Gênesis
21 Nami no kuni - Ambiguidade
Notas iniciais
Inari se remexeu desconfortavelmente, sentindo os músculos das suas pernas queimando intensamente por estarem horas naquela posição, mas mesmo assim não desistiu, continuou se concentrando, vasculhando em cada célula do seu corpo a sensação de calor que o seu Sensei tanto falava, o tal chakra, ele continuou procurando, ignorando o vento ameno da manhã — que entrava pelas janelas abertas, batendo no seu rosto, e aquela voz perguntando a cada dois minutos se ele havia conseguido.
— Então… você conseguiu?
Inari bufou, inconsciente de que essa acção fez com que o seu "Sensei" soltasse um suspiro.
— Eu realmente não vou conseguir com você me perguntando a cada minuto… Nidaime-Sensei…
— Eu já falei pra não me chamar de "Nidaime-Sensei"…
— Foi mal… — Ele continuou de olhos fechados, mas um leve sorriso adornava o seu rosto – mas é que… bem, você é uma espécie de Sensei substituto, e eu meio que achei o nome apropriado…
Kakashi suspirou, se perguntando porque diabos decidiu treinar, por uns tempos, aquele garoto… a resposta veio quase que automaticamente… Naruto…
Quer dizer, era realmente irritante ver aquele garoto passando o dia inteiro no quarto do loiro, sentado com as pernas cruzadas e fitando o rosto adormecido de Naruto com um olhar tão determinado, que até beirava a insanidade… Quando Kakashi perguntou o que ele estava fazendo, a única coisa que ele disse foi que estava esperando Naruto acordar para continuarem o treinamento.
Logo depois, Kakashi perguntou o porquê dele estar tão ansioso por isso, e o que Inari fez, foi dizer, com uma postura e olhar que não condiziam com a sua idade que: na última semana em que Naruto vivia desaparecendo, ele havia parado de treinar ele.
Enfim… tudo isso, somado ao simples e óbvio facto de que Kakashi não tinha nada realmente útil para fazer — ele já tinha relido a sua colecção do Icha Icha umas cinco vezes – o levavam a situação atual… ele, Hatake Kakashi, o ninja copiador, o considerado Jounnin mais poderoso de Konoha, tentando ensinar um pirralho de seis anos a manipular chakra…
— Pare de falar e se concentre… — Kakashi segurou um sorriso, ao ver a expressão de Inari passar de brincalhona para o mais séria que uma criança de seis anos poderia fazer, tudo isso em um piscar de olhos.
Sem se aperceber, o suor começou a escorrer pelo seu rosto, mesmo com o pequeno frio que fazia, afinal o sol havia nascido faz pouco tempo — provavelmente eram sete horas. Inari mergulhou ainda mais no seu corpo, desvendando a estrutura de cada célula do seu ser, a um nível quase molecular, e lentamente, conseguiu perceber que elas estavam firmemente unidas por uma estranha energia, até formaram os seus tecidos… ele se concentrou em tentar extrair essa energia… e meia hora depois, quase que se deixou adormecer a medida que sentia aquela energia, reconfortante como mel, começando a preencher o seu corpo…
— É… quente… — Inari falou em sussurro, não confiando plenamente na sua voz – Quase como… uma manta quente me envolvendo num dia frio…
Kakashi quase riu, mas a analogia de Inari, apesar de um tanto idiota, realmente indicava que ele estava conseguindo.
— Muito bem… agora tente extrair essa energia, para facilitar, pense no seu sistema circulatório como sendo um vaso e a energia sendo a água… você deve, lentamente, preencher o vaso…
Inari assentiu, e se concentrou nessa tarefa por mais meia hora. A princípio, talvez pela pressa, ele tentou preencher rapidamente, mas então percebeu que ele devia ter a calma e paciência e precisão de um cirurgião, e aquilo era tremendamente difícil, oras ele tinha apenas seis anos. Ficar mais de dois minutos simplesmente parado, exigia que ele ignorasse mais de um milhão de instintos infantis, que gritavam para ele sair correndo por ai. Era um esforço descomunal.
Enfim…
Depois de mais uns minutos naquela tarefa, Inari sentiu um assustador e, ao mesmo tempo, puro poder percorrendo cada fagulha do seu ser… era simplesmente incrível, ele se sentia como se pudesse fazer coisas incríveis… e então, finalmente percebeu, o porquê dos shinobis serem realmente fortes…
— I…incrível… — Inari fitou afiadamente as próprias mãos, por um instante, como se conseguisse ver a esmagadora energia que fluía pelas suas veias.
Ele esperava que Kakashi o felicitasse, mas o que aconteceu logo a seguir realmente o surpreendeu…
— Interessante…
Foi a única coisa que Kakashi disse, não dava pra dizer claramente o que ele estava sentindo, pois estava com uma expressão neutra no rosto mascarado. Mas os seus olhos estavam com um brilho distante, como se estivesse pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo.
— Interessante…? – Inari repetiu as palavras de Kakashi, com o cenho franzido – É tudo que você tem a dizer?
Kakashi foi perdendo, aos pouco, o brilho pensativo e a expressão desprovida de emoções, então, sorriu com os olhos, algo que Inari notou que ele fazia constantemente:
— Desculpe… é que o seu chakra me distraiu…
— Do que você 'tá falando?!
— Ah… nada, nada…
Inari olhou para ele, meio irritado e confuso e curioso e muitas outras misturas de sentimentos, com milhares de perguntas rondando a sua cabeça, e quando estava prestes a abrir a boca, o repentino e agudo som de um grito cortou os seus pensamentos…
Ele gelou, reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Era sua mãe que havia gritado.
Quando ele assimilou esse pedaço de informação, quase que instintivamente, se levantou e correu em direcção ao andar de baixo, pulando sobre o corpo inerte de Naruto e, no caminho puxou a espada de madeira que estava encostada na parede ao lado da porta…
— Inari, espere!
Kakashi tentou se levantar, mas a dor latejante na sua perna fez com que ele voltasse a sentar. E então, os seus dedos tatearam a parede ao seu lado, até achar as suas muletas.
Quando ele chegou no andar de baixo, ele prendeu a sua respiração… e deixou, quase que mecanicamente, que o seu cérebro absorvesse os detalhes diante dos seus olhos arregalados…
A porta da frente estava parcialmente destruída, de modos que a única coisa que restava era um bocado de madeira presa nas dobradiças… até ai tudo bem. Dois homens, carregando espadas, estavam segurando Tsunami pelos cabelos, dai os gritos. Nada bem.
E Inari estava os encarando, as pernas levemente abertas e a espada de madeira diante do seu pequeno corpo, ele estava tremendo como uma vara, a princípio Kakashi achou que era pelo medo, mas tão logo viu a expressão no rosto do garoto, ele mudou de ideia… ele estava tremendo de ódio.
— Soltem a minha mãe!
O maior deles, com um tapa-olho e o corpo coberto de tatuagens tribais azuis, puxou ainda mais violentamente o cabelo de Tsunami, ela gritou de dor.
— Se não o quê? – Ele sorriu, com uma estranha cicatriz nos contornos da boca, de modo que todos os seus sorrisos pareciam sempre serem estranhamente macabros – Vai fazer birra até nós a soltarmos?
Inari estreitou os seus olhos o mais possivelmente. – Se não a soltarem, eu vou bater em vocês!
Os espadachins, por um instante, ficaram assustados com a fala do garoto, apesar de ele aparentar ser um tanto inofensivo havia qualquer coisa nele que provocava um arrepio na espinha deles, era quase como um gato ou um cachorro eriçando os pêlos para parecer maior e mais forte, mas é claro, eles eram dois homens, praticamente adultos, e nunca admitiriam que um pequeno garoto os assustava.
Então, eles apenas riram do garoto.
— Sabe… Aoi, eu estou com vontade de cortar alguma coisa… – Falou o com o tapa-olho, enquanto que com a sua mão livre, desembainhava lentamente a sua espada, milímetro por milímetro, provocando um som arrastado parecido com um grito, ao deslizar a sua espada pela bainha – Algo como… esse garoto aqui…
— Tsc, eu realmente odeio esse seu hábito… Endo — Aoi, o outro espadachim, de cabelo azul, falou, parecendo levemente irritado, mas nada indicava que ele impediria o seu companheiro…
— Então… eu posso cortá-lo…?
— Tsc, como quiser…
— Kakashi! – Tsunami gritou, com uma trilha de lágrimas escorrendo pelo rosto, ela olhou o mais suplicadamente para o Jounnin – Faça alguma coisa!
Kakashi fez menção de se mover, aqueles dois eram apenas espadachins comuns, não eram shinobis, logo não seria nem um pouco difícil derrotá-los, mesmo com a perna ferida. E ele não pode impedir o pensamento de que mesmo se estivesse amarrado e com todo o corpo ferido, enfim… mesmo que estivesse morto, ainda assim seria estupidamente fácil matá-los… Por isso, ele só conseguiu ficar surpreso quando Inari estendeu o braço em sua direcção, em um gesto para que não se movesse, e proferiu aquilo…
— Não interfira, Nidaime-Sensei… eu consigo derrotá-los…
A ideia era tão surreal que ele teve que se esforçar para não rir… sério, um garoto de seis anos, contra dois homens grandes como aqueles…? seria cómico se não fosse trágico…
— Inari, você enlouqueceu…?
Diante do silêncio do garoto, Kakashi estava prestes a acreditar na sua teoria, quando Inari falou, a voz tão calma e decidida, que até Kakashi duvidou, por um momento, que ele tinha apenas seis anos…
— Eles… estão machucando minha okaa-chan… e eu fiz uma promessa sabe… eu prometi ao Naruto-Sensei que protegeria as minhas pessoas preciosas com esses braços, com essas pernas… em suma, com esse corpo, nem que para isso eu morra… ao menos eu terei morrido lutando…
O rosto de Kakashi passou por um misto de emoções, choque, surpresa, confusão e, por fim, entendimento… aquele garoto, a partir do instante em que Naruto lhe entregou aquela espada de madeira, ele deixou de ser uma criança comum, ele passou a ser um homem…
Por isso, a única coisa que Kakashi fez, foi dar um passo para trás. Consciente do olhar horrorizado de Tsunami, ao ver o seu garotinho, prestes a enfrentar aqueles espadachins. Kakashi tentou passar pelos seus olhos, que ela devia se acalmar… não funcionou realmente…
— Inari! O que você…
Antes que ela terminasse a frase, um estalo seco percorreu o local, Inari só pôde olhar horrorizado para o espadachim que havia golpeado Tsunami no pescoço, desacordando-a.
— Idiota! Não danifique a mercadoria… — Aoi falou, parecendo verdadeiramente irritado.
— Foi mal… mas ela já estava me irritando…
— Tsc, sabe… depois de cortar esse garoto, o que nós vamos fazer com ela…?
— Quem sabe… você já viu o rosto dela…? – Aoi assentiu, com um sorriso estranho dividindo o rosto — Ela é realmente bela… a gente pode entregar ela para o idiota do Gatou, como ordenado ou… talvez a gente ganhe uma boa grana vendendo ela para aqueles pervertidos da capital… ou quem sabe… podemos… — Ele nem precisou terminar o que pretendia dizer, o sorriso lascivo no seu rosto já dizia tudo…
O seu companheiro sorriu:
— É… parece ser um bom plano…
Mesmo não entendendo metade do que eles haviam dito – afinal ele só tinha seis anos – Inari sentiu o seu sangue ferver, a única coisa que lhe passava pela cabeça, era que eles haviam machucado sua mãe… e agora deviam pagar por isso…
Ele apertou a espada firmemente entre as mãos, com a sua expressão sendo oculta pelo chapéu que lhe caía a frente dos olhos, dando-lhe um ar sombrio. E com o que pareceu ser um grito silencioso, Inari atacou.
Quando Endo viu o garoto correndo em sua direcção, ele simplesmente levantou a sua espada, com um sorriso macabro brincando no rosto e então, desceu, tentando cortá-lo tão rápido quanto uma guilhotina…mas não rápido o suficiente.
Inari simplesmente rolou o seu pequeno corpo para o lado, sentindo a espada passar zunindo ao lado da sua cabeça ao cortar o ar e quando a espada tocou o chão de madeira, fez com que algumas lascas de madeira respingassem. Mas então, aquilo aconteceu…
Kakashi não soube dizer se foi pela surpresa, ou se foi por eles terem simplesmente subestimado Inari, mas aquilo terminou rápido, muito rápido.
O espadachim, ainda atordoado pelo movimento anterior, não teve outra reacção a não ser gritar de dor e largar a espada, quando Inari golpeou a sua mão com a shinai, com uma força e precisão anormal. Sem um único sinal de hesitação, com a sua outra mão, Inari apanhou a espada de Endo e a enfiou no seu estômago…
"Um espadachim, nunca, absolutamente nunca, deve largar a sua espada, não existe maior desonra que essa… a espada é uma extensão dos nossos objectivos, quase como se fosse um braço… você largaria o seu próprio braço…? é claro que não… do mesmo modo, largar uma espada é o mesmo que largar os nossos objectivos…"
Aquelas palavras… foram ditas por Naruto, mas ele nunca compreendeu quão profundas elas eram até naquele momento… Ao largar a sua espada, aquele espadachim havia desistido de lutar…e como tal, não tinha mais sentido em sua vida.
Inari sentiu o seu estômago se agitando estranhamente, ao ver o sangue, misturado com ácido gástrico escorrendo do corpo do espadachim para o chão, manchando a madeira polida, ele se distraiu com aquela visão por uma fracção de segundos…
Segundos… eles haviam sido mais que suficientes para o outro espadachim estar em cima dele.
— Maldito, você vai pagar por ter matado o meu amigo!
Inari inclinou o seu corpo, vendo a espada passando ao lado do seu corpo, perto… muito perto, produzindo um som agudo ao cortar o ar… se ele fosse atingido, seria o fim…
Mesmo com Aoi balançando aquela espada, tentando cortá-lo, ele não conseguiu impedir que a sua mente divagasse, quer dizer, aquele espadachim, o mesmo que há um minuto atrás parecia ser alguém frio e indiferente, e que não se importava minimamente com o sentimento dos outros, estava agora, tentando cortá-lo, com os olhos acendendo de ódio, em busca de vingança.
E então a sua mente de apenas seis anos se apercebeu de algo que muitos sábios e pensadores nunca haviam notado… eles viviam se baseando nas suas crenças e conhecimentos, e rotulavam as coisas e pessoas, seguindo uma lógica questionável, e chamavam isso de "realidade", nesta mesma realidade classificavam tudo como simplesmente "bom" ou "mau", "trevas" ou "luz", mas essa realidade era um tanto ilusória, o ser humano é demasiado ambíguo para simplesmente ser rotulado dentro desses padrões, deste modo, mesmo um homem "mau" como aquele, que estava disposto a vender a sua mãe, ainda assim era capaz de possuir sentimentos e se afeiçoar a uma outra pessoa, o bastante para se abalar com a sua morte. Não era agradável de pensar?
Foi com esse pensamento que ele se esquivou de mais um golpe de Aoi, observando a espada passar acima da sua cabeça, quase arrancando o seu chapéu, e antes que ele sequer se apercebesse, Inari apertou o cabo da espada, e atacou as suas pernas, cortando profundamente a sua canela, até o osso, ela ficou ligada ao resto da perna por um frágil filete de carne.
Aoi gritou de dor, sentindo o seu corpo perdendo o equilíbrio e caindo pesadamente no chão, provocando um som abafado.
Inari começou a caminhar lentamente em direcção ao espadachim, com o seu macacão manchado pelas gotas de sangue, e com os olhos semicerrados, como de um animal feroz. Ele estava estranhamente consciente do olhar horrorizado no rosto de Aoi, ao vê-lo arrastando o afiado corte da espada de metal no soalho, deixando um trilho riscado na madeira.
— P-por favor! Espere…
" Gostaria de ver Naruto-Sensei lutar contra esses vermes…"
Ele nem se preocupou em rir do seu próprio pensamento, apenas levantou a espada, e mesmo que os seus músculos protestassem, como se gritassem " não faça isso, você ainda é muito jovem", mesmo que doesse quase fisicamente, ele desceu a espada, a enfiando na garganta do espadachim. Inari sentiu ela penetrar através das camadas de carne e o sangue começar a respingar logo a seguir, como se viesse de uma fonte. Em menos de cinco segundos, todo aquele piso de madeira polida estava manchado de vermelho. Ele encarou os olhos do espadachim, sem brilho.
Não aguentando mais, Inari se debruçou e vomitou, sentindo as suas entranhas se revirando fervorosamente no seu interior…
Inari ficou cerca de dez segundos parado, debruçado sobre uma poça disforme de vómito, o seu olhar estava vidrado, como se estivesse processando aquela situação. Ele havia matado duas pessoas. Ele tentou experimentar o sentimento de culpa. Nada. Ele não sentia absolutamente nada, a não ser os seus intestinos se remexendo no interior, e aquilo o assustou por um instante, mas ele acabou por atribuir aquilo ao fato evidente de que ele havia feito aquilo para proteger suas pessoas preciosas, tal como o seu Sensei o tinha ensinado…
Ele se convenceu de que era o mais acertado, ele tinha feito aquilo para proteger a sua mãe. Eles iam vendê-la! A sua mãe, a pessoa que sempre sorria docemente para ele, nos momentos mais difíceis. A sua mãe, a pessoa que era o seu porto seguro… eles iam simplesmente vendê-la! Como se fosse um produto qualquer… o que queriam que ele fizesse?! Que ele fugisse com o rabo entre as pernas, como um covarde?!
Eles tinham que morrer. Ponto final.
Mas se houvesse uma causa para ele fazer aquilo além de simplesmente sua sobrevivência, se por acaso os espadachins merecessem, sua consciência pesaria bem menos. Tudo seria menos difícil. Não que realmente fosse difícil…
— Inari… você…
O garoto levantou o seu olhar sobre a poça de vómito, encontrando o rosto chocado de Kakashi, Inari apenas sorriu fracamente, e murmurou com um olhar vago, como se estivesse citando uma frase de um livro muito antigo:
" Matar para deixar outros viverem. Essa é a verdade por detrás do Kenjutsu"
***
Quando Tsunami acordou, ela se apercebeu que além da sua cabeça latejante, ela estava deitada no seu quarto, em sua cama. Ela ergueu, com uma suavidade quase felina, o tronco, o que fez com que os lençóis deslizassem para o seu quadril.
E quase inconscientemente, levou a sua mão até a nuca, tateando o local, tão logo fez isso, descobriu que os seus cabelos estavam melados e grudentos por um líquido vermelho, era… sangue… aquela simples constatação, fez com que o seu cérebro fosse inundado por memórias que ela gostaria de esquecer… e então, o pânico, assim como uma terrível dor de cabeça, se abateu sobre o seu corpo.
Ignorando a excruciante dor que sentia, ela se levantou da sua cama, sentindo o seu corpo quase cair ao tocar o chão frio, ela inspirou, profundamente, o ar frio que entrava pela janela aberta, esperando que a tontura passasse e o mundo à sua volta parasse de girar, depois de segundos, a tontura diminuiu significativamente, e então, ela começou a caminhar o mais rapidamente possível para a sala, quase tropeçando no caminho, quando estava no meio do corredor parou por um instante, se perguntando o que faria se eles ainda estivessem lá… esse pensamento fez com que uma onda de adrenalina percorresse o seu corpo, deixando-a estranhamente desperta e a levasse até o quarto do seu pai.
Ao encontrá-lo vazio, ela sentiu um sorriso de alívio dividir o seu rosto, sentindo os seus músculos relaxando levemente, ela agradeceu a todos os Deuses que conhecia por o seu pai estava seguro na ponte, sendo protegido por Sasuke e Sakura. Ela caminhou até a cama de Tazuna.
Debaixo da cama, em uma caixa de madeira rectangular, estava o orgulho do seu pai, uma espada, que ele guardava desde que ela se lembrava…
Apesar de não saber usar aquela espada, aquele instrumento deu-lhe a confiança necessária para descer as escadas e ir para a sala… mas o que ela viu, fez o seu estômago se embrulhar…
Todo o chão de madeira polida estava manchada de vermelho, e o corpo dos dois espadachins estavam no chão, inertes… pela falta de palavras que lhe vieram em mente, ela simplesmente resumiu tudo aquilo em uma simples palavra… mais que exprimia simplesmente tudo o que passava no seu âmago…horrendo… algo simplesmente horrendo, e que parecia remexer profundamente com os sentimentos mais primitivos do ser humano, e a natureza da crueldade em si, ela soube de cara, que ela nunca ia esquecer aquela cena.
Não conseguindo mais aguentar, ela largou a espada, provocando um tinido quando o metal tocou o chão, e simplesmente vomitou, vomitou todo conteúdo no seu estômago até ele começar a doer… alguns fios de seu cabelo negro caíam diante do seu rosto, se misturando com aquele emaranhado de vómito…
Ela limpou os resquícios de vómito que escorriam pelo canto de sua boca, e então simplesmente se levantou e subiu novamente as escadas, dessa vez indo em direcção ao quarto de Kakashi e Naruto, ela não se importou em bater, simplesmente chutou a porta, quase a arrancando das dobradiças… e o que viu quase a fez corar violentamente, mas ela apenas continuou com sua cara irritada.
— O…o que aconteceu aqui?!
Naruto estava terminando de colocar a parte de cima do quimono azul-marinho quando Tsunami entrou no quarto, chutando a porta. Diante da pergunta dela, ele simplesmente terminou de amarrar, calmamente, a faixa negra em torno do seu quadril, enlaçando o fino tecido, fazendo os nós necessários para que o quimono ficasse firmemente preso… O loiro estava prestes a abrir a boca, quando Inari, sentado em um canto escuro do quarto decidiu se pronunciar:
— Eu os matei…
— O quê? – Ela passou os seus olhos rapidamente pelo quarto, tentando achar algum traço – por menor que fosse, de mentira nos rostos sérios de Kakashi e Naruto… ela não encontrou.
Inari voltou a falar, com a voz mostrando sinais de choro:
— Eu os matei…
— Isso… é verdade? – Tsunami sentiu os seus olhos arderem, com as lágrimas ameaçando deslizar pelo seu rosto, diante da simples possibilidade do seu garotinho ter feito algo tão horrível quanto aquilo…
Kakashi desviou o olhar para o seu livro, como se não conseguisse encará-la. E o olhar vago no rosto inexpressivo de Naruto já dizia praticamente tudo.
Tsunami arfou, e ficou cerca de três segundos em silêncio, absorvendo aquela pequena informação, ninguém se atreveu a falar alguma coisa, e então, ela começou a caminhar em direcção ao loiro com passos rápidos, e antes que Naruto dissesse qualquer coisa…ela simplesmente deu um tapa no rosto do loiro, a região ficou logo vermelha…
— Tsunami-San eu…
— Cale a porra da boca! – Ela falou com um trilho de lágrimas escorrendo pela face, apertou o quimono do loiro pelo colarinho e fixou os seus olhos ónix nos dele, com seus narizes a centímetros de se tocarem – Eu não quero ouvir nenhuma desculpa, você… você transformou o meu filho num… num assassino!
— Eu… — Ele abriu a boca, os olhos estranhamente vidrados, não demonstrando qualquer emoção — não tenho como negar isso…
Ela apenas continuou a encarar o loiro, com os olhos afiados e cruéis como de uma loba, protegendo os seus filhotes de uma ameaça. Eles continuaram assim por mais dez segundos, em um silêncio desconfortável, sendo envolvidos por uma tensão quase palpável.
— Okaa-chan… você está zangada comigo?
Inari olhou para ela lacrimejando, e ele não pôde deixar de pensar que a sua mãe provavelmente estaria com nojo dele, ele era um assassino… mesmo tendo apenas seis anos ele havia matado duas pessoas, as suas mãos estavam manchadas de sangue, ela provavelmente já não o queria e o expulsaria de casa… esse pensamento em particular fez com que os seus olhos lacrimejassem ainda mais, e ele ficasse ciente do peso da resposta de Tsunami.
Ela estava prestes a dizer alguma coisa, mas ao ver o olhar horrorizado de Inari, ela suavizou a sua expressão:
– Não, é claro que não querido… venha…
Inari se aproximou hesitante, como se ela fosse um animal selvagem que iria atacá-lo a qualquer momento, mas diante do sorriso que nasceu no rosto dela, ele afastou esses pensamentos. Ele sentiu o corpo quente de Tsunami o envolvendo naquele dia frio, e quase instantaneamente, ele relaxou, com um sorriso aliviado dividindo o rosto, ao ser perfeitamente aninhado nos braços de sua mãe… era uma sensação diferente, ele quase conseguia sentir o amor incondicional que ela nutria por ele…
Ele não soube dizer se passaram minutos ou segundos naquela posição, mas Inari afastou a sua cabeça e olhou nos olhos da sua mãe, com a profundidade que só uma criança podia ter:
— Okaa-chan…não fique zangado com Naruto-Sensei… se não fosse por ele, eu ainda seria um covarde…
Ela forçou um sorriso:
— Eu sei disso mas… eu só… não esperava que ele ensinasse você a matar…
A voz anormalmente monótona de Naruto soou pelo quarto, se propagando na mesma medida que o som do vento, insistente, que entrava pela janela aberta…
— Tsunami-San, eu ensinei Inari a brandir uma espada, para que ele deixasse de ser chorão e pudesse proteger as suas pessoas preciosas…
— Eu sei… — Ela, lentamente, afastou o seu corpo do de Inari, e passou a encarar o loiro, que não pareceu se abalar pelo olhar frio no rosto de Tsunami — mas eu não queria que ele…
— Porque você acha que eu ensinei ele a usar uma espada? Por mais cruel que possa soar, não foi para ele cortar lenha… — Ele deixou a frase por um tempo no ar, inconsciente do quanto todos os olhares no quarto convergiam fervorosamente para si — espadas são armas, e técnicas de espadas são técnicas de assassinato, não importa o quanto disfarcem com palavras bonitas e heróicas, essa é a verdade por detrás do Kenjutsu… mas apesar de uma verdade amarga como essa, eu nunca quis que ele matasse alguém, pelo menos não tão jovem…
Tobirama sabia que se ele não fosse um espectro, ele teria chorado fortemente ao ver o seu discípulo falando tão lindamente sobre espadas, vida e morte, como se tivesse a sabedoria de milhares de sábios.
— Naruto-San eu…
— Não… tudo bem… eu entendo que isso não deve ser algo fácil pra você… — Ele forçou um sorriso e se virou, começando a caminhar em direcção a janela do quarto – eu só preciso de… dar uma volta…
— Não brinque… — Ela olhou para ele afiadamente — onde você vai?
Naruto se virou e olhou para ela, e ele não se surpreendeu por não encontrar a costumeira afeição nos olhos de Tsunami, naquele instante, ele era como um estranho para ela…com um fraco suspiro, falou algo que fez com que a dor nos olhos dela diminuísse um pouco…
— Eu… vou matar Gatou…
Antes que Tsunami dissesse qualquer outra coisa, Naruto desapareceu em um flash de velocidade, deixando pra trás um pensativo Tobirama, e nada mais do que o cheiro metálico de sangue, cúrcumas e sal marinho, que juntos, formavam a inebriante fragrância daquela casa.
***
Naruto corria pelas árvores daquela densa floresta, com o seu corpo atravessando por entre a névoa com uma velocidade e suavidade sobrenatural, o seu quimono, esvoaçava ao sabor do vento, traçando uma invisível linha ao impulsionar o seu corpo sobre os finos troncos, cem vezes mais rápido e gracioso que um Shinobi normal.
Àquela insana velocidade, as minúsculas gotículas de névoa que o envolviam pareciam muito mais frias e castigavam a sua pele muito mais que o normal, mas os seus olhos vidrados, como o mar em uma fria noite de inverno, indicavam o quanto os seus pensamentos estavam distantes da realidade.
O olhar feroz no rosto de Tsunami trouxera o passado de volta, e o passado trouxera algo mais: lembranças sôfregas, oriundas de um tempo em que quase nenhuma criatura podia olhá-lo com qualquer fagulha de afeição.
A cada lembrança revivida, era como se uma lâmina invisível o atravessasse. E velhas feridas eram reabertas.
Pelo que pareceu ser um simples segundo, os seus olhos brilharam na escuridão da floresta, emitindo um fraco brilho azulado, mas com aquela névoa, pareceram ser luminosos como dois faróis. Mas em um repentino lampejo, voltaram ao tom escurecido. Ele sentia… era a Kyuubi no youko rugindo fervorosamente no seu interior, ansiosa por despedaçar alguma coisa.
" A sua mão está coçando, não está? Você quer retalhar aqueles vermes com as próprias mãos, e se for divertido, até com os próprios dentes… — Como se para ilustrar, a raposa sorriu dentro da escura e fria cela, exibindo uma fileira de dentes anormalmente afiados — eu posso te ajudar sabe… use o meu chakra gaki… e essa sensação vai desaparecer…"
"Fique quieta… Kyuubi… eu não vou soltá-la…"
Como se quisesse o provocar ainda mais, a raposa começou a reviver as imagens da sua solitária infância, muito antes de conhecer Tobirama. Flashes de memórias piscavam em seu cérebro, exibindo imagens enterradas tão profundamente na sua mente, que ele nem se atrevia a espiar. Ele sentia o velho buraco no seu coração se reabrindo, e como tal, estava sugando, lentamente, tudo que ele era, tudo que ele foi e tudo o que ele seria. Deixando nada mais do que uma sensação ruim. E ele sabia muito bem o que aquilo era. Ódio. Um ódio tão intenso, mas sem uma razão clara para usá-lo. Aquela simplesmente parecia ser a sua natureza naquele momento.
Naruto soltou um longo e doloroso suspiro. Ele precisava se acalmar. Ele repetiu internamente, como uma espécie de mantra. Eu já não estou mais sozinho. Eu tenho Tobirama. Eu tenho Iruka. Eu tenho Hinata. Eu também tenho os meus companheiros. Kakashi e… por mais que custe admitir, eu tenho Sasuke e Sakura. Ele não estava mais sozinho.
Quase que mecanicamente, ele sentiu aquelas sensações diminuírem gradativamente, mas não a ponto de desaparecerem. Mesmo assim, estava na hora de ele cumprir a sua promessa de libertar o Nami no Kuni, estava na hora da morte de Gatou.
Ele teve enfim que parar de correr pelas árvores. Rodou os seus olhos pelo local, ele estava no meio de nenhures, era cercado por nada mais do que uma densa vegetação e o seu cérebro não conseguia assimilar nenhum detalhe que revelasse a sua localização. Ele soltou, novamente, um suspiro profundo.
O que diabos ele estava fazendo?! Estava parecendo o seu velho eu. Correndo por ai que nem um idiota.
Ele parou, por um instante, para pensar. Vasculhando no seu cérebro por qualquer informação útil. E sentiu os seus músculos relaxando lentamente, a medida que sentia as frias gotículas de névoa grudarem na sua pele.
Segundo sabia, o esconderijo de Gatou, não era exatamente um esconderijo. Naruto não sabia se era por achar que ninguém ia atacá-lo ou simplesmente por burrice, mas todos sabiam exatamente onde ele se escondia.
Um gigantesco castelo, à Norte na floresta que havia nos limites do País das Ondas. Seria cómico se não fosse trágico.
Naruto apenas teve de procurar uma árvore alta o bastante para que pudesse ver toda a floresta. E depois de escalá-la, ele avistou, no horizonte, o enorme castelo. E dois minutos depois, ele estava correndo novamente.
Naruto teve que se controlar para não babar com aquela visão. Gigante. Foi a única palavra que lhe veio a mente ao estar diante dos enormes e pesados portões daquele castelo. Simplesmente gigante.
Uma colossal estrutura, com uma arquitectura que o lembrava, e muito, dos castelos dos senhores feudais. Naruto não conseguiu impedir o pensamento, de que para um homem tão pequeno, Gatou tinha um ego enorme.
Naruto se aproximou ainda mais do castelo, e encarou de perto aqueles gigantescos e pesados portões. Eram entalhados cuidadosamente com detalhes em ouro. Mesmo tendo um peso absurdo, com um leve empurrão do loiro, eles se abriram, com um rangido agudo, que ele achou que se ouviu por todo castelo.
Ele esperava ver um grande número de guardas, mas ele só viu vermelho. Por todo lado, um intenso vermelho e o nauseante cheiro de mil cadáveres. Os corredores de madeira polida, estavam cobertos de pilhas de corpos e um líquido escarlate.
Era como se tivesse chovido sangue.
Ele perambulou pelos corredores daquele vasto castelo, e quase sempre viu a mesma cena, corpos retalhados e o forte cheiro de sangue.
Ele já havia perdido a esperança de encontrar uma única alma viva, quando ele contornou novamente um corredor, subindo uma escada paralela, até que, subitamente, ele sentiu um chakra… tinha mais alguém no castelo. Mas o chakra estava fraco e oscilava constantemente… era quase como se… ele interrompeu o pensamento que se formava na sua mente, e contornou novamente os corredores. Direita, esquerda, esquerda, direita até ele chegar à um gigantesco quarto – ele devia ter o dobro do tamanho do seu apartamento – e era assustadoramente branco, o chão de mármore, as paredes e até os lençóis da enorme cama. Branco. E parecia queimar as suas retinas devido à forte luz que entrava pela janela aberta. Já deviam ser nove horas.
Quando ele reparou atentamente, os seus olhos se arregalaram. Ele viu, do outro lado da cama, sapatos de luxo, do tipo que pessoas ricas como Gatou usavam. Quando contornou a cama, ele quase prendeu a respiração. O corpo de Gatou estava no chão, mergulhado numa poça de sangue, e com um enorme buraco na região do peito. Ele estava morto.
— Mas o que… — Naruto se assustou, por um instante, com o som da sua voz naquele castelo silencioso. E então riu, riu do próprio som que fazia quando gargalhava, naquela silenciosa manhã, se perguntando há quanto tempo que não ria. Dias. Parecia um camundongo doente e engasgado. Pelo aspecto e cheiro do sangue, Gatou estava morto há pouco tempo.
Com aquela visão quase se esquecia do chakra que havia sentido. Se concentrando, novamente, sentiu aquele chakra. Estava perto. Rodou os seus olhos pelo local, procurando algo de novo. Ele viu uma porta entreaberta, no fundo daquele enorme quarto. E quase mecanicamente, começou a caminhar em direcção à porta. Estava entreaberta. Ele empurrou, lentamente, a porta. Era um banheiro.
E antes que entrasse completamente, ele viu uma nuvem de cabelos vermelhos o derrubar. A sua cabeça doeu, muito, ao tocar aquele chão.
Parado, boquiaberto, viu uma garota, sentada sobre o seu tronco, com uma Kunai, trémula, posicionada na sua garganta, pronta para cortá-lo ao menor movimento.
Naruto continuou a encará-la, surpreso, por cerca do que pareceu ser um longo minuto, até que ele sentiu ela se remexer desconfortavelmente em cima de si, e então, ele finalmente conseguiu achar o lugar mágico onde ficava a sua voz:
— Quem…
Antes que ele terminasse, a garota encostou ainda mais a Kunai na sua garganta, fazendo um pequeno filete de sangue escorrer pelo seu pescoço.
— Me dê um bom motivo para não matar você… — Ela disse com veneno escorrendo pela voz. Se debruçando ainda mais sobre o corpo do loiro, os narizes quase se tocando.
Naruto suspirou, mesmo que ele conseguisse escapar daquela situação com a maior facilidade do mundo, ele se limitou a aspirar profundamente o aroma que provinha dos fios escarlates daquela garota. Amoras. Enquanto os seus olhos, azuis, se fixavam com os olhos âmbares daquela garota.
— Você… cheira bem…
— Calado, seu pervertido! — Ela afundou ainda mais a kunai na sua pele, fazendo mais sangue jorrar. Naruto suspirou novamente:
— Então… está esperando o quê?
Ela olhou surpresa pra ele. Ele sentiu a mão da garota tremer por um instante. Os seus olhos a denunciavam. No fundo daqueles dois orbes, tinha aquele quase imperceptível brilho inocente. O brilho de alguém que nunca tinha tirado uma vida. Para um Shinobi com olhos afiados como Naruto, aquilo era algo óbvio.
— Seu…
Ela não terminou o que ia dizer, porque um segundo depois, Naruto sorriu ferinamente, e desapareceu em uma nuvem de fumaça. Ela ficou parada, com um olhar confuso e assustado, pelo que pareceu ser um longo minuto. E então, ela sentiu os pêlos da sua nuca se eriçando, ao sentir a instintiva sensação de estar sendo observada. Virou o rosto, surpresa, encontrando o loiro parado, ao lado da porta.
A garota observou Naruto limpar com a manga do seu quimono, o sangue em seu pescoço, ela esperava ver uma pequena ferida pelo local, mas não havia nada, excepto uma fina e quase imperceptível linha. Uma cicatriz. Ela arfou, repentinamente ciente de que aquele não era um garoto normal.
A postura, apesar de aparentar ser meio desinteressada, possuía a graciosidade de um nobre. O rosto era inexpressivo e atraente, e com uma suavidade quase feminina, mas ainda assim não menos másculo, sendo perfeitamente emoldurado pelos fios loiros, que caíam ao lado do pescoço, quase no ombro… e os olhos… o mais intrigante eram os olhos, era difícil dizer qual era a cor exata daqueles dois orbes, ora acendiam no mais brilhante azul, ora se tornavam escurecidos, o que o tornava ainda mais assustador… ela sentiu a presença e a aura dele crescendo, até se tornar um gigante.
— Você… é um Shinobi não é? – Ela perguntou, ainda debruçada, tentando parecer firme, mas o repentino brilho assustado nos seus olhos a denunciavam.
— Hai… — Naruto falou, percorrendo, com um olhar gelado, aquela garota. Ela era bem jovem. Devia ser uns dois anos mais velha que ele. Era morena, cabelos ruivos. Vendo por aquele lado, ela era bem bonita. Vestia um vestido branco e sujo, e parte dele estava rasgado, deixando a mostra o peito nú. Aquilo fez uma desconcentrante sensação percorrer o seu corpo. E ele sabia muito bem o que era. Ele se repreendeu mentalmente.
Ele ouviu a Kyuubi se divertindo na sua mente:
"Pensando em merda, gaki?"
"Cala a boca…"
"Tá cruzando os dedos, Naruto? É difícil se controlar, não? Sabe… se você quiser…"
"Eu não vou estuprar ninguém!"
Ignorou a Kyuubi gargalhando loucamente na sua mente, assim como aqueles pensamentos, suspeitando que sua mente estava tramando contra ele.
Tinha que permanecer correto. Ele tinha sua própria ética.
"Boa desculpa, hein, Naruto?"
Ele encerrou a conversa:
"Cala a boca!"
Houve um momento de silêncio total. Que foi cortado pela garota:
— Você vai… — A frase morreu no ar, ela não tinha coragem para terminar aquela frase.
Ele acordou para a realidade:
— Não… eu não vou te machucar… — Ele forçou um sorriso, inconsciente do quanto os seus caninos afiados se sobressaíam, dando um ar ferino.
Mas ele percebeu que o seu sorriso devia ter parecido demasiado assustador, visto que ela não pareceu acreditar, os seus olhos estavam carregados de pavor.
— Eu não vou te machucar – Naruto repetiu, tentando convencê-la que não era perigoso. – Levante-se.
Ela olhou para ele longamente, ainda achando que, a qualquer momento ele ia atacá-la. Ela se levantou, hesitante. Quando se apercebeu que estava seminua, ela se cobriu com os trapos rasgados.
— Do que você tem medo, garota? – Naruto olhou profundamente para ela, não percebendo o quanto os seus olhos, naquele tom azuis escurecidos, o faziam parecer ainda mais assustador.
" Sério?! Essa é a coisa mais idiota que você tinha para perguntar…"
"Cala a boca… — Ele olhou longamente para a besta por detrás das barras amareladas, que balançava as suas gigantescas caudas, a pelagem branca como a neve — O que deu em você, para ficar de repente tão faladora?"
" Ah… você não quer usar o meu chakra, nem destruir nada, nem matar ninguém…"
" Eu queria matar Gatou…"
"Ah… não conta, ele já está morto… então eu estou com tédio… falando nisso… você não quer…"
" Não, eu não quero…"
" Não custa nada tentar…"
"Tsc, apenas fique calada… "
A garota não respondeu. Apenas olhava compulsivamente para os lados, evitando encará-lo.
— Qual é o seu nome?
Seguiu-se, novamente, um longo período de silêncio, mas logo depois, ela sussurrou fracamente, mas Naruto conseguiu ouvir perfeitamente, com a sua audição aguçada:
— Natsu…
— Natsu… — Ele repetiu, com a voz rouca, sentindo um sorriso se perder a caminho da sua garganta – Quer dizer verão… é um lindo nome…
— Obrigada… — Ela murmurou, evitando encará-lo — E… você? – Ela perguntou, hesitantemente, em um sussurro.
— Naruto…
***
Naruto bebericou, longamente, a sua chávena de chá, apreciando o líquido deslizar suavemente pela sua garganta, enquanto analisava aquela garota, sentada na outra ponta daquela gigantesca mesa de jantar.
"Eu podia viver assim… como um nobre…em um castelo enorme… e com uma esposa bonita… … não é nada mal…"
Kyuubi gargalhou profundamente:
"Humanos são tão idiotas e simples…"
"Cala a porra da boca!"
Ele voltou repentinamente à realidade. Além de seu nome, nada sabia sobre aquela garota. Qual era o seu nome mesmo? Ah… Natsu.
Trazê-la para aquela enorme sala fora uma batalha.
Fazê-la simplesmente sair do quarto, então, nem se fala.
Ela não estava chorando, mas continuava a encará-lo desconfiada e, se ele não estava errado, se controlando para não suplicar que não a matasse. Ou pior. Aquela sua ideia dos livros de romance, em que o herói e a heroína, entrando na casa, abraçados, com os olhos brilhando de felicidade, estava desaparecendo aos poucos. Ao invés disso foi forçado a discutir e usar, um pouco, de força. Não fora nada romântico. Ele praticamente a empurrou pelo caminho. E quando chegaram nos corredores, foi ainda pior, ela vomitou umas cinco vezes, devido ao nauseante cheiro de morte e sangue, que havia naquele castelo.
Uma vez na sala – o único lugar sem cadáveres, ela não ficou menos assustada.
Ele tentou parecer um pouco amigável e tentou agir com naturalidade, mas tudo que ela fez foi se encolher em seu assento, do mesmo jeito que um cachorro assustado. Não bebeu ou comeu o que lhe foi oferecido pelo seu clone.
— Chefe… precisa de mais alguma coisa?
— Ah… sim… — Ele entregou um pergaminho para a clone — procure pelo castelo, qualquer coisa que for valiosa, e sele nesse pergaminho…
— Hai…
Quando o seu clone saiu, ela voltou a perguntar:
— Porque você…
— É simples… Naruto não deixou ela terminar, apenas sorriu forçadamente, antes de voltar a bebericar o seu chá, como se fosse o dono daquele castelo. — esse castelo é uma mancha negra, nessa incólume floresta, e como tal, eu vou varrê-lo com a vassoura da destruição…
Ela arregalou os olhos, surpresa. Naruto apenas aumentou o seu sorriso. Sentindo os seus músculos faciais doerem por sorrir tão falsamente. Ele olhou para ela por um longo tempo, e então perguntou:
— Então… o que aconteceu aqui?
Como esperado, ela não disse nada, pelo que pareceram ser minutos. E então, murmurou, os olhos fixos na chávena diante do seu rosto, como se, repentinamente, fosse a coisa mais importante do mundo:
— Um demónio… Um demónio invadiu o castelo…
— O quê? – Ele arregalou os seus olhos, incrédulo, aquilo era muito difícil de acreditar.
Ela continuou:
— Não era um demónio de verdade – Ela falou, ao ver o olhar incrédulo no rosto de Naruto – Era um Shinobi… assim como você…ninguém sabia o porquê, mas ele começou a cortar em pedaços todos os que apareciam no seu caminho… o sangue foi tanto… as paredes foram manchadas de vermelho, foi realmente assustador, ele praticamente fatiou todo mundo em menos de um minuto… eu estava aqui nesse quarto, com o porco do Gatou tentando… tentando…
— Eu entendi… — Naruto falou, dando o melhor olhar reconfortante que conseguiu fazer no momento.
Ela olhou para ele, uma sombra de gratidão nos olhos marejados:
— Enfim… quando ele chegou no quarto de Gatou… aquele porco tentou me usar como escudo humano, mas eu consegui me soltar e correr pro banheiro… e o mascarado simplesmente…
— Simplesmente…?
Ela soluçou alto, e pareceu ficar surpresa pelas próprias lágrimas, correndo pelo rosto bronzeado:
— Ele simplesmente… enfiou a mão no peito de Gatou e arrancou o seu coração… e não foi só isso, eu sei que pode parecer meio difícil de acreditar, mas ele congelou o coração de Gatou e depois, o quebrou entre os frios dedos… em milhares de pequenos fragmentos de gelo… eles se espalharam com o vento, foi como se estivesse nevando dentro do quarto… nunca vi nada tão belo e ao mesmo tempo assustador… simplesmente indescritível…
— Continue… — Naruto falou, já tendo uma ideia de quem havia feito aquilo.
— E então, ele me viu, escondida no banheiro… eu pensei que ele fosse me matar, mas ele simplesmente tirou a sua máscara e sorriu para mim, um sorriso tão doce e gentil… — Ela ficou com um olhar vidrado, e sorriu de um jeito bobo, ainda com um trilho de lágrimas escorrendo pelo rosto. – E depois ele desapareceu, e eu fiquei simplesmente congelada no banheiro, feito idiota… durante minutos… até que você apareceu…
— Entendo…
Natsu parecia realmente abatida pela história. Ele pensou em sorrir, para animá-la, mas ele desistiu logo depois. Já estava cansado de fingir que estava feliz. Ele não estava.
Naruto pegou o bule, despejando o chá, lentamente, na sua chávena. Ele observou, com um olhar saudoso, o líquido esverdeado pelo que pareceram ser minutos, pensando no quanto aquelas ervas eram tremendamente caras. Ele levou, com a mão trémula, a chávena para os seus lábios, dando uma longa tragada e conteve um sorriso, ao sentir o líquido deslizando pela sua garganta. Ainda estava quente. Nas últimas semanas, Tsunami vivia enfiando um monte de chás na sua garganta, e ele, meio que inconscientemente, até que passou a apreciar um bom chá. Ajudava a relaxar. Ele até já sentia o seu humor melhorando.
— Então… de onde você veio? – Ele perguntou. Como esperado, ela não respondeu, apenas ficou encarando Naruto. Ele se controlou para não suspirar. — Digo… o seu rosto está bronzeado, mas essa não é a cor natural de sua pele, uma vez que seus… — Ele ficou com um quase imperceptível rubor no rosto inexpressivo — seios são claros. E apesar de ser rodeado por mares, o País das Ondas é, na maior parte do tempo, cercado por uma densa névoa. Logo, você não pode pegar esse tom de pele aqui… então, de onde você é?
Quando ele terminou de falar, ela pareceu esquecer que Naruto era um garoto assustador e passou a olhar para ele de olhos esbugalhados, como se o loiro tivesse dito que cachorros falassem. Não que não fosse possível mas… bem não interessa… Voltando ao assunto…para ele ter notado aquilo, quão afiado os seus olhos seriam?! De novo, ela teve a estranha sensação de estar diante de um gigante…
Como se para ganhar coragem, ela repentinamente se voltou para a chávena de chá diante do seu rosto. Com os lábios tremendo, ela deu uma tremida tragada. Estava frio.
— País do Arroz… — Natsu falou, entrecortada.
— Entendo… — Ele deu um curto sorriso de canto, era o melhor que podia fazer no momento — você vivia sozinha?
Naruto não se assustou com o longo período de silêncio que se seguiu. Ele já estava se acostumando com o jeito calado daquela garota.
— Com a minha família…
— Onde eles estão?
Novamente silêncio.
— Morreram – Ela mordeu o lábio inferior, parecendo estar, novamente, a beira do choro — Assassinados por…criminosos.
— Há quanto tempo?
— Semana passada.
Pelo tom na voz da garota, Naruto percebeu que ela estava ficando incomodada pelas suas perguntas. Mas mesmo assim, ele ainda tinha as suas dúvidas. Quando estava prestes a abrir novamente a boca, consciente de que poderia receber nada mais do que o silêncio como resposta, o seu clone voltou.
— Eu encontrei algumas coisas interessantes… — O clone jogou o pergaminho para o loiro, antes de desaparecer em uma nuvem de fumaça.
Naruto sorriu, ao absorver as memórias do seu clone… é ele havia achado coisas interessantes. Foi com esse pensamento rondando a sua mente que ele se levantou, e fez um sinal para que Natsu o acompanhasse. Quando ela se apercebeu, estavam fora do castelo, e a fria névoa estava se grudando na sua pele. Eles andaram um pouco mais, até que Naruto, repentinamente, parou.
— Hum… aqui está bom…
— O que você vai fazer agora?
— Apenas observe…
Naruto se agachou e realizou cerca de cem selos de mão, em apenas dois segundos, e quando terminou, espalmou as duas mãos no solo gramíneo, durante dez longos segundos, nada aconteceu. E quando Natsu estava prestes a dizer alguma coisa, de repente, a terra abaixo do castelo começou a tremer, enquanto se ouvia o quase imperceptível som de algo vindo, debaixo da terra, quando o som se tornou alto o suficiente para afugentar os pássaros no topo das árvores, a terra se abriu, enquanto um enorme jato de água irrompia das profundezas da terra, cobrindo todo o castelo. A força da água dilacerou todo o castelo. E o vento fez com que algumas das pequenas gotículas de água se arrastassem até atingir a pele fria de Natsu, que sentiu os seus pêlos se eriçando, quando as gotas quentes contrastavam com a névoa fria.
— Isso foi… assustador… muito assustador… — Natsu falou, com uma expressão abismada no rosto.
Naruto passou o braço sobre a testa, enxugando o suor que escorria, e logo depois, agradeceu mentalmente, ao sentir as frias gotículas de névoa refrescando o seu rosto. Naruto deu nada mais que um olhar saudoso para o que havia restado do imponente castelo. Nada. Tudo, o castelo e os cadáveres, haviam sido engolidos pela água, que voltava, silenciosamente, para o enorme buraco que havia engolido os destroços do castelo.
A única lembrança viva de que alguma vez aquele castelo tera existido, era o nauseante cheiro de mil cadáveres em decomposição, que havia se mesclado às gotículas de névoa.
Naruto sentiu que o seu chakra havia baixado mais de metade, mas aquilo não o preocupou. Desde que ele havia acordado ele sentia que o seu corpo estava estranho, não estranho de um modo bizarro, muito pelo contrário, era como se aquele corpo fosse seu, mas ao mesmo tempo não era. Meio confuso, não? Até ele nem conseguia entender aquilo direito…
O chão parecia ligeiramente mais distante, e os seus músculos... Eles estavam mais densos e fortes, apesar de não terem aumentado muito. Mas ele achava aquilo perfeito, ou ele teria perdido a sua velocidade e precisão… Tudo aquilo era surreal, era quase como se, durante todos esses anos, ele tivesse carregado o peso do mundo nas próprias costas… e agora tivessem tirado… ele sorriu, lentamente, apreciando a incrível sensação de ser poderoso.
— Kage Bunshin no jutsu… — Em uma nuvem de fumaça, surgiu um clone do loiro. — Leve ela para a casa da Tsunami-dono…
— O que você vai fazer, Naruto-sama?
— Eu vou… bem não interessa… você vai saber em breve…
— O que você vai fazer? – Ela não desistiu.
Ele suspirou:
— Existe uma grande possibilidade do Shinobi mascarado ter ido atrás dos meus companheiros de equipe…
— Porquê?
— Bem… nós estamos aqui em uma missão e ele é o nosso inimigo – Naruto falou rapidamente, não queria desperdiçar o seu tempo – e eu tenho que ir protegê-los… por isso preciso que você vá com o meu clone…
— Você vai matá-lo… não vai? – Ela perguntou, e pareceu ficar surpresa pelo próprio tom triste.
Ele soltou um fraco suspiro, antes de sorrir para ela. – Eu vou proteger os meus nakamas…
— Eu quero que você me prometa uma coisa Naruto-sama… — Só naquele instante é que ele se apercebeu do "sama", ele apenas franziu as sobrancelhas – prometa que vai tentar não matá-lo…
Naruto não disse nada, apenas sorriu, enigmático. Antes de o seu clone desacordá-la, e ela cair na grama, inconsciente.
— Acho que… está na hora de eu colocar juízo naquele idiota… — Ele disse, antes de desaparecer em um flash de velocidade.
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