Gênesis
73 Perdas - Uma mulher Quebrada (Final).
Notas iniciais
Sete Anos atrás – País da Água.
—Vejo que você continua com suas tendências violentas.
Tsunade franziu o cenho ao ouvir o som daquela voz nas suas costas. Ela olhou para a massa de sangue aos seus pés, apenas para ver o sangue e o corpo no chão se desmanchando em um monte de água.
O homem com o rosto do seu avô emergiu entre a floresta enevoada. Algo na indiferença em seu rosto e nos seus movimentos minuciosos pareciam naturais para ela, mas Tsunade simplesmente se recusava à acreditar.
—Você realmente deve estar com vontade de morrer. –Ela cerrou os punhos – Nesse caso eu-
—Está frio aqui, não? Vamos dar uma volta.
Antes que ela sequer pudesse entender o que o homem quis dizer, ela o viu fazendo um selo de mão, e então, o mundo ao seu redor mudou.
Tsunade congelou por um momento, antes de perceber a familiaridade daquelas paredes frias, e casa vazia. Até a forma como o assoalho de madeira rangia, à medida que o vento noturno soprava pelas frestas da porta era dolorosamente familiar. O pequeno escritório diante dos seus olhos evocava memórias da sua infância, assim como o homem sentado no lado oposto da mesa. Ela realmente congelou dessa vez, por mais que se recusasse a acreditar.
O jutsu que ele usou para teletransportar ela do País da Água para a residência do Clã Senju, e a forma como seus olhos vermelhos pareciam enxergar através dela...não haviam dúvidas, ele era-
—Como eu disse, eu realmente posso explicar, Tsuna-chan.
Tsuna-chan...ninguém a chamava dessa forma exceto seus falecidos avôs. O nome a lembrava de uma outra menina, ingénua e inocente para a crueldade desse mundo. Bem diferente da mulher de quase cinquenta anos e quebrada além do concerto que ela era.
Ela respirou fundo.
—Ninguém me chama dessa forma desde os meus oito anos. -Tsunade retrucou de cenho franzido, embora a assinatura de chakra que ela sentia cutucando seus sentidos fosse dolorosamente familiar. — Se você vai inventar algum tipo de bobagem, pelo menos faça com que seja plausível. Meu avô está morto.
(Embora a assinatura de chakra, os jutsus secretos e até a forma como seu rosto inexpressivo se contorcia em pequenas expressões fossem exatamente iguais.)
Um suspiro saiu da boca do homem parecido com seu avô.
—É exatamente como imaginei que você seria quando crescesse.- O homem parece pensativo por um momento, era difícil dizer através da sua expressão indiferente, mas Tsunade sempre conseguia ver através das suas expressões na infância — Ajuda você saber que eu sei que o animal de estimação de infância que Hashirama-nii ofereceu para você era um porco? Ou que eu a ensinei a jogar koi-koi quando você tinha quatro anos e você nunca ganhou um único jogo?
Para Tobirama, parecia menos de um ano desde que ele tinha morrido. Então, na sua mente, apenas um ano atrás, Hashirama ainda estava vivo.
Apenas um ano atrás, ele e Tsuna-chan estavam rindo em uma tarde, reorganizando as cartas no chão da sala de jantar.
Mas esta Tsuna-chan diante dos seus olhos parecia uma casca ferida, cicatrizada, e exausta. Assim como ele. Isso nunca deveria ter acontecido. Por que razão seu irmão havia fundado Konoha, e ele próprio havia trabalhado tanto para transformar a utopia de seu irmão, em uma vila organizada?
—Eu matriculei você na Academia naquele outono, você sabe. Você se lembra do seu número de registro ninja, ou devo recitar isso para você?
Ele se lembrava de estar do lado de fora da escola que ajudou a construir, ouvindo Tsuna-chan recitar seu número sem parar. Para a frente, depois para trás, para a frente e depois para trás. Ele lembra que estava preocupado com uma situação que havia surgido com o plano de tratamento de esgoto de Konoha. Ele se lembra dela ser uma garota borbulhante de cinco anos.
Tsunade suspirou. O mundo exterior não sabia tanto sobre sua família quanto isso.
—Eu sei quando sou corrigida. Não precisa me dar aula...Oji-san. -A expressão de Tobirama relaxa um pouco. Ela hesitou visivelmente, antes de continuar – Eu...senti sua falta, você sabe. De todos vocês.
A expressão de Tobirama escureceu, antes de ele forçar um sorriso. Ele se lembrou da conversa desagradável que teve há poucas horas, depois de ter sido trazido do limbo por Hiruzen.
‟O clã Senju...não existe mais...”
Ele foi cortado de seus pensamentos pela voz de Tsunade.
—Você poderia trazer minha aluna para cá? Ela deve estar bastante preocupada.
Tobirama acenou, antes de fazer um selo de mão. Uma Shizune confusa surgiu no escritório, antes de empalidecer e se curvar, como se estivesse prestes a vomitar. Tsunade franziu o cenho. Era suposto o Hiraishin funcionar daquela maneira? Ela logo voltou sua atenção para a garota pálida. Ela colocou sua mão esverdeada nas costas de Shizune, e logo sua tez pálida começou a melhorar.
Tsunade o olhou com reprovação, e Tobirama mal pareceu piscar.
—Primeiras experiências com ninjutsus espaço-temporais tendem a ser... desorientadoras.
Tsunade apenas balançou a cabeça de forma exasperada, antes de continuar curando Shizune. Alguns minutos depois, ela pareceu visivelmente melhor, enquanto a abraçava.
—Tsunade-sama! Você desapareceu da floresta de repente e – Shizune engoliu em seco, quando percebeu que estava respirando rápido demais – Só...fico feliz que você esteja bem.
A Sannin apenas deu tapinhas reconfortantes na cabeça da mulher mais alta, antes de fuzilar o homem com um olhar. Quando elas se separaram, Tsunade disse.
—Shizune, este é Senju Tobirama, meu tio-avô e o Nidaime Hokage. Oji-san, essa é Shizune.
Shizune apenas encarou o rosto inexpressivo de Tobirama, antes de desviar o olhar. Seus olhos vermelhos pareciam enxergar sua alma. Tsunade apenas suspirou, antes de abrir a porta do escritório.
—Eu vou preparar um pouco de chá.
Ela saiu com passos lentos, deixando para trás um silêncio desconfortável.
Tudo que Shizune poderia dizer, é que ela estava fazendo o seu melhor para olhar para a parede do escritório, ao invés de olhar na direção do Nidaime porque Senju Tobirama era intenso, de uma maneira que é impossível ignorar mesmo sem olhar para ele.
—Estou começando a acreditar -, diz ele, a voz inexpressiva -, que você está irritada por toda a situação na floresta. Peço desculpas por isso.
—Acho que não estou-, diz Shizune, porque, na verdade, não se pode ser um ninja e guardar rancor contra pessoas por te atacarem.
Tobirama arqueou uma sobrancelha.
—Então você não gosta de mim por algum outro motivo.
Shizune tinha certeza de que Tsunade ouviu que seu hokage favorito era o Nidaime quando ela estava na Academia, e propositalmente fez isso para que ela pudesse descobrir que o Nidaime em pessoa é...difícil.
Os livros de história não mencionaram essa parte.
Por outro lado, os livros de história gostam de omitir verdades desconfortáveis, como exemplificou Orochimaru. Um herói de guerra, que ela ouviu louvores enquanto assistia aulas na Academia.
Serão muitos, muitos anos antes que eles quantifiquem a extensão total do dano que ele causou, e o tanto de civis e shinobis que ele matou com suas pesquisas.
Pesquisas que se baseavam no estudo do Edo Tensei do Nidaime.
Mas...ela provavelmente não deveria usar isso contra Senju Tobirama.
—Você era meu herói, quando eu estava crescendo -, ela admite, embora ela não queira inteiramente. — Um inventor, um estadista, aprendemos sobre você na Academia. — Aqui, ele bufa, quase ofendido. — Anos mais recentes -, ela não sabe como se explicar, — mancharam isso.
Ele dá de ombros, o seu rosto não revela nada, embora seu chakra sim. Não importa o quão firmemente controlado, o chakra sempre trai uma pitada de emoção, mesmo que essa emoção seja um vazio sutil cuidadosamente estudado.
—Todos os legados mancham.
Shizune não pode deixar de pensar sobre. Sim, até os Shinobis lendários são humanos – imperfeitos e mortais.
Mas ela já não sabia disso?
Ela sabia disso, sabe disso há muito tempo, mas nunca fica mais fácil de engolir.
—Um dos amigos de sua neta, o admirava fortemente. — E isso era estranho de entender. Que Orochimaru realmente achava que sua forma de pensar era parecida com a do Nidaime – Ele cometeu atrocidades. Tudo enquanto tentava compreender as suas pesquisas.
-Todos os shinobis cometem atrocidades. — Ele não diz a ela que é ingênuo esperar o contrário. — O que quer que tenham ensinado sobre mim em seus livros, não seria o retrato completo de um homem.
Shinobis advogavam por guerras que mataram milhares de pessoas, alimentavam crianças a um mundo de dor e mortes. Como esse mundo poderia julgá-lo?
Shizune percebeu que disse algo afiado sem pensar, e responsabilizou alguém pelas ações de outra pessoa.
—Me desculpe. Não era algo que eu tinha contra você, especificamente. — Embora ela tivesse, um pouco. — Mas é sempre estranho.
Tobirama pareceu ver através de seus pensamentos.
—Quando as pessoas que você admira não são quem você pensa que são? – Ele finalmente sorri, um pouco, mas era um sorriso desbotado nas bordas. — Eu gostaria de poder te dizer que fica mais fácil com a idade, criança, mas temo que não.
Ela estreitou os olhos. Os livros realmente tinham sido uma sombra pálida do homem real, ela decide.
O Nidaime é muito mais e muito menos do que os livros de história fizeram dele.
Ela permaneceu refletindo, até que Tsunade voltou com uma bandeja de chás. Shizune logo reconheceu que aqueles eram o mesmo chá que elas tinham armazenado em seus pergaminhos. Ela os preparou de seus mantimentos?
Eles se sentaram em silêncio, enquanto as xícaras fumegavam sobre a mesa.
Foi a primeira vez que Tsunade percebeu claramente que seu avô não se sentia confortável naquela casa, embora quando criança ela não tivesse percebido isso inteiramente.
Seu tio-avô viveu com eles por um ano a mais que seu avô Hashirama.
O adulto mais constante em sua vida tinha sido a vovó Mito, e até ela faleceu antes de Tsunade completar vinte anos.
Mas ela vê agora, sentada à mesa da cozinha com as mãos em volta de uma xícara de chá.
Há uma árvore bonsai no canto do escritório, murchando, sem água há mais ou menos um ano, e ainda agarrada à vida.
Jardim com grama selvagem crescida.
Seu tio-avô sentado inquieto do outro lado da mesa.
Tsunade se lembra desta casa, e desses lugares, se lembra de sua própria dor, mas não da dor dos outros, que esconderam bem e esconderam melhor quando ela era criança.
—Como você está...vivo?
Ao ouvir a pergunta da sua neta, Tobirama apenas encarou discretamente a menina ao lado de Tsunade. Ela pareceu entender, quando balançou a cabeça.
—Ela fica. Ela é confiável. -Tobirama franziu o cenho ao ver a confiança inabalável dela. Ele achou que a tivesse ensinado melhor do que isso. Não confiar facilmente. Tsunade logo continuou, e Tobirama finalmente entendeu – Ela é a minha Espada Real.
Tobirama finalmente mostrou emoções no seu rosto ao ouvir aquela frase, antes dele suspirar.
—Então você descobriu sobre a origem do nosso clã...
—É difícil não saber, quando cada pessoa que eu considerei importante morriam uma após a outra, por motivos que eu não sabia, e eu não pude fazer nada. Eu precisava de respostas.
—Isso é minha culpa. Você era apenas uma criança. Você não deveria ter que lidar com aquilo.
—Não seja tão duro. — Ela se vê dizendo, porque ela sabe que os pensamentos dela e do tio-avô foram para os mesmos lugares escuros. Ela está apenas mais distante disso em termos de tempo do que ele. -Você não poderia saber que isso ia acontecer.
Ele franziu o cenho.
—Eu previ algo semelhante depois da...morte deles. Se eu estivesse lá — Havia algo na sua voz, não era culpa, inteiramente, apenas uma espécie de tristeza melancólica e moderada — eu poderia ter feito alguma coisa.
Tsunade fechou os olhos. Mas ninguém podia. Nem mesmo o avô Hashirama.
Ela abandona a xícara de xá em suas mãos, e saca uma garrafa de saquê de seu haori. Se ela vai falar mais sobre memórias, então ela prefere não ficar totalmente sóbria para a experiência.
Ela ignora o olhar de desaprovação do tio-avô enquanto joga a garrafa na mesa, aquecendo-a com chakra. É outono, pode muito bem fazer valer a pena.
—Tsuna-chan.
—Tenho idade suficiente para fazer o que quero. — Ela está tentando ignorar a dor de cabeça que diz que ela atualmente tem a mesma idade de seu tio-avô, e isso é muito mais fácil de fazer quando ela não está sóbria, então é isso que vai acontecer, que se dane seus modos escandalizados e diretos.
Há um silêncio mortal por um longo momento. Olhos vermelhos contra olhos cor de mel. Tsunade quase vacilou, mas finalmente viu Tobirama acenar.
—Tudo bem.
—Eu senti sua falta, você sabe.- Ela não sabe o que a motivou a dizer isso. Ela não costuma admitir que sente falta de alguém. -Mesmo que eu nunca pudesse viver de acordo com o que você queria de mim.
Dessa vez, ela pode ver a sombra de um sorriso nos seus lábios.
—Por todas as contas, você parece ter excedido em muito o que eu já disse que você tinha que ser.
Isso a faz piscar para conter as lágrimas.
—Acho que eu gostaria de ter ouvido isso mais jovem, Oji-san. -Todos esses momentos dolorosos, todos esses fracassos, todos esses anos, e ainda assim ela ainda está aqui, ainda de pé. Ela sussurrou no final — Acho que você também precisava ouvir.
Mas ela sabe que ele a ouviu.
—Nós choramos você, sabe. Eu, Nawaki, Vovó Mito, Madoka-nee...
Tobirama fechou os olhos, antes de suspirar.
—Bom, eu nunca morri, para começo de conversa. Pelo menos não a minha alma. Depois de meu corpo físico ter sido destruído, fiquei preso no limbo pelo que pareceu uma eternidade, enquanto décadas se passavam no mundo exterior. Com nada além de meus pensamentos, e um vazio frio.
Tsunade arregalou os olhos.
—Deve ter sido...horrível. – Ela sussurrou com todo cuidado, e logo viu seus olhos vermelhos brilharam de uma emoção desconhecida. – Como você saiu?
—Saru. Eu deixei um pedaço da minha alma com ele. Ele o usou como âncora para me trazer de volta. Infelizmente, era tarde demais.
Ela pareceu perdida em pensamentos. Ela se lembrou das atrocidades cometidas por seu companheiro de infância, Orochimaru. Documentos contendo anotações das pesquisas de seu avô foram encontradas em seus laboratórios. Pesquisas sobre como a imortalidade poderia ser alcançada, desde que ele encarnasse sua alma em hospedeiros compatíveis com o passar do tempo. Ela avaliou a aparência impecável de Tobirama, e logo concluiu que ele deveria estar possuindo um corpo naquele momento. De quem, ela realmente não queria saber. Ela se viu murmurando algo diferente.
—Hiruzen-sensei...ele sempre foi seu preferido.
Ele conseguiu sentir uma leve mágoa na sua voz. Ele apenas suspirou.
—Era a melhor opção na altura. Você ainda era uma criança, e minha filha, assim como todos os Senjus, tinham um alvo nas costas. Hiruzen tinha mais chances de me trazer de volta.
Tsunade conseguiu ver a lógica nas palavras dele, tendo em conta tudo o que aconteceu. Mas isso não tornava tudo menos doloroso.
Ela mal havia dado um gole na garrafa em sua mão, quando ouviu a voz dele novamente.
—Então...você pode me explicar o que exatamente aconteceu? Hiruzen contou para mim, mas...haviam muitos detalhes que ele não sabia.
Ela quase derramou toda a garrafa de saquê, enquanto bebia tudo em um gole. A ardência e sensação de engasgo na sua garganta, bem como a sensação de indiferença provocada pelo álcool mal aliviaram a dor que aquelas simples palavras causaram no seu coração. Tantos rostos piscaram em sua mente, apenas para desparecerem como névoa logo depois.
Por um bom tempo depois da morte de Hashirama e Tobirama, nada aconteceu. A guerra havia chegado à um impasse, enquanto os alunos do Nidaime percorriam os campos de batalha como animais enraivecidos. Quando a guerra finalmente estava quase terminando, as coisas pareceram melhorar. Mal a ingénua Tsunade de Doze anos sabia que aquilo era apenas a calmaria antes da tempestade. Os números do clã Senju começaram a diminuir gradualmente. Inicialmente, eram apenas Shinobis do clã Senju morrendo nas linhas de frente, mas eles logo perceberam que as baixas eram altas demais, como se os shinobis inimigos estivessem especificamente mirando neles. Quando eles foram retirados da linha de frente, metade dos Shinobis ativos em sua fileira já haviam morrido. Depois, quando a guerra finalmente terminou, missões aparentemente simples sempre pareciam dar errado, e o número de relatos de Senjus desaparecidos em missões cresciam em um número alarmante.
O Sandaime tentou os proibir de saírem da Vila, mas o orgulho de ser um dos clãs fundadores, e o desejo de muitos procurarem seus companheiros desaparecidos, continuou a motivá-los a saírem em missões.
Quando Tsunade finalmente completou a maioridade, ela se viu olhando para ruas vazias e fantasmas do que antes era um exuberante clã. Seus pais, suas tias, e até mesmo seu próprio irmãozinho...todos eles se esvaíram como névoa. Até só restar ela, em meio à fantasmas. Depois de contar tudo aquilo em meio a uma dor nebulosa, ela só conseguiu sussurrar uma frase no final.
—Foi um desastre.
Tobirama cerrou seus dedos. Ondas se agitando nos lagos vermelhos que eram seus olhos.
—E quanto os meus filhos?
Tsunade mordeu os lábios sem perceber.
—Kageyama-nii continua no Hospital, assim como sempre. Eu tentei de tudo para curá-lo, mas...a mente humana não é minha especialidade. Eu não sei como curar uma mente quebrada. –Ela deu uma risada sem graça. — Eu própria teria me curado, se pudesse. Quanto à Madoka-nee...eu não sei.
—Como assim?
Ela suspirou, procurando engolir sua garrafa de saquê, apenas para perceber que ela estava vazia.
—Poucos anos antes da segunda guerra começar, aniue desapareceu em uma missão. Ela fez quase um ano sem contato, e nós chegamos a pensar que ela estava morta...assim como todos os outros, mas...um ano depois, ela apareceu em Konoha...com uma criança nos braços, e me pediu para cuidar dele e o proteger. Ela parecia...desligada, e com pressa. Seu único desejo era que ele não tivesse o sobrenome Senju. Temendo pela sua segurança, não queria que a ligação dele com nosso clã fosse confirmada. Ela pediu que o chamássemos Namikaze. Então...tive que o entregar ao orfanato como um órfão civil. Ao longo dos anos, eu cuidava dele no escuro, obviamente, e quando ele finalmente entrou na Academia, por mais talentoso que fosse, havia uma lacuna de conhecimento comparado aos filhotes de clãs. –Nessa parte ela deu um fraco sorriso, como se lembrasse de algo – Eu me transformava em shinobis estranhos e o ensinava da forma que eu podia. Quando ele se formou como o primeiro da classe, eu cheguei a pedir à um dos meus melhores amigos que fosse Sensei do seu time e o protegesse lá fora... eu entreguei o pergaminho do Hiraishin para que seu mestre oferecesse para ele em seu aniversário de Treze anos. Ele era...genial. Ele entendia jutsus como um peixe na água, e aos dezenove anos, não havia igual à ele em Konoha. Ele se casou com uma boa e gentil mulher do clã Uzumaki, e foi eleito Hokage. Eu achei que ele estava seguro na Vila...mas...
A expressão de Tobirama parecia esculpida em mármore quando ele completou.
—Ele morreu.
Tsunade assentiu, melancolia preenchendo sua feição.
—Sim...eu ouvi que ele e sua família morreram no ataque da Kyuubi.
—Eu entendo, mas você se equivocou em algo. Seu filho, não...meu bisneto...ele sobreviveu.
Tsunade arregalou os olhos.
—Como você...?
—Você esqueceu? Sou um sensor tão bom que consigo dizer à que clã alguém pertence apenas pela assinatura de chakra. Desde o momento que Saru me trouxe de volta, eu procurei por outros Senjus na Vila, e acabei sentindo alguém com minha linhagem e a dos Uzumakis. Ele deve ter o quê agora, seis ou sete anos?
Tsunade cerrou suas mãos.
—Me entregue o menino. Eu posso cuidar dele.
Tobirama a olhou pelo que pareceram longos segundos, antes de balançar a cabeça.
—Não. Eu mesmo farei isso...afinal, ele é meu sangue, no final do dia.
Tsunade suspirou de decepção, antes de se acalmar. Havia algo nas pequenas expressões no rosto de seu avô que a fez repensar. Isso mesmo, sem falar que ele também seria um alvo se sua origem fosse conhecida, suas viagens e estilo de vida não eram adequadas para criar uma criança. Ela olhou para Shizune, que apenas ouvia à tudo sem qualquer expressão –Afinal, ela já havia contado tudo para ela um ano atrás, quando ela fez seu juramento à ela. Talvez ela pudesse deixar o menino com ela, enquanto ela fazia as missões do Hokage?
Ela logo balançou a cabeça, espantando aqueles pensamentos. Seu avô se levantou e caminhou até a janela no canto do escritório. A fraca brisa bagunçou seus cabelos brancos. Tsunade silenciosamente pescou outra garrafa de um pergaminho, apesar do olhar de aborrecimento de Shizune.
—Quanto a Madoka...você nunca mais a viu?
Ela suspirou.
—Ela aparecia esporadicamente nos primeiros anos, mas... à última vez que eu a vi foi no dia da graduação do menino. Nós conversamos enquanto ela ficava o observando de longe. Nunca vi olhos tão tristes e orgulhosos ao mesmo tempo. Orgulhosa por seu próprio filho estar vivendo uma vida feliz, e triste por não poder fazer parte dela.
—Então você não sabe se ela ainda está viva?
Tsunade balançou a cabeça.
—Não tenho certeza, mas...a conhecendo... aniue deve estar...
—Eu sei. Eu a conheço melhor do que ninguém. — Ela ouviu o que parecia um suspiro da boca do seu avô. – É o suficiente por hoje. Vocês podem descansar. Amanhã as levarei de volta para o País da Água.
Tsunade olhou para as costas viradas de Tobirama com o cenho franzido, antes de se levantar e sair do escritório com Shizune. Apesar da expressão indiferente de Tobirama, ela conseguiu notar a forma como seus ombros estavam curvados depois de toda aquela conversa. Era como se o número de fantasmas que ele carregasse tivessem aumentado.
Tsunade olhou para os corredores frios e vazios, esse perguntou quantos dos seus fantasmas a visitariam naquela noite.
Ela teve uma noite sem sonhos.
—______________
Tsunade e Shizune retornaram à Floresta enevoada do País da água na manhã seguinte, embora Tsuna-chan — muito mais velha e muito mais sábia do que a sobrinha-neta prestes a se atrasar para a Academia que Tobirama se lembrava — o abraça brevemente antes de se separarem oficialmente.
—Vou sentir sua falta, Tobira-ji.
E brevemente, porque ele sabe que o Tobira-ji pelo qual Tsunade chorou nunca voltou para casa depois da guerra, ele a abraça de volta.
Ele oferece a Shizune um aceno de cabeça, breve também, sem palavras, mas não há muitas palavras para trocar entre eles.
‟Tenha cuidado em suas viagens” É algo que até ele sabe que não é muito apropriado dizer em situações como essa. Todas as pessoas que ele havia dito essas palavras não voltaram.
Nenhuma palavra é trocada entre eles, mas ele acha que sua neta entende mesmo assim.
Eles estão lá, um momento, delineados na névoa e no sol da manhã.
Um momento lá, o próximo momento se foi, enquanto Tobirama se esvaía como névoa.
Tsunade olhou para o local onde seu avô estava há momentos atrás, antes de suspirar e olhar para os pergaminhos que ele havia colocado em seu bolso durante o breve abraço. O primeiro estava relacionado à conversa desconfortável que eles haviam tido de manhã. Continha o DNA do próprio Tobirama, e seria usado para cultivar o clone que ele queria que ela fizesse, um corpo que seria bem mais conveniente e durável que possuir corpos de estranho. Porém, levaria pelo menos quatro anos para amadurecer completamente em uma forma adulta. Quanto ao outro pergaminho...ela o abriu naquele momento.
O enorme selo vermelho de Hiruzen, significava que provavelmente era uma missão. A letra do Sandaime mostrava que era algo que ela não iria gostar. Quando ela terminou de ler, ela suspirou. Como ela odiava estar certa.
Ajudar na rebelião de Kiri, e fazer um acordo político por baixo dos panos com a próxima Mizukage...aquele tipo de movimento político, não era costumeiro do seu mestre. Ela ficou pensativa.
Por mais que ela o respeitasse, Hiruzen era um governante hesitante demais. O incidente dos Hyuugas ainda estava fresco em sua memória e a forma como ele lidou com ele. Até o incidente do massacre Uchiha que aconteceu um ano atrás parecia estranho para ela. Esse tipo de jogada política... aproveitar o caos em um País para eleger um governante aliado que se alinharia com seus interesses...só havia um homem que faria algo do tipo...o Nidaime Hokage.
—Você continua um bastardo traiçoeiro, Oji-san...como eu senti sua falta...-Ela murmurou para o ar, enquanto transformava o pergaminho em cinzas. Tsunade se lembrou do seu gentil avô Hashirama e irmão Nawaki. Pessoas que pareciam emanar o calor de verão — Somente conspiradores como nós podem sobreviver à morte e ao inverno...Talvez por isso eles estejam mortos, enquanto nós estamos aqui...ainda tentando viver.
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Dias atuais – Konoha em chamas.
A única coisa que os olhos escarlates de Tobirama enxergavam era uma espessa cortina de fumaça cobrindo Konoha. Ele estreitou os olhos sob a máscara. O que havia acontecido?
Com um selo de mão, seu chakra se espalhou por Konoha como ondas em um lago, e apenas um pensamento preencheu sua mente. Que terrível. Seus sentidos foram preenchidos com o chakra violento do conflito entre shinobis, e uma intensa névoa de intenção assassina.
Seus olhos se voltaram na direção onde ele sentia os resquícios inexistentes do chakra de Naruto. Concentrando chakra nos olhos para aumentar sua visão, seus olhos obscurecidos pela máscara brilharam com um tom de vermelho ainda mais doentio, como sangue. Ele enxergou o exato momento em que um homem mascarado se esvaía em um vórtice, com o corpo inconsciente de Naruto no ombro.
Em um borrão, o trio surgiu no mesmo telhado. Shizune quase se curvou, parecendo prestes a vomitar sob sua máscara pelo uso repentino do Hiraishin. Tsunade apenas lutou contra a sensação fantasma de tremores em seu corpo, enquanto olhava para o telhado coberto de sangue e corpos.
Seus passos ecoaram enquanto Tobirama caminhava pelo telhado encharcado de sangue. Ele parou ao lado corpo de uma garota mergulhada em sangue.
—Ela ainda tem uma fagulha de chakra restante...você pode salvá-la? Tenho certeza que ela é uma pessoa importante para ele...e para você.
As palavras de Tobirama a despertaram de suas dores fantasmas, e Tsunade ficou momentaneamente confusa, antes de avaliar a menina encharcada de sangue. Seu rosto simétrico estava coberto pelos seus fios de cabelos azuis, e sua pele beijada pelo sol estava pálida, como um fantasma, enquanto sangue escorria do seu peito. A garota era importante para ela?
Ela mal registrou esse pensamento, antes de ver Shizune passando ao seu lado como um borrão. A morena mal se pronunciou, antes de desamarrar o haori encharcado de sangue da garota. Sua mão foi coberta por um bisturi de chakra, enquanto Shizune fazia uma incisão precisa sob sua quarta costela. Sem hesitar, a mão dela afundou pela incisão, até ela estar segurando o coração dela entre as mãos. Logo, um chakra esverdeado cobriu sua mão.
Tobirama caminhou até à beira do telhado, apenas para ser parado pela voz de Tsunade.
—Espere... O menino, onde ele está?
—Ele não está mais em Konoha. – Vendo Tsunade inclinando a cabeça de forma confusa, Tobirama continuou com seu tom monótono -Não se preocupe. Eu já o marquei. Não importa em que buraco escuro ele seja levado, eu o encontrarei.
A máscara em seu rosto não permitiu Tobirama ver o cenho franzido de Tsunade.
—Mas-
Ele a cortou.
—Deixo Konoha para vocês duas.
Tsunade só pode suspirar de frustração ao ver seu avô desaparecendo em um borrão.
Ela se virou, apenas para ver Shizune ainda massageando o coração da menina. Tsunade mordeu os lábios, lutando contra a sensação de desconforto rastejando por seu corpo ao ver o líquido escarlate. Mesmo depois de tantos anos, ela ainda sentia seu estômago revirar com a visão. Tinha melhorado muito, obviamente. Nos primeiros anos ela mal conseguia se mover com a visão. Mas agora, depois de anos de treinamento mental, constantes conflitos e diversos momentos à beira da morte, ela só tinha que lidar com uma sensação nauseante atravessando seu corpo. O tórax da menina inflava cada vez que Shizune injetava chakra Raiton para estimular diretamente as suas células cardíacas. Vendo o esforço dela, Tsunade não pode deixar de perguntar.
—Shizune, quem é essa menina?
Ela não respondeu, parecendo demasiado concentrada. Quando Shizune finalmente retirou a máscara no seu rosto para injetar ar diretamente pela boca da garota, Tsunade arregalou os olhos. Shizune estava...chorando.
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Em um redemoinho, o homem mascarado apareceu como um fantasma, com um corpo inconsciente no seu ombro. Sombras cobriam seu corpo, enquanto à luz da lua mal penetrava os galhos das árvores daquela floresta na fronteira do País do Fogo.
Muito lentamente, o tronco da árvore ao seu lado se abriu, enquanto uma dualidade ambulante, na forma de um homem coberto de cores negras e brancas, surgia.
—Zetsu.
O homem ambíguo apenas riu de forma depreciativa. Quando ele falou, duas vozes soaram ao mesmo tempo.
—Você demorou...Madara.
Um som de escárnio soou sob a máscara em espiral do homem chamado Madara.
—Alguns insetos tentaram me impedir. Nada demais.
A absoluta indiferença em sua voz era assustadora, como se o sangue escorrendo de suas mãos fosse inexistente.
—E o Jinchuuriki?
—E quanto a ele?
As vozes falaram ao mesmo tempo.
—Agora que o capturamos, o que faremos com ele? A Gedou Mazou não aguentaria o chakra da Nove Caudas, se não seguirmos a ordem de extração. O problema é que a organização precisa de pelo menos dois ou três anos para recrutar mais membros e fundos. Não podemos falhar. Para a execução do plano dele...ainda não estamos preparados.
Madara ficou em silêncio, mas era possível ver uma pequena tensão nos seus dedos.
—Plano dele? Você acha que eu não sei? O plano original era capturar o garoto por último, mas...a velocidade de evolução dele é assustadora demais, em dois anos...é difícil dizer quão forte ele se tornará.
O lado branco falou sozinho dessa vez, havia um tom irritante de deboche na sua voz.
—Você está com medo do menino?
Um olho vermelho se virou para Zetsu. Havia uma loucura nele que o fez se sentir arrepiado.
—Não seja tolo. Mesmo em mil anos, ele não representará uma ameaça para mim. Mas há algumas coisas nesse mundo que é melhor fazer quando você pode fazer. Por que passar por problemas?
Enquanto o lado branco ainda estava suando frio, o lado negro se pronunciou.
—Você está certo, mas...o garoto é companheiro de time do irmão dele. Sem falar que prometemos não interferir com Konoha. Itachi...é difícil saber o que ele fará quando descobrir que o capturamos.
O mascarado pareceu pensativo dessa vez.
—Não importa. Eu lidarei com ele.
—Tudo bem então....e o que fazer com o menino?
—O que fazer? Não é realista o manter aprisionado por dois ou três anos. Há muitas variáveis a considerar. E não podemos selar ele na Gedou Mazou. Eu poderia tentar fazer lavagem cerebral nele com meu Mangekyo...da mesma forma que o Mizukage, mas... A nove Caudas é tão imprevisível quanto o menino. É impossível garantir que ela não faça nada.
—Então...?
Madara pareceu pensar por um instante.
—Prepare um corpo de Zetsu branco. Esses corpos são bastante resistentes e poderosos. Devem suportar o chakra de metade da Nove caudas. E as células especiais devem permitir suprimir e controlar o poder da Bijuu mais facilmente.
Zetsu pareceu pensar sobre aquilo.
—Isso...deve funcionar. Vou preparar a cerimônia. –O lado negro ficou em silêncio por alguns momentos, antes de olhar para as sombras de uma árvore – Quanto à nossa companhia...
—Você pode ir. Eu mesmo lidarei com esse incómodo.
O homem planta o olhou de forma fixa, antes de mergulhar silenciosamente na árvore.
Enquanto isso, Madara se virou. Seu olho vermelho permitindo enxergar à floresta escura como se fosse de dia.
—Você sabe...ratos não vivem muito tempo no Mundo Shinobi. Como você quer morrer?
Nada além de silêncio o respondeu. Uma brisa soprou pela floresta, balançando às folhas das árvores. Uma kunai apareceu em sua mão livre.
—Eu só preciso do Jinchuuriki vivo, não inteiro. Nesse caso, o que você fará se eu arrancar os olhos do menino? Afinal, um cadáver ambulante não precisa deles.
Como um borrão a kunai se moveu em direção aos olhos do corpo inconsciente em seu ombro. Um brilho metálico cortou pelo ar, enquanto à kunai estava prestes à mergulhar no olho direito de Naruto. Quando nada mais do que um fio de cabelo os separavam, a Kunai parou de se mover.
Uma mão forte envolveu o pulso de Madara. Seu único olho visível estava fixo no ANBU encapuzado diante de seus olhos. A única coisa visível na sua máscara de onin, era um par de olhos vermelhos como lagos de sangue. Madara logo se lembrou da última visão que teve de Konoha.
Olhos vermelhos, o encarando como se fossem sugar sua alma.
—Fim do jogo. Kamui.
Seu único olho brilhou como um farol, enquanto um vórtice absorvia tudo à sua volta, como um buraco negro, até não restar nada. O menino e o ANBU se esvaíram em nada.
Madara ficou parado no meio dos troncos das árvores, com uma expressão indecifrável no rosto mascarado. Uma única palavra saiu da sua boca.
-Eu falhei. Como?
Ele olhou para o encapuzado que estava parado à dezenas de árvores de distância, com um menino inconsciente no ombro esquerdo. No breve milésimo de segundo que ele estava os absorvendo, de alguma forma ele conseguiu pegar o jinchuuriki em seu ombro e se afastar. Madara finalmente franziu o cenho. O homem encapuzado parecia estranhamente inofensivo, e sua postura parecia estranhamente desleixada e aberta a ataques. Ele quase poderia acreditar que era um homem inofensivo, se não fossem os olhos. Eram vermelhos, como um par de katanas cobertas de sangue. A cada momento, ele se sentia afogando cada vez mais, e ele logo teve a visão de um demônio caminhando em meio à lagos vermelhos recheados de corpos.
—Que pergunta sem sentido...-Havia algo na indiferença na sua voz, que o lembrava de confiança fria. Apenas um homem o lembrava aquela mesma sensação – Você realmente...não tem noção do perigo.
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