Gênio Infame, Dama Mordaz
35 Cabeça e Coração
No qual o nosso herói ouve duas risadinhas e fica pasmo com o que descobre ao seguir o infame som.
Se eu já não estava trabalhando direito quando me enfurnei no laboratório mais cedo, a discussão com Maria apenas agravou tudo. É impossível encontrar o mínimo de foco ou qualquer disposição no estado irascível em que ela me deixou.
E o pior não é isso. O pior é que um lado da minha consciência está me alfinetando com doses cavalares de culpa desde que Maria saiu daqui chispando fogo.
Ela que mente para mim, e eu que me sinto culpado? Altamente ilógico!
O fato é que Maria pode ter me enganado, porém eu não queria machucá-la com as palavras como sinto que machuquei. Havia tanta dor em seus olhos enquanto eu despejava minha ira, que mal posso suportar ter sido o causador do seu sofrimento.
Por falar em seus olhos... É estranho, porém nos momentos em que cravei meu olhar neles, não havia sinal daquela borda verde mais escura que costuma aparecer quando Maria não é franca sobre alguma coisa.
Isso significa que ela estava me dizendo a verdade?
E nos breves momentos em que desviou do meu olhar ou se afastou? Por que o fez? Para que eu não visse que estava mentindo sobre algum detalhe? O que tentava me esconder? Algo específico sobre a maldita carta? O que seria?
Queria voltar no tempo e repassar cada detalhe da discussão para entender melhor o que aconteceu, porém minha mente está tão caótica quanto o laboratório ao meu redor.
Só o que sei é que, apesar da fúria que me consumiu, eu tive que resistir muito para não esquecer tudo e abraçar Maria bem forte quando ela se encolheu em sinal de dor pelas minhas palavras duras.
E bem antes disso, fiz das tripas coração para não tomar a dama mordaz nos braços quando ela chegou me oferecendo um beijo de maneira tão inocente e ousada ao mesmo tempo.
Mesmo agora, só de pensar em tudo isso, a vontade de sucumbir, de ir atrás dela, pedir perdão de joelhos e mergulhar em sua boca, faz meu corpo inteiro arder e o coração bater com força.
Só que eu não posso fazer isso, posso? Porque se Maria mentiu para mim...
Se mentiu?
Aonde foi parar toda a minha resolução? Ela mentiu mesmo! Não foi? Ela é noiva, afinal! Não é?
— Argh! Ora, que inferno!
Deixo o laboratório na esperança de que nenhum pensamento me acompanhe e sigo sem rumo certo pela casa, praticamente marchando para descontar a frustração no chão por onde piso. Quando passo pela sala, ouço um som vindo lá de fora e me detenho um tanto surpreso.
É uma risadinha.
Não, duas risadinhas.
Femininas. E familiares. Seguidas por vozes.
— E ele não desconfiou mesmo de nada?
Ouço Peggy indagar, soando muito interessada.
— De nada! O tonto ficou em choque com a minha armação!
E Maria responder com ar orgulhoso.
Tais palavras e mais risadinhas fazem meu sangue ferver nas veias.
Do que raios essas duas estão falando?
Só pode ser de mim, é claro!
Muito me admira que Maria esteja abrindo o jogo assim com Peggy, porém que outra explicação haveria? Estou furioso, não surdo, eu ouvi muito bem!
Decido seguir para lá e logo avisto as duas perto da piscina. Peggy esticada em uma espreguiçadeira, balançando os pés numa imagem de pura descontração. Maria diante dela, segurando uma flanela nas mãos e com um balde aos seus pés. O sol reluz em seu cabelo, deixando as mechas ainda mais douradas e as bochechas ligeiramente coradas pelo calor.
Está linda. Como sempre.
E sorrindo com diversão, o que reacende a revolta numa parte egoísta de mim. Não esperava vê-la tão disposta depois de brigar comigo. Mesmo que eu não quisesse encontrá-la chorando pelos cantos, Maria não deveria, pelo menos, estar com mais reservas agora? E minimamente envergonhada? Ao invés disso, está proseando com Peggy e se divertindo às minhas custas?
Dou alguns passos na direção das duas e, assim que Maria ergue o rosto e me vê, sua expressão muda por completo. Ela assume uma postura reservada e seu olhar entristece. Ao mesmo tempo, parece muito sem graça por ter uma pessoa entre nós, por isso disfarça como pode. Ou seja, muito mal.
Peggy vira o pescoço e me observa enquanto eu me acomodo na espreguiçadeira perto dela. Puxo o jornal do dia largado sobre a pequena mesa entre nós e finjo desinteresse nelas.
— Não parem de tricotar por minha causa, garotas.
As duas, entretanto, permanecem em silêncio. Por sobre o jornal, percebo que trocam um breve olhar.
— Qual o problema? Acabou o assunto?
É Peggy quem tem o atrevimento de responder:
— Não, o assunto chegou.
Olho de imediato e em choque para ela enquanto, de soslaio, percebo que Maria fica desconfortável.
Peggy me lança um sorriso arteiro.
— É brincadeira, Howard.
E Maria prontamente esclarece:
— Nós não estávamos falando de você. Digo, do senhor! Eu só contava para a Srta.... para Peggy, uma história meio inusitada sobre o meu irmão.
Entendo que Maria tenha achado melhor me chamar de senhor agora, mas ela acabou de chamar Peggy de Peggy? Por que está sendo tão informal com ela?
Apesar de confuso com essa parte, acredito que a dama mordaz não falava mesmo de mim. Seus olhos são sinceros, a borda verde mais escura não parece estar lá.
Um pensamento sombrio me atormenta agora. Se eu me enganei sobre o teor da conversa dela com Peggy, se afinal de contas não era de mim que fofocavam, será que posso ter me equivocado também sobre todo o resto? Será que Maria me disse a verdade no laboratório e eu que meti os pés pelas mãos ao duvidar de sua história?
— Ela fez um balde cheio de farinha despencar em cima dele quando eram crianças — minha amiga revela, com uma nota de malícia e aprovação na voz.
— Porque ele começou primeiro! — Maria defende-se de pronto. — Jimmy colocou um sapo na minha cama, lembra?
— Sim, ele mereceu que você se vingasse à altura — Peggy assente. — Diga-me, ele ficou parecendo um fantasma?
Maria se inclina um pouco e responde com ar travesso:
— Tinha farinha até nas pálpebras e sobrancelhas. Precisou de três banhos para voltar a se parecer com um menino.
E sorri com orgulho do próprio feito.
Quando percebe que estou olhando para ela, intrigado, tal sorriso desaparece. Novamente, ela exala desconforto com a minha presença aqui. Paro de olhá-la e me pego imaginando-a como devia ser quando criança. Pelo visto, levada e criativa em suas pequenas vinganças.
Tenho que concordar com Peggy, no entanto, Jimmy mereceu o troco. Aonde já se viu colocar um sapo na cama da própria irmã?
Confesso também que a imagem do pequeno brucutu coberto de farinha, dando-se mal, é revigorante. Bem feito para ele!
Maria me desperta desse pensamento ao anunciar meio sem jeito:
— Eu já estava de saída, só vim limpar as espreguiçadeiras.
— E me fazer companhia — Peggy ressalva. — Obrigada pela conversa. Eu me diverti muito.
— Eu também, Srta. Carter.
— Ah, não...
— Desculpe... Peggy! — Maria se corrige de modo célere. — Eu vou me acostumar, prometo.
E sorri para ela.
Maria. Sorri. Para. Peggy.
Tem alguma coisa de muito errada com o mundo hoje. O que houve com essas duas? O que eu perdi?
— Posso abusar e te pedir para me trazer um copo de água, por favor? — Peggy indaga.
— Abuso nenhum, eu já volto.
Maria, então, dá o primeiro passo para se afastar. Seu olhar encontra o meu e ela titubeia. Sua postura enrijece um pouco. Muito, na verdade. Fica na defensiva e claramente desconfortável de novo.
— Deseja alguma coisa, Sr. Stark? — oferece, tenho certeza que apenas por formalidade e para não levantar qualquer suspeita da mulher entre nós.
— Não, Carbonell. — Pigarreio um pouco, sentindo-me desconfortável também. — Não preciso de nada, obrigado.
Ela assente com um meneio de cabeça e segue em direção à casa. E eu, por dois ou três segundos, pego-me a acompanhando com um olhar de soslaio.
E talvez eu também mire seus tornozelos por um instante a mais. Depressa, recomponho-me e resisto ao feitiço que eles ainda exercem sobre mim.
Quando vou parar de desejar Maria? E eu realmente quero parar? Sinto-me tão vazio ao me dar conta que tudo acabou assim.
Tudo acabou?
Volto-me para Peggy e me deparo com um olhar estreito cravado em mim. Será que ela percebeu alguma coisa?
Às pressas, falo a primeira coisa que me vem à cabeça para desviar o foco:
— Não me diga que vocês duas viraram amigas.
E também porque essa possibilidade me choca bastante e quero entender o que aconteceu por aqui.
De modo muito tranquilo e um tanto animada ao mesmo tempo, Peggy insinua:
— Podemos dizer que é um começo.
— Só pode ser um complô, isso sim — murmuro bem baixinho.
— O que disse?
— Nada.
Abro o jornal e leio a primeira manchete em silêncio. Em seguida, leio de novo porque não assimilei do que se trata a notícia de primeira. Nem de segunda. Forço o olhar e acompanho sílaba por sílaba, palavra por palavra. Quando chego ao fim da linha, ainda não sei dizer se o tema é economia ou cotidiano.
— Ela é ótima, Howard.
Com um movimento brusco, viro para a próxima página, sem entender por que Peggy decidiu dizer tal coisa.
— Folgo em saber que você gostou da nova arrumadeira. Jarvis também vai ficar contente por você aprovar. Ele que cuidou da contratação, eu só escrevi o anúncio no jornal.
E depois eu insisti, à exaustão, para que a candidata em questão aceitasse trabalhar aqui porque, já naquela época, Maria despertou algum tipo de interesse especial em mim. Acho que uma parte minha já precisava dela por perto e nem sabia. Agora, cada parte de mim necessita ainda mais dela na minha vida e eu não sei lidar com a frustração de ter sido enganado.
Por outro lado, se Maria tiver dito a verdade, se não me enganou como eu tanto lhe acusei... significa que eu estraguei tudo.
— Não foi isso que eu quis dizer — Peggy retoma o raciocínio, despertando-me do tormento que essa possiblidade representa. — Maria é uma ótima pessoa — ela opina, chamando de vez minha atenção. — Sei que eu mal a conheço, mas dá para notar que é uma mulher especial.
Estreito o olhar em sua direção.
— Por que está me falando isso?
— Para que você saiba. — Ela dá de ombros e olha para um ponto qualquer do jardim. — Ou para que se lembre, caso tenha batido com a cabeça e esquecido.
— Peggy, o que...
Antes que eu prossiga, ela se volta para mim e dispara:
— Por falar nisso, como está sua cabeça? Não foi fofoca, Maria apenas comentou que você estava com dor de cabeça mais cedo. Melhor agora?
Ajeito o jornal de novo e resmungo a resposta:
— Minha cabeça está ótima.
— E o coração?
Hein?
— O que tem ele?
De modo muito sonso, Peggy questiona:
— Alguma palpitação diferente? Como taquicardia? Às vezes, você tem a impressão que seu coração erra uma batida, Howard?
Fecho o jornal com certa impaciência e encaro Peggy sem entender aonde ela está querendo chegar com essas perguntas estranhas.
— A única impressão que eu tenho é que você está zombando de mim por algum motivo e que eu não estou gostando do rumo dessa conversa. Mas se quer mesmo saber, meu coração está ótimo também, obrigado.
Tentando trazer a conversa para águas mais tranquilas, penso um pouco e acho uma boa ideia falar sobre a nossa parceria de trabalho:
— A dor de cabeça foi embora, mas meus neurônios estão meio embaralhados hoje. Não fiz muito progresso para a RCE, lamento. Tem certeza que eu não posso acrescentar um pouco de letalidade nos projetos? Acho que iria me inspirar mais não trabalhar com tantas limitações criativas.
Peggy me encara de um jeito firme.
— Nada de armas letais, Howard.
E eu fico aliviado por ter conseguido desviar sua atenção, afinal.
— A RCE foi bem clara nos contratos que você deve ter lido — ela continua, enquanto eu torço para meu semblante não me deletar agora. — E, sem querer te pressionar, por mais que seja um consultor, você tem um prazo a cumprir. Em alguns dias, eu preciso voltar para Los Angeles e Daniel vai querer pelo menos uma previsão de quando tudo estará pronto. O que pretende fazer?
Penso um pouco. E uma solução surge. Talvez não uma solução, talvez seja um tipo de fuga.
Decido que isso não importa e exponho de uma vez o que tenho em mente:
— Acho que me afastar.
— O quê?!
Peggy, claramente, não aprova. Decido que isso também não interessa e permito que a ideia ganhe mais força dentro de mim. Será bom deixar a mansão por um tempo. Não verei Maria e o que os olhos não veem... o coração não deve sentir, certo?
— É isso, eu vou me afastar daqui por uns dias — afirmo, resoluto. — Talvez eu vá para uma das sedes Stark mais isoladas para trabalhar em paz.
— Qual o problema com essa casa?
Um tanto irritado, retruco:
— Não é óbvio?!
Peggy inclina um pouco a cabeça, claramente me esmiuçando à procura da resposta para tal pergunta. É então que me dou conta: não quero que o motivo fique óbvio para ela.
Por isso, argumento de modo mais cauteloso:
— Não estou conseguindo me concentrar aqui, só isso. Preciso de mais espaço e novos ares. Vai me ajudar a ser mais produtivo, acredite. E não se preocupe, eu voltarei a tempo, você não irá retornar à RCE de mãos abanando.
No entanto, minha amiga fica olhando para mim como se não estivesse totalmente convencida dos meus argumentos, como se ainda tentasse ler a verdade nas entrelinhas do meu semblante que deve estar meio tenso agora.
— Tem certeza que essa é a melhor solução? — ela inquere.
— É a única que eu vejo.
— Pois eu vejo algo diferente.
Dessa vez, sou eu quem inclina a cabeça e estreita o olhar para analisá-la melhor. Peggy está querendo insinuar algo desde o começo ou é impressão minha?
— O seu problema não me parece ser geográfico, Howard. Sendo assim, ele vai te acompanhar aonde quer que você for, a menos que você fique e o resolva aqui.
Ela definitivamente está insinuando algo. Mais do que isso. Acho que ela sabe sobre eu e a dama mordaz.
O quão amigas essas duas ficaram para Maria ter confidenciado tudo assim?
— Com licença, aqui está a água, Peggy.
Meu coração, músculo estúpido e irracional, reage de imediato à aproximação do raio de sol... Digo, da Srta. Carbobell! É assim que devo pensar nela agora, do jeito mais formal possível. É uma estratégia válida para me distanciar emocionalmente.
— Obrigada, meu bem.
Observo as duas. Parecem tão em... sintonia. É bizarro e assustador.
Maria se afasta depois de me lançar um breve olhar, acho que quase involuntário. Há algo sombrio nele. Tristeza.
Deve ser impressão minha. Não posso me sentir culpado. Tenho que parar com isso.
Concentro-me em Peggy. Preciso ter certeza de que ela realmente sabe de tudo. Minha amiga pode estar apenas desconfiada. E se eu disser qualquer coisa impensada agora, não terá mais dúvida já que eu mesmo terei lhe dado a confirmação de bandeja.
— Por que não conversa com Maria de uma vez?
A sugestão direta e clara me pega de surpresa. Chego a me empertigar como se tivesse levado um choque.
Tudo bem, ela sabe. Não há dúvida.
Sem jeito, esfrego a nuca e pergunto baixinho:
— Ela te contou?
— Não foi necessário. — Peggy toma um longo gole da água antes de explicar: — As evidências saltaram diante dos meus olhos e foi impossível não enxergar. E olha que eu cheguei há apenas um dia e já foi possível ver tanta coisa...
Involuntariamente, encolho-me um pouco:
— Estava tão aparente assim?
Para meu horror, sinto um calor repentino no rosto. Não acredito que estou corando! Maldição!
— Eu nunca te vi tão sem graça diante de uma mulher como na hora que me apresentou a sua nova arrumadeira, Howard. Aliás, eu nunca te vi sem graça diante de nenhuma mulher antes.
— Que ótimo... — resmungo, ainda mais incomodado. — Nada faz tanto pela autoestima de um homem do que saber que ele fica abobalhado perto de uma mulher.
Peggy reflete sobre minhas palavras por um instante.
— Tem razão, abobalhado se encaixa melhor do que sem graça.
Por favor... Alguém me mate e acabe com essa tortura agora!
Para meu tormento, isso não acontece e Peggy simplesmente prossegue com a ladainha que destrói meu brio masculino pouco a pouco:
— Bom, esse foi só o primeiro sinal que eu notei, é claro. Pouco depois da apresentação mais esquisita que presenciei na minha vida, Maria saiu e você também desapareceu pouco depois. Acho que você chegou a voltar, mas não dormiu em casa até onde percebi. E Maria estava muito abalada quando saiu do seu laboratório e esbarrou comigo num dos corredores hoje mais cedo. Isso para não falar de agora, é claro. A tensão no ar, a maneira como se olharam, tentaram não se olhar por minha causa e falharam de forma miserável... — Peggy me lança um sorriso de lado. — Foi lindo, Howard.
Lindo?!
Encolho-me de novo, achando o sorriso dela muito perturbador nesse momento.
Antes que eu processe o absurdo que acabei de ouvir, Peggy toma a palavra de novo:
— E foi um choque, sabe? Eu não imaginava que você fosse capaz de se apaixonar, embora eu deva confessar que estou muito orgulhosa e feliz por você. Quem diria que Howard Stark teria um coração, afinal?
Fecho a cara e respiro fundo. Meu sangue ameaçando entrar em ebulição.
— Está se divertindo, Peggy? Pois sinto em te dizer que a graça da piada durou pouco. Nada disso importa mais, então não precisa ficar orgulhosa, muito menos feliz por mim. Maria não é quem você pensa que é. Quem eu acreditei que ela fosse...
Engraçado como não consigo dizer essa última parte de modo muito convincente. De fato, é como se nem eu mesmo acreditasse nisso e então me soa falso tentar convencer Peggy de que Maria me enganou.
Só que ela me enganou sim! Não foi? Claro que foi! Ela tem um noivo e escreveu uma carta romântica para ele, enquanto me fazia pensar que... gostava de mim.
Não como as inúmeras mulheres que passaram pelos meus braços, que se divertiram neles, diziam gostar de mim entre suspiros, gemidos e presentes caros. Maria demonstrava gostar de mim de verdade.
Ao contrário das minhas conquistas fugazes, Maria parecia gostar de algo além do meu corpo e não se importar com meu dinheiro. Parecia gostar de algo além da imagem de conquistador milionário que construí. Ela parecia ver minha essência real e me fez enxergar, pela primeira vez, o homem que eu nem sabia que estava aqui dentro.
Engulo em seco e, com esforço, consigo afastar esses pensamentos piegas. Não posso fraquejar agora.
— Eu vou tirá-la da minha cabeça tão rápido quanto ela entrou — afirmo sem olhar diretamente para Peggy. — Do coração também, antes que você pergunte. Isso sim é o que importa.
De repente, algo me atinge com força, espalhando um som estalado pelo ar e fazendo eu me encolher de novo. Dessa vez, por dor física mesmo.
— Au!!!
Desnorteado e surpreso, esfrego a nuca e olho ressentido para Peggy.
— Você me bateu?!
Sem dar a mínima, ela coloca o copo de água sobre a mesa entre nós e inclina-se um pouco na minha direção. Com um olhar firme — e assustador — e um dedo em riste, anuncia sem rodeios:
— Howard Stark, me escute com bastante atenção porque eu só direi isso uma vez.
Continuo massageando a nuca que segue latejando.
— Está doendo!
— Eu não sei como exatamente você e aquela moça doce e gentil se envolveram...
— Doce e gentil?! — Acabo rindo com escárnio e aponto-lhe um dedo também. — Ah, você não a conhece, Peggy! Não a conhece! Se soubesse...
— Shhh! Não me interrompa! — Ela afasta minha mão com um tapa certeiro. — Eu também não sei o que aconteceu para a situação azedar entre vocês, mas seja lá o que tiver sido, vá atrás dela e conserte agora mesmo.
O quê?! Peggy está maluca?! Não acredito que ouvi um absurdo desses! Não acredito que ela tomou partido do raio de sol... De Carbonell! E ficou contra mim, seu verdadeiro amigo!
— Você não sabe da história toda, não é tão simples assim! Não se pode consertar o que não tem conserto, o que foi uma ilusão e nada mais!
Sem dar a mínima de novo, Peggy afana o jornal do meu colo, abre em qualquer página e dá a conversa por encerrada:
— Eu disse que só falaria uma vez.
Meu sangue entra em ebulição de fato. Para mim, essa conversa insana ainda não terminou. Preciso deixar algo bem claro antes.
— Você enlouqueceu se acha que eu vou atrás da sua nova amiguinha só porque você decidiu que eu estou errado!
Peggy vira a página e estreita o olhar em uma manchete aleatória.
— Eu não decidi, você está.
Expiro com força. Adoro Peggy e vibrei com sua visita, mas quando ela decide ser irritante, faz isso com maestria e tenho vontade de mandá-la para o espaço sem volta!
— E como é que você tem tanta certeza, posso saber?
Sem rodeios e sem olhar para mim, ela responde com uma segurança ainda mais irritante:
— Porque você é homem, geralmente vocês estão errados em muitas coisas, inclusive e principalmente nos relacionamentos. Costumam meter os pés pelas mãos feito idiotas.
É demais para mim, chego ao limite. Levanto de súbito a fim de sair daqui o mais rápido possível, mas preciso deixar outra coisa bem clara antes.
— Eu não vou atrás da Srta. Carbonell, Peggy. Não vou, ouviu? Se isso faz de mim um idiota, que seja.
Tenho certeza que me ouviu bem, só me ignora para me provocar. Quando ela pega o copo de água e bebe um novo gole, dou-lhe as costas e o primeiro passo rumo à casa.
— Você tem noção de que talvez seja ela, Howard?
Porém me detenho ao ouvir isso.
E agora? O que Peggy está tentando insinuar?
— A parceira certa — ela diz com uma serenidade que... me desarma.
A parceira certa? Não era assim que Steve se referia a Peggy? Por que está resgatando isso agora? E o que isso tem a ver comigo e Carbonell?
Confuso e meio desconcertado, viro-me para ela tentando entender qual é o ponto aqui.
Peggy, prontamente, conclui o raciocínio:
— Isso é raro, Howard. Não se desperdiça a felicidade quando ela surge.
Engulo em seco e não nego que suas palavras mexem comigo. Mais do que eu esperava. Mexem a ponto de fazerem toda a resolução em me afastar de Maria... ruir feito um castelo frágil de cartas ao vento. A ponto de me fazerem refletir de verdade.
Sei que Peggy está feliz com Daniel e que gosta muito dele. No entanto, o lugar de Steve Rogers no coração de Peggy... sempre será de Steve Rogers. Porque era ele o seu parceiro certo.
Assim como o lugar de Maria, meu raio de sol, está intocável dentro de mim apesar de toda essa confusão. Porque é ela também. A minha parceira certa.
Há algo enigmático e cúmplice no semblante de Peggy agora, na maneira como me olha, como se lesse meus pensamentos e visse as engrenagens do meu cérebro trabalhando para juntar as peças.
Ela não está fazendo piada de mim com essa conversa toda, ela entende como eu me sinto e quer a minha felicidade. É uma verdadeira amiga, afinal, apesar de ter me batido.
E apesar de Maria ter mentido ou talvez só omitido a história sobre o noivo por motivos pessoais, nada disso muda como eu me sinto sobre ela.
Por tudo isso, vou mesmo desistir sem tentar mais uma vez? Sem conversar de novo, com calma para variar, e até me desculpar se for preciso?
Meio atordoado, percebo que Peggy tem toda a razão. Eu deveria ir atrás de Maria agora mesmo e consertar o que azedou entre nós. Porque não tenho mais certeza se fui justo ao acusá-la de ter me enganado. Porque cada parte de mim está em dúvida agora e vê bastante sentido na explicação que me deu.
Relembro a maneira como ela me olhou enquanto se defendia e a maneira como se entregou tantas vezes a mim...
Relembro seus beijos, seu riso sincero, sua presença natural, tudo nela preenchendo um vazio em mim que eu nem sabia que estava lá.
Tudo que tivemos foi tão verdadeiro que eu não sei aonde estava com a minha cabeça quando cogitei que ela me enganou esse tempo todo de caso pensado.
Eu cogitei mesmo isso?
Ninguém poderia mentir assim. Ninguém saberia fingir tão bem.
Sim, admito, há uma enorme chance de eu ter metido os pés pelas mãos e agido feito um idiota mesmo. A questão é: será que ainda tem conserto para isso?
Olho para Peggy em busca de algum apoio, sentindo o coração martelar de culpa e expectativa.
— Vá!
É tudo que ela ordena.
Um segundo depois, estou fazendo exatamente o que afirmei que não faria de jeito algum.
Indo atrás de Maria.
Como fui idiota!
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