de mim fica um tanto frustrada.

Balanço a cabeça como se assim pudesse dissipar o pensamento impróprio mais rápido e observo o homem deitado adiante. Alheio à minha presença, o gênio infame parece adormecido ou, pelo menos, bem relaxado e distraído sob o sol.

Ele está vestido com o mesmo roupão que já o vi usando outras vezes; estampado num tom de marrom avermelhado. Inclusive, era com ele que Howard estava no primeiro dia que coloquei os pés aqui e os olhos nele.

A lembrança fica mais vívida. Vejo-me em sua sala, engatinhando pelo chão à procura da pedra que eu pretendia usar para despedaçar sua janela e que acabei perdendo de modo patético.

Embora não tenha dado importância a Howard naquele dia, agora eu me lembro muito bem de uma sensação que tive quando ele surgiu na sala e me pegou naquela situação embaraçosa. Foi como se todo o ar à minha volta tivesse mudado, ganhando um curioso frescor e uma eletricidade palpável que me arrepiaram a pele.

O ar mudou como se anunciasse que, depois daquele dia, minha vida não seria mais a mesma também.

Ah, Maria... Quanta bobagem!

Reviro os olhos e retomo o passo. Com o olhar concentrado em Howard, calculo mal o espaço e acabo esbarrando a lateral do corpo em uma das cadeiras que fica sob um guarda-sol. O pé da cadeira desliza um pouco pelo piso, o suficiente para espalhar um ruído estridente e incômodo pelo ar.

Não mexo um músculo.

Howard, por sua vez, move-se um pouco, porém não olha para trás. Ele resmunga alguma coisa inaudível que mais se assemelha a um rosnado.

Antes que eu avalie lhe revelar logo que estou aqui, ele diz de modo impaciente:

— Jarvis, pela milésima vez, hoje é a sua folga, não precisa se preocupar com o meu almoço. Se eu sentir fome, dou uma olhada na cozinha ou saio pra comer alguma coisa, mas duvido que será necessário. Como eu já disse, mil vezes também, estou sem o menor apetite. Aliás, sem a menor vontade de fazer qualquer coisa hoje. Só quero ficar sozinho aqui, pode ser? Obrigado. Tchau.

Nossa... Parece que alguém acordou com o pé esquerdo hoje.

Eu deveria me sentir compadecida. Ao invés disso, acho o azedume dele engraçado e curioso. De tal forma que não posso perder a oportunidade de alfinetar:

— Um dia tão lindo e uma piscina tão convidativa não combinam com tanto mau humor. O que te aflige, Howard?

Ele se move na espreguiçadeira, virando o corpo na minha direção com agilidade e visível espanto. Abaixa os óculos de sol e me lança um olhar estreito e intenso.

— Você!

É tudo o que ele diz, e eu me pego confabulando se isso foi uma resposta para a minha pergunta ou apenas a reação natural de surpresa por me ver.

Um segundo depois, Howard sorri. Um sorriso genuíno e lânguido.

Meu coração não fica indiferente.

Que Deus me ajude. Foi uma péssima ideia vir aqui.