Gênesis
65 Interlúdio V – Hitobashiras - Pilares de Sacrifício Humano (DOIS)
Notas iniciais
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II. A Quinta Hitobashira — Aquela que habita os pesadelos — Utatane Koharu
Décimo Quarto Ano Após a Fundação de Konoha
Koharu se curvou de exaustão quando finalmente parou diante da entrada do complexo. Ela respirava profundamente, procurando encher seus pulmões exaustos de ar pela intensa corrida. Felizmente ela havia chegado quase à tempo. Ela sabia o quanto sua Shishou odiava atrasos. Escondendo um beicinho, ela finalmente endireitou sua postura e olhou para frente. Um largo e majestoso portão ornamental escondia o bairro residencial mais nobre de Konoha. O Complexo do Clã Senju.
Com passos apressados, ela percorreu o caminho com a familiaridade de alguém que já havia feito aquele trajeto milhares de vezes. Os dois Shinobis na entrada apenas dispensaram um olhar para ela, antes de voltarem a fechar os olhos.
Uma longa rua talhada por pedregulhos perfeitamente esculpidos a encarava. Nas laterais, longas e exuberantes árvores de cerejeira sombreavam o caminho, enquanto pétalas rosas e belas flutuavam pelo ar, como se acariciadas pelo vento.
Seus olhos foram atraídos pelas belas e tradicionais casas ao longo do caminho, bem como os homens e mulheres de kimonos percorrendo as ruas com sorrisos nos rostos. Com seus cabelos vibrantemente negros, castanhos, grisalhos e loiros, os Senjus eram um dos clãs mais vibrantes da recém-fundada Konoha. Ela retribuiu os cumprimentos que ela recebia ao longo do caminho com um sorriso no seu rosto infantil, antes de finalmente chegar à maior residência no centro do complexo. Não seria exagero chamar aquela monstruosidade de um pequeno castelo de estilo Oriental.
O que não seria um exagero, já que a ´´realeza´´ Senju vivia naquele lugar. Ela murmurou um pequeno cumprimento para os guardas na entrada, que foi respondido com sorrisos. Mas enquanto ela percorria os familiares corredores com piso de madeira, ela ainda conseguia sentir os olhos afiados dos guardas de elite a encarando nas sombras. Eles eram claramente muito mais cautelosos que os preguiçosos nos portões.
Ela estava no meio dos corredores, quando ouviu o som de passos curtos e abafados atrás de si. Koharu olhou para trás, apenas para ver o brilho de cabelos grisalhos espreitando por um instante, antes que desaparecessem atrás de uma porta.
Koharu segurou um curto sorriso, enquanto desacelerava seus passos e fingia não ouvir o som de passos acelerarem repentinamente, antes que um corpo se jogasse nas suas costas.
—Te peguei! -Ela se virou em uma velocidade assustadora, antes de agarrar a garotinha que havia tentando atacá-la sorrateiramente. Um sorriso assustador se desenhou nos seus lábios — Ora, ora, se não é a Madoka-chan...
A menina sentiu um arrepio percorrer sua espinha, ao ver a expressão assustadora no rosto de Koharu. Agora que seu ataque surpresa havia falhado, Madoka sabia que era hora da punição.
—M-Me solta...ou meu pai vai-
Vendo o sorriso maligno de Koharu crescer, as palavras na boca da garotinha morreram.
—Tem certeza que quer fazer isso? Afinal...eu sou a aluna do seu pai. Aposto que ele não ficará nem um pouco feliz em saber que você tem tentado atacar as pessoas pelas costas...
Foi muito engraçado ver aquele rosto pálido e cheio de gordura infantil ficar assustado, enquanto seus olhinhos escuros se encheram de lágrimas. Ela era tão fofa que Koharu se segurou para não apertar ela.
—Então...está na hora da sua punição...
Madoka fechou os olhos ao ver Koharu levantar a mão, apenas para sentir sua mão pousar levemente no seu longo cabelo grisalho, antes de bagunçar ele. Era isso? Aquela era a sua punição? Ela abriu seus olhinhos apenas para ver Koharu a olhando de forma divertida e zombeteira. Ela tinha certeza que ela estava rindo dela!
Madoka fez beicinho.
—Isso é tudo, Koharu-nee-chan?
Koharu começou a rir da cara embirrada da menina de Três anos.
—Claro. Como eu poderia bater em você, pequena semente?
Vendo o beicinho dela aumentando, Koharu não pode deixar de reparar o quanto o seu rosto infantil e emoldurado por longos e rebeldes cabelos grisalhos, parecia estranhamente com seu professor.
Ela se perguntou se o rosto severo de Tobirama pareceria assim se fizesse beicinho? Koharu quase se engasgou imaginando aquela cena. Seu Sensei fazendo beicinho?
—Do que você está rindo, Koharu-nee-chan?
Vendo os olhos escuros dela se estreitando severamente em sua direção, a risada de Koharu apenas aumentou.
Madoka encheu suas bochechas de ar.
—Você está rindo de mim, não está?
Koharu pigarreou, antes de ficar reta como uma guerreira da justiça.
—Claro que não. Eu não sou esse tipo de pessoa. –Vendo os olhos da garotinha se estreitando, ela logo mudou de assunto- E você, o que você acha que está fazendo atacando pelas costas? Pode não parecer, mas eu sou uma gennin. Não é muito seguro atacar uma ninja pelas costas. Muitos ficariam irritados.
Madoka desviou o olhar para os seus pés, enquanto torcia seu kimono de forma hesitante.
Olhando para a vazia e silenciosa mansão, Koharu tinha uma ideia aproximada dos pensamentos dela. Seu pai, Tobirama vivia ocupado lidando com a burocracia da Vila, fazendo missões de alto nível, orientando seu time e a recém-fundada ANBU; seu irmão mais velho estava há anos internado em um asilo, preso em insanidade, e sua mãe...era complicado. Senju Tōka vivia estranhamente isolada em seu escritório, devido à sua estranha doença, que era perigosa para o organismo de uma criança, e mal vendo à luz do sol.
A única companhia constante para Madoka eram as criadas que estavam com demasiado medo do seu status para se aproximar dela, e a visita esporádica do seu primo. Mas sendo filho de Hashirama e herdeiro do Clã Senju, era quase impossível Senju Ichima visitá-la regularmente.
Apesar da enorme mansão e procissão de criadas, ela estava, essencialmente mais sozinha do que um estranho no meio da multidão.
Ela não conseguiu esconder a dor na sua voz.
—Não importa...não tem mesmo ninguém para ficar com raiva de mim.
Koharu suspirou, antes de se ajoelhar.
—Ouça, se você quiser brincar comigo, não precisa fazer isso. Você só precisa pedir.
Seus olhinhos se iluminaram quando ela levantou o rosto.
—De verdade? –Koharu acenou, sorrindo. Madoka agarrou suas mãos de forma entusiasmada – Então, vamos brincar...?
Koharu fez uma careta, e a expressão animada da menina logo murchou.
—Eu...me desculpe. –Ela ignorou o olhar de dor no rosto da criança- Tenho aulas com Tōka-Sama nesse momento. Talvez outro dia.
—Eu...entendo. Então você vai poder ver a Okaa-san? –Ela torcia suas roupas de forma cabisbaixa, Koharu acenou positivamente – eu...entendo.
A jovem Kunoichi mordeu os lábios.
—Nee, Madoka-chan, já que eu vou me encontrar com Tōka-sama... tem alguma coisa que você quer entregar para ela?
Seus olhinhos recuperaram um pouco de brilho, enquanto ela acenava de forma entusiasmada. Ela desapareceu pelos corredores com seus passos curtos e apressados, antes de voltar com algo embrulhado na mão. Ela estendeu o embrulho para Koharu.
—Isso é...
Quando ela abriu, Koharu viu uma marmita com uma fileira de bolinhos enfileirados de forma desajeitada. Tendo em conta a forma como foram confeccionados, era bastante óbvio que era um trabalho amador. Mas a frase fofa estampada nos bolinhos fez Koharu sorrir de forma calorosa.
—Você mesmo fez? –Madoka assentiu timidamente – Que lindo. Deve ter sido difícil.
—De verdade?
—Claro. Tenho certeza que Tōka-sama vai adorar.
Koharu não resistiu à sua expressão envergonhada e afagou seus cabelos rebeldes. A menina revirou os olhos, mas as suas bochechas coradas mostraram que ela estava gostando mais do que mostrava.
O som de passos pesados interrompeu os movimentos da Kunoichi. Ela olhou para o final do corredor, vendo a empregada-chefe pisando no tatame de forma furiosa em sua direção. Uma expressão de horror apareceu no rosto de Madoka.
—Ah, essa bruxa velha quer me matar de tanto estudar! Eu me recuso. –Ela cerrou os dentes- Até mais, Koharu-nee.
Era uma visão estranha ver o seu corpo pequeno desaparecendo pelos corredores, mas não demorou muito para a figura furiosa vestindo o uniforme de empregada desaparecesse na mesma direção. Koharu apenas balançou a cabeça de forma exasperada.
Enquanto percorria os corredores, ela se perguntou de quem aquela menina havia herdado aquela personalidade?
Alguns minutos depois, Koharu respirou fundo, ajeitando seu quimono azul-escuro no seu corpo magro, bem como ajeitando a Senbon que prendia seu cabelo castanho-claro, quase loiro, em um coque. Seus dedos mal haviam tocado a porta de papel, antes que ela ouvisse um fraco entre, e a porta se abrisse sozinha.
Ela logo reparou o quão escuro aquele escritório estava. As janelas estavam fechadas e uma única vela iluminava à mulher sentada de pernas cruzadas no meio da sala, assinando documentos em uma mesa baixa.
Koharu se tornou consciente do quão alto o som dos seus passos eram, naquele quarto silencioso. Ela se sentou obedientemente diante da mesa, e não ousou fazer nenhum som.
Depois de um longo ano treinando com Senju Tōka, Koharu havia aprendido a acalmar sua personalidade borbulhosa e falante, e ficar em silêncio. Ela ficou assistindo sua mestra assinar documentos após documentos, enquanto torcia seu quimono de forma nervosa.
Ela secretamente espiou a esposa de seu Sensei. Senju Tōka era uma mulher...difícil de descrever. Seus longos cabelos negros e sedosos, escondiam um rosto pálido e perfeitamente esculpido, que seria bastante atraente se seus lábios cheios e vermelhos não estivessem constantemente franzidos em uma expressão taciturna e severa bastante semelhante à de Tobirama. Ela havia ouvido bastante que opostos se atraem, mas claramente não era o caso do seu Sensei. Ele havia se casado com uma versão feminina sua. Sinceramente, o que esses dois conversavam? Isso estava além dela.
Koharu de repente se lembrou do embrulho em suas mãos, e silenciosamente colocou a marmita ao lado da mesa. Sua mestra continuou assinando, mas desviou ligeiramente os olhos para a marmita fumegante na mesa. Sua expressão severa se suavizou um pouco, enquanto ela largava sua caneta e desembrulhava a marmita. Tōka mordeu os lábios ao ver as palavras desajeitadas escritas nos bolinhos de arroz.
“Melhore logo, Okaa-san.”
Sua expressão severa parecia estar a ponto de quebrar. Koharu desviou os olhos, se sentindo uma invasora ao ver aquela expressão na sua mestra.
—Eu...obrigada.
Alguns minutos depois, ela virou o rosto para ver Tōka a olhando com seu costumeiro rosto esculpido em mármore, mas havia uma pitada de apreciação. Se os bolinhos mal feitos estavam meio comidos sobre a mesa, nenhuma delas falou nada.
A expressão dela logo se tornou novamente severa. As sombras das fracas velas apenas tornavam seu rosto mais profundo. Koharu engoliu nervosamente, esperando que a aula começasse. Alguns minutos depois, ela finalmente ouviu a voz da sua mestra.
—O que você sabe sobre o medo?
—O medo é...
Koharu franziu o cenho, pensando por alguns segundos, mas ela não conseguia transformar seus sentimentos em palavras. O medo era algo que cada ser humano simplesmente...sentia. Transformar a sensação de horror em palavras...como ela faria isso?
A expressão da sua mestra nem piscou, quase como se ela esperasse sua falta de resposta.
—Se você...como usuária de genjutsu não sabe o que é o medo...como você espera causar o mesmo nas suas vítimas? – Koharu abriu a boca, mas logo fechou – Eu vou mostrar para você...o que é o medo.
Ouvindo a voz fria de sua mestra, enquanto era encarada por seu par de olhos negros e profundos, Koharu não evitou engolir em seco.
—Quando começaremos, Shishou?
Ela não sabia se era um truque de luz, mas os olhos de Senju Tōka ficaram ainda mais escuros. Era como olhar para o abismo.
—Oh, minha pobre discípula. Já começamos.
E então, tudo desapareceu. A mesa baixa, as velas fracas, o piso de madeira envernizada...tudo desapareceu, até Koharu estar flutuando no meio de um nada profundo e vazio.
Ela tentou se mover, mas não conseguia. Não, era mais correto dizer que não podia. Seu corpo parecia ser feito de uma névoa vazia e sem forma, e incapaz de qualquer tarefa a não ser pensar e sentir...tudo. E assim ela fez.
O nada era tão agradável. Seus pensamentos fluíam pela escuridão como peixes na água. Indefinidos, imprevisíveis e incontroláveis. O vazio avançou pelo que pareceu uma eternidade, corroendo o tempo e a sua própria consciência, em nada.
Quem era ela?
Ela estava viva? Morta? A essa altura, ela já não sabia, mergulhada na insanidade da inexistência. Quanto mais tempo passava aí, mais sua consciência era coberta por névoa, e menos as coisas faziam sentido.
Milhões de pensamentos explodiram na sua mente ao mesmo tempo. Algo finalmente brilhou na escuridão, como um sol nascendo. Ela viu estrelas morrendo, seus destroços vagando pelo vazio estilhaçado como poeira cósmica, se acumulando. Sem o tempo para dar sentido ao nada, a realidade e a ilusão se misturavam em uma sombra fúnebre, como recortes de um mundo moribundo.
Uma coisa finalmente foi tomando forma no horizonte negro. Era tão distorcida, que parecia errado chamar aquilo de uma criatura. Era um amálgama de carne costurada e sangrenta, se movendo pelo vazio como um predador, ameaçando engolir o nada.
Ela queria escapar. Mas aquilo era impossível quando ela era o próprio vazio. Ela se encolheu, enquanto o aquilo se aproximava, estendendo um emaranhado de tentáculos de carne retorcida e então-
Tudo quebrou. A sala mal iluminada surgiu novamente diante dos seus olhos, enquanto ela estava deitada no chão de madeira, tremendo como se todo calor tivesse sido sugado do seu corpo. Suas roupas estavam grudadas de suor frio, e uma Senju Tōka a olhava de forma desapontada.
—Que decepção. Você ficou presa por meia hora, e eu mesma tive que tirar você. –Em um borrão, ela sentiu o frio do aço gélido de uma kunai na sua garganta. Quando sua mestra se moveu? — Mesmo um único segundo de hesitação, é crucial em um combate. Você teria morrido mil vezes, se isso fosse um campo de batalha. Desse jeito.
E então, a Kunai se moveu na sua garganta, abrindo um sorriso escarlate na sua pele. Sua garganta se abriu enquanto sangue quente escorria sem parar. Mas o pior, era a sensação de se engasgar em seu próprio sangue, enquanto ela tentava desesperadamente sugar uma lufada de ar, mas aquilo era impossível enquanto o sangue encharcava sua-
E então, tudo voltou ao normal novamente. Koharu levou às mãos à sua garganta, apenas para encontrar novamente sua garganta intacta, e os olhos frios da sua mestra a encarando do outro lado da sala. Outra ilusão?
—Para cada pessoa, o medo pode significar diferentes coisas. Alguns têm medo de altura, outros de água, fogo...até de algo tão simples quando falar em público. O medo pode vir de formas infinitas para as pessoas. Então...o que é o medo verdadeiramente? Essa sensação...o coração acelerado, a garganta entalada e o frio rastejando através dos seus ossos, como vermes...aposto que você ainda deve estar sentindo. Você precisa se lembrar dessa sensação. Gravar ela em cada fibra do seu ser, e então...dominá-la. Uma vez que você consiga isso...só assim você conseguirá se tornar uma verdadeira ilusionista... uma verdadeira encarnação do terror...
Koharu abriu a boca.
—Eu-
—Mas parece que você ainda não entendeu. De novo.
E então, Koharu morreu novamente. E de novo. E de novo. E de novo. E de novo.
Depois do que pareceu uma eternidade, ela ouviu Tōka suspirando.
—Vamos parar por hoje. Isso claramente não está funcionando.
A dor era tão intensa que, mesmo agora, parada fora da ilusão, Koharu ainda sentia a dor fantasma de ser queimada, afogada, esquartejada e milhares de diferentes métodos de tortura, rastejando pelo seu corpo. Vendo a expressão decepcionada no rosto da sua mestra, ela cerrou os dentes.
—Me coloque de volta, Shishou. Eu posso fazer melhor.
—Não. A aula de hoje deixou algo claro. Você claramente não está preparada.
Koharu abriu a boca, mas logo a fechou novamente. Ela se lembrou dos ensinamentos da sua mestra, e sobre o quanto ela odiava à falta de etiqueta. Ela respirou fundo, antes de se sentar em seiza.
—Eu...sim...-ela queria negar, e dizer que estava preparada, mas aquilo seria uma óbvia mentira – Você está certa, Shishou. Mas...eu quero melhorar. Ser melhor. Os meus companheiros... Eles podem lançar ninjutsus cada vez mais incríveis, enquanto eu estou presa em todos esses livros de anatomia, treinamento de controle de chakra e meditação. E quando chegamos nas missões, eles conseguem derrotar os inimigos, enquanto eu mal consigo prender um chunnin em uma ilusão, e isso é tão, tão, tão injusto que-
—Eu já falei para você. – Tōka a cortou- especialistas em genjutsu...nós começamos um pouco atrás dos outros tipos de Shinobi, mas isso muda com tempo.
Koharu mordeu o seu lábio, engolindo as palavras que ela estava prestes a dizer. Ela sabia que sua mestra estava certa. Todo Shinobi manipulava chakra para lutar. O chakra era composto por energia física (Yang) e energia espiritual (Yin). Enquanto o chakra Yang crescia com treinamento físico, o chakra Yin geralmente podia aumentar com a idade ou com meditação. Mas comparado aos especialistas em Taijutsu que dependiam da parte Yang, e os especialistas em Ninjutsu que procuravam um crescimento estável de ambas energias, os especialistas em genjutsu procuravam sempre melhorar seu chakra espiritual. Mas em uma idade tão nova, exceto aqueles nascidos com alta afinidade Yin, geralmente não era recomendado gennins treinarem genjutsu. Seus chakras Yin eram simplesmente ridículos de tão baixos, que suas ilusões só seriam úteis contra civis.
Felizmente, Koharu fazia parte do seleto grupo abençoado por uma grande quantidade de chakra Yin ao nascimento, e graças à isso, ela foi apelidada de Kunoichi mais talentosa da sua geração. Não era sem motivo. Sua mestra explicou para ela que geralmente todos gênios Shinobis teriam alta afinidade com Liberação Yin.
O Kaimom era o principal Tenketsu de chakra localizado no cérebro, responsável por nutrir as células nervosas com chakra. Segundo ela, os chamados génios não passam de sortudos que nasciam com esse portão ligeiramente mais aberto que o normal, permitindo o chakra fluir muito mais facilmente para o cérebro, os tornando muito mais inteligentes que o normal. Esse processo começava muito antes do nascimento, bem durante a gestação.
Por exemplo, devido aos complexos e intricados vasos e tenketsus que têm que irrigar os glóbulos oculares do Byakugan e Sharingan, não era estranho esse fenómeno ocorrer com maior facilidade nos clãs Hyuuga e Uchiha, dando à luz aos muitos gênios em ambos os clãs. Ninguém nasce igual. A disparidade de talento entre os seres humanos começava muito antes do nascimento, isso era o quanto a natureza era injusta.
Havia uma pesada correlação entre inteligência, chakra Yin, e genjutsu. Quanto mais aberto seu tenketsu cerebral for, mais inteligente a pessoa será, mais chakra mental a pessoa terá, e melhor ela será em genjutsu. É praticamente impossível um mestre ilusionista não ser um génio acima da média. E Koharu havia sido uma dessas pessoas sortudas.
Mas ela se perguntava...era realmente justo? Ela se lembrou dos tempos da Academia, vendo seus companheiros medianos lutando para dominar as coisas mais básicas, enquanto ela mal precisava se esforçar. Foi naquele momento que ela percebeu, que o mundo era injusto. Ela realmente não entendia alguns dos seus companheiros que treinavam sem parar por semanas, apenas para dominar algo que ela aprendeu com um único olhar. Ao invés de se submeter a tanto sofrimento...não seria melhor desistir? Por que se esforçar tanto? Por que tentar ir contra o fluxo da maré? A maior parte deles não passariam do nível Chunnin, mesmo que treinassem por toda a vida.
Por essa razão, quando exigido que ela realmente se esforçasse ela simplesmente...procrastinou. Afinal, na sua opinião, com o tempo, seu chakra Yin cresceria de forma exponencial de qualquer maneira. Por que se matar treinando como uma louca por algo que ela obteria de qualquer maneira?
Isso foi...até que ela viu a forma como seus companheiros estavam melhorando e se esforçando. Hiruzen sempre foi talentoso como ela, então, inconscientemente ela sempre achou que eles estariam no mesmo nível, assim como na Academia. Mas a forma como ele estava evoluindo a cada dia...era simplesmente ridícula. Mas ainda assim... o pior era Homura. A definição da própria mediocridade, por mais que ele treinasse, sempre era o último a dominar os jutsus que Tobirama ensinava. Koharu secretamente o desprezava. Mas ultimamente...até ele estava melhorando bastante...enquanto ela mal parecia ir à lado nenhum, como um naufrago à deriva.
Ela simplesmente odiava aquele sentimento.
Uma sombra de alívio passou rapidamente no rosto de Tōka, ao ver o fogo nos olhos de sua aluna. Mas foi tão rápido que Koharu achou que foi um truque de luz.
Os olhos frios e negros a trouxeram de volta à realidade.
—Bom. Eu vou dar mais uma chance à você. Me coloque em uma ilusão. Lembre-se daquela sensação.
Koharu assentiu. Dessa vez, ela formou um selo de mão, enquanto ela girava seu chakra em um padrão muito específico. Seu chakra se espalhou silenciosamente pelo escritório, antes dela estender tentáculos invisíveis de chakra que se ligaram à sua mestra.
Agora vinha à parte difícil. Ela deveria perturbar o fluxo de chakra de sua mestra, perturbando o chakra fluindo em seus órgãos de sentidos e a induzir em uma ilusão. Isso era mais fácil falar do que fazer. Por isso o controle de chakra era chave para genjutsu.
Ela tentou perturbar o fluxo de sua mestra, mas o chakra de Tōka era espesso e corria pelos seus tenketsus com a calmaria de um lago imperturbável, enquanto Koharu era como uma gota de água tentando provocar ondas nesse calmo lago. Com o chakra refinado de sua mestra, era impossível alguém do seu nível a colocar em uma ilusão, mas ela logo sentiu uma corda de chakra a guiar pelos tenketsus de sua mestra, enquanto o controle de chakra dela relaxava.
Sua Shishou estava afrouxando seu controle de chakra e a guiando. Com sua ajuda, Koharu começou a tentar colocar ela em uma ilusão. Ela falhou. E falhou. E falhou. A expressão de Tōka mal mudou, enquanto gotas de suor começaram a se acumular na testa de Koharu.
De novo. De novo. De novo.
Koharu estava prestes a desisitir, mas ela logo se acalmou. Ela tentou se lembrar de tudo o que sabia sobre ilusões. A chave desse genjutsu era o medo. Como sua mestra poderia fazer tal coisa?
O sistema límbico era o responsável pela sensação do medo nos seres humanos. Se ela perturbasse o fluxo de chakra do sistema límbico, o sistema de detecção de perigo do cérebro será acionado e então, a imaginação fértil do ser humano fará o resto do trabalho. Visões dos maiores medos piscariam como flashes, e os piores pesadelos se tornariam reais.
Mas...esse era o método que uma especialista poderia utilizar, não uma gennin como ela. Isso era complexo demais. Então...no caso da sua mestra, a maneira mais fácil seria por estimular diretamente à sua imaginação com imagens mentais. O problema era...ela precisaria de um gatilho para isso.
A questão era...qual era o gatilho da sua mestra? O que ela mais temia nesse mundo?
Sendo uma veterana da Era dos Estados Combatentes, ela provavelmente estava acostumada ao horror. Tortura, mutilações...tudo isso mal faria ela piscar. Então como...?
Não, espera. Ela se lembrou das palavras da sua mestra. O que era verdadeiramente o medo? Poderia ser qualquer coisa, não necessariamente imagens violentas. Até algo tão simples quanto amor, poderia ser assustador.
Amor...
E então...Koharu de repente se lembrou do embrulho na mesa. Isso mesmo... seu estômago se embrulhou, com a imagem da ilusão que ela estava prestes a lançar, mas ela cerrou os dentes e executou os selos de mão. Ela imaginou seu rosto angelical pálido e frio, seus cabelos longos e grisalhos estavam manchados com o vermelho do sangue que escorria do buraco em seu peito, enquanto seus olhos negros estavam opacos, como se sugados de todo o calor.
Madoka estava morrendo. Tudo isso nos braços cada vez mais frios de Tōka.
No início pareceu uma boa ideia, quando Koharu finalmente viu a expressão indiferente de Tōka finalmente congelar, mas então...aquilo aconteceu. Enquanto a expressão severa de Touka finalmente parecia quebrar, sombras engoliram o seu rosto e a sala, enquanto as velas tremeluziam até apagarem. Nesse momento, enquanto um frio congelante cobria a sala, Koharu percebeu que não havia sido uma boa ideia, e finalmente se lembrou do nome pelo qual ela era conhecida na Era dos estados combatentes.
Aquela que habitava os pesadelos. Bogion´na. Bicho Papão.
Ela tentou realizar os selos de mão e cancelar a ilusão, mas era tarde demais.
A escuridão a engoliu, assim como a sala. Estava tão frio como se seu corpo mergulhasse em gelo puro. A dor congelante era tão intensa que ela mal sentia os seus dedos. Sua mão lentamente se estendeu até o seu coldre de kunai. Ela queria parar. Ela queria fazer a dor dilacerante parar tão desesperadamente, sua kunai se moveu para o seu pescoço e-
Uma mão larga a impediu. O quarto clareou como se o sol nascesse, enquanto a figura do seu Sensei apareceu diante dos seus olhos. A marca de Hiraishin que ele havia deixado no seu pulso estava quente. Tobirama havia sido alertado que ela estava em perigo?
—Koharu, saia.
Oh, deus. Ela percebeu com horror que havia tentado se matar.
—Tobirama-Sensei eu-
—Eu sei – Ele a colocou de volta em seus pés. Um fantasma de um falso sorriso em seus lábios- Falaremos depois.
Mas Koharu tinha certeza que eles nunca mais falariam desse assunto pelo seu olhar. Ela olhou através dos ombros largos de Tobirama, vendo sua mestra deitada no chão como uma boneca quebrada, sangue escorrendo em seus ouvidos e narinas. Horror encheu seu corpo. O que ela havia feito?
—Isso tudo...é minha culpa.
As sobrancelhas de Tobirama se franziram com as suas palavras. Ele parecia estar lutando internamente com algo. Ele finalmente falou.
—Não é sua culpa. Isso...-ele hesitou- Não é a primeira vez que isso acontece. Não tem nada a ver com você, não se preocupe.
—Mas-
—Koharu. –Ele a cortou, o frio cobrindo cada uma de suas palavras — Por favor, saia. Conversaremos mais tarde.
Ela assentiu mecanicamente, como uma marionete, e fingindo não ver a tensão nos ombros do seu mestre. Enquanto saía, sua última visão foi Tobirama se agachando ao lado dela e envolvendo seus fortes braços ao redor dela, um cuidado e carinho anormal em cada um de seus movimentos.
Koharu se lembrou dos rumores sobre Tōka nunca mais ter se envolvido em combate desde a fundação de Konoha, e estar isolada da família devido à uma estranha doença. Mas... O sorriso distorcido no rosto dela estava gravado como brasas na sua mente, e foi a última coisa que ela viu antes de ser engolida pela escuridão.
O que Senju Tōka viu, para poder criar tal monstruosidade? A sensação de desespero que encheu seus ossos...a completa falta de esperança... O que levaria um ser humano a imaginar tal coisa?
Koharu se agarrou à aquela sensação. Aquela sensação de completo horror quando chegou em casa, e depois de realizar os selos de mão, ela finalmente completou a ilusão. Ela, enfim, dominou o medo.
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Koharu suspirou com aquelas memórias, sentindo a idade rastejando por seu corpo, e de repente, ela se sentiu velha. Ela se tornou consciente da rigidez dos seus músculos, das dores nas suas articulações e ossos quando ela fazia movimentos que antes eram fáceis, na sua visão borrada e nas manchas que ela enxergava, e sobretudo, ela sentiu o peso da idade na nostalgia das suas memórias enevoadas.
O rosto severo da sua mestra era uma constante, assim como a raiva que enchia o seu corpo ao se lembrar da tragédia que aconteceu anos depois. A forma como essa tragédia mudou Senju Tobirama, o tornando um fantasma de si mesmo. Tantas vidas perdidas. Se naquela altura, ela fosse mais forte, sua mestra ainda poderia-
O som de uma explosão interrompeu seus pensamentos. Koharu olhou para a nuvem de fumaça no horizonte. Lembrando de seu outrora companheiro de time e agora parceiro de vida. Seus olhos estavam cheios de sentimentos complicados.
Ela quase conseguia se imaginar décadas mais nova, com Torifu e Kagami sorrindo de deboche e chamando Homura de maníaco por explosões, e ele tentando negar, enquanto Tobirama-Sensei ficaria olhando para eles de braços cruzados e uma expressão severa, mas com um pequeno sorriso no canto dos lábios impossível de esconder. E agora, deles só restavam túmulos. Todos eles derramaram sangue para nutrir a grande árvore de Konoha. Os últimos Hitobashiras.
Ela ignorou aquelas memórias, quando o Yamanka em seu esquadrão enviou a confirmação mental que os inimigos estavam se aproximando, e começou a tecer selos de mão. Ela ficou fascinada com a facilidade com o qual seus dedos se moviam, mesmo depois de décadas sem combater. Mas o mais surpreendente, era a quantidade de chakra Yin que ela conseguia manipular com aqueles selos. Sua mestra estava realmente certa. Especialistas em genjutsu, ao contrário dos especialistas em Ninjutsu ou Taijutsu, realmente ficavam mais fortes com a idade. Koharu estava em seus anos crepusculares, mas ela sentia que sua energia mental era pelo menos dez vezes maior do que na juventude. De uma forma bizarra, ela estava muito mais forte do que na juventude.
Uma memória sua, tremendo em um quarto escuro, o sorriso distorcido de sua mestra, e uma kunai em seu pescoço piscou em sua mente.
Com aquela quantidade de chakra, ela finalmente poderia-
Ela parou os selos do genjutsu que estava fazendo, e começou a tecer as mãos para o genjutsu que havia consolidado Senju Tōka como a maior usuária de genjutsu da Era dos Estados Combatentes, e que ainda aterrorizava seus pesadelos até o dia de hoje. Ela espalhou seu chakra Yin pelo ar, como uma rede invisível de teias de Aranha, espalhando gavinhas etéreas em cada entusiasmado Shinobi de Suna atravessando a Floresta. Quando os últimos tentáculos invisíveis de chakra Yin se ligaram, ela finalmente terminou os selos de mão.
Inton – Mugen Akumu (Liberação Yin — Terror Infinito)
E então toda floresta foi coberta por escuridão.
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III. O Quarto Hitobashira — Shinobi No Yami – Shimura Danzou.
Por toda sua vida, Shimura Danzou percorreu centenas de campos de batalha, sendo acompanhado pela morte e destruição. Mas ele se consolou, sabendo que aquele era o seu dever como um Pilar de Sacrifício. Era seu dever e de seus companheiros mergulhar em poças de sangue e cadáveres para proteger a Vila. Mas desde aquele dia... o dia que ele viu Senju Tobirama, a imponente árvore que sustentava Konoha dando sua própria vida para que eles, pequenos brotos sobrevivessem, rachaduras cresceram no seu coração.
Era realmente correto? Troncos se sacrificando para que as milhares de folhas nos seus galhos sobrevivessem? Aquele era o verdadeiro papel de um Shinobi e de um Pilar?
Mesmo depois de décadas, Danzou ainda se lembrava daquela missão, e sua própria hesitação. Ele não estava pronto. Ele não estava pronto para o seu dever como Shinobi, e aquilo o apavorou. Seu coração tremia de medo, e as palavras de Hiruzen se oferecendo como isca o confortaram como o abraço de uma mãe gentil.
Então, diante do Túmulo de Tobirama, Danzou refletiu sobre o que verdadeiramente tornava um shinobi.
O que realmente permitia que milhares de folhas vivessem alegremente?
Depois daquilo, ele viu, seus companheiros morrendo diante dos seus olhos. Primeiro foi o genial e talentoso Uchiha Kagami, com uma kunai enfiada no peito depois de tentar salvá-lo, e depois foi o sorridente Akimichi Torifu.
Então...Danzou finalmente chegou à uma conclusão. Uma epifania, enquanto segurava o corpo sem vida de um de seus melhores amigos, antes de arrancar o Sharingan de seu cadáver frio. As folhas no topo de uma árvore nunca sobreviveriam se continuarem sacrificando seus troncos. A sobrevivência das folhas dependia das milhares de outras Raízes escondidas nas sombras, se sacrificando para alimentar a árvore.
A ideia do seu Sensei, de sacrificar os poucos pilares, para a sobrevivência de muitos, era falha. A grande árvore de Konoha só sobreviverá se raízes sustentarem e a nutrirem no solo escuro. Sem nunca conhecerem à Luz.
Então foi isso que ele fez. Ele se tornou uma ferramenta. Uma Raiz retorcida nas profundezas da Terra. Mas uma única Raiz não conseguiria sustentar Konoha. Então ele moldou outras milhares de raízes semelhantes à ele. Os quebrou mentalmente ao ponto de não hesitarem, de não conhecerem a fraqueza chamada esperança. Uma Raiz que sonha em ser banhada pelo sol, é uma Raiz falha. Ele matou as ambições e esperanças dentro de si mesmo, o sonho tolo e esperançoso de uma criança em se tornar o grande pilar conhecido como Hokage, e se tornou uma mancha. Uma Raiz enterrada no escuro, cujo único propósito era alimentar as milhares de folhas sorrindo alegremente na superfície. Um amálgama de toda a corrupção e maldade do mundo ninja. Um mal necessário.
Até às pequenas e comuns árvores projetam sombras, não seria diferente para a Grande árvore que era Konoha. Mas a sombra de Konoha era longa e profunda, como o abismo.
Ele se tornou essa profunda sombra...ele se tornou Shinobi no Yami. A escuridão do Mundo Ninja.
Um shinobi encapuzou surgiu ajoelhado.
—Danzou-sama, os preparativos estão feitos.
A expressão de Danzou permaneceu inalterada, mas ele conseguia sentir as centenas de olhos nas suas costas. Aqueles olhos...eram a escumalha retirada das profundezas do Purgatório, a prisão de segurança máxima de Konoha.
As regras eram simples. Para cada inimigo que cada um deles pudesse matar, um ano seria reduzido em suas sentenças. Isso para quem tivesse a sorte de sobreviver. Seus corpos estavam marcados com o selo do pentagrama carmesim. Quem desobedecer suas ordens, morre. Quem tentar fugir, morre. Quem tentar traí-los, morre. Quem desertar no meio do confronto, morre.
Suas vidas estavam em suas mãos. Ele era o deus deles.
Seu único olho visível estava escuro como breu enquanto ele jazia imponente diante daquele penhasco. Ele era uma Raiz, uma mancha fornecendo nutrientes para as folhas de Konoha, banhadas na luz do sol. Ele olhou para o longo exército da Vila da Pedra se aproximando na fronteira, uma multidão de rochas, e em seguida para as milhares de Raízes atrás de si, e com um sinal seu, eles mergulharam para o inferno.
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