Gênesis

63 Interlúdio III – O Monstro Sentado no Trono de Fogo (Dois)


Notas iniciais
Prometido é devido. 4000 palavras em um dia. Virei um monstro.

A expressão do velho conselheiro era solene enquanto seus olhos enrugados abriam o pergaminho. Quando ele terminou de ler, sua expressão era grave. Ele pigarreou.

—Milordes, em seguida irei relatar essa mensagem da Unidade das sombras sobre um acontecimento repentino em Konoha.

Houve um misto de emoções nos rostos dos nobres enquanto ele narrava o ataque repentino na única Vila Shinobi subordinada ao Trono de Fogo.

Quando o relatório terminou, todos olharam para a Imperatriz, com sua costumeira expressão indecifrável no rosto. Depois de longos segundos, ela finalmente perguntou.

—Os exércitos oficias das outras Nações atacaram?

O conselheiro balançou a cabeça.

—Não Sua Majestade, apenas as Vilas shinobis sob os comandos do País do Trovão, Vento e Terra atacaram. Ou seja, Kumogakure, Sunagakure, e Iwagakure.

A Imperatriz franziu ligeiramente o cenho, antes de fechar os olhos. Uma sensação de calor foi emanada do corpo da Imperatriz, como se uma brisa gentil de verão acariciasse seus corpos. Honoki ficou em choque. Aquilo era a Imperatriz espalhando sua consciência por todo o País do Fogo. Alguns segundos depois, ela voltou a abrir os olhos, enquanto a brisa de verão desaparecia.

—De fato. São apenas Shinobis. — A expressão no seu rosto pálido era imperturbável. — Então devemos respeitar o Tratado e não interferir.

Bachira estava prestes a dizer algo, sua expressão cheia de hesitação. Mas ele apenas suspirou, se lembrando dos registros da maior guerra que aquele continente já havia presenciado nos últimos mil anos.

Antigamente, todo o Continente estava unido em um único Império, até que algo aconteceu e o Império se fragmentou. Ninguém realmente sabia o que houve, mas o outrora grandioso Império se fragmentou em diversos pequenos Países. Os seus recursos e Territórios foram separados, com os Seis Generais mais poderosos do antigo Império aproveitando o Caos para formar as famílias Imperiais dos Seis maiores Países atuais.

Fogo, Trovão, Terra, Água, Vento e Ferro. E como esperado de pessoas poderosas, todos eles queriam mais.

Uma guerra violenta estourou, envolvendo todo continente nas chamas da Guerra. Exércitos de milhões marchavam uns contra os outros. As chamadas Guerras Ninjas empalideciam em comparação com a Violenta Guerra Imperial.

Milhões de cadáveres se amontoavam sob um sol moribundo, enquanto os corvos se banqueteavam. Florestas foram queimadas e terras foram salgadas. Haviam boatos que O País do Vento nem sempre havia sido um deserto. E que suas exuberantes florestas haviam sido incineradas em uma batalha entre o Tennou do País do Fogo e o Tennou do País do Vento.

As casualidades e o desperdício de recursos simplesmente não valeram a pena.

Então, os Seis Países fizeram um tratado, proibindo a mobilização de seus exércitos em territórios estrangeiros. Ao invés disso, todos os Países concordaram em resolver suas disputas de território e recursos contratando os clãs mercenários espalhados pelo continente. Os chamados ´´shinobis´´.

Aquele tratado deu início a chamada Era dos Estados Combatentes. Um período de mil anos em que clãs shinobis eram contratados pelos Países para guerras em pequenas escalas. Ainda haviam montanhas de cadáveres se acumulando, mas em comparação com antes, os danos eram muito mais reduzidos e controlados.

A Era dos Estados Combatentes finalmente terminou cerca de Cem anos atrás, com a ambição de Senju Hashirama e Uchiha Madara na chamada unificação dos clãs Shinobis incivilizados em chamadas ´´vilas ninjas´´, tudo em busca de uma tola paz.

Nenhuma das Cortes imperiais das Nações se importou, porque isso apenas significava mais mão de obras para seus interesses. Ao contrário da crença popular, Shinobis eram minorias nesse mundo. Os números dos shinobis, mesmo quando unidos em uma Vila Oculta, muito escassos e irrelevantes para prejudicar seu domínio sobre o continente. Mesmo nos dias de hoje, a população da chamada Vila mais forte, Konohagakure, mal superava cem mil habitantes, e o número de shinobis ativos era abaixo de Quinze mil. Comparando com a população dispersa em centenas de cidades no País do fogo, que beirava os Cinquenta de milhões, e seus exércitos oficiais com milhões de samurais, os Shinobis eram como uma gota no fundo do oceano.

Somente os shinobis que haviam atingido o nível S eram capazes de fazer algumas ondas, mas mesmo quando o fizessem, eram mínimas e irrelevantes aos olhos dos Nobres Celestiais.

Havia uma razão para as vilas ocultas existirem a pouco mais de cem anos, enquanto os países Elementais em si existiam por quase mil anos. Enquanto clãs shinobis eram constantemente apagados da história, os Nobres Celestiais sempre permaneceram no topo do mundo. Se eles fossem realmente tão frágeis, e os shinobis fossem o auge da existência, qualquer Shinobi aleatório de nível S ao longo da história supostamente deveria ter sido capaz de destruí-los e dominar o mundo.

Ao invés disso, os Shinobis se escondem nas sombras como insetos, tramando em silêncio, enquanto o Sol Divino dos Celestiais continua queimando por milhares de anos.

Mesmo Hashirama e Madara, em seus tolos sonhos de paz mundial, nunca se atreveram a pensar em unificar as Nações e Vilas em uma. Não é que eles não quisessem. Afinal, seria a melhor solução para o fim das guerras.

Eles simplesmente não tinham a capacidade de fazer tal coisa.

Assim nasceu Konohagakure no País do Fogo, Kumogakure no País do Trovão, Iwagakure no País da Terra, Sunagakure no País do Vento e Kirigakure no País da Água. O País do Ferro foi o único que rejeitou esse Sistema de vassalos Shinobis, e se tornou um País isolado dominado unicamente pelo Sistema de Samurais.

A distinção entre Shinobis e Samurais, era mais uma questão de código de conduta e modo de vida, do que de habilidades propriamente ditas. Afinal de contas, sejam Shinobis ou Samurais, todos eles manipulavam chakra para o combate. A diferença era que os shinobis viviam sob o chamado Nindou, ou Código Ninja, sendo principalmente sabotadores, espiões e assassinos dissimulados. Os Samurais, por outro lado, viviam sob o Bushidou, O caminho do guerreiro. Eram diferentes filosofias que se desenvolviam em diferentes modos de pensar e táticas de combate.

Para a Nação do Fogo, não era difícil oferecer pedaços irrelevantes nas Fronteiras do País do Fogo para que os Senjus e Uchihas construíssem a chamada Konohagakure. Mas ao contrário do que os Shinobis achavam, as Vilas Ocultas apenas aumentaram a escala das guerras, ao invés de pará-las.

Ao invés de minúsculos clãs ninjas batalhando uns contra os outros, as Nações agora resolviam suas disputas de recursos enviando suas Vilas Ocultas contra as Vilas Ocultas de outros Países. E a lei era clara entre as Nações, enquanto o confronto se restringisse entre shinobis contra Shinobis, os vastos exércitos Imperiais nunca deveriam interferir, arriscando uma guerra que devastasse o continente.

Bachira apenas assentiu, depois de finalmente ver os sentidos nas palavras da Imperatriz.

O homem sentado no lado esquerdo da Imperatriz finalmente abriu os olhos. Ele usava uma armadura samurai completamente vermelha. A pressão que ele emanava, só de estar sentado ali, era como um vulcão adormecido prestes a entrar em erupção. Uma flor de Quatro pétalas negras estava estampada na ombreira da sua armadura. Aquele símbolo o identificava como um dos maiores Generais do País do Fogo e a Quarta Espada da Corte Celestial do Fogo, Buzen Kaen.

Tirando o Xogum, e as Três Primeiras espadas, sua autoridade no País do Fogo era a maior militarmente.

Cada uma das Treze Espadas eram os maiores espadachins do País do Fogo, além de serem os Generais dos Treze Regimentos do Exército da Lótus Vermelha. Cada um deles tinha Centenas de Milhares de Soldados sob eles.

Buzen abriu sua boca. Sua voz, assim como seu rosto duro, era cheia de aço.

—Há Cem Anos, nós permitimos que esses selvagens incultos e bárbaros se estabelecessem no nosso Fértil País e formassem a Vila Oculta da Folha, contando que eles fossem úteis como a primeira linha de defesa contra as outras Nações. Em troca, nós os financiamos todos esses anos. São apenas Três Vilas os invadindo. Se eles não conseguem nem ser um escudo adequado... então que seja. Nossa Nação não precisa de escudos inúteis. Um escudo que não consegue suportar o calor do sol... merece virar cinzas.

Ninguém o cortou, embora o olhassem de soslaio. A antipatia e o preconceito do velho samurai pelos chamados shinobis não era novidade para ninguém no Conselho. A cicatriz em seu rosto era visível e todos sabiam sobre a história de quando ele era um jovem e talentoso samurai, e decidiu viajar para Konoha e enfrentar em um duelo o chamado Deus Shinobi. Depois de lutarem por quase um dia, ele finalmente perdeu. Mas a cicatriz em seu rosto ainda o deixava de mau humor, mesmo décadas depois da morte de Senju Hashirama.

A Imperatriz sentada no Trono parecia estar em pensamentos. Ela estava em silêncio por longos segundos. Ninguém se atreveu a falar.

—Então está decidido. Konohagakure está por conta própria. – Vendo alguns rostos hesitantes, ela continuou – Essa reunião está terminada.

Os membros do Conselho se levantaram, antes de se curvarem à Imperatriz no Trono. Seus olhos da cor do Sol observavam friamente enquanto a sala lentamente era esvaziada. Seus olhos pareceram se demorar no Ministro das Finanças, como se ela estivesse vendo através dele.

Quando a Sala do Conselho ficou finalmente vazia, apenas os assentos à sua esquerda e a sua direita ainda estavam ocupados.

Das sombras da Sala, uma mulher em um uniforme de empregada surgiu com uma cadeira de rodas. Ela estendeu a mão para a Imperatriz magra, ajudando seu corpo trêmulo e frágil a se sentar na cadeira.

—Vamos para os jardins. As paredes têm ouvidos.

A cadeira girou silenciosamente pelos opulentos corredores do palácio, enquanto o Conselheiro Bachira e o General Buzen andavam calmamente ao seu lado. O general olhou de soslaio para a mulher loira empurrando a cadeira de Rodas da Imperatriz. Ela vestia um impecável uniforme de Empregada Real. Sua expressão vazia e seu rosto comum a tornavam indistinguível aos olhos de muitos, mas as duas pétalas negras bordadas nas mangas do seu uniforme a marcavam como Kinshi, A Segunda Espada da Corte do Fogo, e a Protetora Real de Sua Majestade.

Quando eles finalmente chegaram aos jardins do Palácio, uma brisa fria cobriu seus corpos, enquanto o cheiro de grama verdejante e flores enchiam suas narinas.

A vista pacífica é quebrada pelo som de tosses violentas. Kinshi foi rápida em oferecer um lenço à Imperatriz, enquanto ela acariciava suas costas com uma camada de chakra verde na mão. Depois de Trinta Segundos, a Imperatriz finalmente parou de tossir, enquanto o lenço nas suas mãos estava coberto de sangue.

—Asahi-sama, você não deveria se esforçar tanto.

Diante da voz preocupada da sua empregada, ela apenas balançou a cabeça. Seu corpo pálido recuperou um pouco de cor.

—Estou bem. É apenas o frio.

Os dois velhos também mostraram expressões preocupadas.

—Majestade... Kinshi-dono está certa. Você não deveria se esforçar tanto. Afinal, você é a única razão pela qual o Nosso País ainda está em pé.

A Imperatriz não falou nada. Não confirmando e nem negando as palavras do Conselheiro Imperial. Ela soltou um pequeno suspiro.

—O que vocês acham da Invasão de Konoha?

Nenhum deles falou nada. Mas suas expressões faciais graves já diziam tudo o que ela precisava saber. A Tennou continuou.

—Isso mesmo...Realmente parece que os outros três Impérios...se uniram. –Suas sobrancelhas se juntaram – Eu não gosto disso. O Imperador covarde do País da Terra, a Imperatriz Lunática do País do Vento e por fim, o maldito Imperador Conspirador do País do trovão. O que no mundo faria esses três trabalharem juntos?

Ninguém a interrompeu. Para eles, que sempre estiveram em contato com as informações das Cortes Imperiais, sabiam que as relações entre os Seis Países eram hostis a maior parte do tempo. Nesses mil anos, não faltaram alianças entre os Países, mas sempre terminavam em traições. Então, vendo que não dois, mas três Países se uniram contra o País do Fogo, não era um bom sinal.

O País do Fogo, localizado na região mais fértil e rica do continente, sempre foi alvo dos Outros Países, mas eles sempre conseguiram se defender de qualquer ataque por serem o País mais forte. Só que dessa vez...enfrentando três Países... e três Imperadores Celestiais ao mesmo tempo... nem Asahi estava confiante que poderia vencer se enfrentasse aqueles três monstros.

Ela estreitou os olhos, enquanto pensava em algo. A relação com o País da Água sempre foi a menos hostil, por isso nos últimos anos ela tinha feito um esforço considerável em se aproximar do Tennou da Água.

Chegando a arriscar deixar seu próprio povo morrendo de fome, para que o fornecimento de vinho que os nobres daquele arquipélago tanto apreciavam continuasse. Não era à toa que Konohagakure conseguiu facilmente um acordo de aliança com Kirigakure. Agora, depois de tantos anos de planejamento, era hora de ela colher os benefícios. Ela olhou para sua empregada.

—Pergaminho e caneta.

Uma empregada Real sempre devia estar preparada para atender seu mestre, independentemente das circunstâncias. Kinshi tirou diferentes rolos de pergaminho dentro do seu avental e uma caneta, antes de se ajoelhar diante da cadeira de rodas.

A Imperatriz apoiou o pergaminho nas suas costas, e escreveu três diferentes cartas, antes de marcar o lacre com o selo pessoal do seu anel. Uma Fênix mergulhando no Sol.

—Bachira.

O Velho Conselheiro se aproximou, recebendo os três pergaminhos.

—Se certifique de enviar isso para o País da Água. Outra para o País da Cachoeira. E outra para o País da Fechadura. – O Conselheiro perspicaz logo percebeu que aqueles eram os Países que eles tinham melhor relações. A Imperatriz olhou para ele seriamente — A do País da Água deve ser entregue pessoalmente por você. Peça a Quinta Espada que o acompanhe pessoalmente. Essa mensagem deve ser entregue somente ao Tennou da Água. Ninguém mais. O resto deve ser entregue pela Unidade das Sombras. Parta imediatamente.

—Como você comanda, Majestade.

O Conselheiro se curvou, antes de desaparecer com passos rápidos.

A Tennou do Fogo se virou para o seu General.

—Quanto a você, pegue seu regimento militar e vá reforçar as nossas tropas no Leste, próximo à Costa e na Fronteira com o País das Fontes Termais. Ninguém sabe o que aquele Imperador obcecado por batalhas do País do Trovão vai fazer em um momento como esse. Não quero surpresas.

A Quarta Espada fez uma expressão hesitante no seu rosto envelhecido marcado por cicatrizes.

—Vossa Majestade, se me permite...não parece um exagero? Os shinobis estão sempre lutando uns contra os outros...envolver o Exército Imperial dessa forma...

—Você está me questionando?

Sendo encarado por aqueles olhos alaranjados. Era como olhar para dois sóis. Ele instintivamente desviou o olhar, evitando queimar suas retinas. Ele se ajoelhou.

—Não. Perdão por minha insolência. Eu farei como Vossa Majestade comanda.

Ele permaneceu de joelhos por um longo minuto, sentindo suas costas queimarem pelo olhar intenso da Imperatriz. Quando ele finalmente ouviu um fraco ´´suba´´, o velho general se curvou mais uma vez, antes de se afastar.

Ele se movia com passos lentos, mas cheios de propósito. Sua armadura vermelha nem chacoalhava.

Ela se acalmou olhando para um dos seus Generais se afastando. Com as Treze Espadas do seu lado, assim como seu exército, a Tennou do Fogo não temia nada naquele mundo.

Mas... de onda vinha aquela sensação de mau agouro...? De onde vinha aquele frio terrível, que congelava seus ossos? O céu estava escuro como breu, e a lua prateada parecia ter manchas de sangue na sua superfície.

Uma noite de Lua de Sangue. Seus olhos se estreitaram...poderia ser... Aquelas coisas?

Ela mordeu seu lábio. Sangue pingou no seu quimono prateado. Ela esperava que estivesse errada.

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Tori Masao estava sentado em silêncio quando sentiu sua carruagem parar. Alguns segundos depois, a porta da sua carruagem foi aberta por seu mordomo. O Ministro das Finanças ajeitou seu terno, antes de ordenar que seus subordinados ficassem na carruagem.

Ele olhou para a Rua onde ele estava. Lamparinas vermelhas cobriam a estreita rua, enquanto uma música estranha soava de um bar. Inúmeros estabelecimentos de aparência duvidosa enchiam essa rua, com fileiras de mulheres seminuas se espreguiçando nas entradas. Ele até teve o vislumbre de uma mulher seminua arrastando um homem bêbado para um beco escuro.

Era o Distrito da Luz Vermelha. E todas mulheres desfilando por aquela rua eram profissionais da mais antiga profissão do mundo. Mas considerando seu passado com uma madrasta que também trabalhava como uma mulher de prazer, aquele era o último lugar no mundo que Tori queria estar. Ele controlou seus impulsos e adentrou o estabelecimento diante dos seus olhos.

Uma luz vermelha assaltou seus sentidos, enquanto o cheiro enjoativo de um perfume barato o invadiu. Vendo seu terno chique, em menos de um segundo duas mulheres seminuas abraçaram seus braços.

—Então, bonitão, você quer se divertir com essa Onee-san?

Tori controlou a careta prestes a surgir no seu rosto, e envolveu a mão no pulso de uma das mulheres, perigosamente próxima da sua virilha. Ele colocou seu costumeiro sorriso gentil.

—Me desculpe. Vim ver a madame Neko.

Com a simples menção daquele nome, as expressões de ambas mudaram. Elas se afastaram dele como se ele tivesse uma doença. O que era muito engraçado, tendo em conta o trabalho que elas tinham.

Ambas tentaram se curvar, enquanto se desculpavam com ele. Mas Tori as parou com um aceno.

—Está tudo bem. Só preciso que me levem até ela.

As duas se entreolharam, como se estivessem indecisas, até que uma delas finalmente se disponibilizou a acompanhá-lo. Eles se moveram para a escada no canto do estabelecimento. Tori ignorou seu impulso de tirar seu terno e queimá-lo, enquanto eles navegavam através de uma horda de mulheres seminuas no corredor.

Quando eles finalmente subiram até o segundo andar, um corredor com portas em ambos os lados os recebeu. Enquanto eles se moviam até a porta ao final, sons de gemidos ecoavam nas portas fechadas em ambos os lados, e ocasionalmente, era possível ver pessoas mais ousadas fazendo atos indescritíveis com as portas abertas. A expressão de Tori quase se desmanchou, quando ele reconheceu um Oficial do Palácio, sendo chicoteado por um grupo de mulheres seminuas.

Aquele era um gosto...bastante peculiar.

A mege...quer dizer, a mulher o acompanhando o olhava de soslaio, procurando saber se ele tiraria o seu costumeiro sorriso do rosto. Ela não conseguiu, até que eles finalmente pararam na porta no final do corredor.

A mão dela tremia ligeiramente enquanto ela batia a porta. Quando eles ouviram um entre, a mulher se curvou, antes de desaparecer rapidamente. Tori apenas arqueou uma sobrancelha, antes de abrir a porta do quarto.

Ao invés de um quarto luxuoso com uma cama extravagante e uma menina seminua, o que o recebeu foi um escritório relativamente comum, com uma mulher sentada atrás de uma mesa e redigindo documentos.

Tão logo ele entrou, ela parou de escrever por um momento e gesticulou que ele se sentasse na cadeira diante da sua mesa. Tori se sentou, antes de cruzar as pernas, e passar a bater os seus dedos na borda da mesa.

—Porque você está aqui?

Ouvindo a pergunta dela, enquanto ela continuava escrevendo, Tori apenas continuou sorrindo.

—Assim me sinto triste. Você não está feliz em me ver?

Ela não mordeu a isca, e apenas continuou escrevendo.

—Eu achei que eu tinha sido clara. Nossa associação deve ser mantida em segredo. A menos que seja importante, não me procure.

Tori não se ofendeu. Ele já estava acostumado com suas palavras afiadas.

—E quem disse que eu não tenho nada importante?

Seus dedos continuaram se movendo no pergaminho que ela estava escrevendo.

—O que aconteceu? Você quer outra dose de Suspiro do duende? Quão alto no Palácio você quer subir? A morte do Velho Ministro das Finanças não foi o suficiente? Se tantos nobres morrerem, perguntas começarão a ser feitas. Meu mestre arriscou meu disfarce, tudo para que eu colocasse você em uma alta posição na Corte Imperial. Erros não serão tolerados.

A expressão no rosto de Tori finalmente quebrou, se lembrando da pessoa por detrás dessa simples dona de um bordel. Ele se lembrou daqueles olhos frios, quando ele fez um acordo com ele. Aqueles olhos... ofídicos como uma serpente. Era como fazer um acordo com o próprio demônio. Mas ele logo se recompôs, antes de suspirar.

—Não é isso. Assim como você previu, hoje a Imperatriz presidiu uma reunião.

A mulher finalmente parou de escrever. Ela pousou a caneta, e levantou os olhos. Com seus cabelos roxos, olhos cor de mel, e rosto esculpido e delicado, a dona do bordel, conhecida como Madama Neko, certamente era uma mulher bonita. Mas a expressão severa em seu rosto arruinava qualquer fagulha de atração.

—Você fez um relatório?

Ele sorriu novamente. Um pergaminho foi colocado sobre a mesa. Ela o desenrolou, antes de ler com uma velocidade assustadora.

—Bom. Você pode sair.

Era quase possível ver uma pitada de satisfação no seu rosto severo. Quase. Essa expressão quase se desmanchou, ao ver que Tori mal havia se movido de sua cadeira. Mas ao ver o seu sorriso dissimulado, ela logo percebeu o que ele queria. Ela suspirou.

—Só dessa vez. Use com cuidado.

—É claro. Tenha um bom dia.

O sorriso de Tori aumentou, enquanto ele recebia um frasco de veneno indetectável lacrado. Ele cantarolou enquanto saía do escritório.

Madame Neko fez um selo de mão, espalhando seu chakra pela pousada. Não sentindo nenhuma assinatura de chakra escondida nas proximidades, ela executou uma série de selos de mão. Uma pequena cobra de um olho só apareceu em suas mãos.

—Você sabe o que fazer.

Sua expressão era solene, enquanto ela entregava o pergaminho para a cobra. Ela engoliu o pergaminho, antes de desaparecer em uma nuvem de fumaça.

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No interior de Konohagakure, havia uma gigantesca floresta à Leste do Centro da Vila. Suas árvores altas e largas quase cobriam os céus, e seus troncos entrelaçados de folhas impediam que a luz cálida da lua banhasse a floresta, tornando a escura como se toda sua luz tivesse sido sugada.

Qualquer um que olhasse além da cerca que cobria o Campo de Treinamento Quarenta e Quatro, ou Floresta da Morte, vendo o véu negro que a cobria se sentiria como se estivesse olhando para a boca de uma fera feroz.

Bem no meio da Floresta, em uma clareira coberta por sombras, um jovem de cabelos grisalhos e óculos estava apoiado em um tronco de uma árvore, parecendo inconsciente de uma enorme serpente deslizando por ela.

Quando nada mais do que centímetros impediam a serpente de engolir o jovem, ele abriu os olhos. Sua postura era calma enquanto ele olhava para a serpente pelo que pareceram segundos.

Algumas respirações depois, a serpente abriu a sua enorme boca, mostrando uma pequena serpente branca no seu interior. A serpente branca deslizou até sua mão estendida, cuspindo um pergaminho lacrado.

—Bom menino.

O jovem acariciou ligeiramente a serpente branca, que fechou os olhos de contentamento, antes de desaparecer em uma nuvem de fumaça. A serpente gigante sibilou, antes de deslizar para longe.

Depois de ler o conteúdo do pergaminho, o jovem grisalho concentrou chakra nos seus pés, antes de saltar até o topo da árvore onde ele estava encostado.

Lá, havia duas figuras em mantos brancos olhando para o horizonte. A árvore era alta o suficiente para ver as chamas que cobriam Konoha como um quadro trágico. O jovem estendeu o pergaminho para uma das figuras encapuzadas.

Uma mão pálida e esguia, como um cadáver que não via o sol há mil anos, se esticou de dentro do manto e abriu o pergaminho. Depois de ler a mensagem, o pergaminho se desfez em cinzas.

O Homem encapuzado se virou. Seu manto branco e impecável tinha um símbolo preto e branco no peito, simbolizando o Ying-Yang. O vento soprou através das árvores, empurrando o capuz sobre o seu rosto para trás.

Seu rosto estava completamente coberto de ataduras, excepto seus olhos ofídicos e de um amarelo doente espreitando. Eles eram tão frios e predatórios quanto de uma serpente. Seu cabelo negro era curto e arrepiado, e mesmo com as ataduras, era possível ver que seus contornos faciais eram suaves e bem esculpidos.

O jovem estreitou os seus olhos. Seu mestre havia trocado de corpo novamente? Os olhos negros detrás das lentes analisaram o contorno do corpo coberto de mantos brancos, e os traços faciais por detrás das ataduras, antes que seus olhos se arregalassem. Aquele corpo era-

—Muito bem, Kabuto. Parece que os Nobres Celestiais não irão intervir. Assim como planejado.

A voz fria de seu mestre cortou seus pensamentos. O som era semelhante à uma serpente sussurrando nos seus ouvidos. Ele olhou para o seu mestre e a outra pessoa encapuzada, antes de se virar para a Vila em chamas.

Ele olhou para suas mãos. Chamas criadas por suas próprias mãos. Fechando os olhos, ele conseguia ouvir os gritos de dor e o sentir o cheiro de carne humana queimando.

Foi impossível ele não se lembrar da conversa que teve com Naruto no banquete. Aquele mundo era o Inferno. Então...Quando ele próprio se transformou em um dos demônios cujo objetivo era cobrir o mundo de chamas?

Kabuto inalou uma profunda lufada de ar, enquanto ajeitava seus óculos de forma inconsciente. Ele se virou para as duas pessoas o encarando com interesse. Ele quase podia sentir o sorriso surgindo nos lábios do seu mestre. Os olhos de Kabuto escureceram, como um peixe morto.

—Devemos começar?

Próximo: Interlúdio IV — Pilares de Sacrifício Humano (Hitobashira)

Notas finais
Comentários são bem vindos. Vocês não têm ideia do quão importantes são as vossas opiniões. Um abraço!